Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘O Sudão está cada vez mais dilacerado por uma
guerra sangrenta que, em três anos, gerou a mais grave crise de deslocados do
mundo. Os combates diminuem em algumas áreas do país, mas intensificam-se
noutras, gerando deslocamentos contínuos de pessoas desesperadamente à procura
de lugares seguros.
Pelo menos 15 milhões de sudaneses foram forçados a
abandonar as suas casas desde 15 de abril de 2023 : mais de 11 milhões são
deslocados internos e 4 milhões procuram refúgio nos países vizinhos. Segundo o
Alto comissariado da Onu para os refugiados (Acnur), atualmente um em cada
quatro sudaneses está deslocado : para muitos deles trata-se de um ciclo
repetido de fuga em busca de uma relativa segurança, antes de terem de fugir
novamente.
«O conflito está muito aceso no Darfur, no Cordofão
e, nas últimas semanas, estendeu-se à zona do Blue Nile, ou seja, na parte este
do país, perto da fronteira com a Etiópia», declara aos meios de comunicação do
Vaticano Antonia Vadalà, associate reporting officer do Acnur no Sudão,
salientando, por outro lado, que algumas zonas estão a recuperar, com
dificuldade, uma relativa estabilidade : «Em Cartum (reconquistada em março de
2025 pelas Forças armadas sudanesas após sangrentas batalhas com as Forças de
apoio rápido, n.d.r) regressaram mais de um milhão e meio de
pessoas e há estados como Al Jazira e Sennar, no sudeste, que no início da
guerra eram muito atingidos pelos combates, mas que agora se encontram mais
estáveis».
Vadalà trabalha em Kofti, no estado meridional do
White Nile, perto da fronteira com o Sudão do Sul. «Kofti encontra-se neste
momento numa posição intermédia — explica-nos ao telefone —: é uma cidade mais
ou menos estável, embora tenhamos assistido a um aumento dos ataques com drones
nas últimas semanas e esteja muito próxima do Cordofão. Por isso, temos fluxos
diários de deslocados internos que chegam das zonas de conflito aberto no
Cordofão central e meridional. No White Nile, contabilizamos cerca de 400.000
deslocados internos e, além disso, temos os refugiados que chegam do Sudão do
Sul, onde também se verifica um aumento das hostilidades e onde o conflito
recomeçou no estado do Alto Nilo. Temos dez campos que acolhem outros 400.000
refugiados do Sudão do Sul. Portanto, há cerca de 800.000 deslocados no Estado
do White Nile, com chegadas diárias a aumentar». Estes números em crescimento
devem-se, além dos combates nas regiões limítrofes e no vizinho Sudão do Sul,
também aos refugiados sudaneses que regressam «Porque os sudaneses querem voltar para o seu
país e, sempre que veem uma oportunidade, aproveitam-na».
O Acnur acolhe estas pessoas com tendas,
alojamentos comunitários e bens de primeira necessidade. «Vão desde kits para
cozinhar a colchões para dormir ou baldes para recolher a água — conta Vadalà
—. As pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, chegam em condições
terríveis e num grave estado de trauma psicológico e, em alguns casos, também
físico; por isso, há um empenho de encaminha-las para as estruturas competentes
onde possam receber o apoio necessário».
As crianças, juntamente com as mulheres, são
aquelas que mais sofrem com o conflito. «Muitas delas acabaram separadas das
próprias famílias — sublinha a operadora humanitária do Acnur —. Estima-se, por
exemplo, que cerca de 58.000 crianças tenham chegado sozinhas aos países
vizinhos, atravessando fronteiras, separadas das suas famílias durante a fuga,
e muitas delas encontraram-se também feridas e profundamente traumatizadas». E
depois há todo o problema ligado à educação : «Por um lado, as crianças veem-se
praticamente obrigadas a tornar-se adultas devido ao conflito e a ter de ajudar
as suas famílias também do ponto de vista laboral; por outro, as escolas, em
muitos casos, foram transformadas em campos para deslocados, pelo que há todo
um trabalho a fazer para devolver às salas de aula o seu papel de espaços de
ensino e para reconstruir um sistema educativo necessário a fim de devolver a
estas crianças um futuro».
Mas sobre as perspectivas de um futuro melhor pesa
também a escassa atenção internacional e o corte nos financiamentos ao
desenvolvimento. «Trata-se de um corte real — garante a associate officer do
Acnur —. Desde janeiro tivemos realmente pouquíssimos fundos disponíveis e
fomos obrigados a escolher entre as intervenções a realizar. O Acnur recebeu
apenas 16 por cento dos fundos de que necessita e já estamos em meados de
abril».
O conflito no Médio Oriente e o encerramento do
estreito de Ormuz também têm um forte impacto no martirizado Sudão. «Vimo-lo nas
últimas semanas, sobretudo com o aumento do preço do petróleo e,
consequentemente, da gasolina, que obviamente teve um impacto direto na época
agrícola no Sudão, porque este é o período em que se começam a trabalhar os
campos com máquinas agrícolas, mas também com o aumento dos preços dos
fertilizantes. Assim, sentimos na prática o impacto da guerra e temos a certeza
de que também afetará a produção agrícola deste ano no Sudão».’
Fonte : *Artigo na íntegra
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