sexta-feira, 17 de abril de 2026

Uma grande abadessa do século XX: Madre Pia Gullini

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Irmã Maria Augusta Tescari, OCSO

Mosteiro de Vitorchiano, Itália


‘Nas realidades da história e da vida de nossas comunidades, existem caminhos que escapam a uma análise superficial : é preciso cavar fundo para reconhecer as vias secretas que a Providência usa para abrir um caminho entre as contradições humanas.

Às vezes nos surpreendemos com a fecundidade da comunidade de Vitorchiano, que deu origem a numerosas fundações. Esta milagrosa vitalidade pode ser explicada pela lei evangélica do grão de trigo que morre e que, ao morrer, dá muito fruto. Todos sabem do sacrifício da Irmã Maria-Gabriella, mas, na complexa história da comunidade que foi durante muito tempo a Cinderela da Ordem por suas origens e sua pobreza material e intelectual, havia outro grão menos conhecido, de qualidade um tanto extraordinária : madre Pia Gullini, abadessa de Grottaferrata de 1931 a 1940 e de 1946 a 1951. Nela, a humildade, a maternidade e o sentido da Igreja atingiram, a nosso ver, um grau excepcional.

Sabemos que Madre Pia sempre teve o desejo de fazer uma fundação; ela comparava esse desejo a uma árvore que ela cultivava e que outros (os superiores e as circunstâncias) continuamente cortavam, mas que ainda estava viva. Em 1948, ela escrevia a um abade da Ordem :

‘Quando o Senhor quiser, dirá a esta árvore : ‘Faze crescer as tuas flores’, será a sua primavera e ninguém poderá impedir o seu florescimento.’

E ao mesmo correspondente, quatro anos depois :

‘O Eterno procede lentamente, mas sempre consegue. Estou segura d’Ele e deixo a Ele sua liberdade infinita. Se eu já estiver com Ele quando Ele realizar esse desejo, ajudarei em dobro.’

Profetisa, Madre Pia o fora em diversas ocasiões : em relação ao então nascente ecumenismo e à utilidade de difundir a simples mensagem de amor e doação da irmã Maria-Gabriella, mas também sobre sua própria morte e a impossibilidade de unir-se à sua comunidade em Vitorchiano, sua comunidade que para lá foi transferida de Grottaferrata em 1957. E bem sabemos que os profetas nunca tiveram uma vida fácil…

Sua vida

Ela nasceu em 16 de agosto de 1892 em Verona, onde sua família residiu por vários anos por causa do trabalho de seu pai. Maria Elena Gullini pertencia a uma família da alta burguesia bolonhesa. Seu pai, Arrigo, era engenheiro ferroviário : trabalhou na Itália e em Montenegro.  Ele se estabeleceu com sua família em Roma, provavelmente por causa dos estudos universitários de seus três filhos. Foi subdiretor dos Caminhos de Ferro do Estado além de presidente e administrador da importante Sociedade dos Estaleiros de Gênova, a Ansaldo.

Sua mãe, Celsa Rossi, distinguia-se por sua excepcional beleza, por uma extraordinária bondade e inteligência; na juventude pensara na vocação religiosa, mas não fora capaz de realizá-la; muito piedosa, viveu com intensidade a sua fé e procurou transmiti-la aos filhos. Reservada, não gostando de tudo o que era vaidade, deixou de bom grado que a filha mais velha, bela e empreendedora, a substituísse nas obrigações mundanas : Maria, portanto, acompanhava o pai às diversas recepções e refeições da alta sociedade.

Uma amiga relata que, no escritório do engenheiro Gullini, havia um grande retrato a óleo de Maria em um vestido de noite preto e branco, muito decotado e deixando os braços nus – para grande desgosto de sua mãe –, um retrato que revelava o lugar que a filha mais velha ocupava na vida social do pai. Madre Pia dizia que foi durante um baile, experimentando sua insatisfação diante das coisas fúteis e passageiras, que tomou a decisão de seguir a vocação religiosa.

