Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
Muito antes da chegada dos colonizadores europeus ao longo dos séculos XV
e XVI, o cristianismo já estava presente em África, especialmente no norte do
continente.
A Etiópia tornou-se oficialmente cristã no século IV, sendo uma das nações
cristãs mais antigas do mundo. O Egito foi um dos principais centros do
Cristianismo primitivo, com destaque para o Patriarcado de Alexandria e o Norte
de África tornou-se um dos maiores polos de produção teológica da Antiguidade.
Graças à força de suas Igrejas locais, a Igreja Católica teve três papas
nascidos ou com origens comprovadas no norte da África, todos nos primeiros
séculos do cristianismo.
O primeiro deles, São Vitor I governou a Igreja de 189–199
d.C. Nascido numa província romana, na atual Tunísia, foi o primeiro papa de
origem africana. E seu pontificado aconteceu a mudança da língua oficial das
missas do grego para o latim e a definição da data para a celebração da Páscoa.
São Melquíades (311–314 d.C.), outro Papa originário do norte da
África teve um papado marcado pelo fim das perseguições aos cristãos pelo
Império Romano após o Edito de Milão promulgado pelo Imperados Constantino.
E, por fim, São Gelásio I (492–496 d.C.) tinha suas origens
no norte da África. Ele ficou mais conhecido pela definição do cânone oficial
dos livros da Bíblia e por firmar a autoridade da Igreja frente ao poder
político.
Quando os europeus iniciaram a colonização do continente africano, não
encontraram uma África totalmente desconhecedora de Cristo. Em várias regiões
do continente, a fé cristã já possuía séculos de existência. A prova disso está
na própria história da Igreja, pois alguns dos mais importantes Pais da Igreja
chamados de Santos Padres também eram africanos.
Tertuliano. Nasceu em Cartago, na atual Tunísia, sendo considerado um dos pais da
teologia cristã latina. Ele ajudou a desenvolver conceitos teológicos
relevantes que mais tarde seriam fundamentais para a definição doutrinal da
Igreja.
Cipriano de Cartago. Também era norte-africano, destacando-se como um dos
mais influentes pensadores cristãos do século III, defendendo a unidade da
Igreja em tempos de perseguição.
Atanásio de Alexandria. Originário do Egito, onde Alexandria se destacava
como um dos cinco grandes patriarcados, foi um dos maiores defensores da divindade
de Cristo, desempenhando papel decisivo na formulação da doutrina cristã
durante os grandes debates teológicos da antiguidade.
Clemente de Alexandria e Orígenes. Os dois eram ligados à escola
teológica de Alexandria, contribuindo de forma decisiva para a interpretação
das Escrituras e para o desenvolvimento do pensamento cristão.
Agostinho de Hipona. O maior de todos os pensadores cristãos da
antiguidade, deixou inúmeras obras escritas que ainda hoje influenciam a
teologia e a espiritualidade da Igreja. Nascido na região da atual Argélia, é
reconhecido como um dos maiores teólogos da história do Cristianismo. Suas
obras influenciaram católicos, ortodoxos e protestantes ao longo dos séculos.
Esses homens não eram europeus e como africanos ajudaram a moldar a
teologia cristã muito antes da expansão colonial europeia. Além disso, as
Sagradas Escrituras mostram a importância de África na história da salvação.
O Egito aparece em diversos momentos das Escrituras. Moisés foi criado em
solo africano. Jesus encontrou refúgio no Egito durante sua infância.
Simão de Cireneu, que ajudou a carregar a cruz de Cristo, era africano. O
primeiro gentio africano convertido mencionado no livro de Atos dos Apóstolos
foi o oficial etíope evangelizado por Filipe.
Golpes contra a Igreja
A Igreja norte-africana, porém, sofreu dois duros golpes que levaram a
quase extinsão da fé e da Igreja, onde existiam comunidades florescentes.
O primeiro golpe se deu com a invasão dos Vândalos no norte da África
iniciada em 429. O rei Gessérico liderou seu povo através da Espanha romana,
cruzando o Estreito de Gibraltar para conquistar as ricas províncias de Roma.
Cerca de 80 mil vândalos e outros aliados atravessaram para o norte da
África saqueando cidades e terras férteis. Eles cercaram a cidade de Hipona um
ano depois e Santo Agostinho morreu durante o ataque. Também Cartago, a maior e
mais importante cidade romana na região caiu.
Os vândalos criaram seu próprio reino no norte da África e construíram uma
força naval poderosa, saqueando as colônias em todo o Mediterrâneo. Seu reino
durou pouco mais de um século, até que o Império Bizantino reconquistou a
região em 534 d.C., mas o estrago já estava feito.
Outro estrago se deu com a expansão muçulmana pelo norte da África nos
séculos VII e VIII, fazendo com que vastas regiões do continente se tornassem
área de seu domínio, sobretudo, nas futuras nações localizadas acima do Deserto
do Saara e logo abaixo do grande deserto.
Eles entraram no Egito, tomaram Alexandria, pondo fim ao domínio do
Império Bizantino na região. A partir do Egito, avançaram lentamente pela faixa
costeira norte-africana onde estão os atuais países como a Líbia, Tunísia,
Argélia e Marrocos. O processo não foi imediato, pois os árabes enfrentaram
forte resistência de colônias bizantinas e, sobretudo, de clãs e líderes
berberes locais. Apesar disso, junto com o islamismo impuseram a cultura árabe
a toda a região onde hoje o cristianismo é minoritário.
Quando os colonizadores começaram a chegar nos séculos XV e XVI trouxeram
outra dimensão de cristianismo, mas a fé cristã já existia em África. A
teologia cristã já era produzida na África e grandes líderes da Igreja, inclusive
diversos papas, ali surgiram na África, séculos antes de qualquer império
europeu erguer suas bandeiras no continente.
A África ajudou a construir o Cristianismo que a Europa mais tarde abraçou
e hoje a Igreja Africana sobretudo, subsaariana é uma das que mais cresce no
mundo.
Fonte : *Artigo na íntegra

