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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

África: as consequências das guerras na escolarização das novas gerações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo da Vatican News

 

‘A questão da fixação dos exames de fim de ano letivo de 2024 para os estudantes sudaneses e refugiados no Egito, tema do encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países, mostra como a guerra no Sudão afeta a vida estudantil dos jovens. Segundo fontes governamentais, há cerca de 1,2 milhões de refugiados sudaneses no Egito, incluindo crianças em idade escolar que não podem integrar-se no ensino porque não são registadas logo que chegam ao Egito. O problema da escolarização por causa da guerra é semelhante em todo o continente, especialmente na África subsariana.

Vastas zonas do continente africano estão hoje dilaceradas por conflitos, pela violência praticada por grupos armados, pela luta pelo controlo dos recursos : África Ocidental e Sahel, Nigéria, República Democrática do Congo, Etiópia... Por todo o lado, a escola e a educação são as primeiras vítimas dos confrontos armados, porque a continuação das atividades educativas normais é vista como um obstáculo à ação das milícias. As Nações Unidas estimam este ano que quase 40% dos ataques a escolas em todo o mundo ocorrem em África, onde foram registados mais de dois mil e quinhentos nos últimos anos.

No Sahel, há atualmente cerca de 14 000 escolas que foram fechadas, com cerca de 2,8 milhões de crianças que não podem ir à escola. Na República Democrática do Congo, o problema é generalizado nas regiões orientais, onde operam tanto grupos armados extremistas como grupos apoiados por países vizinhos. Só no início deste ano, cerca de quinhentas escolas foram encerradas no Kivu do Norte, um número que não deverá melhorar até 2025, dada a persistência da violência. No total, de acordo com estimativas publicadas pela Unesco em setembro último, 30% de todos os menores do mundo que não vão à escola concentram-se apenas na África subsariana.

O problema agrava-se quando se tem em conta que a população do continente é a mais jovem do mundo. Um elevado número de crianças que não frequentam a escola devido a conflitos acrescenta incerteza e novos problemas relativamente às perspetivas de futuro. Curar a escolaridade pode garantir um desenvolvimento económico o mais alargado possível, mas hoje em dia há demasiadas crianças e jovens refugiados devido às guerras ou que ainda vivem nos bairros de lata das grandes cidades (segundo dados da Unicef atualizados para 2020, existem mais de 1,8 mil milhões no mundo, concentrados sobretudo em África e na Ásia) e correm o risco de ficar à margem da sociedade para o resto das suas vidas.

No caso das crianças que não vão à escola devido aos conflitos, o fenómeno assume também caraterísticas de gênero, porque as raparigas são frequentemente as primeiras a deixar de ir à escola e as últimas a retomar os estudos após o fim dos conflitos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2025-01/africa-as-consequencias-das-guerras-na-escolarizacao-das-novas.html

domingo, 21 de julho de 2024

O preço da exclusão

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Emiliano Magistri


No mundo 250 milhões de meninas e meninos são excluídos da escola. Este é um dos dados contidos em The price of inaction: The global private, fiscal and social costs of children and youth not learning, o relatório da Unesco que faz um resumo da situação geral, até hoje, em termos de evasão escolar e falta de instrução.

Trata-se de um fenômeno  extremamente preocupante que tem também um impacto social considerável do ponto de vista económico, uma vez que o custo estimado é de 10.000 bilhões de dólares por ano até 2030 : para entender melhor as dimensões do que poderíamos definir como um verdadeiro flagelo, basta pensar que o valor é maior do que o Pib anual da França e do Japão juntos. Portanto, é um apelo à responsabilidade geral.

Direito humano universal. Assim foi declarada a educação em 1948, um título reafirmado em 2015 pelas Nações Unidas, que incluiu o acesso à educação de qualidade para todos entre os Objetivos de desenvolvimento sustentável. No entanto, apesar das boas intenções, os eventos atuais dizem que ainda há um longo e sinuoso caminho a percorrer. Com efeito, aos números mencionados acima, que já são impiedosos por si só, devemos acrescentar que 70% das crianças de 10 anos de idade que vivem em países de baixa e média renda são hoje incapazes de entender qualquer simples texto escrito.

Fazer com que as pessoas entendam que a educação é um investimento estratégico, não apenas para os indivíduos, mas inclusive para todos os países, é o objetivo deste relatório com o qual a Unesco procura falar uma linguagem clara, mas eficaz : reduzir em apenas 10 pontos a percentagem de evasão escolar ou de pessoas que não adquiriram habilidades básicas permitiria que o Pib anual crescesse de 1 a 2 pontos percentuais.

Deixando de lado as questões financeiras, o que deve enfocado é o enorme dano social que estas carências formativas geram. Procurar preencher estas enormes lacunas na aprendizagem implica um maior foco mundial no desenvolvimento integral das meninas, ajudando a reduzir as possibilidades de casamento precoce (ou até forçado) e gestações prematuras. Portanto, agir nesta direção torna-se uma prioridade.

Significativo neste sentido foi o que ocorreu durante uma reunião de ministros da educação realizada recentemente na sede da Unesco em Paris : Audrey Azoulay, diretora-geral, convidou os 194 Estados-membros da organização a cumprir o seu compromisso de «transformar a educação de um privilégio numa prerrogativa para cada ser humano no mundo», enfatizando como a própria educação representa um recurso fundamental para enfrentar os desafios atuais, desde a redução da pobreza até ao combate contra as mudanças climáticas.

Para garantir que a educação de qualidade para todos seja transformada de Objetivo de desenvolvimento sustentável num resultado concreto, o relatório da Unesco sugere dez recomendações para os governos de todo o mundo : garantir percursos educacionais gratuitos e com financiamento público por um período mínimo de 12 anos para todas as meninas e meninos, destinando pelo menos 4-6% do Pib para a educação; criar ambientes de aprendizagem inclusivos que desafiem as desigualdades, os preconceitos e os estereótipos de género; investir na educação infantil para abordar as desigualdades de género e as normas prejudiciais de género desde a mais tenra idade; oferecer apoio académico e opções de segunda oportunidade para meninas e meninos que não tiveram acesso à educação ou que a interromperam; melhorar a infraestrutura escolar, com estruturas hídricas e de saneamento e garantir distâncias mais curtas para as alcançar; assumir professores qualificados e motivados e apoiar o seu desenvolvimento profissional; conscientizar as comunidades locais e as famílias sobre a importância de que meninas e meninos concluam um ciclo completo de educação básica; abordar a saúde mental e o bem-estar mental de meninas e meninos, a educação sexual abrangente e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais; ligar os alunos ao mundo do emprego, incluindo educação e treinamento vocacional que atenda às necessidades do mercado de trabalho; realizar pesquisas sobre o que funciona para reter ou trazer meninas e meninos de volta à escola, especialmente aqueles com alto risco de pobreza de aprendizagem e evasão escolar.

