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domingo, 27 de setembro de 2026

São Vicente de Paulo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria


 Sacerdote e fundador dos lazaristas (1581–1660)


‘‘Não conseguir ver uma pessoa sofrer sem que se sofra com ela; vê-la chorar sem chorar com ela… É um ato do amor que faz compenetrar os corações um dentro do outro e sentir aquilo que o outro sente, bem diferente do agir dos homens que não experimentam sentimento algum ao ver o tormento dos aflitos e o sofrimento dos pobres. (…) Ser cristão e ver o próprio irmão sofrer sem sofrer com ele, sem estar doente com ele, significa não ter piedade, ser cristão apenas de nome’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud LUBICH, 1994, p. 92–93).

O carisma deste gigante da caridade é o amor concreto que enfrenta os problemas e os resolve, não por espírito de filantropia, mas porque vê em quem sofre o próprio Jesus que lhe repete : ‘Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber…’ (Mateus 25,31ss).

Vicente nasceu no dia 24 de abril do ano de 1581, perto de Pouy, na Gasconha, de uma família de pobres camponeses. Embora dotado de uma grande inteligência, até os 15 anos não fez outra coisa senão conduzir à pastagem as poucas ovelhas e os poucos porquinhos para ajudar a família a ir levando a vida.

Um advogado da região de Dax, impressionado com o talento do jovem, falou com os pais, dizendo-lhes que era um pecado não fazê-lo estudar e ofereceu-se para pagar-lhe as despesas. Uma providência inesperada e uma grande esperança para o futuro da família. Vicente, por sua vez, não esperava outra coisa e lançou-se sobre os livros com todo o empenho. Naqueles tempos e naquela região, estudar significava encaminhar-se para a carreira eclesiástica, na esperança de agarrar-se o mais rápido possível em uma boa renda. Vicente estudou durante três anos no colégio dos padres franciscanos de Dax; depois tornou-se clérigo e, com a ajuda de seu patrono e com a venda de um par de bois da parte do pai, inscreveu-se na universidade de Toulouse. Aos 19 anos, conseguiu fazer-se ordenar sacerdote pelo bispo de Périgueux e continuou os estudos até tornar-se bacharel em teologia. Esperava obter um bom ganho tornando-se pároco, mas não o conseguiu. No entretempo, perdeu o pai e, para ajudar a família, abriu uma escola particular sem grande sucesso; ao contrário, sobrecarregou-se de dívidas. Nesse período, inseriu-se a história, por ele mesmo narrada : enquanto viajava de Marseille a Narbonne, foi aprisionado por piratas turcos e foi vendido como escravo em Tunis, tornando-se servo de um frade que por amor ao dinheiro se fez muçulmano. Vicente o convenceu a voltar atrás e juntos fugiram em uma embarcação leve para a França. Em Avignon, o frade fez sua abjuração nas mãos do delegado pontifício, Pedro Montório, e os três partiram para Roma.

Na realidade, o bravo clérigo, segundo alguns, havia administrado de modo falimentar um pensionato que lhe foi confiado em Toulouse e havia fugido carregado de dívidas, dilapidando a herança de uma rica senhora e vendendo um cavalo que tomou como empréstimo. A comovente história africana, sempre de acordo com esta versão, servia para fazer-lhe perdoar os débitos e permitir-lhe, após ter ficado dois anos escondido, tentar um novo trabalho.

Como a carta em que Vicente narra essa aventura é autógrafa, outros historiadores autorizados consideram-na verdadeira. Certamente, até este momento, Vicente não era uma relíquia de santo e o demonstra o fato de que, após um ano de permanência em Roma, voltou a Paris em busca de fortuna.

Com efeito, conseguiu alistar-se entre os capelães da corte, porém com um estipêndio de fome, que apenas lhe permitia sobreviver sem poder ajudar sua pobre mãe, que se tornara viúva. Finalmente, em 1612, foi nomeado pároco nas proximidades de Paris.

Contava já com 31 anos de idade e, impressionado com a vida de oração de alguns de seus paroquianos, deixou de lado as preocupações materiais e de carreira, e começou a ensinar o catecismo, a visitar os doentes e a ajudar os pobres. O contato com a vida real reabriu-lhe o coração à oração e à meditação da palavra de Deus. Se os paroquianos foram seus primeiros mestres com sua vida, o instrumento de que a providência se serviu para operar nele uma profunda transformação foi Pedro de Bérulle que, o acolhendo em seu Oratório, o formou em uma profunda espiritualidade.

Estava dando os primeiros passos nesta nova vida, quando de Bérulle o aconselhou a aceitar o encargo de preceptor junto à família de Filipe Emanuel dei Gondi, general das galeras régias. Vicente aceitou e foram quatro anos difíceis, tendo de lutar duramente para perseverar em uma escolha de vida verdadeiramente evangélica. Abriam-se diante dele dois caminhos : o da carreira, com a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer seu pé-de-meia, e a do serviço aos pobres, com uma vida cada vez mais semelhante à do Mestre.

Vivendo no castelo de seus senhores, foi-lhe possível verificar com os próprios olhos que havia na França dois estilos de vida : o dos ricos, que gozavam neste mundo dos bens da terra e esperavam gozar no outro os bens celestes; e o dos pobres que, depois de uma vida infeliz neste vale de lágrimas, imaginavam encontrar interceptada também a porta do céu, devido à sua ignorância e aos vícios em que muitas vezes a miséria os afundava. A senhora Gondi também compartilhava as preocupações do seu capelão e ofereceu uma soma de dinheiro àqueles religiosos que, a cada cinco anos, quisessem pregar uma missão às massas camponesas de suas terras. Ninguém se apresentou e Vicente, assustado com uma tarefa tão desmedida, abandonou o castelo sem tampouco avisar os patrões.

