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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

As grandes civilizações africanas - A origem do cristianismo na África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus ao longo dos séculos XV e XVI, o cristianismo já estava presente em África, especialmente no norte do continente.

A Etiópia tornou-se oficialmente cristã no século IV, sendo uma das nações cristãs mais antigas do mundo. O Egito foi um dos principais centros do Cristianismo primitivo, com destaque para o Patriarcado de Alexandria e o Norte de África tornou-se um dos maiores polos de produção teológica da Antiguidade.

Graças à força de suas Igrejas locais, a Igreja Católica teve três papas nascidos ou com origens comprovadas no norte da África, todos nos primeiros séculos do cristianismo.

O primeiro deles, São Vitor I governou a Igreja de 189–199 d.C. Nascido numa província romana, na atual Tunísia, foi o primeiro papa de origem africana. E seu pontificado aconteceu a mudança da língua oficial das missas do grego para o latim e a definição da data para a celebração da Páscoa.

São Melquíades (311–314 d.C.), outro Papa originário do norte da África teve um papado marcado pelo fim das perseguições aos cristãos pelo Império Romano após o Edito de Milão promulgado pelo Imperados Constantino.

E, por fim, São Gelásio I (492–496 d.C.) tinha suas origens no norte da África. Ele ficou mais conhecido pela definição do cânone oficial dos livros da Bíblia e por firmar a autoridade da Igreja frente ao poder político.

Quando os europeus iniciaram a colonização do continente africano, não encontraram uma África totalmente desconhecedora de Cristo. Em várias regiões do continente, a fé cristã já possuía séculos de existência. A prova disso está na própria história da Igreja, pois alguns dos mais importantes Pais da Igreja chamados de Santos Padres também eram africanos.

Tertuliano. Nasceu em Cartago, na atual Tunísia, sendo considerado um dos pais da teologia cristã latina. Ele ajudou a desenvolver conceitos teológicos relevantes que mais tarde seriam fundamentais para a definição doutrinal da Igreja.

Cipriano de Cartago. Também era norte-africano, destacando-se como um dos mais influentes pensadores cristãos do século III, defendendo a unidade da Igreja em tempos de perseguição.

Atanásio de Alexandria. Originário do Egito, onde Alexandria se destacava como um dos cinco grandes patriarcados, foi um dos maiores defensores da divindade de Cristo, desempenhando papel decisivo na formulação da doutrina cristã durante os grandes debates teológicos da antiguidade.

Clemente de Alexandria e Orígenes. Os dois eram ligados à escola teológica de Alexandria, contribuindo de forma decisiva para a interpretação das Escrituras e para o desenvolvimento do pensamento cristão.

Agostinho de Hipona. O maior de todos os pensadores cristãos da antiguidade, deixou inúmeras obras escritas que ainda hoje influenciam a teologia e a espiritualidade da Igreja. Nascido na região da atual Argélia, é reconhecido como um dos maiores teólogos da história do Cristianismo. Suas obras influenciaram católicos, ortodoxos e protestantes ao longo dos séculos.

Esses homens não eram europeus e como africanos ajudaram a moldar a teologia cristã muito antes da expansão colonial europeia. Além disso, as Sagradas Escrituras mostram a importância de África na história da salvação.

O Egito aparece em diversos momentos das Escrituras. Moisés foi criado em solo africano.  Jesus encontrou refúgio no Egito durante sua infância. Simão de Cireneu, que ajudou a carregar a cruz de Cristo, era africano.  O primeiro gentio africano convertido mencionado no livro de Atos dos Apóstolos foi o oficial etíope evangelizado por Filipe.

Golpes contra a Igreja

A Igreja norte-africana, porém, sofreu dois duros golpes que levaram a quase extinsão da fé e da Igreja, onde existiam comunidades florescentes.

O primeiro golpe se deu com a invasão dos Vândalos no norte da África iniciada em 429. O rei Gessérico liderou seu povo através da Espanha romana, cruzando o Estreito de Gibraltar para conquistar as ricas províncias de Roma.

Cerca de 80 mil vândalos e outros aliados atravessaram para o norte da África saqueando cidades e terras férteis. Eles cercaram a cidade de Hipona um ano depois e Santo Agostinho morreu durante o ataque. Também Cartago, a maior e mais importante cidade romana na região caiu.

Os vândalos criaram seu próprio reino no norte da África e construíram uma força naval poderosa, saqueando as colônias em todo o Mediterrâneo. Seu reino durou pouco mais de um século, até que o Império Bizantino reconquistou a região em 534 d.C., mas o estrago já estava feito.

Outro estrago se deu com a expansão muçulmana pelo norte da África nos séculos VII e VIII, fazendo com que vastas regiões do continente se tornassem área de seu domínio, sobretudo, nas futuras nações localizadas acima do Deserto do Saara e logo abaixo do grande deserto.

Eles entraram no Egito, tomaram Alexandria, pondo fim ao domínio do Império Bizantino na região. A partir do Egito, avançaram lentamente pela faixa costeira norte-africana onde estão os atuais países como a Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos. O processo não foi imediato, pois os árabes enfrentaram forte resistência de colônias bizantinas e, sobretudo, de clãs e líderes berberes locais. Apesar disso, junto com o islamismo impuseram a cultura árabe a toda a região onde hoje o cristianismo é minoritário.

