Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A relação entre filosofia e teologia não tem sido
simplesmente de coexistência académica, mas uma aventura de reciprocidade. Como
observou S. João Paulo II no prefácio da encíclica Fides et ratio :
«Fé e razão são como duas asas com as quais o espírito humano levanta voo para
a contemplação da verdade». Contudo, na contemporaneidade, essas asas parecem
bater em frequências diferentes, gerando, muitas vezes, uma crise de
inteligibilidade.
Contudo, no século XX a relação não só se
consolidou, como se renovou numa base convergente : «Já não vos chamo servos,
mas amigos» (João 15, 12-17). Expandindo a referência joanina, foi
enfatizada a necessidade ogiae. Segundo Karl Rahner (1904-1984), figura
central do pensamento teológico do século passado, a filosofia não se limita a
embelezar a teologia, mas antes a fornecer-lhe uma linguagem conceptual que lhe
confere o rigor científico necessário. Não paradoxalmente, este processo
introspetivo — certamente de natureza epistemológica — abre as portas a um
caminho não isento de incertezas, mas aberto a horizontes inexplorados e perspectivas
dignas de serem trilhadas. Desta forma, a filosofia continua a ser um
interlocutor essencial que não só estrutura logicamente o método, como também
ajuda a articular a experiência da fé face às questões de um mundo em constante
e rápida transformação. A teologia cristã, desde as suas origens patrísticas,
reconheceu que o anúncio do Logos exigia a universalização das
categorias do pensamento grego. Quando a presença da filosofia está ausente, a
teologia corre o risco de se refugiar no fideísmo ou num sentimentalismo
desprovido de rigor intelectual.
Bento XVI, no seu magistério, procurou
repetidamente examinar este lugar onde o encontro não é apenas necessário, mas
também profícuo, como quando — refletindo sobre o contributo da religião para o
debate cultural contemporâneo — destaca «a profunda concordância entre o que é
grego no melhor sentido e o que é fé em Deus sobre o fundamento da Bíblia» e,
alargando o âmbito da sua reflexão ao prólogo do Evangelho de João, afirma que
«Logos significa tanto razão como palavra, uma razão que é criadora e capaz de
comunicar, mas, precisamente, como razão».
Por isso, não se pode deixar de reconhecer o
contributo da teologia para o pensamento filosófico, que foi enriquecido com
perspectivas singulares. O debate sobre a Trindade e a Encarnação levou à
definição da pessoa como subsistência relacional, um conceito fundamental para
a antropologia, a psicologia e a ética moderna. A ideia de um mundo criado a
partir do nada (ex nihilo) introduziu a distinção entre essência e
existência, levando a filosofia a questionar a contingência radical do ser, tal
como a análise detalhada do pecado e da graça deslocou a atenção do
intelectualismo grego para a centralidade da vontade e da liberdade pessoal.
Neste contexto, os teólogos desenvolveram e aperfeiçoaram a teoria da analogia,
fundamental para a gnoseologia e para a filosofia da linguagem. Além disso, a
visão teológica do homem como ‘imagem de Deus’ forneceu o fundamento ontológico
para o conceito universal de dignidade humana e, sucessivamente, para os
direitos humanos. Graças à teologia, o conceito linear e providencial do tempo
substituiu a antiga visão cíclica, abrindo caminho às ideias modernas de
progresso e significado da história. Ao analisar mais de perto, percebe-se que
a crise atual surge — pelo menos em parte — como uma problematização do formato
da reciprocidade. A crise da linguagem exacerba a dificuldade de propor
verdades eternas num mundo de significados fluidos e em constante
transformação. O cientificismo nega qualquer conhecimento que não seja
empiricamente demonstrável. E, dulcis in fundo, um subjetivismo
exacerbado, no limite da paranoia, reduz a verdade a um somatório de
experiências individuais, por sua vez interpretadas segundo cânones tão
elásticos quanto volúveis. Precisamente neste território fronteiriço, uma justa
reciprocidade entre teologia e filosofia serve de filtro. A sua amizade obriga
ambas a manterem coerência interna e relevância externa. Nesta viagem — rica
não só de incógnitas, mas também de agradáveis surpresas — encontra-se um
indício favorável no prefácio da constituição apostólica Veritatis gaudium,
que propõe o caminho da transdisciplinaridade, exercida com criatividade como
«fermentação de todos os saberes dentro do espaço de Luz e Vida oferecido pela
Sabedoria que dimana da Revelação de Deus».