Os oratorianos de Bérulle, que alimentavam uma grande confiança nesse padre inquieto, ofereceram-lhe a possibilidade de exercer o seu ministério em uma nova paróquia do campo em Châtillon-les-Dombes. Aí começou a revelar-se o carisma vicentino. Ele próprio gostava de contar este humilde começo.

Certo domingo, enquanto me vestia para celebrar a missa, vieram me dizer que em uma casa isolada das outras, a um quarto de légua de lá, estavam todos doentes, e em estado de necessidade indescritível. Fui com isso dolorosamente atingido e na pregação não deixei de recomendá-los com afeto… Depois das vésperas, tomei comigo um bom homem, burguês da cidade, e nos pusemos juntos a caminho para ir lá. Pela estrada, encontramos mulheres que nos ultrapassavam, outras que voltavam atrás… Havia tantas que me faziam pensar em uma procissão…. (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541) Vicente fez então esta consideração : ‘Hoje estes pobrezinhos terão mais que o necessário; dentro de alguns dias, estarão novamente em necessidade!’. O que fazer? ‘Eu propus’ – continua o santo – ‘a todas aquelas boas pessoas, que a caridade havia inspirado, que cada qual se encarregasse de um dia, para trabalhar pela vida também de quem isso viesse acontecer depois’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541).

A caridade organizada! Caridade, porque tudo deve partir daquele amor que faz ver em todo pobre a presença viva de Jesus; organizada, porque os cristãos são tais somente quando se moverem conscientes de formar um só corpo, como na primeira comunidade de Jerusalém. E se deu conta de que, para alcançar o escopo, não era preciso nem mesmo serem ricos, bastava serem frequentemente solidários.

Seu apelo foi imediatamente acolhido e surgiu o primeiro grupo de pessoas dispostas a servir os necessitados. Ele os chamou Caridade e deu às associadas o nome de ‘servas dos pobres’. Em três meses, a instituição possuía um regulamento próprio, aprovado pelo bispo, mas, acima de tudo, produzia seus frutos.

A senhora Gondi não se conformava com o fato de haver perdido seu capelão e conseguiu fazê-lo retornar às suas terras. Vicente aceitou, com uma condição : de poder morar não no castelo, mas no campo, e dedicar-se ao cuidado espiritual e material dos camponeses. As condições foram imediatamente aceitas e ele começou a fundar as Caridades em todas as aldeias, agregando a elas não somente mulheres, mas também homens. Era seu desejo que umas e outros trabalhassem juntos, mas devido à mentalidade do tempo não foi possível e somente as Caridades das mulheres permaneceram em ação.

Mais tarde, em 1833, sua ideia seria retomada por Emmanuel Bailly, em Paris, que, juntamente com Frederico Ozanam, faria florescer as Conferências de São Vicente de Paulo.

A miséria, porém, não habitava somente nos campos; tinha a sua sede também na capital e em todas as grandes cidades, onde muitas vezes mostrava uma feição ainda mais dolorosa. Em Paris, em 1629, as servas dos pobres receberam o nome de damas da caridade, permitindo assim que também as mulheres nobres tomassem parte sem provocar reações desproporcionadas em seu ambiente e permitindo à nobreza parisiense colocar à disposição do santo seus recursos materiais que, de outro modo, teriam sido consumidos nas vaidades. Entre as damas, havia personalidades de destaque, como Luísa Maria de Gonzaga, futura rainha da Polônia, e a duquesa de Aiguillon, sobrinha do cardeal Richelieu.

O apostolado de Vicente nas aldeias rurais obteve tal sucesso que outros sacerdotes se uniram a ele, compartilhando seu ideal de serviço aos pobres e, no final, se encontrou com um excelente grupo de missionários rurais. Não somente os senhores Gondi, que proviam a suas necessidades materiais, mas também o arcebispo de Paris deu o seu apoio. Em Paris, eles receberam uma casa, primeiramente no antigo colégio dos Bons-Enfants, na rua Saint Victor, e depois no priorado de São Lázaro. Daí o nome de lazaristas dado a esses missionários.

O grupo dos sacerdotes reunia-se em congregação religiosa sem votos, empenhava-se em não buscar dignidades eclesiásticas e a pregar somente nos campos e nas galeras. No verão, quando os camponeses estão ocupados nos trabalhos dos campos, os missionários dirigiam-se às paróquias da cidade para ensinar o catecismo. Em seguida, Vicente aceitou que seus lazaristas se dedicassem à formação dos sacerdotes, dirigindo seminários e aceitando também missões no exterior, como em Madagascar.

Com as missões dos lazaristas, refloresceu nos campos a vida cristã e muitas jovens, trabalhando nas Caridades, sentiam o chamado a consagrar-se inteiramente ao serviço de Cristo nos pobres. Vicente, sempre atento aos planos de Deus, confiou-as a uma mulher excepcional, Luísa de Marillac, que compartilhava plenamente seu ideal, para que as formasse. O povo chamou estas jovens ‘filhas da caridade’, e Vicente e Marillac não quiseram que se tornassem religiosas com o perigo de perderem o frescor de seu carisma porque, como havia acontecido com as visitandinas de são Francisco de Sales, teriam sido forçadas a fechar-se em um convento.

O santo dizia-lhes : ‘Vós tendes por mosteiro somente as casas dos doentes e a da superiora; por cela, um aposento de aluguel, por capela, a igreja paroquial, por claustro as ruas da cidade, por clausura a obediência… por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia!’ (SÃO VICENTE DE PAULO apud BIBLIOTHECA SANCTORUM, 1990, v. 12, p. 1160). Eram permitidos os votos, mas somente privados e anuais, para que todas desenvolvessem sua missão na mais plena liberdade e por puro amor.