Dos 8 aos 18 anos, estudou em Veneza, com as Damas do Sagrado Coração, recebendo ali a educação que então se dava às moças de boa família. O ensino era dado em francês. Com seu temperamento artístico, Maria se destacava em música e em pintura. Aos dez anos, recebeu a primeira comunhão das mãos do patriarca José Sarto, futuro São Pio X. Aos 12 anos, viu-se em perigo de morte devido a uma peritonite tuberculosa que a deixou, ao longo da vida, uma infeliz disposição à fadiga. Ela era muito viva, orgulhosa e rebelde, até violenta, ávida de liberdade, com evidentes qualidades de ‘líder’; amava a natureza, compadecia profundamente com o sofrimento dos outros e com as necessidades dos pobres, íntegra e leal, sem o menor traço de respeito humano. Ela passava as férias de verão na vila da propriedade da família perto de Bolonha ou em Montenegro. Por conta do trabalho do pai, foi madrinha na inauguração de trechos da ferrovia e as fotos de família a mostram com buquês de flores na mão enquanto corta uma fita. Parentes distantes ou camponeses ainda se lembram da chegada da ‘Demoiselle’ na casa de campo dos avós e como ela estava atenta em cuidar de suas necessidades materiais e espirituais.

Ela estudava, com o pai, inglês e alemão pelo método Berlitz – uma novidade na época! – e com uma ‘professora’ que vinha em casa para as aulas práticas. Esportiva, adorava patinação e equitação, frequentando cavalgadas em Roma. Após a declaração de guerra, fez o curso de enfermagem em ‘La Samaritana’, com o desejo de ir para a frente de batalha para tratar de soldados feridos. Seu pai se opôs ao projeto. Maria ia à missa quase todas as manhãs com a mãe e ensinava catecismo às crianças da elegante paróquia de São Camilo e da periférica de Santa Helena, em Prenestino, que ela amava. A frequência com que visitava as Irmãzinhas da Assunção de Via Nino Bixio a levava a acompanhá-las frequentemente, praticando com elas a ajuda aos pobres.

Aos pedidos de casamento que lhe eram feitos, opunha-se com recusas que afligiam a família : ‘Não, não é bonito! Falta requinte! Ele é muito alto! Ele é muito pequeno!…’ Levada a refletir na presença de um par ‘ideal’, consentiu em ficar noiva, mas não oficialmente, de um muito simpático jovem engenheiro de Veneza, mas quando este último, um oficial da frente de batalha, quis que seu vínculo fosse esclarecido, Maria, que havia tomado consciência de sua vocação religiosa, lhe respondeu que não se casaria com ele.

Seu confessor e diretor espiritual foi um conhecido padre do Santíssimo Sacramento, o padre Di Lorenzo; foi ele quem mais ferozmente se opôs à sua entrada na Trapa (segundo ele, com o seu temperamento exuberante e inclinado à autonomia, não seria possível que Maria escolhesse o silêncio e a obediência dos trapistas), mas depois tornou-se um hóspede assíduo de Grottaferrata. Além disso, Maria Gullini, num primeiro momento, não tinha a menor intenção de entrar na Trapa. O serviço e a assistência aos pobres a atraíram para uma congregação ativa e, apesar da oposição de sua família, ela pediu para ser admitida nas Irmãzinhas da Assunção. Alta, bonita, cheia de vida e inteligente, ela tinha qualidades excepcionais demais para ser aceita ‘sic et simpliciter’. Madre Teresa, a superiora, mandou-a pedir conselho a Dom Norbert Sauvage, procurador dos trapistas, e este a obrigou a fazer um retiro de oito dias na Trapa de Grottaferrata, em clausura.

Era 14 de novembro de 1916 e Maria escrevia :

‘Faço este retiro orando pelos pecadores : quanto ao resultado, Senhor, inspira o pai e farei exatamente o que ele me disser.’

E Dom Norbert que, no início de seu retiro lhe havia anunciado : ‘Falaremos de Jesus Cristo’, disse-lhe :

‘Senhorita, parece-me que sois chamada para uma vida de amor; Jesus parece querer de vós o sacrifício completo. Vossa natureza quer a vida ativa, vossa alma exige e reclama a vida contemplativa’ e lhe propõe imediatamente a Trapa. Mas não aqui.

‘Em Laval, um dos primeiros mosteiros da Ordem, vivem oitenta monjas, entre as quais muitas jovens. Um demônio como vós, em tal massa de freiras, não se destacará muito.’

É muito provável que Dom Norbert tenha pensado em assegurar a senhorita Gullini uma boa formação monástica para fazê-la, em seguida, retornar a Grottaferrata para dirigir a comunidade, mas os documentos não nos permitem afirmar que houve um acordo com a abadessa de Grotta sobre este assunto.

