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domingo, 2 de novembro de 2025

Economia e vida monástica

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Benoît-Joseph Pons


Os mosteiros para uma economia alternativa e sustentável [1]

Princípios da economia monástica

‘Como um grupo de homens ou mulheres que praticam um modo de vida baseado em princípios econômicos opostos aos do modelo atual pode inspirar soluções para os problemas que o mundo de hoje enfrenta? Este é o objetivo da apresentação seguinte.

A vida monástica se baseia em quatro pilares que são a oração, o trabalho, a lectio divina e a vida comunitária. A lectio é a leitura de um texto de natureza espiritual, seguido de uma reflexão pessoal, uma meditação e possivelmente uma oração inspirada por este texto. Os monges geralmente dedicam entre uma e duas horas a esta atividade. A economia monástica é construída em torno destes quatro pilares e se baseia em dois princípios essenciais : a desapropriação e a economia das necessidades. 

A desapropriação

Na Regra de São Bento, a desapropriação se baseia no objetivo de «nada preferir ao amor de Cristo». Ela é expressa de forma prática pelos dois seguintes preceitos :

«Antes de tudo, o vício da propriedade deve ser cortado do mosteiro pela raiz», e «Que tudo seja comum a todos, como está escrito. Que ninguém diga nem tenha a presunção de achar que alguma coisa lhe pertence» (RB 33,6).

A Regra diz também :

«Que ninguém ouse dar ou receber alguma coisa sem a permissão do abade; nem ter nada próprio, nada absolutamente, já que não é lícito ter a seu arbítrio nem o próprio corpo nem a vontade» (RB 33,2-4).

Em outras palavras, o monge não deve possuir nada de próprio, nem bens materiais nem imateriais. Não dispor do corpo conduz à castidade, não dispor da vontade conduz à obediência. Na prática, não possuir os bens que são colocados à sua disposição obriga o monge a tomar o maior cuidado possível com eles. A Regra pede ao celeireiro que «considere todos os objetos e bens do mosteiro como vasos sagrados do altar» (RB 31,10). Também diz :

«Se alguém deixar as coisas do mosteiro sujas ou as tratar com negligência, será repreendido» (RB 32,4).

A desapropriação monástica gera a necessidade de solidariedade e de não competição profissional. Um ofício é um serviço do qual ninguém é o proprietário. É dado pelo abade, de acordo com as habilidades da pessoa e as necessidades do mosteiro. Ele não dá ocasião para nenhum benefício pessoal.

Muitos mosteiros praticam a «colação dos ofícios». A cada três anos, ou sempre que necessário, cada monge remete seu ofício ao abade, que decide se o mantém naquele ofício ou se lhe dá um outro. Não se trata de uma decisão arbitrária; ela é discutida com o Conselho - os monges que ajudam o abade em suas escolhas - e em consulta com as pessoas envolvidas. Mas todo monge sabe que, em algum momento de sua vida, pode ocupar uma posição importante e depois ser-lhe atribuída uma função muito mais modesta. No mosteiro, não se faz uma carreira.

A ideia de não colocar a competição no centro das relações interpessoais é amplamente desenvolvida na Encíclica do Papa Francisco, Fratelli tutti, uma ideia inspirada em São Francisco :

«Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos» (FT 4). 

A economia das necessidades

A economia das necessidades é definida no capítulo 34 da Regra, intitulado : «Se todos devem receber igualmente o necessário». Ela se baseia na ideia de um retorno ao tempo idílico dos primeiros cristãos descritos nos Atos dos Apóstolos : «Repartia-se para cada um conforme lhe era necessário» (Atos 4,35; RB 34,1).

Não é uma questão de considerar todas as pessoas como números idênticos. Pelo contrário, cada pessoa é diferente e tem necessidades particulares. A Regra diz :

«Quem precisar de menos dê graças a Deus e não se entristeça; quem precisar de mais, humilhe-se em sua fraqueza e não se orgulhe por causa da misericórdia que obteve» (RB 34,3-5).

A economia das necessidades monásticas é dupla : cada um recebe de acordo com suas necessidades, e cada um contribui de acordo com seus meios. Assim, a cada membro da comunidade não é dada a mesma coisa. Eles recebem o que precisam, de acordo com sua própria situação. Na organização do trabalho dos monges : aquele que é jovem e talentoso oferece tudo o que pode; aquele que é mais velho e com menos possibilidades contribui de acordo com seus meios.

Nas lojas ou oficinas monásticas, o trabalho do monge dá origem a uma remuneração da comunidade. Mas esta remuneração não está ligada ao valor do trabalho realizado. É calculado sobre as necessidades de uma pessoa que trabalha, da mesma forma, quer o trabalho seja básico ou altamente qualificado. 

A economia monástica como uma economia alternativa e sustentável

Estes dois princípios operacionais fazem do mosteiro uma sociedade especial. Não é um conservatório de costumes de outra época, porque é um lugar onde vivemos no presente. Não é um laboratório porque não é um lugar de experimentação social. É o lugar de uma economia alternativa, porque questiona o mundo sobre suas práticas e tenta inspirar soluções para os novos problemas. Aqui, vou limitar-me à questão do trabalho.

O trabalho

No mundo, o trabalho serve para produzir bens e fornecer uma remuneração para a compra de outros bens. Esta é a base para o funcionamento da economia liberal. Esta troca de mercadorias é uma oportunidade para a comunicação entre as pessoas. O trabalho contribui para o estabelecimento de uma hierarquia social e é um elemento de reconhecimento, da parte dos outros e de si mesmo.

Karl Marx define três formas de alienação no trabalho : quando a remuneração representa apenas uma pequena parte do valor dos bens produzidos, quando o trabalho visa apenas a obtenção de um salário, quando o trabalhador não pode realizar uma atividade física e intelectual que seja livre.