O arcebispo de Paris acompanhava com simpatia a obra apostólica de Vicente e dos seus padres, e desejaria que todas as dioceses da França tivessem padres tão bem formados por doutrina e virtude. Começou por mandar os seus passarem quinze dias entre os lazaristas antes de serem ordenados. Em seguida, muitos retornavam para renovar-se no espírito e surgiram as Conferências da terça-feira. Todas as semanas, naquele dia, muitos sacerdotes se encontravam juntos em uma casa dos missionários e em comunhão fraterna renovavam sua vida à luz do evangelho.

A experiência começou a expandir-se como mancha de óleo e homens eminentes se consideraram honrados por poder tomar parte nela. Entre os primeiros, encontramos Olier, fundador dos sulpicianos, e Brandon e, em seguida, Bossuet e Rancé.

Richelieu, ao tomar conhecimento do espírito que animava esses padres, quis ter os nomes daqueles que ele pudesse promover a bispos. Também o rei pediu a mesma lista a Vicente e quando este foi chamado junto ao rei moribundo ouviu dizer-lhe que, se fosse curado, teria feito de modo que todos os bispos franceses passassem três anos de formação na casa dos lazaristas.

Dos padres aos seminaristas, a passagem foi rápida e muitas dioceses queriam que   seus futuros párocos fossem formados pelos lazaristas. Quando da morte do santo, já dirigiam doze seminários.

Se Vicente possuía um carisma para formar os padres e os futuros bispos, por que não chamá-lo a fazer parte do Conselho de Consciência, onde se decidia exatamente a nomeação dos bispos? A rainha Ana da Áustria impôs a sua escolha e a do príncipe de Condée de outros dois bispos, mas quem presidia o Conselho era o cardeal Mazarino, político requintado e sem escrúpulos.

Suas indicações e as de Vicente eram bem diferentes : o santo preocupava-se em fornecer nomes de ótimos pastores, ao passo que Mazarino queria homens ligados à sua linha política.

Vicente de Paulo não resistiu por muito tempo e sugeriu à rainha que afastasse o cardeal da corte, para o bem da França. Não o dissesse nunca! Quando Mazarino soube disso, agiu com toda a fúria, e a rainha, que comandava apenas por modo de falar, teve de dobrar-se a contragosto à vontade do cardeal e afastar Vicente para sempre do Conselho.

Se algo existia que estava em contradição com a espiritualidade vicentina era o jansenismo. O pensamento reformista de Cornélio Jansênio foi propagado na França por João du Vergier de Hauranne, conhecido como Saint-Ciran, que tinha sido colega e amigo de Vicente em Bérulle. Quando, porém, ele se opôs ao magistério da Igreja, Vicente dissociou-se formalmente e usou de seu prestígio junto aos bispos para impedir que eles o apoiassem.

Dizer o bem que este homem fez à França e à Igreja em geral é impossível. Não houve categoria de miseráveis que ele não socorresse. Falando dos galeotas, dos quais tornou-se capelão, dizia : ‘Quando elogiei sua resignação, quando compartilhei seus sofrimentos… quando beijei seus grilhões… então me ouviram’. A seu serviço, ele colocou seus missionários, as Damas e as Filhas da Caridade.

Ele se empenhou em resgatar os escravos cristãos das mãos dos turcos, levando para a França cerca de mil e duzentos.

Outra obra, fruto do seu amor, foi a de garantir uma casa para as crianças abandonadas. Segundo uma indicação dada pelo santo em 1657, suas obras davam assistência a cerca de trezentas e noventa e cinco crianças na cidade de Paris.

Durante a tremenda guerra dos Trinta Anos, que destruiu regiões inteiras, semeando por toda parte a fome, foram os seus filhos que levaram socorro onde quer que fosse preciso com os meios então disponíveis, organizando a Obra das Sopas. Em uma única paróquia distribuíam cerca de 5 mil refeições.

Diz-se que Vicente recebia uma quantidade extraordinária de meios para suas obras e administrava um balanço que superava o de sua terra natal, com a não pequena diferença que suas moedas eram todas aplicadas a serviço dos pobres e as do Estado serviam muitas vezes para satisfazer as ambições de quem nunca tinha experimentado a fome.

De onde, no entanto, hauria este homem tanta vitalidade para entusiasmar a si mesmo e a seus filhos e filhas? O segredo do seu carisma era a caridade concreta. Ele havia harmonizado em seu espírito a espiritualidade de Bérulle, a de são Francisco de Sales e a de santo Inácio de Loyola. Do primeiro havia assimilado acima de tudo o espírito de oração que o mantinha unido a Deus também em meio às ocupações materiais mais envolventes; do segundo, havia apreendido o humanismo cristão que lhe permitia levar a santidade para dentro do mundo civil sem necessidade dos muros protetores do convento; por meio do terceiro, havia concentrado a fidelidade à Igreja que o impulsionava a servi-la especialmente naqueles setores onde a presença dos cristãos era mais carente.

A nota característica da espiritualidade vicentina nós a encontramos expressa de maneira quase comovente nestas palavras do santo, extraídas das suas Cartas e Conferências :

O serviço dos pobres deve ser preferido a tudo. Não deve haver atrasos. Se na hora da oração tiverdes de levar um remédio ou um socorro a um pobre, ide tranquilamente. Oferecei a Deus a vossa ação, unindo a ela a intenção da oração.

