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sexta-feira, 8 de março de 2019

Papa na Arábia: por que a viagem aos Emirados gerou polêmica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 A visita aos Emirados Árabes Unidos foi controversa dentro do Vaticano.
*Artigo de Massimo Faggioli,
colunista,
Tradução : Moisés Sbardelotto


Esse documento foi um ataque velado contra o papa, mesmo que não o nomeasse. As dúvidas que alguns cardeais continuam levantando sobre a ortodoxia do papa são, entre outras coisas, um sinal de que a trajetória básica desse pontificado permanece a mesma, apesar da crise dos abusos sexuais.

Um ano após a sua surpreendente visita ao Chile e ao Peru em janeiro de 2018, Francisco lidou com a crise dos abusos ao convocar uma reunião sem precedentes de todos os presidentes das Conferências Episcopais no Vaticano. No entanto, o papa não abriu mão de suas outras prioridades, uma das quais é melhorar as relações da Igreja com o Islã e o mundo árabe.

A viagem em fevereiro de Francisco aos Emirados Árabes Unidos foi um sinal de que ele continua comprometido com esse projeto. Não foi a primeira dessas viagens (em 2017, ele foi ao Cairo para uma conferência de paz em al-Azhar); nem será a última (neste mês, ele viajará para o Marrocos).

A visita aos Emirados Árabes Unidos foi controversa dentro do Vaticano : altas autoridades da Cúria se perguntaram se não teria sido melhor para Francisco ir ao Catar e Omã – ou ao Bahrein, cujo soberano convidou o papa quatro anos atrás. Francisco escolheu os Emirados Árabes Unidos porque queria continuar seu diálogo com o Grão-Imã de al-Azhar, o egípcio Ahmed el-Tayeb, que organizou o encontro inter-religioso em Abu Dhabi.

O encontro foi promovido pelo Conselho Muçulmanos de Anciãos com sede em Abu Dhabi e foi promovido como parte fundamental do ‘Ano da Tolerância’ dos Emirados Árabes Unidos (em 2016, o primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, xeique Mohammed bin Rashid Al Maktoum, anunciou criação de um ‘ministro da felicidade’ e de um ‘ministro da tolerância’).

Francisco também pode ter desejado dar maior visibilidade à significativa população católica dos Emirados Árabes Unidos – perto de um milhão –, quase todos trabalhadores migrantes da Ásia. A situação deles é melhor do que a das minorias religiosas em alguns outros países de maioria árabe e muçulmana, mas, mesmo assim, é precária. A tolerância religiosa de que eles desfrutam ainda é bastante limitada para os padrões ocidentais.

Ao planejar suas visitas papais, Francisco sempre deu atenção especial a países onde os católicos e cristãos são uma pequena minoria. Na Península Arábica, os católicos romanos vivem como uma minoria no berço do Islã. Eles também são uma minoria dentro de uma minoria : os católicos de rito romano são apenas uma das muitas comunidades cristãs antigas. A viagem de Francisco aos Emirados Árabes Unidos serviu para ressaltar a diversidade das tradições cristãs no Oriente Médio, algumas das quais remontam aos primeiros séculos da Igreja.

A viagem de Francisco aos Emirados foi significativa por três razões. A primeira tem a ver com a política. Ao visitar os Emirados Árabes Unidos, o Papa Francisco deu nova visibilidade não só aos cristãos de lá, mas também às iniciativas políticas do governo, que, apesar de suas reformas, dificilmente é um emblema da democracia liberal.

O emir de Abu Dhabi nomeia o primeiro-ministro, que consulta um conselho federal de 40 membros. A legislação se baseia na sharia, que prescreve a pena de morte para vários crimes. Residentes nascidos no exterior representam mais de 80% da população, mas seus direitos humanos básicos muitas vezes não são respeitados.

Havia um alto risco de que a visita do papa fosse manipulada pelo governo dos Emirados Árabes Unidos para contrastar sua versão relativamente tolerante do Islã com a de alguns de seus vizinhos. Mas esse contraste pode ser enganoso, especialmente no Ocidente. Os Emirados Árabes Unidos gastam uma enorme quantia de seu orçamento em sistemas de armas e, junto com a Arábia Saudita, financiam a guerra brutal contra os Houthis no Iêmen.

Mas seria um erro entender a visita de Francisco como um endosso ao regime. Com Francisco, o Vaticano tem ido ao encontro de países em todo o mundo árabe, incluindo alguns com históricos ainda mais duvidosos em relação aos direitos humanos.