No mosteiro, a desapropriação provoca uma completa dissociação entre trabalho e remuneração. Com este modo de operação, as três formas de alienação do trabalho desaparecem : visto que o monge não recebe remuneração, ele não a compara ao valor do que produziu; o trabalho que ele faz não visa principalmente a obtenção de um salário; finalmente, o trabalho monástico é geralmente de tipo artesanal, o que deixa ao trabalhador mais liberdade de ação do que o trabalho em linha de montagem.

Podemos atribuir ao trabalho três finalidades : trabalhar para ganhar a vida, trabalhar para ser reconhecido pelos outros e por si mesmo e, tratando-se de um cristão, trabalhar para participar da obra criadora de Deus.

Trabalhar para ganhar a vida

John Galbraith sublinha um paradoxo :

«A palavra ‘trabalho’ é aplicada simultaneamente àqueles para quem o trabalho é exaustivo, entediante, desagradável e para aqueles que manifestam evidente prazer e não provam nenhuma repulsão nele. ‘Trabalho’ refere-se tanto à obrigação imposta a alguns como à fonte de prestígio e alta remuneração que outros anseiam e desfrutam» [2].

Na economia liberal, a remuneração é definida pelas duas únicas forças reconhecidas, o Mercado e a Lei. É o Mercado que define os valores globalmente; a Lei os regulamenta de forma a limitar abusos : salário-mínimo, remuneração dos estagiários, limitação do horário de trabalho, proibição do trabalho infantil, etc. A Lei é relativamente eficaz na regulamentação dos baixos salários. É totalmente ineficaz no controle de altas rendas.

Os monges de hoje não querem viver de caridade pública, por isso estão cientes da necessidade de trabalhar para apoiar sua comunidade. Mas como o trabalho não proporciona nenhum benefício pessoal, remuneração ou consideração, a natureza do trabalho realizado torna-se menos importante : administrar o economato ou varrer o claustro não são fundamentalmente diferentes. Eles são apenas serviços correspondentes às habilidades do titular e à necessidade da comunidade. Portanto, não há competição por cargos.

 Trabalhar para ser reconhecido

Além do salário, o reconhecimento é uma motivação importante. Mas o valor do salário é, na prática, um elemento deste reconhecimento. A busca pelo reconhecimento no trabalho muitas vezes se traduz na busca pelo poder, seja pela imagem que se dá de si mesmo ou pelos benefícios materiais que se obtém. No mundo, o poder é medido em termos do número de pessoas que se tem sob o seu comando, o número de negócios que se dirige, etc. A imagem que se dá à família e aos amigos é muito importante e pode influenciar muito o comportamento. Cada um obtém um reconhecimento pessoal através do sentimento de ser útil para sua empresa, sua família e sua comunidade.

Ao contrário do que acontece com os salários, o trabalho como meio de realização pessoal é importante para os monges. Aquele que realiza um trabalho útil para a comunidade aprecia o reconhecimento da parte dela, mas se não o consegue, torna-se uma ascese.

Trabalhar para participar da obra criadora de Deus

Na visão cristã, o homem foi criado à imagem de Deus.

«Deus disse : ‘Façamos o homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança. Que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais da terra e tudo o que rasteja pela terra’» (Gn 1,26).

O fato de o homem ter sido criado à imagem de Deus lhe confere uma dignidade especial. Esta dignidade não se baseia em seus bens, seu sucesso, sua aparência. A autoridade que lhe é atribuída é à imagem da autoridade de Deus, uma autoridade de amor. A teologia da criação contínua se opõe à ideia de que a criação é apenas a construção de uma enorme máquina que funcionaria por si só. Deus continua a intervir no mundo, e o homem, criado à sua imagem, é chamado a contribuir para esta intervenção.

O homem, criado à imagem de Deus, participa da obra do Criador através de seu trabalho, e continua, na medida de suas possibilidades, a desenvolvê-la e completa-la, progredindo na descoberta dos recursos e valores incluídos em todo o mundo criado.

Assim, o trabalho, especialmente em sua concepção monástica, não é simplesmente utilitário e individualista : ganhar a vida e obter reconhecimento. É realizar uma obra, como entende Hannah Arendt. É uma visão comunitária, porque o que conta é o que se traz para o mundo.

No século XIX, se desenvolveu a expressão «trabalho beneditino», que significa um trabalho longo, que exige muita paciência. É a preocupação com o trabalho bem feito, que está ligada à obrigação de cuidar de todos os bens do mosteiro. O conceito beneditino do trabalho implica em se dedicar ao que é útil. Evitar de se ocupar com zelo e piedade do «nada». Dom Bertrand Rolin explica, com relação ao capítulo 48 da Regra, intitulado «Do trabalho manual quotidiano» :

«O que é importante neste capítulo é que se trata de um trabalho ‘verdadeiro’. E o trabalho ‘verdadeiro’ é aquele ‘a ser feito’, diz a Regra, ou seja, aquele que é útil para a vida da comunidade e para sua ação, qualquer que seja o seu valor segundo os critérios da sociedade» [4]

Com que frequência fazemos coisas que são perfeitamente inúteis, mas que nos fazem parecer bem porque demonstram nossos talentos?

Trabalho e remuneração

Na economia monástica há uma completa desconexão entre trabalho e remuneração, o que não é o caso no mundo. No mosteiro, o abade tem que encontrar uma pessoa para cada trabalho e dar uma função a cada pessoa. Em princípio, não há desemprego. Isto tem duas consequências. A primeira é que a existência de uma função não depende do equilíbrio entre o que ela custa e o que ela beneficia. Mesmo que cultivar uma horta custe mais do que comprar legumes no supermercado, vale a pena considerar o fato de que ela proporciona trabalho para alguém. A segunda é a questão do desemprego e sua indenização. Damos prioridade à redução do desemprego ou à sua indenização? A política tradicional pode sugerir que a luta contra o desemprego é, em certa medida, desviada por uma boa indenização dos desempregados. As ações contra o desemprego muitas vezes parecem ser impulsionadas principalmente pela necessidade de reduzir o custo da indenização. Entretanto, como vimos, o trabalho é certamente uma fonte de renda, mas não a única. Indenizar os desempregados é necessário, mas não é suficiente : é preciso dar-lhes trabalho. É uma questão de dignidade, como expressa pelo Papa Francisco em Fratelli tutti.