Quando os colonizadores começaram a chegar nos séculos XV e XVI trouxeram outra dimensão de cristianismo, mas a fé cristã já existia em África. A teologia cristã já era produzida na África e grandes líderes da Igreja, inclusive diversos papas, ali surgiram na África, séculos antes de qualquer império europeu erguer suas bandeiras no continente.

A África ajudou a construir o Cristianismo que a Europa mais tarde abraçou e hoje a Igreja Africana sobretudo, subsaariana é uma das que mais cresce no mundo.

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-origem-cristianismo.html

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

As grandes civilizações africanas - O Mundo Islâmico e a África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

  

‘Originalmente existiram na África vários povos que formaram reinos ou confederação de tribos bem avançadas do ponto de vista econômico, militar e organizadas socialmente. No norte do continente existiram grandes civilizações com a que se formou durante milênios no Egito que se desenvolveu ao longo do Rio Nilo e a de Cartago que chegou a enfrentar a grande potência romana. No sul do Deserto do Saara existiram grandes civilizações, mas a história também mudou a partir dos séculos XV e XVI com a chegada das nações europeias e depois, a partir do século XIX, com a formação dos grandes impérios coloniais.

Diversas áreas do continente africano também passaram por profundas mudanças, especialmente a partir do século VII ao serem assimiladas e integradas ao Império Muçulmano ao final da primeira onda de conquistas. Egito e África do Norte foram as regiões que mais sofreram modificações em sua organização graças a esse processo de assimilação.

O Egito Islâmico e a expansão muçulmana

O Egito islâmico se tornou uma importante província muçulmana entre o século VII e o final do século XI mesmo que afastada do califado, sendo transformada no centro do potente Império dos Fatímidas, originalmente simples celeiro, posteriormente principal entreposto comercial entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico. Em várias ocasiões o Egito exerceu grande influência no destino de outras partes da África; sendo o ponto de partida da conquista árabe no século VII. Essa primeira onda islamizou a África do Norte e a do século XI, levou ao processo completo de arabização.

Foi a partir do Egito que os beduínos árabes iniciaram um movimento rumo ao Sul, penetrando em outras regiões, levando ao declínio alguns reinos cristãos existentes na antiga Núbia e Sudão, próximos ao Rio Nilo.

O Egito durante este período deixou de ser uma terra cristã e a maioria da sua população se converteu ao islã, mas algumas igrejas monofisistas da Núbia e da Etiópia continuaram resistindo ao avanço do islã.

Ao longo dos séculos XII e XIII, o Egito se consolidou como uma potência islâmica fazendo frente aos cruzados ocidentais e aos invasores mongóis do período medieval.

Dificuldades no meio do caminho

Na região do Magreb, os conquistadores árabes enfrentaram grande resistência dos berberes e somente ao final do século VII lograram submeter as principais regiões.

A maioria dos berberes converteu­‑se então ao islã e, malgrado o ressentimento que lhes inspirava a dominação política árabe, se tornaram­ partidários da nova fé, contribuindo para propagá­‑la do outro lado do estreito de Gibraltar, na Península Ibérica e além do Saara.

Esses guerreiros berberes formavam grande parte dos exércitos muçulmanos que conquistaram a Espanha, que arrancaram a Sicília dos bizantinos e conduziram vitoriosas campanhas no Egito e na Síria.

Desse modo, a África do Norte passou a ocupar uma posição­‑chave no mundo muçulmano, política e economicamente.

Sob o domínio muçulmano, a região do norte da África esteve novamente ligada a uma economia de importância mundial, desempenhando papel de primeiro plano, passando por um novo crescimento demográfico, urbanização e retomada da prosperidade econômica e social.

Isso explica o fato do Egito, mesmo tendo decaído de importância, ainda é um dos principais países do mundo árabe, tendo feito frente à expansão de Israel durante várias décadas do século XX e XXI.

Expansão religiosa e militar

Deve-se aos berberes, depois de aderirem a algumas seitas do islã, a introdução da religião muçulmana ao Sul do Saara, pois as caravanas de comerciantes berberes que atravessavam o grande deserto em direção às regiões mais férteis da África não transportavam somente mercadorias, mas ajudavam a propagar as novas concepções religiosas e culturais.

Esta expansão rumo ao sul trouxe uma nova dimensão econômica para a África do Norte. O ouro retirado do Sudão afluía para a costa do Mar Mediterrâneo em quantidades cada vez maiores, provocando a ascensão econômica de numerosas dinastias muçulmanas reinantes no Oeste.

Além disso, a exploração das minas de sal do Saara intensificou­‑se, como resposta à crescente demanda da África subsaariana por esta indispensável substância mineral.  Essas trocas com a África subsaariana constituíram, durante vários séculos um ramo de um frutuoso comércio.