Em 2018, poucas semanas antes de sua morte em um hospital dos Estados Unidos, o homem de referência de Francisco para o diálogo com o mundo muçulmano e árabe, o cardeal francês Jean-Louis Tauran, viajou para Riad na Arábia Saudita. Lá ele se encontrou com o rei Salman – foi o primeiro encontro entre um governante saudita e uma autoridade católica. Mas essa foi apenas a mais recente de uma série de encontros entre altos funcionários sauditas e representantes da Igreja Católica, e nenhum deles implicou um endosso vaticano ao regime saudita.

O papa não é ingênuo e deixou bem clara a sua posição sobre a guerra no Iêmen. De fato, pouco antes de deixar o Vaticano para voar para os Emirados, ele implorou na oração do Ângelus na Praça de São Pedro pôr um fim àquela guerra, plenamente ciente do envolvimento dos Emirados Árabes Unidos. Francisco sempre esteve disposto a conversar com alguém disposto a conversar, incluindo líderes políticos com mãos sujas. Faz parte de seu engajamento global, de Raúl Castro em Cuba a Aung San Suu Kyi em Mianmar.

Mas é claro que o principal significado da viagem era religioso. Ela marcou um novo estágio nas relações da Igreja com o Islã. As viagens de Francisco ao Marrocos e aos Emirados Árabes Unidos – aproximadamente as extremidades geográficas do mundo muçulmano de fala árabe – ocorreram durante o aniversário de 800 anos do encontro entre São Francisco e o Sultão. Essas visitas fazem parte de um esforço contínuo para melhorar as relações inter-religiosas que começaram com o Vaticano II.

Como Francisco assinalou durante uma coletiva de imprensa em voo, o Documento sobre a Fraternidade Humana que ele e Ahmed el-Tayeb assinaram está perfeitamente de acordo com o ensinamento conciliar : ‘Do ponto de vista católico, o documento não se afastou um milímetro de Vaticano II, que também é citado algumas vezes. O documento foi feito no espírito do Vaticano II’.

Se há uma diferença entre o Papa Francisco e seus antecessores sobre essa questão, é sua ênfase na fraternidade : mas isso também pode ser rastreado até o Vaticano II. Embora a palavra ‘diálogo’ represente algo como um instrumento de relações inter-religiosas, toda a intuição do Vaticano II, desde o momento em que João XXIII o anunciou em 1959 até a declaração Nostra aetate, que foi aprovada nas últimas semanas do Concílio em 1965, teve a ver com a fraternidade da única família humana.

Em um sentido técnico, o Papa Francisco nunca se envolveu em discussões teológicas que promovessem o diálogo inter-religioso, no qual houve poucos avanços nos últimos anos. Em vez disso, ele se concentrou em ressaltar os valores que os membros de outras comunidades religiosas compartilham com os cristãos.

A Al-Azhar é uma das instituições teológicas de maior prestígio no islamismo sunita, mas seria um erro considerá-la como o Vaticano do Islã. O imã el-Tayeb é tanto um conservador quanto um reformador, que sofre a desconfiança tanto dos muçulmanos tradicionalistas quanto dos progressistas. Ele é um adversário da Irmandade Muçulmana. Ele falou muito duramente sobre Israel. Ele rejeitou o terrorismo e foi prestar suas homenagens às vítimas do massacre de 2015 no Bataclan, em Paris. A relação de Francisco com el-Tayeb poderia se tornar uma fonte de divisão entre os muçulmanos e até mesmo entre os sunitas. Mas, pelo menos por enquanto, el-Tayeb é considerado o melhor interlocutor muçulmano de Francisco.

Por fim, a viagem de Francisco aos Emirados Árabes Unidos tem um significado teológico dentro da própria Igreja Católica. O Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado por Francisco e el-Tayeb em Abu Dhabi, levantou novas preocupações entre aqueles que já suspeitavam da ortodoxia deste papa. Em uma Igreja ainda majoritariamente ratzingeriana, em que a clareza teológica é entendida como a exigência de uma rejeição de qualquer aparência de conciliação, um documento conjunto assinado pelo Grão-Imã de al-Azhar estava fadado a causar polêmica.

Mas, comparado com a declaração conjunta de fevereiro de 2016 assinada por Francisco e pelo patriarca de Moscou em Cuba, o Documento sobre a Fraternidade Humana mostra de forma bastante clara as suas raízes na tradição católica romana e é pelo menos tão desafiador para os muçulmanos quanto para os católicos. Ecoando o segundo parágrafo da Nostra aetate, o documento afirma que ‘o pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos’.

A rejeição do documento aos pretextos teológicos para a guerra expressa um compromisso que terá de ser testado : ‘declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões’. Seria absurdo afirmar que Francisco se vendeu a seu interlocutor muçulmano.

