Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo de Matheus Macedo
‘O Papa Leão XIV recorda, nesta Quaresma, a
importância de cultivar a escuta e moderar as palavras, destacando que ‘a
disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo
de entrar em relação com o outro’. O convite do Pontífice toca uma dimensão
cada vez mais desafiadora na vida contemporânea : o silêncio.
Em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos,
notificações constantes e hiperconectividade, permanecer em silêncio tornou-se
incomum. No entanto, para comunidades religiosas como os carmelitas e os
cistercienses, o silêncio não é apenas uma prática ocasional, mas um verdadeiro
estilo de vida : um caminho cotidiano de encontro com Deus e de amadurecimento
interior.
O silêncio como caminho de união com Deus no
Carmelo
Na espiritualidade carmelitana, o silêncio é parte
essencial da vocação. Mais do que ausência de sons, ele é compreendido como uma
atitude interior que permite viver continuamente na presença de Deus.
‘O silêncio e a oração na vida dos carmelitas não
são apenas a ausência de barulho, mas um estilo de vida e um caminho interior
de união com Deus’, explica Frei Emerson, da Ordem dos Carmelitas Descalços.
Inspirados por santos como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, os
carmelitas buscam cultivar uma vida interior profunda, onde a escuta se torna
fundamental.
Essa vivência nasce da oração e da contemplação,
que formam o núcleo da espiritualidade do Carmelo. Frei Higor Fernandes de
Oliveira, O.Carm, explica que a própria identidade carmelitana está ligada a
esse movimento interior : ‘Somos chamados a subir ao monte da oração,
contemplar Jesus e depois descer para testemunhar no mundo aquilo que vimos e
ouvimos na intimidade com Ele’.
Segundo o religioso, o silêncio carmelitano é antes
de tudo interior. ‘Trata-se de fazer silenciar o barulho dentro de nós, para
que a realidade possa aparecer como ela é, e para que possamos escutar a voz de
Deus’, afirma.
Essa experiência, no entanto, contrasta com o ritmo
da sociedade atual. Frei Emerson observa que o excesso de ruído e a necessidade
constante de conexão dificultam esse encontro interior. ‘Se não estou conectado,
parece que não existo. Por medo, muitas vezes fugimos da nossa própria
interioridade’, diz. Como consequência, surgem ansiedade, vazio e dificuldade
de experimentar a presença de Deus.
O silêncio vivido no coração da vida monástica
cisterciense
Entre os monges cistercienses, o silêncio também
ocupa um lugar central, estruturando a própria rotina do mosteiro.
Na Abadia da Santa Cruz, em Itaporanga (SP), os
monges organizam o dia em torno de momentos de oração comunitária, oração
pessoal, trabalho e estudo, sempre permeados pelo silêncio. Essa prática
encontra suas raízes na Regra de São Bento, que orienta a vida monástica há
séculos.
‘O silêncio é uma dimensão essencial da nossa vida,
pois nos ajuda a dar sentido à oração e àquilo que vivemos. Ele é uma oferta de
amor a Deus e aos irmãos’, explica Ir Elredo, monge cisterciense.
Nesse contexto, o silêncio não é isolamento, mas
uma forma de comunhão. Ao silenciar, o monge se torna mais disponível à escuta
de Deus e mais atento à realidade.
‘O silêncio permite que acessemos aquilo que é
essencial, a voz de Deus que nos chama no hoje da nossa vida’, afirma.
Um testemunho contracultural em meio ao ruído do
mundo
A escolha pelo silêncio nas tradições monásticas
revela um contraste com a realidade contemporânea, marcada pelo excesso de
palavras e pela dificuldade de escutar.
Frei Higor, O. Carm, observa que o barulho exterior
reflete um coração inquieto. ‘Muitas pessoas deixam-se hipnotizar pelo ruído do
mundo e pela busca de uma felicidade superficial. Isso impede o encontro
consigo mesmas, com o outro e com Deus’, afirma.
Ir Elredo também aponta para uma crise mais
profunda. ‘Vivemos em uma sociedade em que as pessoas estão cada vez mais
voltadas para si mesmas. O silêncio e a escuta se tornam desafiadores porque
nos obrigam a enfrentar quem realmente somos.’
Essa reflexão ecoa o ensinamento do Papa Bento XVI,
que destacou a importância do silêncio como parte essencial da comunicação : ‘O
silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas
de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos melhor e compreendemos com maior
clareza.’
A Quaresma como um convite a redescobrir o silêncio
Neste contexto, a Quaresma surge como um tempo
privilegiado para redescobrir o valor do silêncio e da escuta.
Frei Emerson, OCD, descreve esse período como uma
oportunidade concreta de recolhimento : ‘A Quaresma pode ser vivida como um
grande retiro, um tempo de conversão e de escuta de Deus no silêncio.’
Também para os monges cistercienses, esse tempo tem
um significado especial. ‘A Quaresma nos convida a reencontrar o Deus que nos
chama à comunhão. O silêncio nos ajuda a corresponder a esse chamado com um
coração aberto’, explica Ir Elredo.
Mais do que uma prática reservada aos mosteiros, o
silêncio pode ser cultivado na vida cotidiana. ‘Mesmo em meio ao trânsito ou às
atividades diárias, é possível viver o silêncio interior quando o coração está
em paz’, afirma o monge.
Frei Emerson, OCD, sugere passos concretos:
reservar momentos de silêncio, reduzir o uso de redes sociais, cultivar a
oração e aprender a escutar antes de falar.
O silêncio que abre espaço para Deus e para o outro
O testemunho das comunidades carmelitas e
cistercienses revela que o silêncio não é vazio, mas um espaço de encontro. É
nele que o ser humano reencontra a si mesmo, redescobre o outro e se abre à
presença de Deus.
Bento XVI sintetiza essa realidade : ‘Temos
necessidade daquele silêncio que se torna contemplação e nos faz entrar no
silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra
redentora.’
Neste tempo de Quaresma, o convite da Igreja é
também um convite à escuta. Em meio ao ruído do mundo, o silêncio permanece
como um caminho possível — e necessário — para redescobrir aquilo que é
essencial.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-02/silencio-com-vocacao-e-o-tempo-da-quaresma.html
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