Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Priorado Notre-Dame de Koubri, Burkina Faso
‘Quando me
foi pedido de fazer um resumo da minha tese de Doutorado, pensei nos desafios
que a vida monástica encontra na África Ocidental, porque verdadeiras
provocações. A meu ver, podem levar a uma reflexão e isso será bom para a vida
monástica na África, especialmente na África Ocidental de língua francesa, pois
os desafios convidam a ficar vigilantes e a trabalhar para os melhorar. De
fato, se a vida monástica quer ir para a frente, tem de ser capaz de se
interrogar e de se deixar interrogar. Gostaríamos de sublinhar nesta pequena
contribuição, alguns problemas que os responsáveis das comunidades monásticas
deviam olhar.
As vocações
Cada vez mais
se fala da África como um celeiro de vocações na Igreja. Contudo, esta
realidade não se verifica em todos os países da África, nem para vocações
particulares, como a vida monástica, que aliás é muito pouco conhecida. De
fato, o específico desta vida austera não atrai e a maioria daqueles que batem
à porta do mosteiro, não perseveram. A realidade é que mais de cinquenta anos
depois de serem fundados, a grande maioria tem apenas o número suficiente de
membros para pensar numa fundação. Eis o que constata o padre André Ouédraogo,
abade emérito de Koubri :
‘Olhando o
nosso mosteiro, São Bento de Koubri, que fez 50 anos de fundação em 11 de Julho
2013, entre 1963 e 2013 acolhemos o número considerável de candidatos, que
queriam a vida monástica (…) Se todos tivessem ficado, teríamos feito várias
fundações monásticas, tanto no país, como em outros países. Infelizmente, hoje
dos candidatos recebidos quantos ficaram? Os outros mosteiros da nossa
sub-região africana podem dizer o mesmo. Diante deste mistério, muitos
candidatos entraram, mas poucos ficaram.’
É verdade que
a vida monástica, como caminho do Evangelho, comporta renúnicas e exigências
que é preciso assumir e escolher. No entanto esta realidade do grande número de
partidas, deve interpelar os mosteiros sobre o modo como vivem a vida
monástica, e como a apresentam no exterior. Se se trata de promover uma vida
monástica mitigada, é necessário fazer uma reflexão séria para encontrar
soluções adequadas para a questão. Disso depende o futuro da vida monástica na
África Ocidental. Depois de 50 anos de fundação, vários mosteiros estão ainda
patinhando.
A questão da
formação na vida monástica
Embora hoje o
nível de formação dos candidatos tenha evoluído, ainda há algo a fazer, pois um
certo número vem com carências, que exigem um complemento de instrução escolar.
Se o monge é um contemplativo por vocação, não está dispensado de alimentar sua
inteligência com conhecimentos, nem de aprender a pensar. O verdadeiro problema
é enraizar-se na vida monástica. Como dizia o padre Denis Martin, um dos
grandes promotores da vida monástica beneditina na África : ‘ os professos
perpétuos, que não tiveram o menor nível de instrução, boiam como se não
tivessem nada sobre que apoiar a vida monástica’. Isto é válido ainda hoje. É
necessário reconhecer que o equilíbrio da vida de um mosteiro é ilusório, sem
uma séria promoção de formação, não só religiosa, mas também humana dos monges,
sobretudo diante de um mundo em perpétua mudança. Não se trata só de formação
inicial, mas igualmente de formação permanente.
Os desafios
ligados aos votos religiosos
O monge
africano assume conscientemente e livremente ter de testemunhar Jesus Cristo
com toda a sua vida. Sua consagração monástica é uma imolação pessoal. Por amor
a Cristo, aceita sacrificar os valores culturais, que correspondem aos três
conselhos : castidade – pobreza – obediência.