Conclusão sobre o trabalho

O conceito monástico de trabalho não se aplica apenas aos monges. Ele inspira os oblatos, esses leigos que, ligados a uma comunidade, procuram viver a Regra no mundo. Ele se baseia em um ensino derivado da tradição, mas também em uma adaptação ao mundo atual. Os monges não hesitam em utilizar máquinas ultra modernas em suas oficinas. Esse conceito pretende inspirar o mundo a progredir, inspirar a todos, cristãos ou não cristãos, de maneiras diferentes.

Gostaria de enfatizar a ideia de que o trabalho não deve ser apenas uma fonte de renda. O trabalho deve ser um elemento de desenvolvimento pessoal. E este desenvolvimento pessoal inclui ser útil para a comunidade. Para um trabalhador de base, é necessário que ele seja capaz de se orgulhar daquilo que faz. Para alguém com responsabilidades hierárquicas, é necessário que ele organize o trabalho de seus colaboradores para que possam florescer naquilo que fazem. Para os políticos e as administrações, não é somente preciso indenizar o desempregado, mas reduzir o desemprego.

Por outro lado, o trabalho deve dar à pessoa uma vida digna. Os movimentos do Comércio equitativo ou dos AMAP [5] trabalham em prol deste objetivo.

O trabalho não deve ser um lugar de competição, mas um lugar de cooperação.

Finalmente, trabalhar mais para ganhar mais, consumir mais não é uma abordagem responsável, a partir do momento que se obtenha as necessidades. Isto levanta a questão do lugar do crescimento em nossas análises econômicas. Levanta também a questão da publicidade. Um aspecto moderno da clausura monástica consiste em se preservar dos incentivos ao consumo, em particular limitando o acesso à Internet. A publicidade não é ruim em si mesma, mas seu uso deve ser controlado.

 A recepção da Encíclica Laudato si’ nos mosteiros

A publicação pelo Papa Francisco da Encíclica Laudato si’ provocou uma onda de entusiasmo nos círculos ecologistas, mesmo não-cristãos. Eles encontraram nela uma confirmação de seu discurso, passando voluntariamente os pontos que os perturbavam, como a defesa da vida. Paradoxalmente, nos círculos monásticos, a Encíclica demorou a se impor, enquanto que os documentos do magistério são geralmente recebidos aí muito favoravelmente. Para tentar entender este paradoxo, apresento uma hipótese : enquanto os militantes ecologistas viram na Encíclica uma verdadeira revolução na doutrina social da Igreja, os monges inicialmente a viram como uma nova expressão do que eles vivem diariamente desde as origens.

A vida monástica é uma vida de oração, essencialmente comunitária, baseada no canto dos salmos. O saltério contém 150 salmos; os monges normalmente os cantam em sua totalidade a cada semana. Vários autores trabalharam sobre a ecologia nos salmos. Alguns falam de salmos ecológicos, outros de salmos da natureza ou salmos da criação. Cinquenta e um salmos se enquadram em pelo menos uma dessas três categorias; em outras palavras, uma parte significativa do saltério é ecológica. Portanto, um monge, a menos que esteja cantando sem levar em conta o que está cantando, é necessariamente um ecologista, talvez sem conhecê-lo ou reconhecê-lo.

Após algum tempo de maturação, muitos mosteiros adotaram Laudato si’, quando descobriram que se tratava de uma brilhante formulação daquilo que eles tentam viver e que isso os ajudava a progredir.

A principal contribuição da economia monástica para a questão ecológica é a «sobriedade feliz». Esta é uma expressão desenvolvida por Pierre Rabhi [6], mas que, de certa forma, é parte integrante da espiritualidade monástica desde suas origens. Para Pierre Rabhi, os recursos do planeta são limitados. Os recursos fósseis não são renováveis e a capacidade da biosfera de absorver a poluição é limitada.

A noção de limite é constitutiva da fé cristã, já em Gênesis Deus diz : «Podes comer de todas as árvores do jardim, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás» (Gn 2,16-17). Esta noção de limite se opõe à ideia de que a tecnociência dará ao homem um poder ilimitado sobre seu ambiente. Em Laudato si’ o Papa Francisco afirma que o desenvolvimento tecnológico é bom, mas somente na condição de que seja «acompanhado por um desenvolvimento do ser humano em responsabilidade, em valores, em consciência».

Pierre Rabhi afirma que o crescimento econômico é irrealista e absurdo : é um modelo que traz a morte. É necessário, portanto, estabelecer uma política de civilização baseada na sobriedade. Devemos satisfazer nossas necessidades vitais com os meios mais simples e saudáveis. Laudato si’ diz a mesma coisa quando fala sobre a necessidade de conversão dos corações. Em linguagem cristã, a sobriedade feliz de Pierre Rabhi se resume no respeito pela criação e na preocupação pelas gerações futuras, às quais devemos deixar um ambiente habitável.

Mas a sobriedade feliz monástica difere da sobriedade feliz ecologista. Enquanto os ecologistas a baseiam principalmente na proteção dos recursos naturais e do meio ambiente, os monges a baseiam também em um aspecto social : consumir o supérfluo significa privar os outros do necessário. Na visão de um ecologista, devemos trabalhar menos para destruir menos recursos. Isto é um decrescimento. Em uma visão monástica, é menos uma questão de trabalhar para produzir mais do que para satisfazer as próprias necessidades ou as da própria comunidade, porque é preciso ser capaz de compartilhar com aqueles que não têm os meios para produzir tudo o que precisam.