O documento também inclui compromissos de respeito à liberdade religiosa e à cidadania para minorias – compromissos que não seriam fáceis de se honrar em algumas partes do mundo muçulmano.

A missa foi a parte mais impressionante e comovente da viagem do papa a Abu Dhabi. Em sua homilia, Francisco falou diretamente às circunstâncias dos católicos locais : ‘Viver como bem-aventurados e seguir o caminho de Jesus não significa, porém, estar sempre alegres. Quem está aflito, quem sofre injustiças, quem se esmera para ser um agente de paz sabe o que significa sofrer. Para vocês, certamente não é fácil viver longe de casa e sentir, além da falta do afeto dos entes queridos, talvez também a incerteza do futuro. Mas o Senhor é fiel e não abandona os seus’.

Em certo sentido, Francisco levou toda a Igreja global com ele para visitar Abu Dhabi, chamando a atenção de todos para uma comunidade cristã local composta quase inteiramente de imigrantes que são tolerados, mas nem sempre respeitados pelos seus vizinhos não cristãos e explorados por um sistema econômico que produz luxo para a população nativa.

Pode-se dizer que Francisco celebrou a missa para os servos do país. Foi a primeira missa pública celebrada nos Emirados Árabes Unidos, e havia 125.000 pessoas de 100 nacionalidades diferentes participando. Havia caldeus, cristãos coptas, greco-católicos, melquitas, maronitas e católicos siríacos, entre outros. O papa reuniu a Igreja Católica em sua universalidade, em um estádio, para celebrar a Eucaristia e para reconhecer e encorajar um grupo de cristãos vivendo em condições extremamente difíceis, um grupo politicamente negligenciado, culturalmente ignorado e quase invisível para muitos de seus correligionários no Ocidente.

Assim como o Documento sobre a Fraternidade Humana, a missa no estádio mostrou como o debate intracatólico sobre o liberalismo parece diferente quando visto através dos olhos das minorias católicas que vivem em países muçulmanos. Para elas, a liberdade é um tesouro escasso, e não uma abstração obsoleta.’


Fonte :

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Igreja e Islã, amizade é fortalecida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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Primeiras decisões

E é precisamente na recordação daquele momento que a delegação oficial dos Emirados, liderada pelo Xeique Ben Zayed, foi recebida na residência de Santa Marta, no Vaticano, por volta das 12h30, hora local. O objetivo era comunicar pessoalmente a Francisco o primeiro feedback concreto produzido pelos princípios contidos na Declaração, alguns já implementados e outros em fase de realização. O Papa e o Xeique conversaram por 45 minutos antes de proceder à troca de presentes e depois continuar com o almoço na residência de Santa Marta. Além de cópias da Declaração sobre a Fraternidade Humana, Francisco quis dar de presente a cópia de uma gravura original datada do século XVII, que mostra as obras na Praça de São Pedro, e quatro grandes álbuns de fotos destinados ao presidente e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos, com uma série de fotos recordação da visita papal aos Emirados.

As pedras da tolerância

Um dos presentes do Xeique ao Papa é singular e precioso, uma pequena caixa com algumas pedras cor ouro e bronze inteiramente cobertas de inscrições em árabe, mensagens inspiradas no amor e na tolerância. Um símbolo ‘sólido’ para recordar o espírito da Declaração, de um catolicismo e de um islã que desejam prosseguir lado a lado em amizade, como a que há muito tempo liga seus dois maiores representantes. Certamente, um documento histórico que, enquanto isso, nos Emirados Árabes Unidos e no mundo islâmico está lentamente reescrevendo a história.

Gesto inimaginável

Falando na Cúpula Mundial de Governos realizada em Dubai há duas semanas, o próprio Xeique Ben Zayed enfatizou os passos dados pelo Papa e pelo Grande Imame. ‘Quem dentre nós - disse ele - poderia ter imaginado que dois símbolos dessa magnitude teriam superado todos os obstáculos para selar um documento de reconciliação, em um mundo marcado por oposições políticas, por incitação ao ódio, à violência e ao extremismo?’.

A única maneira de ‘apertar as mãos’

A resposta está na força dos valores que as duas religiões escolheram compartilhar, na condenação de todas as formas de intolerância, especialmente se armada, o apelo aos governantes para garantir a liberdade e os direitos e impedir ‘o derramamento de sangue inocente’, o respeito pelas mulheres, a vida, pela expressão da fé pessoal e pela casa do mundo em que todos vivemos. Uma declaração que será estudada, foi assegurado. Mas o ponto de partida e ponto crítico, foi indicado pelo Papa Francisco aos repórteres no voo de retorno de Abu Dhabi : ‘Se nós crentes não somos capazes de nos dar a mão, de nos abraçarmos, beijarmos e até rezarmos, a nossa fé será derrotada’.’