O desafio do
voto de castidade
O voto de
castidade é a expressão da pobreza mais fundamental para o religioso africano;
este voto toca-o nas suas representações simbólicas essenciais. Um cisterciense
congolês exclamava, falando desta escolha evangélica do celibato consagrado : ‘É
uma vitória do cristianismo em nosso meio; e não é um milagre pequeno!’ Uma tal
situação, contudo, não é sinônimo de incapacidade, por parte dos religiosos
africanos, de viverem plenamente a castidade. Não significa aceitação de uma
vida sexual desordenada. Para os religiosos africanos, como para os outros no
resto do mundo, há a exigência de assumir, na verdade, aquilo a que se
engajaram livremente. Não há meias medidas para os religiosos africanos. A
prática da castidade por causa do reino de Deus, deve ser um testemunho
concreto igualmente contra ‘uma cultura hedonista que liberta a sexualidade de
toda a norma moral objetiva, reduzindo-a muitas vezes a um jogo, ou a um bem de
consumo, e cedendo a uma espécie de idolatria do instinto’ (Vita Consecrata
88). Se o voto de castidade não dá a possibilidade de viver como seres
incorpóreos, então o voto de castidade é um desafio, uma interpelação para
aquele que o faz.
O desafio do
voto de pobreza
Num
continente em que uma grande parte da população é sub alimentada, tem falta de
moradia decente e não tem acesso aos serviços de saúde, ou outros bens
gratuitos noutros lugares do mundo, o religioso não pode não levar a sério o
seu voto de pobreza. Então como é que os religiosos e mais ainda os monges
devem viver a pobreza? As pessoas que vivem na proximidade dos mosteiros devem
poder compreender que os monges vivem seu voto de pobreza com a renúncia
radical ao direito de propriedade individual, e ao uso pessoal dos lucros de
seu trabalho, e também partilhando praticamente seus bens com os outros. Em
todo o caso esta interpelação de uma de nossas anciãs na vida monástica na
África, nos interroga a todos : ‘Que nossos irmãos não possam dizer de nós,
vendo-nos lidar com as coisas : como eles são agarrados ao dinheiro!’ Ou ainda,
que não façam nunca a reflexão de uma religiosa sobre uma co-irmã : ‘Ela pensa
em ganhar dinheiro, antes de pensar na salvação das almas’.
O desafio do
voto de obediência
Eis o que
constatou o professor Michael Hochschild depois de uma pesquisa a vários
mosteiros europeus : ‘Um observador de fora gostaria de encontrar humildade e
obediência na vida monástica, mas na realidade, a maior parte das vezes o que
se vê é autonomia individual e auto realização’. Esta constatação pode aplicar-se
também à realidade dos mosteiros na África, e mais especialmente na África
Ocidental. O individualismo instala-se, abafa a dimensão do testemunho
profético, ligado ao voto de obediência, como aos outros dois votos. No entanto
deve-se chegar a conciliar o dinamismo, o sentido da responsabilidade, o
espírito de iniciativa com o espírito da obediência. Tem que se chegar a uma
obediência cristã madura, despossuída de vontade própria, não temerosa, nem
servil ou hipócrita, ou com reservas para o futuro, como por exemplo : ‘quando
for professo perpétuo, poderei fazer o que quero’. Neste ponto de vista é
importantíssimo que a formação monástica ajuda o candidato a chegar a uma
obediência adulta, pensada e querida.
O desafio da
vida fraterna
A vida
fraterna é o terreno de combate dia a dia. Os desafios são múltiplos e os
obstáculos não faltam. Uma das ameaças à vida fraterna e comunitária é o
individualismo. Quando só se pensa em si e no seu trabalho, a vida comunitária
depressa se torna secundária, e até obstáculo para o uso do tempo. De fato há
monges que pensam que trabalham muito e duro, que prestam serviço aos outros.