Não vos deveis preocupar e acreditar que haveis falhado, se pelo serviço dos pobres haveis deixado a oração. Não é deixar Deus, quando se deixa Deus por Deus, ou seja, deixar uma obra de Deus para fazer uma outra. Se deixardes a oração para dar assistência a um pobre, sabei que fazer isto é servir a Deus. A caridade é superior a todas as regras, e tudo deve referir-se a ela. É uma grande senhora : é preciso fazer o que ela manda. Todos aqueles que amarem os pobres em vida, não terão temor algum da morte. Sirvamos, portanto, os pobres com renovado amor e procuremos os mais abandonados. Eles são os nossos senhores e patrões. (SÃO VICENTE DE PAULO, 1985, carta 2.546)

Vicente concluiu a sua viagem terrena na manhã do dia 27 de setembro de 1660, atraindo a seu funeral uma multidão imensa composta de personalidades influentes e pessoas humildes. O calor da sua caridade havia unido muitos membros das duas classes sociais tão distantes entre si, despertando em todos a consciência da dignidade comum de filhos de Deus. Diz-se, às vezes, que Vicente criou apenas ‘enfermarias para os pobres’, sem efetuar uma ‘mudança nas estruturas’. À parte o fato de que a história tem seus tempos sempre longos, sem estas ‘enfermarias’, milhões de pobres teriam desaparecido desta terra sem nunca sentir junto deles o calor de um coração humano e talvez as estruturas teriam se tornado ainda mais desumanas.

Vicente de Paulo foi declarado bem-aventurado em 1729 e santo em 1737.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-vicente-de-paulo.html


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Esperança: Âncora da Alma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Adelmo Sergio Gomes


‘A frase ‘A esperança não decepciona’ (Rm 5,5) é a essência da Esperança Teologal. É um dos pilares fundamentais da antropologia cristã. É diferente da esperança do mundo, que é incerta; a Esperança Teologal é uma virtude dada por Deus à alma do batizado, junto à fé e à Caridade. É uma posição ativa, confiante, consciente da misericórdia de Deus e do Seu amor infinito. A Esperança Teologal não é simplesmente otimismo, mas a âncora da alma (Hb 6,19) que penetra nosso espírito e nos faz seguir adiante.

O coração humano tem desejo de felicidade e perfeição, e isso só pode ser alcançado em Deus. A esperança é a virtude que direciona esse anseio para o único objetivo cristão : o Reino de Deus e a Vida Eterna. Os cristãos não fundamentam sua esperança nas coisas do mundo nem nas pessoas deste mundo, mas nas promessas de Cristo Jesus. A esperança do cristão não se fundamenta em seus próprios méritos, mas na promessa verdadeira de Cristo : ‘onde eu estiver, vós estejais também’ (Jo 14,3). A ressurreição de Cristo prenuncia a de todos os cristãos. Quem sustenta a Esperança dos cristãos é o Espírito Santo. Sem o auxílio do Espírito Santo, sozinho, o cristão fica à mercê do desânimo e do ceticismo.

A Caridade é como um alimento. Só a Caridade torna essas promessas desejáveis e nos dá força para caminhar em sua direção. A Esperança Cristã é a certeza da vitória final de Deus sobre o pecado e a morte.

Vivemos numa era de incertezas, ansiedade, grandes mudanças e crises múltiplas — como a ambiental, a social e a existencial. Esperar em Deus não é uma fuga do mundo, mas um modo transformador de ver a realidade. As notícias negativas, as injustiças e os fracassos podem nos levar a um alto nível de ansiedade ou desespero, ou ainda ao cinismo. Pensa-se, às vezes, que não adianta nada, que nada é verdadeiro, que nada tem sentido.

A Esperança nos lembra que a história da humanidade sempre esteve nas mãos de Deus e que Ele dará a ela um final glorioso. Mesmo quando não vemos saída, é preciso confiar em Deus, que levará tudo a bom termo. Isso não quer dizer que devemos ser passivos — nada disso. Devemos ser serenos na ação, porque o resultado final não depende de nós, mas da graça de Deus.

Muitos de nós são extremamente ansiosos e imediatistas. Devemos suscitar a cultura da paciência, não do ‘agora’, que nos traz profunda ansiedade e adoecimento. A Esperança é paciente e perseverante. O Reino de Deus está entre o ‘para já’ (já foi inaugurado por Jesus) e o ‘ainda não’ (o Reino em plenitude). Devemos nos libertar da escravidão do urgente, para que possamos trabalhar com constância, certos de que ‘aquele que começou a boa obra em vós há de levá-la à perfeição até o Dia de Cristo Jesus’ (Fl 1,6).

O relativismo e o materialismo podem nos levar a uma sensação de que nada faz sentido. É o vazio interior que nos pergunta : ‘Para que vivemos? O que vem depois?’ A Esperança dá sentido à nossa existência. Ela nos lembra que a vida é uma peregrinação em direção ao Céu, e não ao vazio. O sofrimento oferecido, os atos de amor e os gestos de fé ganham um valor eterno e enchem a vida cotidiana de significado — que transborda e transcende.

A Esperança não decepciona porque brota do coração de Cristo Crucificado, que se entregou à morte para nos salvar. Nestes tempos, a Esperança é um ato de resistência espiritual e coragem de crer na luz que vence as trevas — de crer que a transformação vem de dentro para fora, que a última palavra não é do mundo, mas do Amor, de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/esperanca-ancora-da-alma.html

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A caridade que transforma

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Valadas,

presidente da Cáritas portuguesa 


‘Escreve o Papa Francisco : «A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia : sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão» (Mensagem para a Quaresma 2021).

A Rede Cáritas em Portugal tem vindo a consolidar um lema que quase usa como assinatura : Cáritas, o Amor que transforma. A Rede Internacional usa o Together we [Juntos é o lema da campanha mundial 2021-2024, um convite a que todos desempenhemos um papel ativo no cuidado da nossa Casa Comum e dos pobres, para tornar o nosso planeta um lugar melhor e mais saudável para as gerações atuais e futuras]. É uma forma de identificar em poucas palavras o pulsar da rede. Assumir que a caridade é uma das nossas forças, a ferramenta no agir e o exemplo na ação.