Foi em 2014 que, durante uma reunião com o mundo escolar, o Papa Francisco disse : «Ir à escola significa abrir a mente e o coração para a realidade, na riqueza dos seus aspetos, das suas dimensões. E não temos o direito de recear a realidade». É hora de o demonstrar.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2024-07/por-029/o-preco-da-exclusao.html

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

10 erros comuns na educação dos filhos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da LaFamilia.Info


‘Você já se perguntou alguma vez por que costumam dizer que ‘educar é uma arte’? Pois bem, a tarefa educativa dos pais é delicada e maravilhosa como a arte, e isso envolve um processo de aprendizagem sujeito a erros. Apesar de querer o melhor para seus filhos, nem sempre os pais os beneficiam com certas atitudes.

Sabemos que ninguém nasce sabendo, nem sequer os pais, e serão muitas as tentativas falidas para fazer dos filhos pessoas corajosas; no entanto, esses tropeços são oportunidades para interromper um comportamento inapropriado e mudar o rumo.

A intenção aqui não é criticar a tão admirável tarefa de educar os filhos, mas abrir espaços de reflexão e avaliar ações que podem ser corrigidas a tempo. A seguir, apresentamos os erros mais frequentes dos pais na formação dos seus filhos :

1. Uso inadequado da autoridade : isso acontece quando a autoridade é concebida apenas em seus extremos : autoritarismo ou permissividade. Não há meio-termo. Mas um extremo é tão prejudicial quanto o outro e o ambiente educativo em ambos não ajuda em nada na formação da pessoa : o autoritarismo mostra a posição rigorosa dos pais, que dá como resposta filhos temerosos e solapados; e a permissividade mostra excesso de liberdade, o que acaba se transformando no efeito contrário, ou seja, pessoas cheias de ataduras.

2. Incongruência entre o falar e o agir : este é um dos erros mais cometidos pelos educadores, sem que tenham consciência do seu alcance. Refere-se às famosas ameaças que nunca são levadas à prática, bem como às promessas que nunca são cumpridas. Um exemplo é quando os pais aplicam normas ou sanções que depois são ignoradas por eles mesmos, que não as cumprem e acabam cedendo. Isso indica que a autoridade é fraca e pode ser facilmente destruída.

3. Disparidade na autoridade : refere-se à situação na qual a mãe diz uma coisa e o pai, outra, com regularidade. Isso tira a autoridade dos dois, produzindo um labirinto no qual o filho não sabe que direção seguir nem a que saída chegar. A falta de união de critérios educativos entorpece a missão instrutiva.

4. Conceito errôneo de liberdade : é a falsa crença de que a liberdade consiste em permitir que os filhos façam o que quiserem, onde quiserem, como quiserem e na hora em que quiserem, porque os pais assim consideram que, ao estabelecer lineamentos, estão impedindo o livre desenvolvimento da personalidade dos filhos. Educar na liberdade é muito diferente : permitir e propor nos filhos a tomada de decisões com base em diversas possibilidades, ajudando-os a distinguir o que é benéfico ou prejudicial.

5. Superproteção : consiste em impedir a autonomia dos filhos; os pais fazem no lugar deles as tarefas que os pequenos estão em perfeitas condições de executar com seus próprios meios. Em geral, pais assim buscam evitar sofrimentos e dificuldades na vida dos filhos. O resultado da superproteção é a insegurança gerada na pessoa, bem como a incapacidade de lidar com inconvenientes. É um amor possessivo, de apego, que obstaculiza o processo natural dos filhos.

6. Manipulação afetiva : acontece quando há interferência de um interesse específico dos pais para alcançar um objetivo com seus filhos. Pode se dar em qualquer idade, inclusive quando os filhos já formaram seus próprios lares e os pais recorrem a diversas razões (dinheiro, doença, companhia etc.) para chamar sua atenção. Quando são crianças, os elementos de manipulação costumam ser outros.

7. Preencher vazios com elementos materiais : é um fenômeno vivido em muitas famílias atuais; a falta de tempo para estar com os filhos é compensada com brinquedos, computadores, celulares… que têm como finalidade satisfazer a necessidade de carinho que os pais não podem oferecer aos filhos devido às suas ocupações.

8. Não reconhecer as limitações dos filhos : negar-se a admitir as dificuldades que os filhos apresentam ou exigir deles habilidades que não possuem pode levar a uma série de contrariedades que prejudicam as duas partes. Muitas vezes, os pais buscam fazer dos seus filhos o que eles não puderam fazer quando tinham sua idade, e assim suas frustrações são vistas como possibilidades na vida dos seus pequenos. Outro cenário no qual esta situação é comum é o dinamismo da relação família-escola, na qual os professores oferecem um feedback aos pais sobre o comportamento dos filhos e eles se recusam a aceitar tal realidade.

9. Comunicação deficiente : é o medo de tratar com os filhos alguns temas difíceis de abordar (sexualidade, drogas, amizades inconvenientes etc.); isso deixa os filhos em plena liberdade para encontrar a informação em fontes que distorcem a realidade e o sentido das coisas.

10. Uso inadequado das novas tecnologias : observa-se nos lares uma carência de limites e normas no uso das novas tecnologias, o que pode abrir portas a mundos obscuros e perigosos para seres humanos que ainda se encontram em formação : contato com pessoas desconhecidas, pornografia, vício em jogos, isolamento, entre outros.

Ao ver estes erros dos pais, podemos concluir que é fácil cair neles, dada nossa condição humana. O mais importante é saber levantar-se, buscando formas de evirar ou enfrentar os erros, dando-lhes uma solução oportuna.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2020/01/23/10-erros-comuns-na-educacao-dos-filhos/

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Renovação e consciência pensando o futuro das universidades católicas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo publicado no L'Osservatore Romano


Nos desafios históricos e culturais que as universidades católicas enfrentaram e ainda deverão enfrentar, é essencial conjugar sempre «renovação» e «consciência», como insiste o Papa Francisco, disse o cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a cultura e a educação, durante a ‘lectio’ que proferiu na manhã de 13 de julho, no diálogo científico sobre o tema : «O futuro das universidades católicas na era da inteligência artificial (IA)», que teve lugar na sede histórica da Universidade do Sagrado Coração, em Milão. Através de zoom, o purpurado convidou as oito universidades que fazem parte da Strategic alliance of catholic research universities (Sacru), a dialogar com o novo, a ocupar-se sem hesitação das questões e problemas atuais, e a constituir-se como «grandes laboratórios do futuro» no campo da IA.