No entanto o que se vê na realidade? Não se interessam pelos outros, nem pela
vida dos outros. Agindo assim a comunidade perde o élan vital, ‘a comunidade se
desfaz e há cada vez menos interesse pela comunidade’. Tem que se entender que
a vida monástica cenobítica não pode ser entendida e vivida, sem se ter em
conta as relações inter pessoais na comunidade. Podem ainda surgir outras dificuldades
: dificuldades de comunicação às vezes ligadas à diferença de gerações,
rivalidades, sede de dominar, falta de escuta e de acolhimento mútuo. Neste
campo das relações interpessoais, a observação do dominicano Sidbe Semporé deve
interpelar-nos : ‘As pessoas tomam-nos como exemplo, e quando se fala de
santidade olham para nós espontaneamente. Mas será que somos cristãos de
verdade?’.
A questão da
autonomia econômica nos Mosteiros da África Ocidental
Os mosteiros
da Àfrica Ocidental continuam a dizer que para as necessidades da vida
cotidiana, cada um (mosteiro) pode ser autônomo com seu trabalho, mas o
problema vem quando há despesas excecionais, como por exemplo uma construção,
ou a compra de materiais. Há aqui um problema de organização e de formação a
resolver. O monaquismo na África não pode pretender ser autônomo,
negligenciando a questão econômica. O projeto econômico para o futuro dos
mosteiros na África deve ser objeto de um estudo mais aprofundado. Muitas vezes
se dá como modelo mosteiros europeus florescentes a nível econômico. Seria
interessante apresentar igualmente mosteiros com um nível econômico reduzido,
às vezes com dívidas, e que vivem com isso, e não estão sempre a pedir. Em todo
o caso, hoje, não se pode contar com benfeitores, que seja a AIM ou outros
organismos, ou pessoas para substituir máquinas, ou fazer uma construção. É
importante que as comunidades saibam prever um orçamento, amortizações para
poder substituir o que for preciso.
Falando de
ajuda, os mosteiros da África receberam muitíssimo da AIM-Internacional. Hoje
seria interessante pensar numa AIM-Africana, como queria o Padre Boniface Tiguila,
fundador do Mosteiro da Encarnação de Agbang, no Togo, quando da sua
intervenção na celebração do jubileu de Ouro da AIM em 2011. A Intenção não é
substituir a AIM-Internacional. A nível do dar e receber os mosteiros africanos
podem fazer algo. Internamente, na África, esta estrutura poderia dar sua
contribuição, mesmo pequena, aos mosteiros que precisam (pensamos no dom da
viúva). Os mosteiros da África não podem esperar ser florescentes para pôr em
pé tal estrutura. Pensemos seriamente nisso. E esperamos que AIM-África
existirá em breve!
Um modelo de
mosteiro para a África
A África vive
uma situação de pobreza que ninguém pode esconder. Em tais circunstâncias, um
nível de vida austero pode parecer burguês. A riqueza, mesmo relativa, longe de
ser entendida, vai ser exagerada pelas pessoas de fora. É necessário estar
atento às condições de desenvolvimento de cada região e fazer tudo para que o
testemunho coletivo de pobreza interpela a população (cf Perfectae Caritatis 13;
Can 640). Se a vida monástica quer ser profética, tem de levar esta realidade a
sério.
Neste sentido
não seria bom repensar as fundações e o funcionamento dos mosteiros na África
Ocidental? Não se poderá pensar a possibilidade de viver plenamente a vida
monástica em pequenas comunidades? Será que toda a nova fundação tem de ser
necessariamente chamada a tornar-se uma grande comunidade, para que se tenha a
possibilidade de uma vida monástica autêntica? Ao lado dos grandes mosteiros de
tipo clássico, não haveria lugar para opções mais leves, comunidades mais
pequenas com uma perspectiva de investimento e de crescimento limitado? Estas
perguntas já foram muito bem colocadas no primeiro encontro dos superiores
monásticos da África, que se reuniu em Bouaké em 1964.
Uma tal
perspectiva exige uma reflexão séria, e também experiências audaciosas.