Fonte :  

quarta-feira, 14 de março de 2018

Tolerância no discurso e proselitismo na prática : consequências de uma teologia do medo


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Um pequeno passo para se sair de uma teologia do medo é se abrir para o diálogo com os pensamentos que são divergentes
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘A teologia do medo, da qual falamos na semana passada, tem diversas consequências para aqueles e aquelas que a ela se submetem. Uma delas é o medo do diálogo, ou seja, o de ouvir o que pode ser diferente daquilo que se está acostumado. Uma vez que a teologia do medo sempre vem com um corpo de doutrinas incontestáveis e que devem ser obedecidas de qualquer maneira, tudo que soa diferente deve, então, ser rechaçado e deixado de lado, no intuito de manter a tão sonhada santidade.

Um desses diálogos tabus acontece com a questão das outras religiões. Uma teologia que se baseia no medo, na maioria das vezes, é uma teologia que foge da interpelação de outras matrizes religiosas que não se coadunam com o pensamento cristão. Até mesmo o ecumenismo é visto com desconfiança, por acreditar que ele pode desvirtuar o/a fiel da sã doutrina. Por causa disso, não dificilmente, ainda se vê rixas entre católicos e protestantes mesmo depois dos diversos documentos, dos dois lados, incluindo o Vaticano II, pregarem a ecumenicidade nessas relações.

Se até no diálogo ecumênico, ou seja, aquele que acontece entre as confissões cristãs, há ressalvas por parte da teologia do medo, imagine se não o haverá ao se tratar com religiões não cristãs. Diante dessas, geralmente, a postura se dá, de maneira ‘tolerante’ no discurso e ‘proselitista’, na prática. (Claramente, aqui, também poderíamos incluir aqueles e aquelas que são intolerantes e que possuem uma postura totalmente belicosa, não aceitando nada que seja diferente àquilo que se acredita. Como esses discursos são facilmente reconhecidos, falar sobre os discursos fechados disfarçados de abertos se torna mais interessante).

Tolerante no discurso porque, diante de um mundo globalizado, a fala de que se devem respeitar todas as religiões é bastante difundida, sendo até considerado ‘feio’ não o fazer. Dessa forma, ainda que as outras religiões sejam vistas como ‘erradas’ por grande parte dos membros de uma teologia do medo, na hora de falar sobre elas todos e todas dizem que as respeitam e que elas devem ser consideradas sob o ponto de vista ético e moral, mesmo que nelas não se encontrem nenhum tipo de manifestação de Deus, sendo somente filosofias que não alcançaram um conhecimento verdadeiro a respeito Dele.

Com isso em mente, entra a segunda postura, ou seja, a proselitista. Essa vem porque se considera que todas as outras religiões não cristãs e, em alguns casos, até mesmo algumas cristãs, não são verdadeiras e não possuem a salvação. Por esses motivos, há os que as consideram dentro de um vasto espectro que vai desde ser uma ‘interpretação errônea a respeito de Deus’ até ao de serem ‘enviadas pelo diabo para confundir as pessoas’. Nesse cenário, é tarefa daquele/a que foi alcançado/a tentar converter os membros dessas outras religiões para a única religião verdadeira e perfeita que, logicamente, é aquela a qual o/a proselitista pertence. No caso específico de que estamos falando, o Cristianismo.

Essas posturas, claramente, evitam uma aproximação dialogal com os/as que pensam diferente, fazendo com que os/as adeptos/as de uma teologia do medo vivam sempre em suas redomas de pensamento, o que, sem dúvida, se mostra como prato cheio para charlatães da fé que, a cada dia, crescem nos diversos meios religiosos.

Um pequeno passo para se sair de uma teologia do medo, então, é se abrir para o diálogo com os pensamentos que são divergentes, sejam numa postura ecumênica, seja numa postura inter-religiosa. Ao fazer isso, é possível se admirar com as obras realizadas por Deus nas outras tradições e religiões e engrossar a voz daqueles que, ainda hoje, cantam o hino paulino : ‘Oh profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus’.’


Fonte :

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Joio e Trigo : algo sobre tolerância e humildade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A humildade e a tolerância ajudam a não fazer julgamentos precipitados do que seria
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros : Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro. Mateus 13:30.