É olhar para a caridade como uma cultura estratégica e um processo de inspiração nos desafios do cuidar de problemas sociais cada vez mais complexos.

É procurar encontrar formas de autonomizar, inserir, inovar, incluir muito para lá do apoio pontual ou ocasional que «desatormenta», mas não cura.

É considerar que em comunidade todos podemos ser recurso e solução. Ninguém se salva sozinho, não há uma só receita e todos podemos ter o trunfo certo.

Quando jogava às escondidas, lembro-me de que o último podia salvar todos… Às vezes o mais pequenino chegava à partida e dizia : «(X) salva todos».  Já então era o «todos, todos, todos e cada um» que nos dias da Jornada Mundial da Juventude tanto nos inspiraram.

A comunhão fraterna que não quer deixar ninguém de fora tem de usar a caridade com todos os dons, vantagens e tesouros que temos, quer seja uma causa humanitária, uma campanha de emergência ou uma estratégia, iniciativa, missão ou ação para mudar as vidas dos mais vulneráveis, cuidar da Casa Comum ou confortar quem sofre.

A caridade não é uma ferramenta frágil, é um trunfo, que unido a uma escuta ativa, uma vigilância permanente e aos recursos de que dispusermos pode transformar vidas. Como refere o Papa Francisco, «a partir do ‘amor social’, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos» (Fratelli Tutti, 183).

Nos dias que correm, desvaloriza-se muito o sentido da caridade, mas na verdade é a caridade que salva. A caridade não desiste mesmo com a escassez e todas as tormentas. Se não conseguimos a solução ideal, tentaremos construir uma que nos permita o princípio do caminho para uma solução.

Cáritas é o amor que transforma. Como Francisco tem pedido incessantemente : «Não tenham medo.» Vamos lá então!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1005/a-caridade-que-transforma/

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Missionárias no Quênia: testemunhas proféticas de uma nova maneira de viver e agir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O refeitório da escola gerida pelas Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade na missão de Laare, no Quênia  

*Artigo da Secretaria de Comunicação Orionina


‘Gostaríamos de abrir esta janela sobre a nossa Congregação, Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade, citando as palavras do nosso fundador, que no início do século passado, ainda antes da primeira guerra mundial, enquanto redigia as Constituições das suas primeiras consagradas, convidava-as a servir o Homem para o desenvolvimento integral do Homem, com uma atenção preferencial aos últimos, aos mais pobres, às pessoas em maior dificuldade.

«O seu objetivo particular e especial é o exercício da caridade para com... os pequenos filhos do povo e os pobres mais afastados de Deus ou mais abandonados...» (São Luís Orione, Constituições psmc, n. 3).

Congregação ‘samaritana’

Desde 29 de junho de 1915, data de fundação da Congregação, foram feitos enormes progressos, sobretudo em certas realidades, mas a natureza essencial deste objetivo não mudou : desde então e ainda hoje, exprime-se em espírito de acolhimento e de família na simplicidade, na assistência e — hoje cada vez mais — na competência profissional.

Esta atitude foi também reiterada no tema do 13º Capítulo geral do Instituto, realizado em maio de 2023 : «Para ser uma ‘Congregação samaritana’ através do testemunho profético de um novo modo de fazer, agir e viver».

No Quênia, apoiando os mais pobres

É nesta chave que queremos narrar a experiência da missão de Laare, no Quénia. Esta missão é a comunidade mais jovem das que foram abertas pelas religiosas nesse país, a menor e a mais afastada da capital. O seu objetivo é apoiar as necessidades da população local, os mais pobres, as crianças e as pessoas com deficiência. Atualmente só ela consegue sustentar de modo financeiro toda a Delegação Mãe da Divina Providência.

Além da lógica da manutenção

No entanto, em agosto de 2008, as religiosas abriram a missão com pouquíssimos recursos, muita boa vontade e uma confiança infinita na Divina Providência. Com o tempo, estas ‘obras de Deus’ tornaram-se cada vez mais ‘poderosas’ e, com uma lógica operacional muito exata, as religiosas missionárias conseguiram torná-las economicamente independentes, interrompendo a superada lógica da ‘manutenção’, com a finalidade de garantir a continuidade das obras sanitárias, educativas e pastorais, até no caso em que os benfeitores fossem obrigados a interromper o próprio apoio.

‘O que ainda se pode e se deve salvar para reconduzir a Deus a nossa sociedade transtornada são os jovens. Eles são a sociedade do futuro : o sol ou a tempestade do futuro. As mais belas esperanças da Igreja e do mundo. Salvemos os jovens! (São Luís Orione, 1912).’

Em termos de apoio financeiro externo, por exemplo, agora a missão de Laare pode ajudar diariamente mais de 1.600 crianças e famílias.

As religiosas gerem também uma escola primária e secundária, que oferece acesso à educação às crianças. Entre as estruturas educativas iniciadas, há também um jardim da infância, útil para acolher as crianças mais pequeninas e combater a subalimentação desde o início da vida.

A nível pastoral, as irmãs colaboram com a comunidade paroquial local para aproximar as crianças e os jovens dos valores cristãos, da fraternidade universal e dos sacramentos, envolvendo-os na vida da Igreja.

Incidir na cultura para restituir dignidade

Existe também um centro diurno para crianças com deficiência, para prestar ajuda e assistência aos mais frágeis e desprezados da sociedade e melhorar a sua qualidade de vida. A este respeito, as irmãs tiveram um impacto profundo na cultura e na mentalidade africana, vítima da antiga herança segundo a qual a deficiência física é motivo de escândalo e marginalização, que tira toda a dignidade humana aos deficientes.