Nas últimas décadas do século XX e XXI a África continua a sofrer com a ação de grupos islâmicos radicais como o Boko Haran que agem em diversos países tanto do norte como do sul do Saara, levando imenso sofrimento à população, especialmente das comunidades cristãs.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-09/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-mundo-islamico.html

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

As grandes civilizações africanas - Apartheid - História da segregação racial na África do Sul

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Entre tantos assuntos que já tratamos aqui nessa coluna, não poderíamos deixar de falar de uma das mais tristes páginas da história do continente africano, com a imposição do apartheid ou Política de Segregação Racial imposta tantos anos sobre a população negra da África do Sul.

O termo apartheid que significa ‘separação’ ou ‘identidade separada’ serviu para designar o regime político da África do Sul que durante décadas, impôs a dominação da minoria ou aristocracia branca sobre grupos pertencentes a outras etnias, compostos em sua maioria por negros.

O termo apartheid não deve ser interpretado simplesmente como ‘racismo‘, porque foi um sistema constitucional de segregação racial que abrangeu as esferas social, econômica e política da nação sul-africana estabelecendo critérios para diferenciar os grupos e as pessoas.

História da política racial

A origem do apartheid remonta ao período da colonização da África do Sul. Os primeiros colonizadores que, vindos da Holanda, França e Alemanha, se estabeleceram na região entre os nos séculos XVII e XVIII, dizimaram a população nativa tomando suas terras. Os líderes dos colonizadores manipularam o preceito religioso cristão que a princípio estabelecia a segregação como uma forma de defender e preservar as populações tribais da influência dos brancos, em uma ideologia nacionalista que pregava a desigualdade e separação racial.

Os colonizadores se julgavam superiores e a cor e características raciais determinaram o domínio da população branca sobre os demais grupos sociais e a imposição de uma estrutura de classe baseada no trabalho escravo.

A política racial diferenciou então os europeus ou a população branca dos africanos. Até mesmo os grupos compostos por imigrantes asiáticos, em particular indianos, sofreram com a política de discriminação racial.

Esse domínio da população não-branca da África do Sul gerou inúmeros conflitos, uma vez que as populações tribais ofereceram resistência aos brancos.

O processo de modernização pelo qual a África do Sul passou no início do século XX, intensificou os conflitos entre brancos e não-brancos, mas a minoria branca também soube explorar os conflitos que existiam entre as tribos e entre os diferentes grupos étnicos, facilitando o seu domínio.

Declínio do regime do Apartheid sul-africano

O apartheid havia sido estabelecido oficialmente na África do Sul em 1948 pelo Partido dos Nacionalistas que tomou o poder e bloqueou a política integracionista que vinha sendo praticada pelo governo central. O sistema de segregação racial atingiu então o seu auge com a abolição de alguns direitos políticos e sociais que ainda existiam em algumas províncias sul-africanas.

A segregação assumiu então enorme extensão passando por todos os espaços e relações sociais. A população branca controlava cerca de 87% do território do país e o que sobrava compunha alguns territórios independentes deixados aos grupos sociais não-brancos.

Na década de 1970, o governo central da África do Sul tentou encontrar fórmulas que assegurassem certa legitimidade internacional, porém, tanto a ONU como a Organização da Unidade Africana, votaram inúmeras resoluções condenando o regime segregacionista.

Ao longo dos anos de 1970, a África do Sul enfrentou diversas revoltas sociais promovidas pela maioria negra, mas duramente reprimidas. Sob o governo de linha dura, liderado por Peter. W. Botha (1985-1988), tentou-se eliminar os opositores brancos ao governo, mas as revoltas raciais cresceram, sendo duramente reprimidas.

As revoltas sociais se intensificaram bem como as pressões internacionais e nesse contexto é que aparece a figura marcante do líder negro Nelson Mandela. Em 1989, Frederic. W. de Klerk, assumiu a presidência e a partir de 1990, conduziu diversas medidas que decretaram o fim do regime do apartheid. Neste mesmo ano, Nelson Mandela, que desde 1964 cumpria pena de prisão perpétua, foi posto em liberdade. Nas primeiras eleições livres, ocorridas em 1993, Mandela foi eleito presidente da África do Sul e governa de 1994 a 1999.

O fim do regime segregacionista realizado no papel, não significou, porém, o fim dos problemas e dificuldades. O país enfrenta hoje um cenário de profundos contrastes. Embora seja uma das economias mais industrializadas e desenvolvidas do continente africano, o país lida com altos índices de criminalidade, desigualdade socioeconômica e tensões sociais agravadas pelo desemprego. O país possui um ambiente de negócios sofisticado e um setor financeiro de nível mundial, contudo, é considerado um dos países mais desiguais do mundo, gerando impactos diretos na qualidade de vida da população.

A escassez de oportunidades tem impulsionado episódios de xenofobia e o crescimento de grupos anti-imigração com episódios direcionados especialmente a migrantes de outros países africanos.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-07/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-apartheid.html


domingo, 1 de março de 2026

As grandes civilizações africanas - As Confederações de Aldeias Africanas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Aqueles que puderam ler ou ouvir os últimos textos que postamos sobre a História da África puderam ver como o continente abrigou grandes civilizações e impérios antes da chegada dos europeus, sobretudo, a partir do século XVI. Essas civilizações e impérios em nada ficam a dever às grandes civilizações que existiram em outros tempos e em outros lugares de nosso planeta.