A Constituição Apostólica Ex corde Ecclesiae oferece às universidades católicas um rico impulso de encorajamento ao qual vale a pena voltar. O espírito da Constituição consiste certamente em enraizar as universidades católicas no «coração da Igreja» (n. 1) e na sua missão, na «busca ardente da verdade» (n. 2), na «fidelidade à mensagem cristã» (n. 13) e no «compromisso institucional ao serviço do povo de Deus e da família humana» (n. 13). Mas, ao mesmo tempo, desafia a universidade a constituir-se como «incomparável centro de criatividade» (n. 1), a sentir-se chamada «a uma renovação constante» (n. 7), sobretudo «no mundo atual, caraterizado por uma evolução tão rápida da ciência e da técnica» (n. 7). Portanto, numa instituição que faz da busca da verdade o seu modo de existência, a renovação constante deve considerar-se um dado normal. Com efeito, as Universidades católicas devem dialogar com o novo, trabalhar incansavelmente sobre as questões e os problemas atuais, constituindo-se como grandes laboratórios do futuro. Das universidades católicas espera-se não só que conservem ativamente a nobre memória dos tempos passados, mas também que sejam sondas e berços do porvir. Contudo, esta renovação que as distingue deve ser acompanhada e, como nos recorda a Ex corde Ecclesiae, apoiada por uma «clara consciência» (n. 7) da sua natureza e identidade. Por isso, nas várias viragens históricas e culturais que as universidades católicas viveram, incluindo a mudança atual, tão exigente, é essencial conjugar sempre dois termos : «renovação» e «consciência».

Sobre a «renovação» e a «consciência», o Papa Francisco falou com insistência, esclarecendo também o tema da conferência científica agora inaugurada : The Future of Catholic Universities in the Ai Age. São muito oportunas estas suas palavras : «Todos sabemos como a inteligência artificial está cada vez mais presente em cada aspeto da vida diária, tanto pessoal como social. Incide no nosso modo de compreender o mundo e a nós mesmos... e até nas decisões humanas» (Discurso no encontro ‘Rome Call’, promovido pela Fundação Renaissance, 10 de janeiro de 2023). E o caminho que nos indica é o do diálogo e discernimento, que estão claramente na linha da «renovação» e da «consciência». Com efeito, o Santo Padre exprime «a convicção de que só formas verdadeiramente inclusivas de diálogo podem permitir-nos discernir sabiamente como colocar a inteligência artificial e as tecnologias digitais ao serviço da família humana» (Discurso aos participantes nos ‘Minerva Dialogues’, 27 de março de 2023).

Não há dúvida de que o futuro exige uma visão interativa, uma maturidade multifacetada da realidade e a audácia de correr riscos. Como sabemos, o risco é inseparável de um contexto educativo digno de tal nome. Mas um risco razoável. Risco razoável é, por exemplo, no contexto atual, manter as prioridades devidamente salvaguardadas : «A prioridade da ética sobre a técnica», «o primado da pessoa sobre as coisas», «a superioridade do espírito sobre a matéria», pois «a causa do homem só será servida se o conhecimento estiver unido à consciência» (Constituição Apostólica Ex corde Ecclesiae, 18). Portanto, é necessário fortalecer uma antropologia integral que inscreva a pessoa humana no centro dos principais processos de civilização. O grande investimento a fazer só pode ser humano, ou seja, investimento na formação de cada membro da família humana, para que possa desenvolver as suas potencialidades cognitivas, criativas, espirituais e éticas, e assim contribuir, de modo qualificado, para o bem comum. A grande questão por detrás da inteligência artificial continua a ser antropológica. E os desafios que se apresentam à educação não podem ser diferentes dos que se apresentam hoje à pessoa humana.

As universidades, e ainda mais as universidades da Igreja, situam-se numa encruzilhada de possibilidades culturais, científicas e sociais. Elas não vivem para si mesmas, como se fossem bolhas impermeáveis da realidade. Pelo contrário, desenvolvem-se na medida em que se tornam capazes de escuta, de práticas colaborativas corresponsáveis, de um encontro generativo de pessoas e culturas. Isto requer uma inteligência criativa, mas inclusive um discernimento que não pode ser parcial, nem improvisado, mas solidamente baseado nos próprios valores.

Em relação à mudança de época que vivemos, lembro-me do modo prudente como o Fedro de Platão reage à transição de sociedades baseadas na oralidade para sociedades em que a escrita se torna predominante. As opiniões dividiam-se. Para uns, a escrita torna o ser humano mais sábio e é um remédio que ajuda a sua memória. Para outros, os perigos são maiores do que as vantagens e argumentam que a nova forma de comunicação «vai gerar o esquecimento nas almas : elas deixarão de exercitar a sua memória porque, apoiando-se na escrita, chamarão à mente as coisas não já do seu interior, mas do exterior, através de sinais alheios... Podendo ter conhecimento de muitas coisas sem o ensinamento, julgar-se-ão muito eruditos, mas quanto à maior parte, nada saberão».

Indubitavelmente, a entrada das universidades católicas nesta nova época histórica, em grande parte ainda a descobrir e regulamentar, obriga-nos a um delicado exercício de responsabilidade. As reflexões do Papa Francisco, que somos chamados a acolher, parecem-nos particularmente pertinentes. O Santo Padre afirma : «A simples educação para o uso correto das novas tecnologias não é suficiente : na realidade, elas não são instrumentos ‘neutros’, pois como vimos plasmam o mundo e vinculam as consciências aos valores. Há necessidade de uma ação educativa mais ampla... Há uma dimensão política na produção e utilização da chamada ‘Inteligência artificial’, que não se refere apenas à distribuição das suas vantagens individuais e abstratamente funcionais. Por outras palavras : não basta confiar simplesmente na sensibilidade moral daqueles que fazem pesquisa e projetam dispositivos e algoritmos; é preciso, ao contrário, criar corpos sociais intermediários que garantam a representação da sensibilidade ética dos usuários e educadores... Podemos ver uma nova fronteira, que poderíamos chamar ‘algor-ética’...» (Discurso à Plenária da Pontifícia Academia para a Vida, 28 de fevereiro de 2020).

