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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Papa Leão: Os pobres ao centro

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre Fernando Domingues,

Missionário Comboniano


‘Pouco depois de ter sido eleito como sucessor do Papa Francisco, Leão XIV publicou o primeiro texto oficial do seu pontificado, com o título Eu te amei (Dilexi te). Fica assim claro que o programa do novo papa é continuar com toda a Igreja o caminho que estávamos a fazer com o Papa Francisco : olhar para o amor divino e humano do Coração de Jesus para encontrar aí a força e a alegria que nos leva a amar os outros. E não se trata de um «amor genérico», ou um simples sentimento que nos dá a ilusão de estarmos com Deus. Já Francisco dizia que o amor do Coração de Cristo sempre nos leva ao encontro daqueles que eram os amigos preferidos de Jesus, os pobres, os últimos.

Leão XIV, um bispo habituado a ver a sua vida como um serviço à Igreja, já nos muitos anos de vida missionária no Peru, em contacto direto com a gente simples e pobre da sua diocese, e também nos poucos anos em que ele tinha começado a colaborar com o Papa Francisco, em Roma, não admira que ele continue a ver também a sua missão como papa como um novo serviço à mesma Igreja.

Podemos bem dizer que em Roma, chega um novo papa, mas é o mesmo serviço que continua. E assim Leão escreve, logo ao início desta exortação apostólica, que deseja simplesmente continuar o trabalho e a reflexão que Francisco já tinha começado. E diz mesmo que uma boa parte deste documento já tinha sido preparado pelo seu antecessor. É o mesmo serviço que continua, com um servidor novo.

A intenção do Papa Leão, com este novo documento, é, como ele mesmo diz, contribuir para que «todos os cristãos possam perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres» (Amei-te, 3).

Os seus vinte anos de serviço missionário entre a gente simples do Peru, na América do Sul, levaram-no a compreender que o amor cristão não pode ser vivido com autenticidade só no pequeno círculo onde nos sentimos confortáveis. Se é verdadeiro em nós o amor do Coração de Cristo, ele move-nos sempre ao encontro dos mais necessitados. E se já pertencemos a essa parte da Humanidade que precisa de lutar todos os dias para sobreviver, diremos como diziam os meus paroquianos no Quênia : somos cristãos, precisamos de ajudar os que são ainda mais pobres do que nós.

O amor que vem do Coração de Jesus nunca nos deixa quietos no nosso conforto, move-nos sempre ao encontro de quem mais precisa. E isto não como uma obrigação que nos é imposta, mas como uma necessidade que nasce do próprio amor que vivemos. Viveríamos frustrados se o amor de Deus em nós não transbordasse também para muitos outros.

Francisco ajudou-nos a ver como o Coração de Jesus é a fonte de onde jorra o amor que enche de sentido e de alegria o nosso viver. O Papa Leão vem agora guiar-nos no caminho que do Coração de Cristo nos conduz ao encontro dos mais pobres da nossa sociedade e do nosso mundo, para que sintam na nossa presença a voz de Deus que lhes diz : «Amei-te.»’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1529/papa-leao-os-pobres-ao-centro/

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Os pequenos detalhes do amor

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rita Valadas,

Presidente da Cáritas Portuguesa

 

‘Estes tempos são naturalmente inspirados pelo desafio do Dia Mundial dos Pobres. Dar significado a este dia e tentar que possa ainda ser alerta, estímulo de reflexão e inspiração de ação foi o que me trouxe hoje a estas linhas. Nestes dias cruzam-se desafios múltiplos e angústias desesperançadas, que me fazem sempre pensar como poderemos «recompor» este mundo, que muda tanto quanto gira, e cada vez mais rápido.  São tantos os desafios, que o tempo de reflexão se prejudica e se desmerece a necessidade do cuidar, do proteger e do rezar.

O VIII Dia Mundial dos Pobres celebra-se a 17 deste mês de Novembro, jornada que merece uma mensagem do Santo Padre. No texto, o papa lembra que o Dia Mundial dos Pobres se tornou «um compromisso na agenda de cada comunidade eclesial. [...] Desafia cada fiel a escutar a oração dos pobres, tomando consciência da sua presença e das suas necessidades. É uma ocasião propícia para realizar iniciativas que ajudem concretamente os pobres, e também para reconhecer e apoiar os numerosos voluntários que se dedicam com paixão aos mais necessitados». Todavia, o papa reforça a convicção «de que os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus, que está atento e próximo de todos e cada um deles».

Sob o lema A oração do pobre eleva-se até Deus, somos convocados a preparar o nosso olhar e o nosso coração com vista ao Jubileu Ordinário de 2025, também com a certeza de que a oração do pobre chega à presença de Deus como meio e veículo de comunhão e que devemos refletir para que a oração se construa como «aproximador» e meio de comunhão. Um grande desafio.