Falamos hoje de outro sistema de organização sócio-política que existiu no continente africano que pouco é conhecido : A confederação de aldeias africanas.

É sempre importante relembramos que a África é o maior continente do mundo em extensão e que somente nas últimas décadas é que sua história começou a ser estudada e compreendida fora do contexto da periodização usada para se estudar a história da Europa.

A organização das aldeias africanas

Falar de Confederação de Aldeias é entender um pouco mais da organização social e política de muitas tribos africanas, principalmente as que existiram na região subsaariana. Independentemente de estudarmos um grande e complexo reino ou um pequeno reino africano, a maioria das tribos se organizava em torno da fidelidade ao ‘chefe’ e das relações de parentesco existentes.

Este ‘chefe’ normalmente era o membro mais velho ou então um membro mais jovem, porém capaz de liderar a tribo, sendo responsável pela aplicação da justiça, pela sua condução em caso de luta contra outra tribo, decidindo sobre a divisão do trabalho e dos alimentos de forma justa, pela punição às pessoas que não cumprissem suas obrigações ou causavam algum mal a outra pessoa da mesma tribo, enfim, o ‘chefe’ era o responsável pelo bem-estar global da tribo.

Nestas tarefas geralmente era auxiliado por um conselho, dependendo do tamanho e importância da tribo, mas como fosse mais desafiador a condução das tribos maiores, se fazia necessário um maior apoio administrativo, com atribuições a um número maior de conselheiros que auxiliavam o ‘chefe’ no governo. Em algumas tribos este ‘chefe’ era também o líder religioso do povo. Em outras, o líder religioso era o conselheiro mais importante. Apesar de alguns elementos comuns, a organização sempre variava de uma tribo para outra.

Confederações de Aldeias - Definição

Uma confederação era a união de uma ou mais aldeias em torno de interesses comuns, sejam comerciais, familiares ou militares. A integração entre uma ou mais aldeias podia se dar pelo casamento entre membros de aldeias diferentes ou pela união de duas ou mais aldeias em vista da autodefesa em relação a um inimigo comum.

Essa parceria entre as aldeias poderia resultar na criação de um grande reino, mas não necessariamente porque podia ser uma união temporária ou permanente. Em geral as confederações eram lideradas por um conselho de ‘chefes’, que decidiam qual o melhor rumo a ser tomado numa determinada questão.

Mesmo quando as tribos se uniam não perdiam sua autonomia, pois somente as decisões mais importantes ou urgentes eram levadas ao conselho de ‘chefes’, que não tinha um líder principal, sendo que a opinião de todos os ‘chefes’ tinha o mesmo valor. Quando existia um líder entre várias aldeias, aí sim se podia considerar aquela união como um reino.

Quando a escravidão começou a trazer os negros escravizados para as Américas, no Brasil surgiram algumas organizações sociais semelhantes às confederações africanas, organizadas pelos próprios negros escravizados, adaptadas para a realidade encontrada no Brasil. Essa organização foi muito importante no processo de resistência do negro à escravidão. Alguns quilombos como o de Palmares pode ser considerado como a maior ‘Confederação’ que existiu no Brasil. Criado por volta de 1590 e liderado por Zumbi, Palmares sobreviveu por mais de 100 anos defendendo-se das investidas de expedições militares financiadas principalmente pelos senhores de engenho, que viam no quilombo não só uma defesa contra a escravidão como também uma afronta à autoridade colonial.

As confederações de aldeias foram importantes porque ajudaram na diminuição dos conflitos entre as aldeias e pela solução de questões pelo acordo, evitando guerras e conflitos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas.html

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A África durante a Idade Média

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Musa retratado segurando um Globo de Ouro Imperial no Atlas Catalão de 1375

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘De forma geral, o estudo da chamada Idade Média mostra que essa classificação que abrange o período do século V a XV se concentra em três eixos principais: a formação da cristandade na Europa Ocidental, o desenvolvimento do Império Bizantino na Europa Oriental e o nascimento e expansão da civilização islâmica, desde a Península Ibérica até a Pérsia, abrangendo também o norte da África e o sul da Europa.

Essa periodização histórica, abrangendo também os demais períodos serve para Europa, não se encaixando no estudo dos demais continentes.

Normalmente, quando se chega ao tema da expansão islâmica, a questão das civilizações que se desenvolveram na África nesse período é tratada, porém de forma muito suscinta e de forma pouco expressiva. A África na Idade Média constitui um tema que deve ser compreendido de forma sistemática, para que se possa compreender a formação do mundo moderno e nele as diversas potências europeias.

Formação histórica do continente africano

No continente africano diversas civilizações se destacaram desde a antiguidade. Foi o caso dos cartagineses estabelecidos no noroeste da África que são lembrados quando se fala da expansão do Império Romano do ocidente. Há o caso da civilização egípcia que floresceu no nordeste africano a partir do delta do rio Nilo e se tornou uma grande potência que não pode ser lembrada apenas pelas suas pirâmides. Recordamos também a civilização da Núbia, situada abaixo do Egito; o reino de Axum, que se desenvolveu na região da atual Etiópia, entre outras civilizações.