A meu ver, esse texto é um convite à humildade e à tolerância. No mundo atual em que estamos inseridos, em que diversos discursos de ódio tem crescido tanto em nosso país como em diversos lugares do mundo com a volta de nacionalismos e grupos de extrema direita, acredito que pensarmos a questão da tolerância e da humildade é tarefa importantíssima.

Não dificilmente ouvimos nos diversos meios cristãos em que estamos inseridos frases do tipo ‘essa coisa não é de Deus’, ou ‘Deus não pode agir desse modo, onde já se viu?’. Essas frases, muitas vezes, refletem a ideia de que aquele que a diz é extremo conhecedor daquilo que é de Deus e aquilo que não é. Nesse sentido, essa parábola do joio e do trigo tem muito a nos ensinar na atualidade.

Um dos pontos mais interessantes é que quem faz a colheita não são os servos do dono da plantação. Por mais que a intenção dos servos aparentasse ser muito boa e solícita, a resposta do senhor da plantação é muito clara. Um enfático ‘não’ é dada à proposta. Porém, não é um ‘não’ sem justificativa, mesmo que, como senhor da plantação poderia ter dado esse ‘não’ e pronto. Porém, diante dessa resposta, propõe também um motivo. Esse era simples : ‘para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele’ (v. 39).

Isso nos mostra que, por mais que a intenção dos servos fosse boa, o senhor da plantação tinha consciência de que os mesmos não eram capazes e não tinham conhecimento suficiente para fazer a separação entre o joio e o trigo, o que acarretaria em perda do trigo e a confusão de um com o outro. Ao contrário, o senhor diz para deixar crescer o joio e o trigo juntos e, na ceifa, os ceifeiros fariam a separação entre o joio e o tribo.

Assim, antes de falar se algo é ou não de Deus, devemos lembrar dessa parábola. Não somos nós quem fazemos a separação entre joio e trigo; o senhor da plantação não autorizou os servos que plantam a fazerem isso. Antes, dá-lhes uma palavra de tolerância : ‘deixai crescerem juntos’.

Isso poderia incomodar os servos, contudo era necessário a eles reconhecerem que não tinham capacidade para a separação e que, caso o tentassem fazer, o estrago seria maior que a ajuda.

Não é difícil termos a impressão de que sabemos separar as coisas que ‘são de Deus’ daquelas que não são. Quem costuma fazer isso, geralmente, não atenta que há situações que são bem complexas para sermos totalmente taxativos sobre elas. A humildade e a tolerância sempre fazem bem nesses casos.

A ordem do senhor da plantação nos instiga a desenvolvermos essas duas virtudes que ficam cada dia mais raras entre nós e que pode ser de grande valia para vivermos em dias atuais.

Isso não quer dizer tolerar os intolerantes, nem tão pouco sermos apáticos e inertes frente às situações que vão contra o exemplo de Cristo, mas, antes, mostra que, nas situações ‘cinzas’ da vida, a parcimônia é virtude a ser desenvolvida por nós, os plantadores, bem como nos instiga a tomarmos consciência de que somente Deus sabe aqueles que lhe pertencem e que, muitas vezes, nossos olhos e nossas visões de mundo podem nos enganar, fazendo com que, na ânsia de ajudar o senhor da plantação, estraguemos e queimemos diversas partes do trigo que está em nosso meio.’


Fonte :

domingo, 31 de janeiro de 2016

Conviver com os hábitos e costumes nas Arábias

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


Peregrinando por diversos países, nos cinco continentes, aprendi que a virtude que mais ajuda para ser aceito numa cultura, é o respeito. Existe muita diferença entre cometer erros por falta de conhecimento quanto à cultura receptora e o julgamento negativo sobre as diferenças.

Nas Arábias, como em qualquer outro lugar, existem algumas coisas que devem ser levadas em conta. Sendo a maioria absoluta da população islâmica, os alto-falantes nos minaretes das mesquitas emitem, cinco vezes por dia, o convite para a oração. Os muçulmanos podem prostrar-se em qualquer lugar, à beira da estrada ou no escritório para rezar, voltados para a Meca.

Transeuntes devem evitar de passar na frente de alguém que está rezando.

O consumo de álcool por estrangeiros é permitido, em lugares próprios, mas noitadas em bares e discotecas e diversões mais pesadas são apenas toleradas.

A compra de bebidas alcoólicas pode ser feita em lugares destinados para isso. Existem companhias que fornecem as bebidas para hotéis, e locais com alvará.  Contudo, às vésperas de festas religiosas, não é permitido o comércio de licores.

A carne de porco é proibida. Os estrangeiros podem adquiri-la numa venda separada dos supermercados.

Manifestações de afeto entre homem e mulher, em público, devem ser evitadas.