Que as nossas universidades católicas, com os instrumentos da «renovação» e da «consciência», possam habitar de modo credível as novas fronteiras.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2023-07/por-030/renovacao-e-consciencia-pensando-o-futuro-das-universidades-cato.html

terça-feira, 3 de maio de 2016

A luta pela educação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


‘Tive a oportunidade de ir aos montes Nuba, no Sudão. Trata-se de um território um pouco maior do que metade de Portugal, em grande parte controlado pela ala nortista do Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLA-N). Desde o reatamento da guerra, em Junho de 2011, que as escolas funcionam com professores voluntários. São apoiados apenas pelas famílias das crianças, que com eles partilham um pouco do produto das suas colheitas. As estruturas estão degradadas, muitos professores não têm a preparação adequada e faltam livros e material escolar. Autoridades locais e professores repetiram um sem-número de vezes que a sua grande prioridade é a educação das crianças.

Entramos e saímos da região por Yida, no Sul do Sudão, onde se encontra o maior campo de refugiados núbios, com mais de 75 mil pessoas registadas e mais alguns milhares não registados. Não fossem os oleados fornecidos pelo Alto Comissariado para os Refugiados (ACNUR), qualquer visitante seria levado a pensar tratar-se apenas de uma grande aldeia. A queixa mais ouvida no campo é a de que a ACNUR lhes está a negar o direito básico à educação, uma vez que recusam, tal como o Alto Comissariado desejaria, serem transferidos para o campo de Ajoung Thok. As razões que invocam : situa-se num lamaçal e não é seguro, devido à proximidade de uma guarnição militar sudanesa – o campo fica perto de uma parte da fronteira controlada pelo Governo de Cartum.

A situação da educação é, em síntese, a seguinte : as escolas que existem no campo foram feitas pela comunidade e funcionam em estruturas rudimentares (são cobertas por oleados e para sentar-se, além do chão, os alunos usam troncos de árvore e latas da ajuda alimentar); os professores são voluntários, em muitos casos com poucas habilitações, apoiados apenas pela comunidade; tal como nas montanhas, seguem o currículo queniano, mas faltam livros e outro material escolar (ou destinado à prática desportiva, necessária para manter a saúde física e mental das crianças, sujeitas a um quotidiano difícil).

Segundo os dados fornecidos pelos coordenadores escolares, estão a funcionar as seguintes escolas : oito primárias com 151 professores, de ambos os sexos, que têm a seu cargo 13 954 alunos; estimam que 9178 crianças não frequentem a escola; uma secundária, com 15 professores e 320 estudantes (102 meninas e 218 rapazes); 32 pré-primárias, com 202 orientadoras e 8751 crianças.

Os Nubas são um povo determinado, com uma forte identidade cultural e os esforços que tem vindo a fazer para proporcionar alguma educação são admiráveis. O objectivo é evitar que uma geração inteira de crianças cresça quase iletrada e os jovens se tornem adultos sem qualquer formação profissional. Há professores a regressarem do estrangeiro, onde poderiam ter um futuro melhor, para darem o seu contributo à comunidade a troco de comida.

Recordo esta situação cada vez que ouço falar de decisões para facilitar a vida dos estudantes – reduzir ao mínimo a avaliação «para não os discriminar» ou para os «passar ao colo», baixar as propinas ou dar de borla manuais escolares mesmo a quem tem mais posses (talvez para não comprometer a sua participação nos inúmeros festivais de Verão que estão à porta). Diz-se que esta geração é a mais bem preparada academicamente. Pode perguntar-se se é a mais bem preparada para enfrentar as dificuldades da vida. Porque em geral não há aprendizagem – nem saber de experiência feito – sem esforço e sem luta.’


Fonte :
* Artigo na íntegra


domingo, 22 de novembro de 2015

A educação para a virtude e a diferença entre tolerância e indiferentismo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina 


Não se cria mais tolerância quando se nega às crianças que sequer exista um bom alimento, ou uma forma mais adequada de se alimentar, para início de conversa. Ao se negar este ensinamento às crianças, não se cria uma sociedade de tolerantes, mas uma sociedade de glutões

Na sua excelente obra ‘Cristianismo Puro e Simples’, o escritor inglês C.S. Lewis imagina, num determinado momento, uma cultura em que as pessoas se sentissem atraídas por um ‘strip-tease’ culinário. O que pensar de uma cultura assim? Trata-se de um povo faminto? Não necessariamente, diz ele. E acrescenta : ‘os homens famintos pensam muito em comida, mas os glutões também. Tanto os saciados quanto os famintos gostam de estímulos novos.’

Dentro deste mesmo mote, imaginemos uma sociedade com sérios distúrbios alimentares. Todos comem sem parar, e mais, estão sempre à procura de novas formas de comer que driblem o limite orgânico e permitam continuar o máximo possível com a comilança. Neste suposto país, cientistas descobriram uma pílula que impede o organismo de absorver calorias e outros nutrientes dos alimentos, e com isso as pessoas podem comer compulsivamente sem engordar, e mesmo sem que seu corpo jamais emita sinais de saciedade. Outros cientistas, ainda, descobriram pequenos artefatos de borracha que permitem ao comilão regurgitar o alimento mastigado sem que ele sequer vá para o estômago. Logo outros pesquisadores descobrem que as pessoas já não se satisfazem com a imensa variedade de alimentos oferecidos ao seu paladar cada vez mais voraz, e descobrem que em culturas primitivas alguns povos de ilhas distantes introduziam seu alimento pelo lado inverso do organismo, descobrindo ‘prazeres’ culinários que, segundo dizem estes cientistas, foram autoritariamente reprimidos pela cultura ocidental judaico-cristã. E começa uma ‘revolução alimentar’ no ocidente. Autores descrevem as antigas práticas religiosas de jejum como próprias de uma religiosidade fanática e castradora, e teólogos vanguardistas repudiam a ideia de que o jejum, ou mesmo a temperança, fossem autênticos ensinamento de Jesus.