Conclusão

Nesta breve apresentação da economia monástica como economia alternativa e sustentável, identificamos alguns aspectos que podem inspirar o mundo. O valor do trabalho como meio de desenvolvimento pessoal, o dano potencial da concorrência nas relações econômicas, a busca do consumo como fonte de felicidade. Isto leva ao valor da ideia de sobriedade feliz, que deve ser considerada não apenas em seu aspecto ambiental, mas também em seu aspecto social. Como uma extensão desta proposta, a questão da desigualdade social deve ser abordada. A vida monástica nos permite evitar a armadilha de um desequilíbrio insuportável. A economia das necessidades questiona fortemente a implementação do princípio de igualdade.

A palavra «pax» é o lema beneditino. São Bento a apresenta como um bem que devemos procurar avidamente. É a palavra que melhor resume a harmonia, característica da existência do monge. No prólogo da Regra, São Bento nos pede para buscar a paz e persegui-la incessantemente; esta busca da paz está associada à busca de Deus, como dois objetivos que se fundem um no outro. A economia monástica, baseada na desapropriação, e a economia das necessidades, à qual se acrescenta a não competição e a sobriedade feliz, oferecem os meios para obter esta paz. E é a paz que torna a organização sustentável.’


[1] Benoît-Joseph Pons é um engenheiro agrícola francês. Ele começou sua carreira na indústria como pesquisador em microbiologia de alimentos. Tornou-se, depois, gerente de empresa na indústria química farmacêutica. É Mestre em Teologia e Doutor em Economia pela Faculdade de Ciências Sociais e Econômicas do Institut Catholique de Paris. Atualmente, ele é pesquisador junto da Cátedra Jean Bastaire da Université Catholique de Lyon. Em 2018, lançou o livro : ‘L'économie monastique. Une économie alternative pour notre temps’.

[2] Regra de São Bento (RB) 31, 1.

[3] John GALBRAITH, Les mensonges de l’économie – Vérité pour notre temps, Paris, Bernard Grasset, 2004, p. 34.

[4] Dom Bertrand ROLLIN, Vivre aujourd’hui la Règle de saint Benoît – Un commentaire de la Règle, Bégrolles en Mauge, Bellefontaine, coll. Vie monastique n° 16, 1983, p. 54.

[5] AMAP (Association pour le maintien d'une agriculture paysanne) destina-se a promover a agricultura camponesa e orgânica, que luta para sobreviver diante da agroindústria. O intuito é criar um vínculo direto entre os agricultores e os consumidores, que se comprometem a comprar os produtos destes últimos a um preço justo e pagando antecipadamente. [Nota do editor]

[6] Pierre Rabhi (1938-2021), agricultor, ensaísta e conferencista francês de origem argelina, é considerado um dos pioneiros da agroecologia, que visa regenerar o ambiente natural, excluindo pesticidas e fertilizantes químicos. Seus numerosos livros obtiveram grande sucesso. Ele cofundou o movimento cidadão Colibris, que convida às ações locais tais como jardins compartilhados, fazendas pedagógicas e ainda os circuitos de aprovisionamento curtos. Ele também é controverso por seus métodos não científicos, por suas ligações com a filosofia esotérica desenvolvida por Rudolf Steiner nos anos 20 (antroposofia), e por suas relações com os chefes de grandes grupos industriais. [Nota do editor]


Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/122

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

São João Bosco

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da redação da revista Ave Maria

 

‘Corria o ano de 1858 e Dom Bosco, já conhecido nos ambientes eclesiásticos e políticos italianos, estava em audiência com o Papa Pio IX para lhe apresentar seu projeto de fundação de uma congregação moderna que se dedicasse à educação da juventude. O Papa ouviu-o por um longo tempo e com muito interesse. Quis saber como ele tinha chegado àquela decisão e, no fim, depois de ter dado o seu pleno consentimento, exortou-o a escrever tudo o que lhe havia contado.

Alguns anos se passaram e em 1867 Dom Bosco foi novamente falar com o Papa; quando este lhe perguntou se ele já havia escrito a autobiografia, teve de responder que não, por causa do muito trabalho. ‘Bem!’, disse o Papa, ‘se é assim, deixe todas as outras ocupações e comece a escrevê-la. Pois agora não se trata somente de um conselho, é uma ordem’. Dom Bosco finalmente resolveu escrever Memórias, uma autobiografia que vai até a idade de 40 anos, pois não conseguiu terminá-la como era seu desejo diante do pedido do Papa. Temos o suficiente para compreender como ele se deixou guiar por Deus na construção de sua obra.

Nasceu aos 16 de agosto de 1815 em Becchi, Castelnuovo d’Asti. O pai Francisco era casado em segundas núpcias com Margarida Occhiena e deixou-o órfão com a idade de 2 anos. Mesmo entre dificuldades econômicas, a mãe viúva com três rapazes, dentre os quais um era do primeiro casamento do marido, não quis casar novamente para poder se dedicar a eles inteiramente.

Um sonho inesquecível

O pequeno João tinha apenas 9 anos quando viu em sonho, no campo em frente da casa, uma turma de rapazes que estavam brigando entre gritos e blasfêmias. Horrorizado, atirou-se sobre eles, dando murros naqueles que podia alcançar. De repente, apareceu-lhe um homem de um semblante brilhante que lhe disse : ‘Deverás torná-los amigos com bondade e caridade, não batendo neles…’. Perguntou-lhe quem era ele, ao que o homem respondeu : ‘Eu sou o filho daquela que tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia’.

‘Naquele momento’, conta Dom Bosco, ‘vi, próxima dele, uma senhora majestosa, vestida com um manto que brilhava em todas as direções, como se cada ponto fosse uma estrela muito brilhante’. A senhora fez sinal para que ele se aproximasse, pegou-o pela mão e convidou-o a olhar para o jardim, então, ele não viu mais os rapazes de antes, mas, em seu lugar, uma quantidade enorme de cabritos, cães, gatos, ursos e muitos outros animais.