Mas é certo que a partir desse momento começa um período de combate para Maria : com seus pais, com seu confessor e com outros padres que acusavam Dom Norbert de tê-la influenciado, mas sobretudo consigo mesma, que não queria se render à graça. O resultado desse combate foi a vitória de seu ‘doce Senhor’ e a entrada de Maria em Laval em 28 de junho de 1917. A forma desinibida de agir da jovem desconcertou as monjas de Laval, como já havia espantado as monjas de Grottaferrata, mas a vocação era evidente, assim como a boa vontade da candidata, e por essa razão, houve paciência de ambos os lados. Em 29 de setembro de 1917, Irmã Pia – este nome lhe foi dado em memória do Papa que lhe deu a primeira comunhão em Veneza – tomou o hábito cisterciense; em 16 de julho de 1919 emitiu os primeiros votos e, três anos depois, na mesma data, emitiu a profissão perpétua.

Em 1923, foi nomeada mestra das irmãs conversas, que somavam cerca de quarenta. Eis Madre Pia, em Laval, tal como a evocam as irmãs conversas :

‘Madre Pia tornou-se Madre mestra quase imediatamente após sua profissão. Minha Reverenda Madre Lutgarde confiava nela; ela dizia que, exceto alguns defeitos externos, minha madre Pia era perfeita. Ela era quem eu mais amava; foi ela quem mais me fez bem : fiquei encantada ao ouvi-la falar de Jesus e ao ver seu espírito de fé...’

Ela era uma alma ardente do amor de Deus; ela amava a Regra. Ela ia lavar as irmãs mais velhas, arrumar suas camas antes das quatro horas. Nunca tinha trabalhado no jardim, mas veio cavar com as irmãs e depois agradeceu... Tinha qualidades para tudo... Sua Madre mestra lembrava de sua extrema simplicidade e descreveu-a como uma alma magnânima, ardente, capaz de todos os sacrifícios.

A partir de 1923, Madre Agnès Scandelli, abadessa de Grottaferrata, solicitou a Laval ajuda de pessoal para a muito pobre comunidade italiana; mas Madre Lutgarde só pôde conceder-lhe – relutantemente – três anos depois! E essa ajuda foi naturalmente a italiana Madre Pia : ‘Estamos fazendo um grande sacrifício e Madre Pia também; mas não queremos recusar nada ao bom Deus’. O motivo da repatriação da jovem monja era outro : Madre Pia sofria de um início de tuberculose e esperava-se que uma mudança de ares lhe fizesse algum bem, o que de fato aconteceu, embora lentamente. Madre Pia chegou a Grottaferrata em 9 de novembro de 1926. A dura partida de ‘seu’ mosteiro de Laval foi muito dolorosa, e a integração em sua nova comunidade foi tudo menos fácil. A recém-chegada, de cultura e formação diferentes, doentia, com dons humanos excepcionais, provocava reações de rejeição. Sua decisão no ano seguinte de se estabilizar em Grotta foi heroica, dadas as circunstâncias.

As ‘Crônicas’ falam de uma pressão por parte de seus pais para retê-la na Itália, mas de acordo com algumas cartas ou outros documentos é possível deduzir uma discreta insistência por parte dos superiores maiores, preocupados com o futuro de Grotta, privada de irmãs capazes de suceder à abadessa, idosa e doente. Tendo deixado seu mosteiro nas disposições interiores de um inteiro sacrifício – ‘um sacrifício nunca é recusado... eu irei para onde Deus me chama’ –, Madre Pia superou seu desejo de voltar para Laval e as insistências de Laval para recuperá-la : ela continuou, no entanto, a correspondência com sua querida Madre Lutgarde até 1942, e, com a comunidade, até três anos antes de sua morte.

A situação muito difícil da comunidade de Grotta, muito ligada à sua abadessa, pesa muito a já frágil saúde de Madre Pia que, em 1928, viu agravar-se os seus ataques hepáticos a ponto de a obrigarem a sofrer uma intervenção cirúrgica – naquela época bastante delicada – o que a colocou em risco de morte por alguns dias.