A filosofia, portanto, é uma companheira que
interroga e aprofunda. Com as suas perguntas, mesmo as incómodas, contribui
para a capacidade de admiração e, por vezes, até de voltar atrás ou
reconfigurar-se, redescobrindo — sem complexos — a própria falibilidade e
vulnerabilidade. Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz), filósofa e
mística, personifica esta síntese. Para ela, a busca da verdade era, em si
mesma, uma oração. Através da fenomenologia, ela foi capaz de criar uma ponte
ideal entre a humanidade impaciente e aquela voz grave que ressoa na alma e
cujo chamamento, como dizia Santo Agostinho, não pode ser silenciado. Esta
perspectiva dialógica permite que a teologia não seja um sistema fechado, mas
antes um conhecimento voltado para fora.
Sem dúvida, a relação entre teologia e filosofia
não está isenta de tensões. Mas, ao mesmo tempo, emergem vislumbres de futuro,
bem como tantas pontes de diálogo inesperadas entre o pensamento filosófico e o
teológico. A crise nem sempre é um crepúsculo : por vezes é um parto. Perante
estes amplos horizontes, «a razão científica — como argumentou o Papa Francisco
— deve alargar os seus limites na direção da sabedoria, para não se desumanizar
e empobrecer. Desta forma, a teologia pode contribuir para o debate atual sobre
‘repensar o pensamento’, demonstrando que se trata de um conhecimento
verdadeiramente crítico, como conhecimento sapiencial».
Todos estes desafios podem ser vistos, de qualquer
maneira, de forma positiva, tanto que não será mais possível prescindir do
diálogo com as várias ciências, as diferentes expressões culturais e as outras
religiões. Será, portanto, necessário promover o seu estudo, assim como o das
tradições filosóficas menos conhecidas nos contextos eclesiásticos
(consideremos o pensamento asiático e africano ou o pensamento oral dos povos
aborígenes). Parece evidente que a filosofia não esgotou de forma alguma a sua
função, mas serve como polaridade recíproca, abrindo canais de comunicação e
compreensão mútua. Portanto, ela — certamente enriquecida pelas contribuições
de outras disciplinas — continua a ser imprescindível não só nas fases iniciais
da formação para o presbitério, mas também ao longo de toda a vida sacerdotal.
Neste caminho de abertura mútua, será possível
respirar um vigor totalmente original, portador de novidades e capaz de revelar
filões até agora deixados à margem ou totalmente desconhecidos. Durante o
recente Jubileu do mundo educativo, o Papa Leão XIV traça o método a seguir
quando afirma que «quem estuda eleva-se, amplia os seus horizontes e as suas
perspectivas, para recuperar um olhar que não se fixa apenas no chão, mas é
capaz de olhar para o alto : para Deus, para os outros, para o mistério da
vida. Esta é a graça do estudante, do investigador, do estudioso : receber um
olhar amplo, que sabe ir longe, que não simplifica as questões, que não teme as
perguntas, que vence a preguiça intelectual e, assim, derrota também a atrofia
espiritual».
Neste tempo — feito de empenho, solicitude e criatividade
na resposta aos sinais dos tempos — essas perguntas constituirão um apoio para
reforçar a formação teológica; aliás, podem até revitalizá-la se a filosofia
for concebida não como uma concorrente ameaçadora, mas como uma amiga
colaboradora verdadeiramente genial. E, inspirando-se na história de Lila e
Lenù, protagonistas do romance de Elena Ferrante, a filosofia e a teologia são
«duas metades de uma mesma pessoa, ligadas por um fio invisível».’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-04/por-004/o-tesouro-da-reciprocidade.html
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