Essas civilizações, algumas em maior e outras em menor grau, mantiveram contato com as civilizações da Europa Ocidental, como a romana, e outras que se desenvolveram na Península Arábica, nas planícies iranianas e no Extremo Oriente.

O norte da África passou a sofrer, no período da Idade Média, uma intensa penetração da civilização árabe com a expansão islâmica. A partir do século VII, o islamismo passou a expandir-se por toda a Península Arábica e em direção ao norte africano e ao sul europeu, penetrando na Península Ibérica. Nesse período, houve um choque e um enriquecimento cultural da Europa pelo contato com as culturas africanas, e com as civilizações desse continente que já haviam sido cristianizadas.

Na região do Magrebe, a conversão ao islã ocorreu de forma sistemática, seja pelos reinos poderosos como o de Mali ou pelos povos nômades. Com a islamização, a prática da escravidão, que era bem comum no continente africano desde a Antiguidade, intensificou-se. Ao converter meia África, o Islamismo contribuiu para estimular ainda mais a escravidão, que era praticada antes mesmo de Maomé, já no século VI, quando os mercadores árabes frequentavam os portos da costa oriental da África, trocando cereais, carnes e peixes secos com tribos bantus por escravos.

As populações negras que não se tornaram muçulmanas também consideravam a escravidão um fato normal e alguns reis africanos tinham centenas de escravos como soldados e em suas guardas pessoais.

Além do reino de Mali, outros reinos também tiveram destaque no continente africano nesse período, principalmente aqueles que se desenvolveram abaixo do deserto do Saara, tais como o Reino de Gana, o de Kanem-Bornu, Iorubá e Benin. A principal forma de contato e de comércio entre esses reinos eram as caravanas de camelos, que permitiam o deslocamento para longas distâncias em meio ao deserto com uma quantidade grande de mantimentos, pedras preciosas, escravos, metais, porcelanas, tapetes e muitas outras mercadorias.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano.html

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A importância da África na história mundial

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘A compreensão que se tem sobre a África e sua história ainda é bastante incompleta, sofrendo até mesmo de algumas formas de preconceito. Durante muito tempo, não somente a histórica desse continente, como também de outros continentes periféricos do mundo foi feita a partir de um ponto de vista europeu,

A periodização que se faz em relação à história da Europa em grande parte não serve para a história dos demais continentes. Certos conceitos históricos que se aplicam à Europa como feudalismo, renascimento ou modernismo não podem ser aplicados em seu todo à África.

Nas últimas décadas vários estudos feitos sobre a história africana alimentados pela descoberta de importantes registros arqueológicos provaram que a África tem uma história muito mais rica e grandiosa do que os antigos registros históricos demonstravam.

Registros do protagonismo da África na história

Origem da raça humana

Os mais antigos restos de esqueletos conhecidos de humanos anatomicamente modernos (ou homo sapiens) foram escavados em locais na África Oriental. Restos humanos foram descobertos em Omo, na Etiópia, datados de 195 mil anos, os mais antigos conhecidos no mundo.

Esqueletos de pré-humanos foram encontrados na África datando de 4 a 5 milhões de anos. Acredita-se que o tipo ancestral mais antigo de humanidade conhecido tenha sido o Australopithecus Ramidus, que viveu pelo menos 4,4 milhões de anos atrás.

Expedições de pesca

Os africanos foram os primeiros a organizar expedições de pesca há mais ou menos 90 mil anos. Em Katanda, uma região no nordeste do Zaire (atual Congo), foi recuperada uma série de pontas de arpão finamente trabalhadas, todas elaboradas, polidas e farpadas. Também foi descoberta uma ferramenta, igualmente bem trabalhada, que se acredita ser uma adaga. As descobertas sugeriram a existência de uma cultura primitiva aquática ou baseada na pesca.

A mineração surgiu na África

Os africanos foram os primeiros a se engajar na mineração há cerca de 43 mil anos. Em 1964, uma mina de hematita foi encontrada na Suazilândia, em Bomvu Ridge, na cordilheira de Ngwenya. Por fim, 300 mil artefatos já foram recuperados, incluindo milhares de ferramentas de mineração feitas de pedra. Adrian Boshier, um dos arqueólogos do local, datou a mina com impressionantes 43,2 mil anos de idade.

Pioneirismo na aritmética

Os africanos foram os pioneiros da aritmética básica a mais ou menos 25 mil anos. O osso Ishango, um cabo de ferramenta com entalhes esculpidos encontrado na região de Ishango do Zaire (Congo), perto do Lago Edward, demonstra esse pioneirismo. Originalmente, pensava-se que a ferramenta de osso tinha mais de 8 mil anos, mas uma datação recente mais sensível deu datas de 25 mil anos. Na ferramenta há 3 fileiras de entalhes. A linha 1 mostra três entalhes esculpidos ao lado de seis, quatro esculpidos ao lado de oito, dez esculpidos ao lado de dois cincos e, finalmente, um sete.