O papa, então, interpelado por tais teólogos, lança uma Encíclica chamada, digamos, ‘Humanae Comidae’, condenando o uso de qualquer meio artificial como pílulas e borrachas para descaracterizar os fins naturais da alimentação, e sofre agressões de bispos, teólogos e leigos do mundo inteiro, que propõem uma ‘ ’ para substituir a ideia conservadora de que a temperança fosse uma virtude. O lema desses vanguardistas é; ‘mais tempero, menos temperança’. A gula é descrita como uma ‘inclinação natural do ser humano’, e aqueles que teimam timidamente em defender a moderação alimentar, bem como a necessidade de consumir os alimentos através da extremidade superior do organismo, são rotulados de ‘gastrofóbicos’ e acusados de desprezar os avanços científicos que nos legaram a pílula antissaciedade e a bolsinha de borracha antideglutição.

Trata-se, agora, de, a pretexto de preparar nossas crianças para conviver num mundo em que cada um come o que quiser, na hora que quiser, quanto quiser e pela extremidade que quiser, de ensinar a estas crianças que não se pode fazer nenhuma diferença ética entre nenhuma dessas formas de se alimentar, e que aqueles que quiserem são livres para jejuar na sexta-feira santa e de acreditar que a temperança é uma virtude, mas, num estado laico, não podem impor isto ao restante da sociedade. E as crianças são educadas, por decisão governamental, mesmo nas escolas confessionais, para esquecer a diferença entre saciar modestamente a fome com uma quantidade adequada de boa comida, por um lado, e empanturrar-se, regurgitar e comer de novo. Os educadores – e com eles alguns líderes religiosos e mesmo teólogos – estão absolutamente convencidos de que qualquer um que ensine temperança e mesmo ascese alimentar aos seus filhos é um tradicionalista fóbico que deve ser duramente combatido. E pedem ao Papa que não somente reconheça, mas aconselhe a todos os fiéis o uso da pílula antissaciedade, das bolsinhas de borracha regurgitadoras e da alimentação pela extremidade inversa não somente como toleráveis, mas até mesmo como desejáveis – já que o uso dessas técnicas até mesmo reduziu a obesidade da população, os índices de açúcar e colesterol e, por consequência, doenças como o enfarto e a hipertensão, sem necessidade de questionamentos moralistas sobre ascese e temperança, cientificamente ultrapassados – dizem eles. A resistência do Papa neste ponto, alertam, é só uma prova de que a Igreja Católica é ultrapassada e não sobreviverá ao futuro da humanidade esclarecida.

Escritores lançam livros sobre esta ‘nova forma de comer’, e soam muito futuristas e vanguardistas para todos. Os educadores católicos temem ser ultrapassados pelas escolas laicas, que estão preparando seus alunos desenfreadamente para este mundo novo e certamente terão melhor desempenho nas provas públicas para o ensino superior. ‘Velhos preconceitos religiosos não podem prejudicar nossos alunos’, dizem. E introduzem disciplinas de reeducação gastronômica em suas próprias escolas.

Nste ponto, o grande C. S. Lewis acrescenta : ‘Não existe muita gente que queira comer coisas que não são alimentos ou que goste de usar a comida em outras coisas que não a alimentação. Em outras palavras, as perversões do apetite alimentar são raras. As perversões do instinto sexual, porém, são numerosas, difíceis de curar e assustadoras. Desculpem-me por descer a esses detalhes, mas tenho de fazê-lo. Tenho de fazê-lo porque, há vinte anos, temos sido obrigados a engolir diariamente uma série enorme de mentiras bem contadas sobre sexo. Tivemos de ouvir, ad nauseam, que o desejo sexual não difere de nenhum outro desejo natural, e que, se abandonarmos a tola e antiquada ideia vitoriana de tecer uma cortina de silêncio em torno dele, tudo neste jardim será maravilhoso.

Não é à toa que, em nossos catecismos – no tempo em que eram considerados documentos valiosos para a catequese e a educação cristã – a concupiscência alimentar está colocada no mesmo plano da concupiscência sexual. No esquema catequético da chamada ‘tríplice concupiscência’ (1Jo 2, 16-17), a gula e a luxúria estão inseridos na ‘concupiscência da carne’. Por isto, a parábola acima pode ser bem útil para entender o que exatamente está ocorrendo, hoje, no campo da educação sexual, o mote parece ser : ‘eduquemos as crianças para conviver num mundo em que não há diferenças éticas entre comportamentos sexuais, em nome da tolerância’.

Mas já não se trata de tolerar, ou seja, de aprender a aceitar que o outro é diferente e deve ser respeitado na sua diferença. Para isto (usando a mesma metáfora) precisaríamos dar às crianças, primeiro, o bom alimento, para que depois elas fossem educadas no sentido de que nem todos escolherão o bom alimento, e não devem ser repudiadas por isto. Não se cria mais tolerância quando se nega às crianças que sequer exista um bom alimento, ou uma forma mais adequada de se alimentar, para início de conversa. Ao se negar este ensinamento às crianças, não se cria uma sociedade de tolerantes, mas uma sociedade de glutões.

É claro que a concupiscência da carne é somente uma das três dimensões da concupiscência humana. E nem é a mais grave. O mais grave é que estamos ensinando, em nome da tolerância, que não temos o direito, como sociedade, de distinguir entre virtude e concupiscência, e que qualquer um que o faça é um moralista conservador ultrapassado. E promovemos a concupiscência, ensinamos a concupiscência, a título de preparar nossas crianças a viver num mundo plural. E mais, acreditamos mesmo que o avanço da ciência, no sentido de reduzir ou eliminar as consequências da concupiscência, mudam a própria moralidade das condutas concupiscentes. Isto é falso. E dizer isto não é intolerância, mas lealdade com a verdade.

Este é o último e mais profundo problema : ‘o que é a verdade?’ (Se a pergunta ‘o que é a verdade?’ deve pautar nossa educação, estamos num mundo em que Pilatos triunfou sobre Jesus). Mas um mundo relativista nega que a verdade sequer exista – e crê, portanto, que educar é simplesmente mostrar todos os fatos às crianças, para que elas próprias experimentem e construam seu próprio código moral. Não pode ser assim. Ninguém espera que seu filho se atire do último andar de um edifício para descobrir a lei da gravidade. Também não devemos ter receio de transmitir para eles os nossos próprios valores filosóficos, religiosos, éticos e culturais, ao lado do ensinamento de que devem conviver em paz com os diferentes. Porque, se não o fazemos, já não nos importamos com o desenvolvimento da capacidade de discernir, que é a essência da educação. Num mundo em que não há verdades, a rigor não há tolerância, mas indiferentismo. 