É considerado insulto mostrar a sola dos pés na direção de alguém. É ofensivo apontar com o dedo alguma pessoa.

Não se iluda em achar que a imagem comum de homens de mãos dadas é uma evidência gay. Entre indianos, paquistaneses e árabes, isso é apenas um sinal de amizade.

Cumprimento dando a mão para uma mulher deve ser evitado.  Coloca-se a mão sobre o lado esquerdo do peito e diz-se a saudação.

 Deve-se ter sempre presente que, quando alguém compara culturas ou as julga, dificilmente vai ter espaço na sociedade receptora.

 O erro é perdoado e não impede à pessoa de ser bem-vinda. Maneiras cordiais e senso de humor servem para superar os impasses.

Assim aprendemos o bom convívio com as pessoas diferentes.’


Fonte :


domingo, 24 de janeiro de 2016

Vingança criativa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano


Ao sermos tolerantes e fraternos estaremos a fazer gorar a estratégia dos terroristas do Estado Islâmico e a exercer uma ‘vingança’ criativa, verdadeiramente cristã.


O terrorismo bateu-nos à porta. Os bárbaros atentados em Paris no dia 13 de Novembro semearam horror e luto, medo e insegurança. O terrorismo já nos afeta desde os tremendos ataques da Al-Qaeda nos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2001. Mas terá consequências ainda mais trágicas daqui por diante, até porque muitos dos jihadistas são europeus. Vamos todos pagar o preço da guerra e a restrição das liberdades. Além disso, tenderá a gerar rejeição, racismo e extremismo. A polarização política tenderá a aumentar com o crescimento dos partidos xenófobos : os refugiados, os imigrantes e todos os estrangeiros ‘de cor’ irão sofrer ainda mais na pele a discriminação – e a diversidade social, cultural e religiosa só pode sofrer com esta reação irracional.

As relações com o mundo árabe têm sido atribuladas. Começaram durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, com a divisão do Império Otomano, que desenhou artificialmente as fronteiras de países como a Síria e o Iraque, e continuou mais recentemente com o armamento dos ‘nossos aliados’ de turno (como Ossama Bin Laden, para combater os Russos no Afeganistão, ou os inimigos de Bashar al-Assad na Síria), as intervenções desastradas no Iraque e na Síria e a continuação da venda de armas a países como a Arábia Saudita, o grande exportador de salafismo (uma facção radical do sunismo) e o padrinho do Estado Islâmico (EI). O Ocidente não pode, por isso, ignorar a sua parte de responsabilidade na eclosão do fenómeno do terrorismo de cariz islâmico.

Os ataques em Paris foram considerados «atos de guerra» pelo Presidente François Hollande, que prometeu responder «sem piedade» e começou a atacar o EI na Síria. Obama, depois de ter subestimado o califado, prometeu destruí-lo, retirando-lhe o território e cortando-lhes as fontes de financiamento. Mais uma vez a resposta soa a vingança, e é por isso inadequada e mesmo errada. O uso da força pode até enfraquecer o EI, mas não curará o ódio e o profundo ressentimento que está por detrás do seu aparecimento. Ainda não aprendemos que a violência só gera mais violência.

Nicolas Hénin, um jornalista francês que esteve 10 meses prisioneiro dos combatentes do Estado Islâmico (que define como «crianças de rua, embriagadas pela ideologia e o poder»), é autor do livro Jihad Academy, the Rise of Islamic State. Explica : «Central à sua visão do mundo é a crença de que as comunidades não conseguem conviver com os muçulmanos, e todos os dias as suas antenas estarão sintonizadas para encontrar elementos que comprovem essa convicção. As fotos de alemães a acolher imigrantes terão sido particularmente preocupantes para eles. Coesão, tolerância – é precisamente o que eles não querem ver.» Por isso, ao atacar com bombas, os países ocidentais estão a cair na sua ratoeira : criar ainda mais ressentimento na «rua árabe» – que existe mesmo na Europa (só a França tem mais de seis milhões de muçulmanos) – além de tender a radicalizar os 500 mil civis que vivem e não podem sair de Raqqa, a capital do ‘Califado’ que foi intensamente bombardeada pelos franceses.

A resposta ocidental, para ser efetiva, tem de ser comandada pela razão e não pelo sentimento de vingança. Além disso, a ira que sentimos pelo que sofremos com os ataques só pode sarar – como ensinam aqueles que passaram por situações dolorosas e traumáticas e a mais elementar psicologia – se for canalizada positivamente, criativamente. Ao sermos tolerantes e fraternos – por exemplo, no acolhimento que reservamos aos imigrantes – estaremos a fazer gorar a estratégia dos terroristas do Estado Islâmico e a exercer uma ‘vingança’ criativa, verdadeiramente cristã.’