‘Eis o teu campo’, disse a senhora, ‘o lugar onde deves trabalhar. Crescer humilde, forte e robusto, e isto que vês acontecer a estes animais, tu o deverás fazer pelos meus filhos’. ‘Olhei ainda’, conta Dom Bosco, ‘e eis que no lugar dos animais ferozes apareceram outros tantos cordeiros mansos, que saltavam, corriam, baliam, faziam festa ao redor daquele homem e daquela senhora. Naquele ponto, no sonho, comecei a chorar. Falei com a senhora que não entendia todas aquelas coisas. Então, ela colocou a sua mão sobre a minha cabeça e me disse : ‘No tempo certo, compreenderás tudo’. Tinha apenas dito essas palavras e um barulho me acordou. Tudo havia desaparecido’.

Foi preciso um bonito sonho para imprimir na mente de uma criança algo inesquecível. Ele logo foi contar aos irmãos, mas foi motivo de gozação; contou-o à mãe, que entreviu um sinal da sua futura vocação ao sacerdócio, e quis também saber o parecer da avó. Ela comentou sabiamente que não havia necessidade de acreditar em sonhos. João não pensou mais naquilo.

No entanto, não perdia tempo : reunia no campo colegas e para eles improvisava como um prestidigitador e saltimbanco e, depois de tê-los divertido, repetia-lhes o sermão que havia escutado na igreja no domingo. E não eram só os pequenos que acorriam, muitas vezes vinham também os pais e as mães encantados em ver as piadas, as brincadeiras e mais ainda em escutar as suas palavras. Mesmo quando precisava distanciar-se de casa para trabalhar como ajudante no sítio Moglie, continuou a reunir ao seu redor os jovens do lugar.

O seu interesse pelas coisas da fé e seu talento chamaram a atenção de um sacerdote, Dom Calosso, que lhe custeou os estudos, mas sua morte repentina deixou-o novamente sozinho e sem ajuda. Precisou voltar ao trabalho, abandonando os estudos, que retomou somente aos 16 anos, mas, com sua vontade persistente e a inteligência brilhante, conseguiu completar em quatro anos o ensino fundamental e então já podia iniciar os estudos no seminário.

            Sacerdote ou missionário?

Mas era essa a sua vocação? Ele desejava tornar-se sacerdote, mas queria ser também missionário. Não era melhor tornar-se franciscano? Diante dessa indecisão, o pároco pensou em obter a colaboração decisiva da mãe, mostrando-lhe que um filho padre lhe seria uma ajuda também econômica. A mamãe Margarida ouviu com respeito as palavras do sacerdote, como era seu costume, mas depois tomou a decisão, como sempre fazia, sozinha diante de Deus. Foi até o filho e lhe disse : ‘Tu não deverás te preocupar comigo. Eu nasci pobre, vivi como pobre e quero morrer pobre. Se tu te tornares um padre secular e por desgraça ficares rico, não colocarei os pés na tua casa nem que seja somente uma vez. Não te esqueças disso’.

Após ter orado e meditado longamente e ter pedido conselho aos mais velhos, João, aos 20 anos, entrou como externo no seminário. Para pagar a pensão foi preciso trabalhar todas as noites como ajudante em diversas profissões : alfaiate, padeiro, carpinteiro, ferreiro, sapateiro, conforme as oportunidades se apresentavam. Deus assim o preparava para fundar um dia as escolas profissionais para os jovens. Nos dias festivos se ocupava com os jovens e para eles fundou a Sociedade da Alegria, quase um prelúdio do oratório, colocando as bases de um dos eixos do seu método educativo : o ambiente de alegria.

O estudo lhe agradava e ele aproveitou para adquirir uma sólida cultura. Sua paixão era ouvir os professores, ler os livros de Teologia, e logo imaginava como traduzir essas riquezas doutrinais numa linguagem à altura dos jovens e como lhes tornar agradável. Para ele foi importante o encontro com São José Cafasso, que se tornou seu mestre e confessor quando, terminados os estudos do seminário e ordenado sacerdote em 1841, por ele foi levado ao colégio eclesiástico de Turim para aprimorar a formação com os estudos de teologia moral.

Lá, Dom Bosco conheceu a fundo a espiritualidade de São Francisco de Sales e de Santo Afonso Maria de Liguori. Os dois santos lhe forneceram os elementos inspiradores de sua espiritualidade.

O oratório e as primeiras oposições

Durante aquele período, exatamente aos 8 de dezembro de 1841, Dom Bosco iniciou oficialmente o oratório. A balbúrdia que os jovens faziam não foi bem aceita pelos ‘bem comportados’, por isso ele teve continuamente de ir de um lugar para o outro, à procura de uma sede, até que em Valdocco pôde aos poucos, em meio a dificuldades, implantar sua obra : o oratório festivo, o internato para estudantes e artesãos, a igreja etc. Entretanto, antes de chegar a esse ponto é bom conhecer algumas das dificuldades pelas quais passou.

O governo liberal-maçônico do Piemonte não via com bons olhos aquele sacerdote rodeado de mais de quatrocentos jovens, quase todos eles de condição humilde, que o seguiam com entusiasmo e obedeciam prontamente a cada aceno seu. Pessoas influentes procuraram convencê-lo a dissolver o oratório, mas foi em vão. Outros usaram métodos mais desumanos, organizando emboscadas anônimas e espancando-o. Tudo em vão. Então, interveio o chefe da polícia, um certo Michel, pai do famoso Camillo Benso, conde de Cavour, para emitir ordem de fechamento do oratório por motivos de ordem pública.

Também dessa vez a providência veio em sua ajuda por meio do próprio rei Carlos Alberto que, conhecendo pessoalmente Dom Bosco e estimando-o pelo que fazia entre os jovens, não o permitiu.

Os adversários não se renderam : passaram a intimidar os jovens, controlando suas atividades dentro e fora da igreja, mas o resultado foi que os guardas faziam também fila entre os jovens para se confessar com Dom Bosco.