Fonte  :


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A sadia educação e a propagação de ideologias – família e sexualidade nas escolas (Capítulo 3 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina


No terceiro e último artigo da série, discutiremos como é possível acolher e discutir toda a riqueza da noção de família à luz do conceito filosófico da analogia, sem, ao mesmo tempo, desprezar os critérios da reta razão, da cultura e das tradições religiosas autênticas

No artigo anterior, fizemos uma discussão sobre a conceituação da família à luz da teoria aristotélica das quatro causas, e já ali ficou clara a necessidade de aprofundar a noção de analogia, a fim de possibilitar uma nomeação adequada das realidades análogas à família, sem, ao mesmo tempo, destruir o primeiro analogante – que é aquela realidade familiar que atende perfeitamente às quatro causas – e sem, por outro lado, deixar de incluir como família certas realidades que, embora não se enquadrem perfeitamente em tais causas, guardam em si certa proporção com ela, de tal modo que se pode atribuir o nome de ‘família’ com fundamentadas razões filosóficas.

A categoria lógica da analogia foi perdida na filosofia contemporânea. De fato, somente pode pensar analogicamente aquele que crê na realidade das coisas, e no conhecimento como interpelação feita pelas coisas à inteligência pessoal do ser humano. Aquele que parte de um idealismo filosófico, ou seja, de um ‘pensamento’ que ‘constrói realidades’ desconhece o valor da analogia, porque desconhece a própria contingência criatural e a preexistência lógica da realidade do ser. A analogia, como categoria lógica, para ele não se põe : é substituída pelo ‘desconstrutivismo’ do pensamento do outro e pela ‘construção’ do próprio pensamento elevado a fundamento de realidade. Assim agem os deuses, atropelando pelo caminho, como ‘opressores’, os que discordam de si.


A nomeação analógica.

Mas para os capazes de se deixar interpelar pelo ser o conhecimento se dá pela abstração : a ordem da realidade, ou das coisas, é a ordem encontrada no mundo. Na ordem da realidade, por exemplo, o remédio é uma causa de saúde nos animais. A ordem da realidade é simplesmente o modo que as coisas são. A ordem do pensamento é um tanto diferente. A diferença se refere ao fato de que as coisas existem no mundo de um modo, e em nossa mente de outro modo. Uma vez que realmente conhecemos as coisas, estas coisas devem, de algum modo, estar na nossa mente. De qualquer modo, eles decisivamente não estão em nossa mente da mesma maneira como existem na realidade. Elas existem na realidade como coisas particulares, e elas estão em nossas mentes não como coisas particulares. Quando a mente vem a conhecer algo, ela forma uma intenção, ou palavra interna, que ela usa para pensar nas coisas que conhece. Esta palavra interna é precisamente uma noção imaterial e universal de uma coisa particular. Assim, a ordem da realidade é a ordem das coisas particulares, e a ordem do pensamento é a ordem das noções universais destas coisas particulares. Esta abstração do universal através do particular faz toda a diferença nas duas ordens do pensamento e da realidade. É assim que, no limite vocabular do nosso falar, eu digo que o remédio é saudável, embora na ordem da realidade a saúde seja um atributo daquele que toma o remédio e se cura. É por isso que o remédio se chama saudável somente por analogia, e, no caso, por uma analogia de atribuição, em que o termo analogante é a saúde do ser vivo que ingere o remédio, e este último é o analogado na condição de causa eficiente. Do mesmo modo, pode-se chamar ‘saudável’, por analogia, à urina de um ser vivo que não tem doenças, porque é um sinal da saúde daquele ser, embora não a possua em si mesmo.

Há quem defina a analogia como uma ‘relação de semelhança’ entre coisas ou fatos distintos. Mas isto diz muito pouco : a relação de semelhança entre coisas da mesma espécie não pode ser considerada analógica, senão unívoca : duas maçãs parecem entre si, mas não são tratadas como coisas análogas – são submetidas a uma conceituação unívoca. Pai e filho têm relações de semelhança, mas esta relação não gera entre eles nenhuma analogia. Assim, a mera relação de semelhança, por si mesma, não parece induzir ou implicar a analogia. Embora seja indiscutível que onde há analogia, há semelhança, como foi visto no exemplo do remédio, acima, não se pode, por outro lado, concluir que pelo simples fato de existir semelhança, exista analogia. Como dizia o filósofo Leite Penido, ‘O análogo não é, pois, nem o idêntico, nem o disparatado, mas o 'semelhante-dessemelhante', parelha realmente mal ajustada, mas inseparável, realidade híbrida, feita de traços comuns e de fatores diferenciais : 'na predicação por analogia [diz Aristóteles] o mesmo nome é atribuído a realidades diversas, numa acepção em parte idêntica, em parte diferente’. Ou, mais precisamente, analogia significa proporção, ou proporcionalidade, como explicavam os filósofos gregos. E é neste sentido que se usa aqui : não se trata de estabelecer arbitrariamente uma proporção entre aquilo que é incomensurável, mas reconhecer, a partir de fatos objetivos, quais situações podem apresentar, entre si, uma atribuição analógica que possa representar uma verdadeira proporção. A medida da analogia e a intenção, assim compreendida como a palavra interna, como a forma do conhecido na mente, que, por sua vez, é mensurada pela coisa conhecida. Isto exclui a possibilidade de que a analogia possa ter um uso arbitrário, porque ela tem fundamento nas próprias coisas. Por isso, cada vez que uma figura de poder impõe à população que reconheça uma analogia ali onde não há nenhuma, a democracia encontra-se seriamente ameaçada, porque a razão encontra-se seriamente ameaçada. Sente-se de longe o cheiro da arbitrariedade.


Aplicando a nomeação analógica à família.

Assim, a noção analogante de família, assim compreendida como aquela realidade humana que atende às quatro causas – o que foi discutido no artigo antecedente – pode ser colocada em proporção com diversas realidades que, embora não guardem identidade com ela ou entre si, representam verdadeira proporção, e portanto podem ser analogicamente nomeadas como família. Assim, uma família constituída por um dos cônjuges e sua prole pode ser legitimamente chamada de família; também é familiar, por analogia, a relação entre um avô e seu neto, ou entre primos e tios : existe sempre, nestes casos, uma relação familiar de base que atende às quatro causas, e se encontra mais próxima ou mais distante da relação entre estas duas pessoas.