Audazes para dar um futuro

Mas as religiosas também foram audazes a nível concreto. Ao longo do tempo, abriram uma alfaiataria que não só emprega mulheres locais, como também confecciona uniformes escolares e peças de paramentos litúrgicos, cujo rendimento é o sustento desta e de outras atividades da Delegação. Com a mesma finalidade, a população local foi formada para trabalhos agrícolas, o cuidado da quinta, dos campos e do gado. Entre elas, prevalece a criação de camelos, utilizados para a venda de leite e para a produção de sabonetes naturais.

Acreditamos firmemente que o segredo do sucesso é viver da caridade, servir os mais pobres com autenticidade, esquecendo-nos de nós mesmas, permanecendo abertas a outras culturas. Por isso, ativamos também uma promissora rede de voluntariado missionário, constituída sobretudo por jovens que passam tempo na missão, provenientes de todos os continentes, mas sobretudo da Itália e da Polonia.

Os jovens : sal da terra

Acreditamos que os jovens são o sal da terra e queremos acompanhá-los nesta maravilhosa experiência de voluntariado missionário. Em Laare, os jovens redescobrem a alegria de fazer parte da Igreja. Todos os anos, mais de 100 voluntários de todo o mundo vêm aqui para experimentar a autenticidade do serviço à população africana.

Em Laare, experimentamos a alegria de partilhar sobretudo com os pobres, mas também com a jovem comunidade local e com os jovens voluntários provenientes do resto do mundo, para abrir o nosso coração e dar testemunho recíproco do Amor e, assim, do ‘poder’ de Deus!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-08/projeto-sisters-pequenas-irmas-missionarias-caridade-pime-africa.html

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Quatro grande vantagens para quem possui a caridade

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Angelo Bellon, OP


‘Questão

Caro Padre Angelo, São Tomás de Aquino fala da caridade somente na Suma Teológica?

Obrigado

Resposta do sacerdote

Caro,

Sim, e ele fala também em outros lugares, como por exemplo no terceiro livro do Comentário às Sentenças de Pietro Lombardo. Mas eu quero relembrar também uma breve apresentação dos efeitos e das vantagens da caridade, que São Tomás escreveu.

Comentando os dois preceitos da caridade (amar a Deus e ao próximo), ele enumera quatro efeitos desta virtude, que a tornam muito agradável, aos quais acrescenta outros cinco. Exponho a síntese dos primeiros quatro (São Tomás, In duo praecepta caritatis et in decem legis praecepta expositio, nn. 1139-1154).

1. Infunde no homem a vida espiritual (causat in eo spiritualem vitam)

É manifesto que o amado vive naturalmente no coração daquele que o ama. E por isso quem ama a Deus o possui dentro de si (qui diligit Deum, ipsum habet in se) : ‘quem permanece na caridade, permanece em Deus, e Deus nele’ (1Jo 4,16). 

Por seu dinamismo natural, o amor transforma o amante no amado; por isso, se amamos coisas sem valor e passageiras, tornamo-nos também nós sem valor e efêmeros, como diz o profeta Oseias : ‘tornaram-se abomináveis como aquilo que amaram’ (Os 9, 10). Se amamos a Deus, tornamo-nos divinos, porque ‘quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito’ (1Cor 6,17). 

Mas como diz Santo Agostinho, ‘como a alma é a vida do corpo, assim Deus é a vida da alma’ (Confissões, X,1). E isto é obvio. De fato, digamos que o corpo vive graças à alma quando possui as atividades próprias da vida, aquilo que age e se move. Se a alma vai embora, o corpo não age e não se move mais. E assim, também a alma age virtuosae e perfeitamente quando age movida pela caridade, por meio da qual Deus habita nela. Sem caridade, porém, não age. De fato ‘quem não ama, permanece na morte’ (1Jo 3,14). 

Deve-se considerar também que se uma pessoa tem todos os dons carismáticos do Espírito Santo, mas não tem a caridade, não tem a vida. O carisma das línguas, da fé e também qualquer outro carisma, sem a caridade, não comunica a vida. Um cadáver, se revestido de ouro e de pedras preciosas, permanece igualmente um cadáver. Isto é, portanto, o primeiro efeito do amor.

2. A caridade nos faz observar os mandamentos

São Gregório diz que ‘o amor de Deus nunca se encontra no ocioso; porque existe, faz coisas grandiosas. Se se recusasse a agir, não seria amor’. Ou seja, sinal evidente da caridade é a prontidão no observar os mandamentos divinos. Nós vemos, de fato, que o amante é capaz de coisas grandes e difíceis pelo amado : ‘se alguém me ama, guarda a minha palavra’ (Jo 14,23).

Gosto de lembrar que João Paulo II, na Encíclica Veritatis Splendor, parece se referir a este pensamento de São Tomás quando escreve : ‘Quem vive «segundo a carne» sente a lei de Deus como um peso, mais, como uma negação ou, pelo menos, uma restrição da própria liberdade. Ao contrário, quem é animado pelo amor e «caminha segundo o Espírito» (Gál 5, 16) e deseja servir os outros, encontra na lei de Deus o caminho fundamental e necessário para praticar o amor, livremente escolhido e vivido’ (VS, 18).

3. A caridade é baluarte (praesidium) contra a adversidade

Quando uma pessoa possui a caridade, nenhum infortúnio ou dificuldade a prejudica, mas volta ao seu favor : isso porque ‘todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus’ (Rm 8, 28). Contrariedade e dificuldade parecem suaves a quem ama, como atesta a experiência. 