As dificuldades mais dolorosas lhe vieram dos párocos de Turim, que o culparam de lhes tirar os jovens das paróquias. Dom Bosco respondeu : ‘A maior parte desses jovens que recolho são forasteiros. Seus pais vieram para a cidade à procura de trabalho. Não o tendo encontrado foram embora e os deixaram aqui. Ou então são jovens vindos sozinhos para a cidade à procura de ocupação. São saboianos, suíços, valdostanos, bielesos, novareses, lombardos’.

A situação da época era triste. O desenvolvimento industrial de Turim atraía muita gente da zona rural, mas, muitas vezes o sonho de um lucro fácil se transformava numa amarga experiência de miséria e de fome. Os jovens, na maioria analfabetos e sem emprego definido, sempre caíam nas mãos de patrões desumanos, quando a desgraça não os deixava a vagar pelas estradas levando-os ao latrocínio para sobreviver e depois terminando nas prisões.

Sobretudo para eles, Dom Bosco havia fundado a sua obra, mas muitos não o compreendiam. Para os homens do governo era um líder perigoso de uma massa explosiva ‘que podia ser usada para rebelião e revolução’; para muitos pastores da Igreja, ele era um concorrente desleal.

Por sorte, Dom Bosco encontrou o apoio de alguns sacerdotes mais abertos à novidade do Espírito, como Cafasso e Borel, e, sobretudo, teve o apoio decisivo do Arcebispo Fransoni. Ele aprovou o oratório como a paróquia dos jovens sem paróquia. Num momento de grande perseguição, quando todas as portas se fechavam diante de Dom Bosco, que não conseguia encontrar nem mesmo um palmo de terra para reunir os jovens, até Dom Borel o convidou a fechar o oratório, pelo menos por um ano, a fim de que fosse aplacada a ira dos adversários. Dom Bosco lhe respondeu decididamente que não : ‘Nós já temos uma sede : um pátio amplo e espaçoso, uma casa pronta para muitos jovens, com igreja e fachada. E há padres e religiosos prontos para trabalhar conosco’. ‘Mas onde estão essas coisas?’, interrompeu Dom Borel. ‘Não o sei. Mas sei que existem e estão à nossa disposição.’ Então, Dom Borel interrompeu-o em prantos e exclamou ‘Pobre Dom Bosco’ e foi-se embora. A notícia de que Dom Bosco, devido ao excesso de trabalho, tivesse perdido o juízo, fez com que dois sacerdotes amigos quisessem levá-lo para um manicômio para se curar. Ele mesmo relata o divertido episódio : ‘Logo percebi a brincadeira que queriam fazer comigo e, fingindo que nada sabia, acompanhei-os até a carruagem. Insisti para que eles entrassem primeiro. Quando entraram, em vez de segui-los, fechei rapidamente a porta e disse ao cocheiro : ‘Toca depressa para o manicômio. Lá estão esperando por estes dois padres’’.

Outro sonho profético

Quem garantia a Dom Bosco a certeza de que sua obra era destinada a continuar e que ele teria numerosos colaboradores? Tinha visto, em outro famoso sonho, que entre os rapazes ‘muitos cordeiros transformavam-se em pequenos pastores que, crescendo, tomavam conta do rebanho’. Deus fará nascer então uma numerosa multidão de sacerdotes com o seu mesmo ideal e não de sacerdotes somente, mas também de leigos cooperadores e de freiras.

Uma família espiritual que, das antigas ordens religiosas, conservará só a totalidade da doação a Deus, pois, quanto às realizações práticas, deverá ser de acordo com as necessidades dos jovens e responder às exigências do mundo moderno. Por isso ele, ao colocar as bases da espiritualidade, escolheu como modelo São Francisco de Sales, que nos seus escritos propõe um modelo de santidade adaptado a todos e especialmente a quem vive em meio das ocupações temporais. Outra característica daquele santo que atraía Dom Bosco era a mansidão, uma virtude indispensável para quem quer levar os jovens a Deus.

Dom Bosco também se inspirou na espiritualidade de Santo Afonso de Liguori. Da escola de Cafasso, apreciou a profunda humanidade desse santo napolitano que tanto o ajudou na confissão e na direção espiritual dos jovens.

Aspectos de um espiritualidade moderna

Escolheu para si e para os jovens uma espiritualidade moderna e a completou com algumas características próprias. Antes de tudo, a convicção de que todo trabalho, feito de acordo com a vontade de Deus e para o bem do próximo, por si é uma oração. O dito dos antigos monges, ‘ora et labora’ (‘reza e trabalha’), foi substituído pelo seu : ‘o trabalho é oração’. Abria, assim, um novo caminho para a santidade de todos os leigos, também daqueles que exercem profissões consideradas mais humildes.

Uma segunda característica é a alegria. Ele colheu o aspecto alegre da fé e dele fez o ambiente normal para formar seus rapazes e jovens. A alegria se exprimia também na festa exterior com tudo aquilo que esta comporta, sobretudo num ambiente juvenil, mas, para Dom Bosco, era algo mais profundo : a alegria espontânea e genuína que jorra do interior de quem está com Deus e com o coração puro, por isso, inculcava a seus jovens a confissão e a comunhão frequente e uma profunda devoção a Maria.

Uma terceira característica era a fidelidade ao Papa. Num tempo de grandes agitações sociopolíticas, nas quais, juntamente com a queda do poder temporal do Papa, anunciava-se também a extinção do próprio papado, Dom Bosco deixou aos seus filhos o compromisso de fidelidade a toda prova ao carisma de Pedro.

Sobre essas bases, a família salesiana foi tomando consistência e crescendo. Em 1859, nasceu oficialmente a Pia Sociedade Salesiana, o ramo masculino de sua obra, e, em 1872, nasceu também o das Filhas de Maria Auxiliadora; em 1875, começavam as missões salesianas na América Latina; no ano seguinte, constituía-se a Pia União dos Cooperadores Salesianos e, em 1877, iniciava a impressão do Boletim salesiano.