Fonte :


domingo, 22 de novembro de 2015

A educação para a virtude e a diferença entre tolerância e indiferentismo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Paulo Vasconcelos Jacobina 


Não se cria mais tolerância quando se nega às crianças que sequer exista um bom alimento, ou uma forma mais adequada de se alimentar, para início de conversa. Ao se negar este ensinamento às crianças, não se cria uma sociedade de tolerantes, mas uma sociedade de glutões

Na sua excelente obra ‘Cristianismo Puro e Simples’, o escritor inglês C.S. Lewis imagina, num determinado momento, uma cultura em que as pessoas se sentissem atraídas por um ‘strip-tease’ culinário. O que pensar de uma cultura assim? Trata-se de um povo faminto? Não necessariamente, diz ele. E acrescenta : ‘os homens famintos pensam muito em comida, mas os glutões também. Tanto os saciados quanto os famintos gostam de estímulos novos.’

Dentro deste mesmo mote, imaginemos uma sociedade com sérios distúrbios alimentares. Todos comem sem parar, e mais, estão sempre à procura de novas formas de comer que driblem o limite orgânico e permitam continuar o máximo possível com a comilança. Neste suposto país, cientistas descobriram uma pílula que impede o organismo de absorver calorias e outros nutrientes dos alimentos, e com isso as pessoas podem comer compulsivamente sem engordar, e mesmo sem que seu corpo jamais emita sinais de saciedade. Outros cientistas, ainda, descobriram pequenos artefatos de borracha que permitem ao comilão regurgitar o alimento mastigado sem que ele sequer vá para o estômago. Logo outros pesquisadores descobrem que as pessoas já não se satisfazem com a imensa variedade de alimentos oferecidos ao seu paladar cada vez mais voraz, e descobrem que em culturas primitivas alguns povos de ilhas distantes introduziam seu alimento pelo lado inverso do organismo, descobrindo ‘prazeres’ culinários que, segundo dizem estes cientistas, foram autoritariamente reprimidos pela cultura ocidental judaico-cristã. E começa uma ‘revolução alimentar’ no ocidente. Autores descrevem as antigas práticas religiosas de jejum como próprias de uma religiosidade fanática e castradora, e teólogos vanguardistas repudiam a ideia de que o jejum, ou mesmo a temperança, fossem autênticos ensinamento de Jesus.

O papa, então, interpelado por tais teólogos, lança uma Encíclica chamada, digamos, ‘Humanae Comidae’, condenando o uso de qualquer meio artificial como pílulas e borrachas para descaracterizar os fins naturais da alimentação, e sofre agressões de bispos, teólogos e leigos do mundo inteiro, que propõem uma ‘ ’ para substituir a ideia conservadora de que a temperança fosse uma virtude. O lema desses vanguardistas é; ‘mais tempero, menos temperança’. A gula é descrita como uma ‘inclinação natural do ser humano’, e aqueles que teimam timidamente em defender a moderação alimentar, bem como a necessidade de consumir os alimentos através da extremidade superior do organismo, são rotulados de ‘gastrofóbicos’ e acusados de desprezar os avanços científicos que nos legaram a pílula antissaciedade e a bolsinha de borracha antideglutição.

Trata-se, agora, de, a pretexto de preparar nossas crianças para conviver num mundo em que cada um come o que quiser, na hora que quiser, quanto quiser e pela extremidade que quiser, de ensinar a estas crianças que não se pode fazer nenhuma diferença ética entre nenhuma dessas formas de se alimentar, e que aqueles que quiserem são livres para jejuar na sexta-feira santa e de acreditar que a temperança é uma virtude, mas, num estado laico, não podem impor isto ao restante da sociedade. E as crianças são educadas, por decisão governamental, mesmo nas escolas confessionais, para esquecer a diferença entre saciar modestamente a fome com uma quantidade adequada de boa comida, por um lado, e empanturrar-se, regurgitar e comer de novo. Os educadores – e com eles alguns líderes religiosos e mesmo teólogos – estão absolutamente convencidos de que qualquer um que ensine temperança e mesmo ascese alimentar aos seus filhos é um tradicionalista fóbico que deve ser duramente combatido. E pedem ao Papa que não somente reconheça, mas aconselhe a todos os fiéis o uso da pílula antissaciedade, das bolsinhas de borracha regurgitadoras e da alimentação pela extremidade inversa não somente como toleráveis, mas até mesmo como desejáveis – já que o uso dessas técnicas até mesmo reduziu a obesidade da população, os índices de açúcar e colesterol e, por consequência, doenças como o enfarto e a hipertensão, sem necessidade de questionamentos moralistas sobre ascese e temperança, cientificamente ultrapassados – dizem eles. A resistência do Papa neste ponto, alertam, é só uma prova de que a Igreja Católica é ultrapassada e não sobreviverá ao futuro da humanidade esclarecida.