4. A caridade conduz à felicidade

Somente a quem possui a caridade é prometida a bênção eterna. Sem a caridade, de fato, tudo é insuficiente : ‘resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição’ (2Tm 4,8).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2014/09/04/quatro-grande-vantagens-para-quem-possui-a-caridade/

domingo, 26 de dezembro de 2021

O grande ausente dos tempos modernos: o silêncio

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Ana Lydia Sawaya 

 

‘O mundo de hoje precisa reaprender o silêncio. O silêncio que se experimenta quando se vive no campo e se observa a natureza, o céu, a lua, as estrelas, o rio, as árvores e o seu burburinho, o vento que assobia – o silêncio eloquente que fala com uma voz suave. Esse silêncio preenche, não é vazio. Restaura, endireita, reordena a vida e o instante em que se vive. 

No constante barulho da cidade, na correria da vida cheia de preocupações e afazeres, as pessoas se desumanizam, se esvaziam e se perdem. Não são mais si mesmas, não sabem mais quem são; tornam-se como bolhas vazias – ocupam espaço, mas são ocas por dentro e estouram facilmente. 

Perde-se o rosto e perde-se a si mesmo. A incrementar esse vazio está o uso excessivo das mídias digitais. São estas que estão na base da diminuição do Q.I. e da inteligência das crianças como têm mostrado vários estudos. Estar sempre ligado ao celular, ao computador ou à tevê contribui para um esvaziamento ainda maior. As crianças e os adolescentes se tornam assim, presas fáceis da sociedade de consumo, insatisfeitas, inseguras e violentas. 

Tudo isso é consequência da falta de silêncio. O que é o silêncio? O silêncio é uma suspensão do falar, uma interrupção dos afazeres e do barulho, do contato direto com as pessoas, para viver um momento em que se entra em si, um tempo para conversar com Deus. Este silêncio pode dar medo, mas é só no começo. Se mergulharmos nele, conseguiremos ouvir a voz de Deus (Dt 6,4-7) : ‘Escuta Israel, o Senhor é o nosso Deus. Lembre-se Dele e fale Dele para os seus filhos, quando comeres e quando dormires, quando caminhares pela rua, quando te deitares e quando te levantares’. 

Os momentos de silêncio servem para escutar Deus que nos fala por meio do que está acontecendo fora e dentro de nós. O Espírito de Deus age sempre e é o único que nos pode dar o sentido das coisas e dos eventos. Só a partir do silêncio saberemos o que é justo pensar e como agir. A sabedoria nasce só em quem habita no silêncio. É da experiência do silêncio que nasce a palavra. A palavra se nutre do silêncio, precisa do silêncio. Disse alguém : como a mais luminosa das estrelas tem necessidade da noite para iluminar, a palavra tem necessidade do silêncio para iluminar. 

O silêncio é deixar o espaço ao Outro e ao outro. É fazer o outro ser. É a origem da caridade. O silêncio é aquilo que permite a nudez e a transparência das coisas. É necessário habitar o silêncio para poder gerar e criar ambientes de vida. É o silêncio que impede que a vida seja gasta só com coisas a fazer. É o silêncio que nos ensina a esperança e nos permite viver numa dimensão de excedência e de abundância. Só quem habita o silêncio experimenta a plenitude da vida. E habitar o silêncio significa voltar sempre a ele como à nossa casa.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/12/20/o-grande-ausente-dos-tempos-modernos-o-silencio/#

sábado, 18 de dezembro de 2021

Deus não é indiferente

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Capa da obra 'A Peste', de Albert Camus

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante

 

‘Há algumas semanas, falamos sobre o primeiro sermão do padre Paneloux, na obra A Peste de Albert Camus. Neste texto, pretendo falar sobre o segundo sermão desse padre. Tal sermão é marcado pelo presenciar de Paneloux da morte de uma criança que foi acometida pela peste. Esse fato é o motivador da mudança de tom e perspectiva do padre jesuíta.

Em seu segundo sermão, alguns pontos se mostram bastante contrastante em relação ao anterior. Em primeiro lugar, o vós é substituído pelo nós. Essa simples mudança pronominal revela também uma mudança de atitude frente aos seus concidadãos. Ao dizer o nós, o padre se coloca também como alguém que é sofredor e responsável junto com sua comunidade. O trecho abaixo deixa isso claro :

Meus irmãos, é preciso sermos aquele que fica (...) Meus irmãos, disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar, o amor de Deus é um amor difícil. Ele supõe o abandono total de si mesmo e o desdém da sua pessoa. Mas só Ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças, só Ele, em todo o caso, pode torná-los necessários, pois é impossível compreendê-los, e não podemos senão desejá-los. Eis a difícil lição que queria compartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus, de que é preciso aproximarmo-nos. Perante esta imagem terrível, é preciso que nos igualemos. Neste cume, tudo se confundirá e se igualará, a verdade brotará da injustiça aparente (CAMUS, s/d, p. 246,248).

No segundo sermão é possível perceber a marca da caridade. Enquanto no primeiro havia a necessidade de explicação da peste e saber dizer sua causa e seus motivos, nesse, a postura é mais serena frente a ela. Paneloux tem claro que algumas coisas são inexplicáveis aos olhos de Deus, como a morte de uma criança. Nesse momento, questiona sobre a compensação eterna frente ao sofrimento momentâneo desse menino que sofre e morre. Chega a dizer que um cristão não diria um discurso assim para o menino que está a morrer, uma vez que o Mestre sofreu na carne e na alma a angústia e a dor humanas, sacrificando tudo no maior dos martírios de seu tempo.

Em certo momento de seu sermão, Paneloux interroga aos seus ouvintes : ‘Meus irmãos, a hora chegou. É necessário crer em tudo ou negar tudo. E quem, entre nós, ousaria negar tudo?’ (CAMUS, s/d, p. 216).