Dom Bosco havia imprimido muitos livros e alguns deles, como a A história sagrada, foi por muito tempo verdadeiro best-seller. Fundou também uma tipografia e uma editora que se tornaram depois famosas.

Quando, em 1887, inaugurou em Roma a Basílica do Sagrado Coração, construída por vontade do Papa, encheu-se de alegria, pois todos os seus sonhos tinham sido realizados. No dia 31 de janeiro do ano seguinte, faleceu, mas então sua obra já havia sido difundida.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://revistaavemaria.com.br/sao-joao-bosco.html

sábado, 18 de março de 2023

Trabalho escravo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Cardeal Dom Sergio da Rocha,

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil


‘Numa época de grandes avanços científicos e tecnológicos, marcada pelo risco de alguém se tornar ‘escravo do trabalho’, perdura tristemente o trabalho escravo. Notícias a respeito têm sido veiculadas pela mídia, nem sempre recebendo a devida atenção, indignação e resposta efetiva. As vítimas têm o seu clamor sufocado, o que leva as novas formas de escravidão a se perpetuarem e a se agravarem. Dentre elas, estão migrantes provenientes das áreas mais pobres do país e pessoas que sofrem com a miséria e a fome. Notícias recentes sobre a exploração de trabalhadores provenientes do Nordeste, principalmente da Bahia, têm favorecido algum conhecimento e reflexão sobre esta dura realidade. O caso veio a público com particular intensidade, gerando reações de indignação, mas certamente muitas outras situações ocorrem sem conhecimento público, nem a necessária resposta,

 A capacidade humana de indignar-se perante esta forma de violação da vida e da dignidade das pessoas ainda se manifesta, trazendo esperança. Contudo, a comoção provocada pelo noticiário e pelas redes sociais não é suficiente. É preciso a ação decidida e permanente de autoridades e órgãos públicos, a mobilização da sociedade civil organizada, a participação de igrejas, universidades, meios de comunicação social e organizações de defesa dos direitos humanos. Iniciativas em andamento, como a Rede Um Grito pela Vida, de combate ao tráfico de pessoas, necessitam ser valorizadas e difundidas.

Além das ações de combate ao trabalho escravo, é preciso investir na sua prevenção. Para tanto, é preciso aprofundar a questão das suas causas para prevenir o surgimento de novos casos.  Há fatores, como a migração forçada em busca de sobrevivência ou melhores condições de vida, que tornam os trabalhadores presas fáceis de trabalho escravo. A miséria e a fome criam um terreno fértil para submeter a condições de escravidão, trabalhadores, migrantes, mulheres e crianças. É preciso combater as causas e não apenas os casos particulares. Além disso, são sempre muito necessárias campanhas veiculando informações e alertas para a população a fim de evitar que as pessoas se tornem vítimas de pessoas ou grupos inescrupulosos que se aproveitam da sua vulnerabilidade social. Sinais de esperança se descortinam no horizonte, como iniciativas de solidariedade e de justiça, ações de superação da miséria e da fome e projetos socioeducativos. Mas, é árduo e longo o caminho a percorrer para eliminar o trabalho escravo.  A complexidade e a gravidade da realidade social não devem ser motivo para a paralisia e o desânimo. É preciso dizer ‘não’ ao trabalho escravo e à escravidão de qualquer natureza, que não condiz com a dignidade da pessoa, ‘imagem e semelhança’ de Deus.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-03/cardeal-sergio-rocha-trabalho-escravo.html

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Quando a 'vocação' impede o reconhecimento da função como um 'trabalho'

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Camila Campos Marçal da Cruz


‘Vivemos de tal modo que o trabalho remunerado ocupa um lugar central nas nossas vidas. Trabalhamos para (sobre)viver e trabalhamos tanto que nem temos tempo para pensar sobre o modo que vivemos (Isso não é por acaso, mas não vamos entrar nesse mérito agora). Nesse cenário, assistimos no Brasil, de um lado, um crescente movimento de pessoas questionando essa centralidade do trabalho e levantando a bandeira da busca por um trabalho que tenha propósito. Ao mesmo tempo, assistimos, de outro lado, a perda de direitos já conquistados pelo trabalhador, a precarização do trabalho e o aumento da informalidade e do desemprego.

Tal realidade - independente de qual seja a nossa situação específica - nos leva a um estado de angústia e insegurança constante. Estamos sempre com medo : seja por não conseguir um trabalho, seja de perder o emprego, seja de não dar conta por se sentir sobrecarregado de tanto trabalhar. Isso tudo, por si só, já é adoecedor. Mas será que isso acontece também quando seguimos uma vocação? Sim. Gostar da própria profissão e/ou do trabalho, não nos torna imunes aos efeitos desse contexto de instabilidade, nem aos efeitos da realidade cotidiana do trabalho em si. Na verdade, ter o privilégio de seguir uma vocação, seja ela qual for, pode ser usado, inclusive, para que determinados trabalhos não sejam reconhecidos como tal e portanto, não tenham seus direitos regulamentados. Como bons exemplos disso temos os trabalhos das mães e donas de casa e as profissões de professor e cuidadores.

Além disso, a nossa dificuldade (ensinada) em reconhecer algumas profissões como trabalho, pode nos impedir de perceber as necessidades humanas da pessoa que exerce aquela função. Fato é que, se é trabalho, tem impacto no sujeito e na sua saúde. Para entender isso melhor, vamos esclarecer o que compreendemos como trabalho e vocação. Consideramos trabalho qualquer conjunto de atividades que uma pessoa exerça com um fim determinado ou de forma regular, seja este remunerado ou não. Entendemos por vocação, uma tendência ou chamado que uma pessoa sente para seguir uma função ou profissão específica. Agora vamos falar especificamente da vocação religiosa.