O pobre é muito mais do que um produto de baixo rendimento.
A pobreza é muito mais do que a falta de condições de subsistência ou de recursos. Manifesta-se pela fome, pela malnutrição, mas também pelo acesso limitado a meios, serviços prioritários, saúde, educação, e até à falta de participação. A tudo isto acrescem os muitos fatores de exclusão social.

Neste ambiente, os mais frágeis são os que mais precisam de atenção, de olhares atentos às dificuldades e ao papel que todos podem ter na sua proximidade e na construção de soluções de vida que considerem cada um em toda a sua plenitude com vista a um mundo de esperança. A esperança constrói-se com todos os dons e todos os bens, a experiência e a energia de cada um.

Ficam-me as palavras do Papa Francisco : «No caminho para o Ano Santo, exorto todos a fazerem-se peregrinos da esperança, dando sinais concretos de um futuro melhor. Não nos esqueçamos de guardar ‘os pequenos detalhes do amor’ (exortação apostólica Gaudete et Exsultate, 145) : parar, aproximar-se, dar um pouco de atenção, um sorriso, uma carícia, uma palavra de conforto.»

Uma última palavra de esperança. Cada um de nós transporta tesouros únicos e dons especiais. Muitas vezes desmerecemos isso e uma palavra que nos aconselhe ou inspire pode fazer toda a diferença, para nós e os que nos rodeiem. É preciso acreditar nos «pequenos detalhes do amor».

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/1270/os-pequenos-detalhes-do-amor/

quinta-feira, 23 de março de 2023

Os pobres numa Igreja sinodal

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Eugenio Fonseca

presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado


No ano 257, o imperador Valeriano, depois de ter mandado decapitar o Papa Sisto II, intimou a Igreja a entregar, no prazo de três dias, todas as suas riquezas, pois tinha-lhe constado que ela era mais rica que ele. Cumprido o prazo, o diácono Lourenço reuniu todas as pessoas que eram auxiliadas pela Igreja, anotou-lhes os nomes e levou-as ao imperador, gritando a frase que lhe valeu a morte : «Estes são o tesouro da Igreja.»

Está a terminar a fase sinodal do continente europeu. Será que as Igrejas deste Velho Continente podem dizer o que disse o diácono Lourenço ao imperador Valeriano? Com benditas e louváveis excepções protagonizadas por paróquias e congregações religiosas, as Igrejas europeias nunca chegaram a fazer uma sincera «opção preferencial pelos pobres», como o tem vindo a fazer o Magistério da Igreja a partir da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano realizada em Puebla, México, no ano de 1979 (cf. Sollicitudo Rei Socialis, 42; Conferência Episcopal Portuguesa, Instrução Pastoral – A Acção Social da Igreja, 9; Evangelii Gaudium, 48 e 198).

Como a realidade que melhor conheço é a de Portugal, gostaria muito que se aproveitasse este desafio do Papa Francisco, de caminharmos juntos, para se fazer, efectivamente, esta opção e «alargar o espaço das tendas» (cf. Is 54,2) das paróquias das nossas dioceses aos pobres e aos mais frágeis do nosso país, sabendo que os de hoje são bem diferentes dos de há duas décadas.

Caminhar juntos com os pobres, salvo mais douta opinião, é : i) assumir, com fé, que eles são sacramento de Cristo e têm igual dignidade humana (cf. Mt 25; Centesimus annus, 28c e 58; Fratelli tutti, 141 e 187); ii) constituir grupos paroquiais de pastoral social que sejam expressão organizada da caridade da comunidade cristã com elementos capazes de ir às causas dos problemas das pessoas; iii) integrar alguns pobres nesses grupos; iv) considerar as instituições sociais como agentes subsidiários e nunca substitutivos da caridade organizada da comunidade cristã (cf. Conferência Episcopal Portuguesa, Instrução Pastoral – A Acção Social da Igreja, 9 e 24); v) criar ‘bancos de horas’ que registem o tempo de quem se disponibilize para apoiar novos projectos de vidas de quem ficou sem trabalho; vi) estabelecer parcerias com outras instituições; vii) realizar assembleias paroquiais anuais para conhecimento da realidade socioeconómica da paróquia; viii) promover acções dirigidas aos pobres em espírito que podem ser os que estão privados de bens materiais e os que não têm falta deles, mas os desperdiçam.

Para que a acção caritativa da Igreja seja anúncio de uma boa nova verdadeiramente libertadora (cf. Lc 4, 18), há que investir mais no conhecimento do pensamento social da Igreja.

O Papa Francisco anseia por uma Igreja pobre e para os pobres. Eu acrescento : com os pobres, e que a sinodalidade seja sinónimo de fraternidade. Quando tal acontecer, ela, então, possuirá tesouros que «a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam» (cf. Mt 6, 20).

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/919/os-pobres-numa-igreja-sinodal/