Paneloux lança o grande desafio, que é também o desafio do evangelho, do salto de fé. Esse salto, que exige o lançar-se inteiramente, em total entrega em resposta à radicalidade do amor de Deus, mesmo sem compreender quais são seus planos. Esse aceitar tudo, porém não em simples fatalismo, porém como fatalismo ativo, implicaria ver qualquer indiferença como criminosa.

Agora, a conclamação é à responsabilidade pelo outro, como fruto do entregar-se totalmente a Deus, aceitando tudo em oposição ao negar tudo. No primeiro sermão, percebemos que a condenação vinha porque o Deus apresentado por Paneloux não aceitava ser ignorado e se sentia amado recebendo a visita de seu povo. Dessa forma, não aceitava a indiferença, antes essa era a causa de sua condenação por meio da peste, ou seja, havia a exigência da reciprocidade : porque eu amo, você não pode ser indiferente a esse amor. Se o for, não posso aceitar e não tenho outra escolha a não ser condená-lo a fim de que se arrependa.

No segundo, porém, é o lançar-se diante do inexplicável de Deus, do seu amor infinito, em ato de fé, que gera em nós a atitude de não ser indiferente, uma vez que Deus é sempre amor e nunca indiferente.

Ao nos assemelhamos àquele a quem amamos, ficar e se importar se torna a escolha radical frente ao mal do mundo. É o ver de longe que nos fala Hebreus 11, contemplando com os olhos da fé, que nos faz ‘caminhar para frente, na sombra, um pouco às cegas, e tentar fazer o bem. Quanto ao resto, necessário esperar, entregando-nos a Deus, aceitar a morte das crianças, não buscar refúgio’ (CAMUS, s/d, p. 216).’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1555510/2021/12/deus-nao-e-indiferente/

terça-feira, 25 de maio de 2021

Fé, Esperança e Caridade: a bela história das 3 filhas de Santa Sofia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Alienor Goudet


‘Não houve adversários mais cruéis para os cristãos do que aqueles dos primeiros séculos. Naquela época, as terras do Império Romano eram mais regadas com sangue do que com água. Quem se dedicava a Cristo corria o risco de sofrer e morrer. Mas nesta escuridão, o brilho da fé de Santa Sofia e de suas filhas (Fé, Esperança e Caridade) se destacou.

No ano de 137, quando os cristãos de Roma fugiam dos soldados do imperador, um boato se espalhou pela cidade. Uma viúva de Milão passava seus dias nas áreas pobres da cidade cuidando mais necessitados.

Com a ajuda de suas três filhas, a viúva chamada Sofia alimentava, cuidava dos pobres e os confortava. Sua gentileza a tornou apreciada por todos. O mesmo vale para suas filhas, tão generosas e prestativas quanto a mãe.

Mas dizem que, ao cair da noite, Sofia fugia para as prisões da cidade. Ela comprava os guardas e visitava os prisioneiros cristãos. Ela orava com eles e os abençoava, lembrando-os da promessa do reino vindouro.

Muitos cristãos passavam por sua provação com os corações iluminados pelas palavras de Sofia. Tão virtuosas quanto ela, Pistis (Fé), Elipis (Esperança) e Agape (Caridade) sempre a seguiam. Mas Sofia e suas filhas sabiam que não poderiam ser fiéis a Cristo fugindo para sempre.

A lenda do martírio

Elas serviam incessantemente a seus irmãos. A chama da fé cristã era reacesa a cada uma de suas orações. Roma não podia ignorar este fogo brilhante que aquecia o coração dos cristãos. Mas Sofia e suas filhas foram presas e levadas à justiça perante o próprio Imperador Adriano. Entretanto diante da beleza e da simplicidade das rés, os juízes ficaram transtornados. Elas seriam, então, soltas sem punição se renunciassem a Cristo. Sem medo, Sofia respondeu que não iria trair o filho de Deus.

O martírio de Fé, Esperança e Caridade

As três meninas foram questionadas separadamente, a fim de usar sua juventude. À Fé, a mais velha, de 12 anos, ofereceram-se belos presentes. Mas ela os rejeitou com desdém. Um carrasco a chicoteou e depois cortou seus seios, antes de mergulhá-la em óleo fervente. Mas a pureza de sua alma não deixou que nenhuma dor a afetasse.

Os torturadores fizeram as mesmas promessas à Esperança, de 10 anos, e a ameaçaram com o destino de sua irmã. Sem hesitar, ela escolheu seguir a irmã mais velha. Ela também não sentiu as chamas queimando-a ou os ganchos rasgando sua carne. 

Caridade, a mais nova, de 9 anos, foi decapitada.

O coração de Sofia, que assistiu a tudo, se dividiu entre a dor de uma mãe que perdeu suas filhas e a alegria de saber que elas estavam perto de Cristo. Porque elas não desistiram de sua pureza. Por crueldade, ela foi autorizada a enterrar os restos mortais de suas filhas, mas foi morta no mesmo local do enterro.

Uma devoção tenaz ao longo dos séculos

 A história confirma a existência e o martírio das quatro santas, mas os detalhes deste último são difíceis de verificar. A lenda da tortura testemunha da mesma forma o impacto que essas santas tiveram sobre a população cristã da época. Essa devoção era particularmente notável em Bizâncio e no mundo eslavo.

Os nomes das quatro santas também fornecem uma boa metáfora. A sabedoria gera e guia a fé, a esperança e a caridade, as três virtudes teologais que todo cristão deve seguir e aplicar.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/05/25/fe-esperanca-e-caridade-a-bela-historia-das-3-filhas-de-santa-sofia/