De acordo com a legislação trabalhista brasileira, pessoas que cumprem funções religiosas não configuram emprego. O que não quer dizer que as pessoas envolvidas com ele não sofram com as mesmas questões relacionadas a trabalho. E quais são as características do trabalho religioso que ficam submersas por conta do seu não reconhecimento? A vida sacerdotal é uma vida com mais atribuições do que se costuma imaginar. Além das atividades de cunho espiritual, que mais comumente associamos a eles, tais como a realização de missas, batizados, crismas, casamentos, o trabalhador religioso pode/precisa se dedicar a atividades assistenciais, tais como visita a doentes, escuta aos fiéis; atividades de ensino universitário e também voltadas para a comunidade de fiéis e à própria formação de novos sacerdotes; atividades administrativas que vão desde gestão contábil à gestão das atividades da comunidade religiosa, passando por organização de eventos, comunicação, divulgação, cuidado com a rotina da casa, entre outros.

No livro Sofrimento psíquico dos presbíteros, o autor, psicólogo William Pereira, fez uma pesquisa qualitativa com padres e freiras e os entrevistados relataram um nível de exaustão emocional superior à categoria de policiais, executivos e motoristas de ônibus. Além de todas as funções que os sacerdotes precisam exercer, paira sobre seus ombros a exigência de ser um modelo de virtude e santidade para toda a comunidade. E essa cobrança (externa e interna) começa desde o tempo de formação sacerdotal. Se não tiver muito cuidado, o religioso corre o risco de negligenciar a própria vida, espiritual-física-emocional.

Ao ingressar na comunidade religiosa, faz-se votos de realizar qualquer atividade que seja necessária, seja ela de cunho religioso ou não. Aderir a isso é um gesto de liberdade, que traz com isso uma responsabilidade com o outro e consigo mesmo. Sendo assim, precisamos estar atentos para que esse trabalho, juntamente com outros fatores, não seja um fator de adoecimento. O fato de dedicar a vida a servir, é belíssimo, mas isso não elimina automaticamente o fato de que se trata de um ser humano e que portanto, para servir, precisa se cuidar. E o que seria esse cuidado?

Esse cuidado implica em lembrar da sua própria humanidade e agir de forma preventiva, priorizando o cuidado com a integralidade da sua pessoa em todos os âmbitos da vida : cuidando da alimentação, fazendo atividade física, separando tempo para lazer, tempo para descanso, tempo para cultivo das relações afetivas, tempo para se escutar. Autocuidado engloba também estar atento aos sinais do nosso corpo e ser ativo na busca de compreensão desses sinais. Se você se sente constantemente exausto/esgotado; se percebe que caiu o seu rendimento; se se sente ansioso para executar suas funções e/ou cumprir prazos; se precisa conviver com pessoas que te colocam em situações humilhantes e constrangedoras; se identifica alguma alteração significativa no sono ou na alimentação; se não tem interesse em atividades que antes proporcionavam prazer; se se sente constantemente irritado ou sem energia… procure ajuda!

Com uma ajuda profissional, pode-se verificar quais os ajustes são necessários e possíveis de serem feitos na sua vida/rotina, que podem te trazer mais qualidade de vida e bem estar! Lembre-se : vocação sacerdotal não é um emprego, mas é trabalho (e muito)! Se cuide!’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1544622/2021/10/quando-a-vocacao-impede-o-reconhecimento-da-funcao-como-um-trabalho/

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Como os monges medievais se preparavam para o Natal


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Rievaulx Abbey 
*Artigo de Zelda Caldwell


‘Atualmente, restam apenas ruínas da abadia de Rievaulx, a outrora grande abadia cisterciense no norte da Inglaterra. Antes de Henrique VIII dissolver os mosteiros em 1538, Rievaulx era um dos maiores e mais ricos mosteiros, com 140 monges e cerca de 500 irmãos leigos em residência.

Até meados do século XIV, os monges seguiam a Regra de São Bento. Estudiosos da English Heritage, a organização encarregada de manter 400 locais históricos, montaram uma foto para reproduzir a provável vida dos monges de Rievaulx durante o Advento e o Natal.

Oração e trabalho

Ao longo do ano, o monge medieval passava o dia dedicando-se a trabalhos manuais e à oração. No Natal não era diferente, embora os dias mais curtos reduzissem o tempo nas duas coisas.

O dia dos monges era dividido em três partes, de acordo com a English Heritage. Eles passavam a maior parte do tempo no Ofício Divino, composto por oito cultos ou ‘ofícios’ da Igreja realizados durante o dia.

O resto do dia era ocupado com lectio divina ou leitura espiritual, pela manhã, e opus manuum (trabalho manual) à tarde. Para os monges de Rievaulx, os trabalho manual se resumia em jardinagem, marcenaria ou cópia de manuscritos.

Jejum no Advento

A regra de São Bento visava incentivar a moderação em todas as coisas, inclusive na dieta :

‘O excesso deve ser evitado acima de todas as coisas, para que nenhum monge seja culpado de [consumir demais]; pois nada é mais indigno de qualquer cristão que a gula.’

Durante o advento, os monges seguiram um jejum mais rigoroso. Ovos, gordura animal, leite e alimentos feitos com leite eram proibidos. Segundo a English Heritage, as regras foram flexibilizadas no século XV, e a carne era consumida duas vezes por semana e provavelmente no dia de Natal.

O dia de Natal

Além dos oito ofícios diários, que começavam às 3h30 da manhã, havia três Missas no dia de Natal – missa da meia-noite, missa ao amanhecer e missa do dia. Os monges também ouviam um sermão em sua casa capitular pela manhã.

Abadia de Rievaulx hoje

As ruínas da Abadia de Rievaulx são um destino turístico popular e estão abertas aos visitantes das 10h às 16h, aos sábados e domingos. Um museu exibe artefatos que contam a história da outrora grande abadia.’


Fonte :