Também posso chamar de família, por analogia, aquela comunidade formada por mãe e filhos, de um lado, e padrasto e enteados, do outro. Há aí verdadeira analogia entre a figura do padrasto ou madrasta e as figuras paternas e maternas originais. O exercício de nomeação por analogia poderia, e deveria, seguir longamente por esta via. Mais um exemplo : um casal acidentalmente estéril adota legalmente uma criança sem pais, e são, de fato, por analogia, uma família. Os respectivos acidentes complementam-se de modo a suprir, de ambos os lados, com verdadeira proporção, as quatro causas que explicam a família como realidade ontológica

Mas não há analogia verdadeira entre, por exemplo, um solteiro que adota uma criança e uma família. Tampouco duas pessoas do mesmo sexo que mantêm relações sexuais entre si, ainda que coabitem, não guardam nenhuma relação analógica com uma verdadeira família. Não há como defender, sem arbitrariedade, que as causas desses relacionamentos tão dessemelhantes guardem qualquer proporção entre si. Não há como atribuir a esses relacionamentos nenhuma proporção, no campo das quatro causas, sem romper completamente o substrato racional da analogia. Também aqui, mais uma vez, o julgamento é ontológico, não moral.

Esta é a mesma conclusão a que chega a Congregação para a Doutrina da Fé, por meios estritamente racionais e perfeitamente defensáveis com razões filosóficas, quando afirma que ‘Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural.’ E, citando o Catecismo da Igreja Católica (§2357), a CDF prossegue : ‘Os atos homossexuais, de fato, 'fecham o ato sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar'’.

Note-se que julgamento da CDF procede de uma aplicação da teoria filosófica das quatro causas à noção de família, para afastar essa analogia : estas relações negam a complementariedade biológica (causa material), a existência da causa eficiente (ato sexual fechado ao dom da vida) e desviam completamente a causa final (falta a verdadeira complementariedade afetiva e sexual, falta a doação que gera fecundidade). As razões, aqui, são estritamente filosóficas.

Como não ha analogia possível entre estas realidades e a família, tampouco se pode defender racionalmente que estas duplas adotem, porque a falta de analogia retira da criança, mesmo em tese, o direito a uma família.


Impondo nomeação ali onde não há analogia.

Estes são os critérios para nomeação analógica da família. Pode-se concordar ou discordar de critérios, propor outros e defendê-los. Mas jamais se pode usar o poder, seja pedagógico, seja político, para, mesmo por razões estritamente emocionais ou sentimentais, impor ao outro uma nomeação arbitrária de duas realidades como analógicas, sem que analógicas sejam. É isto que aconteceria, por exemplo, se uma escola católica, digamos, adotasse um livro em que fosse proposto que o fato de que uma protagonista não tem pai, e sofre por isto, é fundamento suficiente para que se elimine o dia dos pais do calendário nacional. Ou que os documentos públicos devem conter espaços para o ‘genitor 1’ e o ‘genitor 2’. Não há razões para isto, tanto quanto não há razões para impor à criança que aprenda a todo custo que um travesti masculino é uma mulher, apenas porque ‘se sente mulher’ e devemos respeitar o sentimento alheio. Falta proporção.

Certa feita, um professor me perguntou : ‘como posso impedir que um aluno chame um copo d'água de elefante?’. De duas maneiras, respondi : ou você explica a ele quais são as regras da nomeação unívoca, equívoca e analógica, e as respeita através da mensuração entre a forma intencional e a realidade – caso em que o próprio aluno deduzirá que um copo d'água não e um elefante - ou lhe resta ameaçar o aluno de reprovação. Fora da razão, resta apenas a força bruta, como é o caso, por exemplo, da reunião de grupos de pressão para impor ideologias à escola ou à Igreja, ou da pura e simples criminalização estatal por ‘fobia’ de quem não aceita a nomeação arbitrária do politicamente correto.

Resta uma consideração final : não há razoabilidade que estas questões, com tantos pressupostos e tantas implicações profundas, que esta série de artigos apenas pincelou, seja levada à consideração de alunos entre seis e oito anos, com se fossem fatos incontroversos, e com absoluta desatenção, ademais, ao princípio da subsidiariedade – que determina que cabe à família, em primeiro lugar, educar os filhos sobre estes assuntos. Num país livre, qualquer um pode ter acesso a estes livros, e que bom que seja assim. Mas se eles não atendem a nenhum critério pedagógico ou mesmo filosófico ou religioso, não é bom que façam parte da proposta educacional de nenhuma escola. Menos ainda das escolas católicas, nas quais, além de violarem a reta razão e a sã pedagogia, contrariam a Revelação e o Magistério, que estas escolas juraram observar, juramento no qual as famílias devem poder confiar.’  


Fonte :


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A sadia educação e a propagação de ideologias – família e sexualidade nas escolas (Capítulo 2 de 3)

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina


No segundo artigo da série, discutiremos, à luz da filosofia aristotélico-tomista, como é possível aplicar a noção aristotélica do conhecimento por quatro causas à noção de família, proporcionando critérios seguros para estabelecer um conhecimento mais profundo e mais respeitoso dessa realidade

No primeiro artigo desta série, havíamos proposto três perguntas que se relacionam com a decisão de inserir para os alunos, na mais tenra infância, uma discussão moderninha a respeito das ‘novas configurações de família’, fundamentadas numa concepção de família (e portanto também de sexualidade) que tem fundo ideológico (mais sobre a diferença entre teoria e ideologia num artigo aqui), mas que está se impondo na nossa sociedade como fato consumado, a partir de uma série de equívocos filosóficos e pedagógicos e do apoio da grande mídia.

Discutimos, no primeiro artigo, aqui, a diferença entre uma pedagogia reta, de matriz aristotélico-tomista, em que o binômio ‘conhecer’ e ‘refletir’ fundamentam uma noção de liberdade dirigida ao fim de atualizar as potências dos seres e as virtudes das pessoas, ou seja, de participar num mundo dado e aberto, como criatura, por um lado, e a pedagogia do binômio ‘pensar’ e ‘construir’, por outro, com seu existencialismo laicista que coloca as pessoas como vontades onipotentes e adversárias do outro por princípio, deusezinhos incapazes de lidar com limites e frustrações, e como, no confronto entre ideólogos e crianças, estas últimas são a parte frágil de uma luta entre ‘pensamentos’ e ‘construções de mundo’.

Agora, trata-se de propor o seguinte questionamento : à luz da teoria aristotélica das quatro causas e dos atos e potências, bem como da noção aristotélico-tomista de analogia de atribuição e de proporcionalidade, o que significa ‘família’? É possível acolher e discutir toda a riqueza da noção de família à luz do conceito filosófico da analogia, sem, ao mesmo tempo, desprezar os critérios da reta razão, da cultura e das tradições religiosas autênticas?