Naquele momento, uma irmã conversa entre as mais velhas ofereceu sua vida pela recuperação de sua jovem coirmã. Ela se recuperou depois de uma estadia com sua família, foi subprioreza, enfermeira, depois prioresa, mostrando total obediência à Madre Agnès, embora sofresse de muitas coisas que, na comunidade, deveriam ser mudadas e que não foram.

Em 1931, Madre Agnès Scandelli, após trinta e três anos como superiora, renunciou. Madre Pia foi então nomeada abadessa por decisão pontifícia, seguindo um decreto do Cardeal Lega, bispo de Frascati, que traz a data de 30 de dezembro de 1931. Era impossível, de fato, proceder a uma eleição regular, dada a afeição que as freiras tinham por sua antiga superiora. Não é difícil imaginar a coragem e a fé necessárias numa situação tão particular : mas Madre Pia soube conquistar a estima e o amor da comunidade que a confirma, quase unanimemente, nas eleições de 1935 e 1938. Ela quis fazer de Grotta uma Trappe como eu mesmo vi, aludindo à sua tão amada Laval.

Embora as próprias paredes do convento estivessem impregnadas de oração e espírito de sacrifício, Grottaferrata parecia mais uma comunidade franciscana do que uma comunidade cisterciense. Empreender uma transformação era difícil por causa da pobreza – muitas vezes a conta mensal do padeiro era paga pela família Gullini –, também por causa da pequena dimensão e produtividade da propriedade (dois hectares e meio), e ainda por causa da casa inadequada, o pequeno número de coristas, a presença de algumas irmãs que lhe eram hostis e, posteriormente, as repercussões da Segunda Guerra Mundial.

Em 1939, irmã Maria-Gabriella faleceu e começou então para Grotta e sua abadessa um período muito fecundo, mas também muito tempestuoso. Em dezembro de 1940, portanto antes do final de seu terceiro triênio, Madre Pia foi obrigada a apresentar sua renúncia. As dificuldades – o caso não era novo, tratando-se de uma mulher inteligente e de forte vontade – vieram sobretudo dos superiores masculinos. Nas decisões que levaram à sua renúncia, certamente pesaram, além dos pontos de vista divergentes sobre a condução da comunidade, a correspondência sobre o ecumenismo e a publicação da biografia da irmã Maria-Gabriella, uma abertura que não era compreendida nem aprovada por todos!

A excelente Madre Tecla Fontana, que sucedeu a Madre Pia no governo da comunidade, confiou-lhe o noviciado, e Madre Pia, como boa educadora que era, consagra-se com alegria à formação das jovens, enquanto continuava sua enorme correspondência e suas relações ecumênicas.

Seis anos mais tarde, em 1946, ela foi reeleita abadessa e confirmada, por um voto quase unânime, já no primeiro escrutínio de 1949. Durante esses anos, ela também manteve a direção do noviciado. As oposições irreconciliáveis, embora muito poucas em número, persistiam : Madre Pia esperava o apoio do novo Abade geral e do superior de Frattocchie, recentemente nomeado, para iniciar uma fundação à qual vinha pensando há anos; mas, em 1951, antes do final de seu triênio, eclodiu uma crise que vinha se gestando há muito tempo. Em 19 de abril, o superior (que ainda não havia sido eleito abade) e o Padre imediato, o abade de Mont-des-Cats, reuniram a comunidade após o ofício de Noa e anunciaram que Madre Pia havia apresentado sua renúncia ‘por motivos particulares’ e que já havia deixado a comunidade.

Madre Tecla retomou as rédeas da comunidade como superiora ad nutum. Foi um estrondo de trovão em céu sereno : a quase totalidade da comunidade nunca compreendeu os verdadeiros motivos dessa partida.

Madre Pia esperou em Roma, na casa das irmãs Ursulinas, até que seu passaporte lhe fosse concedido. Naqueles dias que deveriam ter sido muito tristes, eu a vi calma e serena : ela parecia uma hóspede real e não uma irmã em viagem de exílio! Partiu para a Abadia de La Fille-Dieu, onde deveria permanecer por oito anos, até ser chamada de volta à Itália. Em 1953, não lhe foi permitido retornar à sua pátria, nem para a eleição abacial, nem para as eleições políticas, embora duas outras irmãs italianas presentes no mosteiro suíço tenham podido voltar para lá.

