Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Nos últimos anos, o mundo parece ter voltado a
colocar questões que pensávamos estarem enterradas sob a modernidade e a
secularização : o que significa viver com sentido? Qual é a nossa relação com o
divino? Guerras, pobreza, migrações, crises ecológicas e económicas abalaram as
nossas certezas, colocando em primeiro plano a fragilidade e a vulnerabilidade
do ser humano. E, nesta tensão, muitas mulheres estão a assumir um diálogo
antigo e novo ao mesmo tempo : o regresso ao sagrado, ou pelo menos a uma forma
de espiritualidade que não se limite à ausência de fé, mas que se torne uma
experiência concreta, vivida, prática.
Não é por acaso que, como observa Emilia Palladino,
professora de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é
precisamente o medo – uma emoção originária, necessária à sobrevivência – que
reabre o espaço da espiritualidade. Num mundo marcado pelo mistério e pela
incerteza, a busca de um ‘além’ torna-se uma forma de atravessar esse medo sem
sermos por ele dominados. A espiritualidade, escreve ela, não o cancela, mas
orienta-o, transforma-o numa alavanca para continuar a viver e a procurar
sentido.
Os testemunhos reunidos neste número mostram uma
pluralidade de perspectivas. Cécile, ajoelhada diante da Capela de Nossa Senhora
da Medalha Milagrosa em Paris, tem nas mãos um caderno com os nomes de entes
queridos desaparecidos na guerra no Sudão. O seu corpo estremece como num
soluço abafado, mas a oração torna-se um gesto de resistência, memória e
esperança. Nesta cena, tão concreta e poderosa, o sagrado não é abstrato : é
cuidado, atenção, presença. E é guardado por mulheres, pelas religiosas que
gerem a capela, mas também por quem reza sozinho, em silêncio.
A professora Valérie Aubourg, que dirige a nova
Faculdade Eclesiástica de Ciências Sociais da Universidade Católica de Lyon,
ajuda-nos a interpretar este fenómeno com um olhar mais amplo. Após o Concílio
Vaticano II, muitas práticas visíveis – peregrinações, gestos de devoção –
foram postas de lado como formas antiquadas. Hoje, também graças à chegada dos
migrantes católicos, estas práticas ressurgem, mas sob novas formas : muitas
vezes individualizadas, interiorizadas, mas capazes de devolver sentido à
comunidade e ao rito. Peregrinações, estátuas, cerimônias religiosas : não são
um regresso nostálgico, mas uma reinvenção do sagrado, onde as mulheres são
frequentemente protagonistas na transmissão de gestos e significados.
Também na sociedade laica, o debate está vivo.
Flavia Trupia, crente que se dedica à comunicação e à retórica, observa que a
religião católica continua a ser uma lição de amor e respeito impossível de
substituir. No entanto, muitas mulheres como ela mantêm-se distantes das
instituições, atraídas pela espiritualidade, mas não pelos rituais
hierárquicos. Então a questão é : se há espaço para falar de Deus, será este o
momento das mulheres? Será a sua voz que hoje pode redefinir o sagrado,
tornando-o acessível, inclusivo e capaz de responder aos dilemas concretos do
nosso tempo?
É uma questão que atravessa também a Igreja a
partir de dentro. A jovem teóloga Paola Franchina diz isso com palavras claras :
«Sou católica, mas não quero ser um eco». A sua reflexão realça um ponto
crucial : a presença das mulheres é ampla, mas o seu acesso aos lugares de
decisão permanece limitado. Não é apenas uma questão de visibilidade, mas de
poder, de reconhecimento real da capacidade de influenciar. Permanecer na
Igreja, para muitas, não é uma adesão passiva, mas uma escolha consciente,
muitas vezes árdua : uma forma de pertença acompanhada pelo desejo de
transformação. Uma voz que não se limita a ressoar, mas que pede para ser
ouvida.
Não é por acaso que a cultura contemporânea explora
tensões semelhantes. No cinema, o realizador vencedor de um Óscar, Paolo
Sorrentino, coloca uma questão essencial : de quem são os nossos dias? É a
interrogação que atravessa o seu último filme, La grazia, onde a ‘graça’
não é apenas um conceito jurídico, mas uma dimensão interior, capaz de salvar
sem ter de explicar. É uma pergunta que ressoa profundamente no nosso tempo,
intercetando uma busca generalizada de sentido, suspensa entre fé, dúvida e
desejo.
Esta mesma tensão é também visível em algumas
experiências artísticas atuais, onde o sagrado se mistura com a vida pessoal e
a busca interior. Na obra da cantora espanhola Rosalía, por exemplo, a
espiritualidade sobressai através de diversas referências, que vão desde as
santas cristãs até figuras como Simone Weil. São presenças que se tornam pontos
de referência interiores. A oração, aprendida em criança ao lado da avó,
regressa como um gesto simples e diário. Ao mesmo tempo, a música torna-se um
espaço onde o divino é procurado, evocado e, por vezes, até questionado. Não se
trata de uma fé ostentada ou rígida, mas de algo autêntico, que passa pelo
corpo, pela voz e pela memória.
Neste sentido, a sua busca dialoga profundamente
com a de tantas mulheres : uma espiritualidade que não se limita a guardar o
passado, mas que o reelabora, o põe em movimento. As peregrinações já não
coincidem necessariamente com os percursos tradicionais rumo a destinos
sagrados codificados, mas assumem novas formas, muitas vezes pessoais e
informais : caminhos sem destinos pré-estabelecidos, viagens lentas pela
natureza, experiências de silêncio ou de busca interior que cada um constrói de
acordo com a própria necessidade de sentido. Nestes percursos, tal como nos
gestos quotidianos de cuidado — dedicar tempo a si próprio, aos outros, ao que
nos rodeia — o sagrado não se apresenta como algo separado ou já definido, mas
como uma experiência encarnada, que ganha forma na vida concreta. É um sagrado
nunca definitivo, que não se deixa fixar de uma vez por todas, mas permanece
sempre em devir, aberto, em contínua transformação.
Este número de Mulheres Igreja Mundo não
pretende sintetizar todas as vozes. As entrevistas, reportagens e relatos de
viagem aqui reunidos mostram uma pluralidade de abordagens : quem se aproxima
de uma espiritualidade pessoal, quem redescobre práticas antigas com novos
olhos, quem dialoga com a religião através da cultura e da filosofia. Em todas
elas, porém, percebe-se um elemento comum : a necessidade de sentido, de comunidade
e de beleza. E são as mulheres que encarnam, hoje, muitas dessas práticas,
tanto dentro das instituições como fora delas, com uma liberdade de escolha que
torna a sua espiritualidade original e poderosa.
Talvez os nossos dias pertençam realmente àqueles
que sabem ouvir, rezar, guardar a memória e a esperança. O sagrado é gesto
concreto, cuidado, atenção ao outro e graça de ânimo. E talvez, nesta época de
questões globais e tensões íntimas, as mulheres sejam a voz que fala ao
presente, reinventando o diálogo entre o céu e a terra, entre a fé e a vida.’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-05/dcm-005/a-necessidade-de-sentido.html
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