Organização política e social :

Reinos como Songhay, Kerma, Napata, Ashanti, Abomey, Oyo e Mossi tinham um Estado altamente organizado, com instituições complexas como um conselho de anciãos, que definia e controlava o poder exercido pelo governante da tribo, semelhante ao senado romano e um sistema administrativo e burocrático que era muito parecido com o sistema de outras partes do mundo.

Os impérios africanos

Assim como acontecia em outras partes do mundo, também na África foram formados alguns impérios com formações de Estado que abrangiam vários povos em uma só entidade. Esta formação se dava normalmente por meio de conquistas. Foram numerosos e importantes nas suas relações comerciais, políticas e culturais.

Movimentos de descolonização

O século XX foi marcado por movimentos, revoltas e acontecimentos. No continente africano foi o tempo das independências, que caminharam juntas à Guerra Fria, quando União Soviética e Estados Unidos polarizaram o mundo e, no contexto africano, foram decisivas com suas posições, por diferentes motivos, contrárias ao colonialismo.

O ano de 1960, sobretudo, ficou marcado como Ano Africano pois um número expressivo de países conquistou sua independência do colonialismo francês e inglês, especialmente por meio de oposições pacíficas. Esses movimentos levaram à redescoberta da história das diversas regiões da África e à valorização de várias personalidades oriundas do continente.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano1.html

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A África antes da colonização europeia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘O continente africano era um lugar civilizado no tempo em que os primeiros viajantes europeus começaram a entrar em contato com continente. Quando chegaram ao Golfo da Guiné e desembarcaram em Vaida (na África Ocidental), por exemplo, os capitães e tripulantes dos barcos ficaram surpresos ao encontrar ruas bem traçadas, cercadas de ambos os lados por várias léguas por duas fileiras de árvores. Durante dias eles puderam viajar num país de campos cultivados, habitado por homens vestidos com roupas coloridas produzidas em suas próprias tecelagens.

No Reino do Congo, encontraram pessoas vestidas de seda ou veludo, como vestiam as pessoas mais graduadas da Europa.

Antes da colonização o continente africano abrigou Estados bem organizados e administrados minuciosamente. A situação dos países da costa oriental – Moçambique, por exemplo – era exatamente a mesma com tribos organizadas, funções sociais bem definidas e uma economia que garantia a sobrevivência de todos mesmo em períodos mais críticos como no tempo da seca ou de calamidades naturais.

As grandes civilizações africanas

Durante o período que chamamos de Idade Média (séculos V ao XV), poderosos Estados se desenvolveram na África Ocidental e por sua enorme riqueza, tornaram-se o principal eixo de comércio entre o mar Mediterrâneo e o interior da África.

O reino de Gana. Gana já era um reino rico antes da chegada dos comerciantes do norte e os documentos deixados por esses comerciantes (árabes e berberes) informam o que foi Gana, e relatam um império extraordinário, também chamado de Terra do Ouro. O império tinha como capital Kumbi-Saleh. Dessa cidade, o rei e seus nobres controlavam povos vizinhos, obrigando-os a pagar impostos em troca de proteção. Além disso, Gana controlava o comércio tanto das mercadorias que eram trazidas do norte (como sal e tecidos), quanto das que saíam do interior da África (como ouro e escravos). Na capital, o comércio era intenso e os seus 20 mil habitantes recebiam diariamente as caravanas que vinham de diversas regiões. Entre os séculos 9 e 10, Gana viveu seu apogeu, sendo um dos mais ricos reinos do mundo, segundo Ibn Haukal, viajante árabe da época.

O reino de Mali. O Reino de Mali era, a princípio, uma região do Império de Gana habitada pelos mandingas. Era composto por 12 reinos menores ligados entre si, e tinha como capital Kangaba. O Império se tornou herdeiro do Império de Gana, passando a controlar todo o comércio local. O ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre 1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.

Cidades iorubás. A partir do século IX formaram-se as cidades da civilização iorubá, na região da atual Nigéria, já habitada por esse povo desde o século IV.  Os iorubás nunca unificaram suas cidades, mas mantiveram a mesma cultura. A cidade iorubá mais importante era Ifé, considerada sagrada, por ser o berço dos iorubás, segundo a crença local. Outra cidade importante foi Oyo, um centro militar que, no final do século XVII, tinha se expandido até Daomé (atual Benin).

Império de Axum. O Império Axum data do ano 100 d.C., com a fundação da cidade de mesmo nome. No século IV já era o Estado de maior expressão do reino da Núbia e, por conta das relações no Mar Vermelho – local de articulação entre populações africanas e árabes – adotaram o cristianismo, que se espalhou em boa parte do território sob o domínio romano, inclusive no Egito.

Império Zimbábue. O Império Zimbábue existiu entre os anos de 1200 e 1400, no litoral da África Austral, onde hoje estão localizados Moçambique e Zimbábue. Este Império ficou conhecido por seu grande número de construções, que são testemunhos do poder alcançado por ele. Foi um poderoso Estado com hegemonia na região localizada entre os rios Zambeze e Limpopo.