Deixemos agora as irmãs de La Fille-Dieu descrevê-la durante sua estadia :

‘Madre Pia era a própria bondade : sua amabilidade, seu rosto sorridente nos faziam bem. Gostávamos  de encontrá-la, porque seus grandes gestos pareciam nos envolver em seu coração. Ela tinha uma imensa piedade por aquelas que sofriam : ela queria consolá-las, ajudá-las... Seu espírito de fé a levava em direção a Jesus Hóstia : ela ficaria horas perto do Tabernáculo. Ela era uma grande silenciosa, permanecendo unida a Deus e vivendo em Sua presença. Seu talento como artista nos prestou grandes serviços... – Ela passou oito anos em La Fille-Dieu, dando o exemplo de uma religiosa perfeita; era uma alma generosa, de um grande espírito de fé, de uma caridade perfeita e cheia de uma delicadeza verdadeiramente materna, um coração de ouro que pensava apenas em agradar. Era uma alma silenciosa : para ela, o silêncio era uma audiência de amor com Nosso Senhor. Toda a minha vida, eu O agradecerei por ter vivido em contato com ela. Ela se apagava, procurava passar despercebida. De todas as virtudes ela deu o exemplo, e até mesmo o heroísmo. Uma grande monja : nosso Te Deum ambulante...’

Enquanto isso, na Itália, a abadessa, eleita em 1953 e responsável pela transferência da comunidade de Grottaferrata para Vitorchiano, renunciou em 1958 por motivos de saúde. Foi nomeada uma superiora ad nutum. Em 1959, estava sendo preparada uma eleição abacial e Madre Pia foi oficialmente convocada de volta a Vitorchiano pelo Padre imediato; não sabemos se seu chamado tinha como objetivo sua possível eleição como abadessa ou o exercício de uma responsabilidade subalterna; a comunidade, em sua grande maioria, a solicitava e os superiores que a destituíram agora apoiavam seu retorno. Mas quem perceberia que Madre Pia estava à beira da morte na época? Que, dado seu estado de saúde, a viagem da Suíça, por si só, seria muito cansativa? De qualquer forma, não era sua responsabilidade decidir, mas apenas obedecer : ela partiu, muito cansada, mas serena.

No dia 22 de fevereiro de 1959, ela deixou o mosteiro que a havia acolhido e onde havia desejado morrer. No dia 25, sob a intervenção de seu irmão médico, impressionado com sua aparência debilitada, ela foi hospitalizada na policlínica de Roma, onde recebeu muitas transfusões. Um mieloma em um estado muito avançado foi diagnosticado, além de danos irreparáveis nos rins, coração e outros órgãos. Madre Pia aceitou os cuidados e atenções que lhe foram dados com um reconhecimento desapegado, com tranquilidade e com o sorriso.

Em 15 de abril, ela saiu do hospital e foi recebida pelas irmãs Betlemitas para lá continuar, sob controle, uma terapia doravante inútil, enquanto aguardava para retornar a Vitorchiano. Ela tinha plena consciência de que não poderia assumir cargos de liderança; ela sentia que estava se aproximando de sua morte. Ela via claramente – e disse isso com calma e desapego real – que nunca mais se uniria à sua comunidade em vida : ‘Iremos ao Senhor antes de irmos para lá’, disse ela.

Sabendo que ela estava hospitalizada, eu fui visitá-la; ela estava sentada em uma poltrona. Essa visita me impressionou muito. Nenhuma palavra sobre o passado, nenhuma palavra sobre o futuro. Nenhum sinal de alegria – mesmo discreto – que uma pessoa em sua situação teria o direito de sentir; porque, acontecesse o que acontecesse, essa viagem à Itália era uma reabilitação.

Seu retorno a Vitorchiano estava programado para 5 de maio, dia da Ascensão. Ela morreu de um colapso cardíaco em 29 de abril, dia em que a Ordem celebrava, de acordo com o calendário litúrgico da época, o aniversário da morte de São Roberto, seu fundador favorito entre os fundadores de Cister. Provavelmente ela se identificava com sua busca, seu desejo de fundação e sua renúncia.

Madre Pia tinha 67 anos e 40 anos de profissão. Foi a primeira irmã a ser enterrada no novo cemitério de Vitorchiano, de acordo com a previsão que ela havia feito a uma monja italiana de La Fille-Dieu.’

 

Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123


 

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