Pequenas comunidades monásticas próximas das aldeias, com o mesmo nível de vida
e casas idênticas, tanto quanto possível, poderia deixar transparecer o
verdadeiro rosto do monaquismo e fim que procura. Com uma moradia menos
impressionante e um gênero de vida mais simples, estas pequenas comunidades
poderiam dar o testemunho efetivo de uma verdadeira pobreza, que seria aos
olhos de todos que os vissem viver, o sinal mais sensível da caducidade das
coisas da terra. Como comunidades de oração e de trabalho poderiam ter uma
grande irradiação ao meio das populações à volta.
As relações
do monge africano com sua família
Diante da
família biológica, as pessoas consagradas africanas vivem alegrias e dores na
procura de uma harmonia que esteja de acordo com sua consagração. Embora tenham
deixado tudo para seguir o Cristo, é verdade que os problemas da família lhes
atingem, e lhes tocam. Assim, certos religiosos africanos, que vêm de famílias
pobres, sofrem por viver numa situação melhor que a da família, que fica num
estado primitivo, incapaz de chegar aos bens materiais. Por causa deste
sofrimento, alguns deixam a vida religiosa, outros enganam, roubam para ajudar
as famílias e outros não chegam nunca a se sentirem realizados. Os monges não
são poupados a esta situação. Constata-se muitas vezes que depois de uma visita
à família, certos irmãos ficam perturbados, não se sentem bem, por causa dos
problemas e das dificuldades da família. É uma questão muito delicada, que
merece uma atenção especial e uma resposta concreta. É verdade que a Regra não
prevê nada neste sentido, mas não se pode ignorar tal situação, que na África,
é um verdadeiro problema.
As exigências
monásticas face à invasão do mundo atual
O mundo vive
hoje uma mutação muito característica gerada pela globalização, que no seu
conjunto dá uma visão do mundo em bloco. A globalização não toca só a economia,
mas alarga-se para a cultura e cria uma espécie de cultura global, que não
deixa ninguém indiferente. O novo contexto socio cultural gerado desta maneira
exerceu uma influência imediata sobre a vida consagrada, e mais particularmente
sobre a vida monástica. Certos comportamentos e usos que o monge sempre
considerou essenciais são assim postos duramente à prova. Ao mesmo tempo que as
oportunidades do mundo moderno prestam enormes serviços, são uma ameaça
permanente para a clausura, e também para o silêncio tanto interior, como
exterior. Poderíamos nos perguntar o que acontece com o silêncio monástico num
mundo em que a comunicação super-rápida invade tudo? Como não se tornar dependente
do computador, do WhatsApp, do Facebook… internet? Sem querer se
fechar às riquezas e vantagens da globalização, é bom olhar com lucidez os
problemas, que tudo isso causa. (cf Vita Consecrata 99)
O monge não pode negar, de modo nenhum, os valores essenciais e os usos e costumes importantes de seu gênero de vida. É preciso que esteja bem enraizado na sua vida monástica. É assim convidado a prestar contas de sua identidade, sendo realmente aquilo que é. Só assim a vida monástica será um testemunho das exigências do Reino de Deus e de sua presença no meio dos homens, e será capaz de interrogar o mundo atual.
Os diversos
desafios mencionados ajudam a compreender a urgência de uma resposta eficaz,
por parte dos monges e monjas da sub-região da África Ocidental, resposta que
deve partir da maturidade dos monges e de seu enraizamento na vida monástica.
A África
precisa de homens e de mulheres que sejam capazes de dar testemunho das Bem
aventuranças e do primado do Absoluto até ao dom total. Esta espera só será
cumulada na medida em que os monges se tornem sempre mais conscientes da
riqueza da vocação, que o Senhor lhes deu, e portanto da missão que lhes é
confiada na Igreja e no mundo. É preciso que reafirmem sem cessar seu carisma
particular, esforcem-se por ter dele uma visão clara e a vivam cotidianamente.
Então poderão dar a resposta que o nosso tempo espera, e poderão ser o que são.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.aimintl.org/pt/communication/report/123
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