Império Songai. O Império Songai está relacionado com a cidade de Gao, localizada na curva do Níger. Esta cidade foi um importante centro comercial, político e econômico, com poder militar de arqueiros que se lançavam ao Rio Niger.

Registro de avanços e conquistas

Quando os missionários portugueses chegaram ao Congo encontraram um sistema político bem organizado com cobrança de impostos e taxas. Havia, inclusive, um eficiente tribunal e um funcionalismo público estruturado. O estado construiu estradas, impôs portagens, apoiou um grande exército e tinha um sistema monetário baseado no uso de conchas, do qual o chefe supremo tinha o monopólio.

O Reino do Congo tinha também alguns estados satélites como o estado do Ngola (ie Ndongo) localizado na atual Angola. O reino original era aproximadamente do tamanho da França e da Alemanha juntas. Há registros da existência de uma arte metalúrgica especializada no antigo Congo.  Como os artífices Bakongo estavam cientes da toxicidade dos vapores de chumbo, criaram métodos preventivos e curativos, tanto farmacológicos usando doses maciças de mamão e óleo de palma e quanto mecânicos, para combater o envenenamento por chumbo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano2.html

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A razão do nome do continente africano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Ilustração Mariana Massarani

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Na maioria das vezes nós nos acostumamos com os nomes das pessoas, dos lugares, dos acontecimentos e datas históricos, não pensando no real significado de seu nome ou daquilo que está por trás desse nome. 

Começando essa nova série, é interessante a gente perguntar : Qual a motivação do nome ‘Continente africano’ e porque a África é assim chamada? Como e quando o continente africano recebeu esse nome?

Lar dos primeiros seres humanos

A África é o segundo maior continente do mundo, perdendo em extensão apenas para a Ásia, suplantando todos os demais. Ao todo 54 países se distribuem pelo continente africano. Desse total, 48 são países continentais e outros seis são insulares. Existem também alguns territórios que não são reconhecidos como países, alguns deles bem desconhecidos : Somalilândia, Mayotte, Azawad, Cabinda, Ogoniland, Barotseland e República Árabe Saharaui Democrática.

Mesmo que muitas pessoas não concordem com nisso, a África, pátria dos primeiros seres humanos, é um continente bonito, rico em suas belezas vegetais, animais, minerais e humanas, porém, muitas vezes esquecido, sobretudo, pelo mundo ocidental.

Em relação à denominação do continente, são várias explicações que tentam, segundo os historiadores e estudiosos, justificar o seu nome. A teoria mais aceita e difundida é a que afirma que foram os antigos romanos que deram esse nome ao continente, como homenagem aos AFRI, uma tribo berbere do norte do continente. Os Afri viviam em cavernas perto da cidade de Cartago onde localiza-se a atual Tunísia. 

A cidade de Cartago chegou a se constituir como uma forte potência comercial que se opôs à expansão romana. Por volta de 146 a.C, depois das Guerras Púnicas, Cartago e áreas adjacentes foram conquistadas pelo Império Romano, transformadas em província. Depois disso, os romanos dominaram o Mar Mediterrâneo, constituindo um império de enormes dimensões que dominou e incluiu todo o norte do continente.

Origem do nome do continente

Em vez de dar o nome de Cartago à nova província, ela recebeu o nome de África porque a tribo AFRI tinha sido leal à liderança de Roma. Depois veio a junção com a palavra latina ‘ca’ com o significado de ‘terra’. Como resultado o continente que começamos a estudar desde então passou a se chamar de ‘a Terra dos Afri’.

Existem, porém outras teorias menos difundidas que explicam a razão do nome do continente. Uma dessas teorias parte também da etimologia, afirmando que a palavra África tem origem na palavra latina aprica, que significa ensolarado. Fala-se também do antigo termo grego aphrike, que significa sem frio. Ambos os termos concordam com a mesma explicação, pelo fato de que no continente predomina o tempo ensolarado, com uma menor incidência do frio.

Alguns historiadores também sugerem a existência de uma conexão entre o nome do continente africano com a palavra egípcia ‘af-rui-ka’, que significa ‘voltar-se para a abertura do Ka’. Na mitologia egípcia, Ka era o poder da alma, como se fosse um duplo energético de cada pessoa. Isso significa que ‘af-rui-ka’ pode ser traduzido como ‘o local de nascimento’.

Outra teoria ainda, bem diferente das demais surgiu no início do século XVI, quando o famoso explorador Leo Africanus, que documentava tudo o que via ao visitar muitos lugares no norte da África, sugeriu que o nome África poderia ser derivado da palavra grega ‘a-phrike’, que significa sem frio, ou sem horror. Na verdade, isso é bastante lógico porque outros historiadores sugeriram que os romanos possam ter derivado o nome da palavra latina para ensolarado ou quente, a saber, ‘aprica’. Porém, de onde os romanos tiraram exatamente o nome de África ainda é objeto de questionamentos, pela não aceitação da explicação dada segundo o nome de uma tribo do norte do continente.

As pesquisas arqueológicas e antropomórficas comprovam que a África é o lar dos primeiros seres humanos. Com isso, a expressão ‘local de nascimento’ pode ser considerada mais apropriada, por ser a África o local ancestral, onde se deu o nascimento da humanidade.