A covardia da discussão emocionalista.

Há uma primeira observação a ser feita aqui. A nossa contemporaneidade está permeada por um ‘emotivismo moral’ que tem um fundo muito autoritário, porque impede de antemão as discussões de certos temas a partir de uma falsa noção de misericórdia. Tratamos deste tema num artigo aqui, mas, em resumo, trata-se de acusar o outro de insensível, de farisaico, de retrógrado, a partir da reafirmação das suas próprias dores existenciais – algo como confundir propositalmente entre um torturador e um cirurgião. Assim, alguém que argumenta que ‘o dia dos pais e o dia das mães não deve existir’ porque ‘meu filho sente muita mágoa por não ter pai/mãe, e é muita maldade celebrar a paternidade quando tantos não têm pai, e um pai nem sequer é essencial numa nova conformação de família’ não está argumentando seriamente, mas desviando a discussão através do sentimentalismo. A paternidade é um fato biológico, cultural e social importantíssimo, e a dor psicológica pela sua ausência acidental não se resolve pela eliminação do louvor da paternidade pelo outro. Também o apelo barato a uma noção sentimentalóide de ‘amor’ como ‘único fundamento da família’ tem a dimensão de mera propaganda ideológica que impede a verdadeira discussão. Nem a verdadeira noção de amor é esta, nem a família se limita a ser ‘somente amor’. Tratamos disso num outro artigo aqui.


As quatro causas e a família.

Falamos, no primeiro artigo, de uma reta pedagogia que parte de uma reta filosofia, de origem aristotélico-tomista, que reconhece o conhecer como o encontro com este ser que interpela o conhecedor, e precede logicamente ao conhecimento, e que tem proporção com a inteligência que conhece; neste sentido, o real, que mensura o conhecimento, revela-se com uma estrutura ontológica muito simples, em que o dinamismo do existir não tem uma rigidez determinista, mas longe disso, caminha das potências aos atos, aberto à liberdade humana, através de quatro causas : a causa material, a causa eficiente, a causa formal e a causa final.

Para imaginar que é possível aplicar a noção de conhecimento pelas quatro causas à realidade da família, é preciso fazer uma declaração preliminar importante: a de que a família não é uma ‘construção social’, mas uma realidade ontológica humana, que, é certo, apresenta variações culturais e históricas importantes, mas que existiu, de uma maneira ou de outra, como realidade apreensível pelo menos de modo analógico em absolutamente todas as sociedades humanas até hoje. Ela existia antes que houvesse filósofos, professores, escolas, estados e nações, e presumidamente existirá enquanto for viável existirem pessoas humanas na Terra. E isto por uma questão de necessidade ontológica, não de contingência cultural ou histórica : enquanto houver pessoas humanas juntando-se para reproduzir, haverá, ao menos analogicamente, uma família, quaisquer que sejam os condicionamentos conjunturais.

Seria impossível fazer aqui uma explicação mais detalhada das quatro causas. Qualquer introdução à filosofia minimamente decente o fará – e isto exclui a maior parte dos livros secundários de filosofia atualmente em uso, com suas pretensões sociopolíticas e seu afetado engajamento pseudocrítico. Mas cabe-nos aplicar esta estrutura ontológica das quatro causas à realidade da família, para estabelecer critérios. E tornar claro exatamente do que estamos falando, quando falamos de família. Como dizia o velho Aristóteles, somente se pode falar em conhecimento científico quando se conhece pelas causas. E somente se pode debater um pensamento quando se conhece a raiz do que se está pensando. Por isso, exponho abertamente as raízes do que penso, num debate em que muito poucos fazem o mesmo – o que constitui, aliás, uma deslealdade no debate.


Eis então como se conhece a família pelas quatro causas.


A causa material.

Qualquer família tem em si uma causa material. Esta e constituída por seres humanos, criaturas a um só tempo corporais e espirituais, mas que são causa material exatamente na sua materialidade : somente a partir de corpos complementares há uma justa causa material para a construção do conceito analogante de família (mais sobre analogia adiante). E esta não é uma constatação arbitrária: dois corpos biologicamente complementares representam o requisito mínimo suficiente para que a família ganhe relevância além dos dois envolvidos, uma vez que este é o requisito material mínimo e suficiente para que as relações entre os dois seres corporais envolva naturalmente a potencialidade de geração de um terceiro ser corporal. Nenhuma outra causa material pode gerar tal efeito, e todas as outras podem ser reduzidas a esta, quer por univocidade, quer por analogia.


A causa formal.

A causa formal, ou forma, é constituída pela união estável e complementar, expressamente manifestada, de declaração de aceitação do outro e de disposição de assumir as consequências decorrentes de uma união assim, para o bem dooutro e da prole a vir. A manifestação adequada da vontade, portanto, pode ser analogada pela sua manifestação tácita, no caso das uniões de fato, ou mesmo pela imposição involuntária da responsabilidade ao genitor leviano, no caso da reprodução por relação casual. Nestes dois últimos casos, temos famílias por analogia, como analogados secundários à analogante família causada por ‘consentimento expresso e informado’, que é causa formal perfeita da família. Falar em analogia não representa, aqui, um julgamento moral, daquelas realidades familiares resultantes de causas formais imperfeitas, mas de um mero critério ontológico.


A causa eficiente e a causa final.

Quanto à causa eficiente, trata-se, aqui, da sexualidade exercida no campo da complementariedade (causa material) e da abertura à fecundidade (causa final, de que trataremos adiante). A sexualidade, portanto, pertence à órbita da causa eficiente da família, mas há estruturas que podem ser designadas como família por analogia em que a sexualidade não se exerce com a perfeita atualização de suas potências procriativas, como nos casais naturalmente inférteis, ou mesmo não se exercem nenhum sentido, como no caso em que um dos cônjuges falta e o outro prossegue com a criação da prole. Por fim, a causa final é o apoio estável recíproco, em comunhão de vida de base sexual complementar, e a abertura à procriação; há, também aqui, arranjos análogos que merecem o nome de família, mesmo sem atualizar completamente suas potências quanto às causas finais. Falo, por exemplo, de cônjuges que casaram-se já idosos, sem fecundidade natural em razão da idade. Eles continuam, em tese, abertos à causa final da procriação, mas isto já não depende de sua vontade. Ou de famílias formadas por um só dos cônjuges e sua prole.

Trataremos da aplicação da analogia à noção de família no próximo artigo.’  


Fonte :