Escritores lançam livros sobre esta ‘nova forma de comer’, e soam muito futuristas e vanguardistas para todos. Os educadores católicos temem ser ultrapassados pelas escolas laicas, que estão preparando seus alunos desenfreadamente para este mundo novo e certamente terão melhor desempenho nas provas públicas para o ensino superior. ‘Velhos preconceitos religiosos não podem prejudicar nossos alunos’, dizem. E introduzem disciplinas de reeducação gastronômica em suas próprias escolas.

Nste ponto, o grande C. S. Lewis acrescenta : ‘Não existe muita gente que queira comer coisas que não são alimentos ou que goste de usar a comida em outras coisas que não a alimentação. Em outras palavras, as perversões do apetite alimentar são raras. As perversões do instinto sexual, porém, são numerosas, difíceis de curar e assustadoras. Desculpem-me por descer a esses detalhes, mas tenho de fazê-lo. Tenho de fazê-lo porque, há vinte anos, temos sido obrigados a engolir diariamente uma série enorme de mentiras bem contadas sobre sexo. Tivemos de ouvir, ad nauseam, que o desejo sexual não difere de nenhum outro desejo natural, e que, se abandonarmos a tola e antiquada ideia vitoriana de tecer uma cortina de silêncio em torno dele, tudo neste jardim será maravilhoso.

Não é à toa que, em nossos catecismos – no tempo em que eram considerados documentos valiosos para a catequese e a educação cristã – a concupiscência alimentar está colocada no mesmo plano da concupiscência sexual. No esquema catequético da chamada ‘tríplice concupiscência’ (1Jo 2, 16-17), a gula e a luxúria estão inseridos na ‘concupiscência da carne’. Por isto, a parábola acima pode ser bem útil para entender o que exatamente está ocorrendo, hoje, no campo da educação sexual, o mote parece ser : ‘eduquemos as crianças para conviver num mundo em que não há diferenças éticas entre comportamentos sexuais, em nome da tolerância’.

Mas já não se trata de tolerar, ou seja, de aprender a aceitar que o outro é diferente e deve ser respeitado na sua diferença. Para isto (usando a mesma metáfora) precisaríamos dar às crianças, primeiro, o bom alimento, para que depois elas fossem educadas no sentido de que nem todos escolherão o bom alimento, e não devem ser repudiadas por isto. Não se cria mais tolerância quando se nega às crianças que sequer exista um bom alimento, ou uma forma mais adequada de se alimentar, para início de conversa. Ao se negar este ensinamento às crianças, não se cria uma sociedade de tolerantes, mas uma sociedade de glutões.

É claro que a concupiscência da carne é somente uma das três dimensões da concupiscência humana. E nem é a mais grave. O mais grave é que estamos ensinando, em nome da tolerância, que não temos o direito, como sociedade, de distinguir entre virtude e concupiscência, e que qualquer um que o faça é um moralista conservador ultrapassado. E promovemos a concupiscência, ensinamos a concupiscência, a título de preparar nossas crianças a viver num mundo plural. E mais, acreditamos mesmo que o avanço da ciência, no sentido de reduzir ou eliminar as consequências da concupiscência, mudam a própria moralidade das condutas concupiscentes. Isto é falso. E dizer isto não é intolerância, mas lealdade com a verdade.

Este é o último e mais profundo problema : ‘o que é a verdade?’ (Se a pergunta ‘o que é a verdade?’ deve pautar nossa educação, estamos num mundo em que Pilatos triunfou sobre Jesus). Mas um mundo relativista nega que a verdade sequer exista – e crê, portanto, que educar é simplesmente mostrar todos os fatos às crianças, para que elas próprias experimentem e construam seu próprio código moral. Não pode ser assim. Ninguém espera que seu filho se atire do último andar de um edifício para descobrir a lei da gravidade. Também não devemos ter receio de transmitir para eles os nossos próprios valores filosóficos, religiosos, éticos e culturais, ao lado do ensinamento de que devem conviver em paz com os diferentes. Porque, se não o fazemos, já não nos importamos com o desenvolvimento da capacidade de discernir, que é a essência da educação. Num mundo em que não há verdades, a rigor não há tolerância, mas indiferentismo. 


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