De qualquer forma, passamos a tratar de um continente de imensas possibilidades. Inclusive, a própria cartografia que durante séculos colocava o continente europeu como se fosse o centro do mundo, começa a rever os seus conceitos e muitas cartas geográficas e mapas já mostram a centralidade do continente africano no planeta terra, nossa ‘Casa Comum’.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano.html

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A história da África

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR


‘Foi no continente africano, vasto e multifacetado, que os primeiros ancestrais do ser humano surgiram e se desenvolveram dando base às demais civilizações. Saindo das areias do Saara até as densas florestas do Congo, das terras férteis do vale do Rio Nilo até as savanas do sul, em seu passado a África abrigou impérios florescentes, reinos e sociedades complexas muito antes do advento das grandes nações europeias que posteriormente subjugariam e explorariam suas riquezas.

O brilho da África sempre esteve presente na história do mundo, porém, muitas vezes foi obscurecido pelos interesses daqueles que, pela arrogância e voracidade, tentaram apagar a grandeza de seus povos.

Povos e civilizações

Diversos povos africanos desenvolveram sofisticadas culturas e avançadas formas de organização política e social. O Antigo Egito, frequentemente citado por narrativas ocidentais como se fosse uma civilização isolada do restante do continente, na verdade, se constitui num dos muitos exemplos da riqueza histórica africana. O Reino de Kush, ao sul do Egito, localizado onde existe o Sudão, floresceu como potência militar e econômica, chegando a governar a terra dos faraós em um período conhecido como Dinastia Núbia. A grandiosidade de Timbuktu, no Império Mali, se rivalizava com as mais célebres cidades europeias da Idade Média, como um centro de saber, onde se reuniam estudiosos, filósofos e matemáticos que alimentavam a ciência muito antes do Renascimento europeu. No Império de Gana, riquezas incalculáveis em ouro circulavam por rotas comerciais que conectavam a África ao mundo islâmico e mais além.

Enquanto a Europa vivia no sistema feudal, os reinos africanos já haviam estabelecido dinâmicas comerciais bem sofisticadas. No Zimbábue foram erguidas edificações em pedra sem o uso de argamassa, um feito arquitetônico notável. O Reino do Congo já mantinha diplomacia com Portugal no século XV, mostrando que os povos africanos não eram meramente receptores passivos da presença estrangeira, mas agentes de suas próprias histórias. No entanto, à medida que as potências europeias foram conhecendo as imensas riquezas da África, iniciou-se a longa e brutal campanha de exploração que definiria séculos de sofrimento e resistência. O mercantilismo, muitas vezes explorando divergências entre reinos e tribos locais, gerou séculos de colonização.

Confronto com as civilizações ocidentais

A chegada dos europeus não significou um intercâmbio pacífico de culturas, mas o início de uma de uma triste página da história mundial graças à escravização transatlântica. Milhões de africanos sequestrados de suas terras, arrancados de suas famílias e acorrentados em navios negreiros cruzaram o oceano rumo às Américas.

A partir do final do século XV e início do século XVI, algumas florescentes sociedades foram destruídas, com a fragmentação de estruturas políticas que haviam levado séculos para serem construídas. Os impérios africanos, que haviam prosperado, foram minados por uma política de desestabilização que visava garantir um fluxo contínuo de seres humanos para alimentar a necessidade de mão de obra que sustentaria a produção em outros continentes.

Maia tarde, ao longo do século XIX, aconteceu a partilha da África em várias áreas de influência e dominação. Fronteiras artificiais foram traçadas, povos que antes coexistiam foram separados, e inimigos históricos foram forçados a compartilhar o mesmo espaço, criando conflitos que repercutem até hoje.

As marcas da colonização com a exploração de suas terras e de seus recursos agro-minerais persistiram por muito tempo e ainda hoje não foram de todo superadas. Várias regiões foram palco de exploração que geraram morte e perda de milhões de vidas humanas.

Mas a África nunca se curvou completamente. A resistência sempre esteve presente, desde as revoltas contra o domínio colonial até os modernos movimentos de libertação. Homens e mulheres lutaram pela liberdade com grande coragem e determinação. A Etiópia, sob Menelik II, impôs uma das maiores derrotas a uma potência europeia na Batalha de Adwa, mantendo sua soberania diante do imperialismo italiano. Samori Touré resistiu bravamente ao domínio francês, assim como os Ashanti contra os britânicos.

E, no século XX, líderes como Kwame Nkrumah, Patrice Lumumba e Nelson Mandela desafiaram as forças coloniais e neocoloniais, mostrando ao mundo que a África pertencia aos africanos.

O continente ainda carrega as cicatrizes da exploração, mas sua resiliência nunca se apagou. A África continua sendo um berço de inovação, cultura e resistência, mesmo enfrentando os desafios herdados do colonialismo. A história africana é uma história de grandiosidade, e sua trajetória futura será escrita por aqueles que continuam a desafiar os resquícios de um passado que tentou, mas nunca conseguiu, apagar sua luz.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano0.html