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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O diálogo como futuro das religiões


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Pensar o futuro das religiões hoje é pensar em meios para que estas convivam em harmonia dialogando entre si para encontrar soluções para os problemas que afetam a sociedade como um todo.
*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante
  
‘Em um mundo cada vez mais polarizado e plural, pensar a questão do futuro das religiões se torna algo importante. Há desde os/as que desejam voltar a um aspecto religioso de séculos passados, em que a hegemonia cristã e a Cristandade eram a ordem da vez, até aqueles e aquelas que pensam que deve haver o fim de todas as religiões, porque elas são somente instrumentos para alienação das pessoas e, em não poucos casos, meios para enriquecimento de seus líderes.

Diante deste cenário, é necessário pensar no papel da religião na contemporaneidade. Ainda há lugar para as religiões em tempos atuais? Se sim, que tipo de religião é esta e que postura ela deve ter diante do mundo?

Responder a estas perguntas não se mostra como tarefa fácil. Há o grande risco de se dar respostas simplistas e de se propor soluções rápidas, como se todas as religiões fossem iguais e tivessem os mesmos problemas para resolver, esquecendo-se de que culturas diferentes, necessariamente, geram religiões de matrizes diferentes.

Tentando responder à primeira pergunta, podemos dizer que sim, há lugar para as religiões no mundo futuro. Se partirmos do pressuposto de que toda religião é fruto de uma cultura na qual ela nasce, então podemos pensar que toda cultura, necessariamente, tentará de alguma forma, dar razões à sua história e a seus sofrimentos e isto, sem dúvida, passa pelo aspecto religioso o que, consequentemente, nos leva a afirmar a presença das religiões no mundo futuro.

A resposta à segunda pergunta nos parece mais clara, embora de maior dificuldade de execução. No mundo plural em que vivemos não há espaço para uma religião que se feche em si mesma e que se considere como dona da verdade última a respeito de tudo. Mesmo que seja uma grande tentação para todas elas, fugir disso se mostra como tarefa imprescindível para que qualquer religião sobreviva no mundo globalizado. Isto, por sua vez, não tem a ver com a negociação da própria identidade, antes, implica a ter o diálogo, em sua maneira honesta, como ponto de partida, de maneira que podemos dizer que o futuro das grandes religiões passa, necessariamente, pelo aspecto dialógico que estas serão capazes de desenvolver.

Que esta seja uma tarefa difícil, não podemos negar, uma vez que a religião que se coloca como disposta ao diálogo é uma religião que se permite ser questionada e depurada a partir da experiência e dos conceitos que as outras possuem o que, necessariamente, implica humildade e o abrir mão de toda tentativa de poder hegemônico no mundo. Ao mesmo tempo, pressupõe-se que esta religião aberta entendeu que a verdade pode ser percebida em perspectivas sem com isso se tornar relativística, ou seja, é uma religião para a qual o perguntar pela verdade ainda permanece como questão importante.

Pensar o futuro das religiões hoje é pensar em meios para que estas convivam em harmonia dialogando entre si para encontrar soluções para os problemas que afetam a sociedade como um todo, o que é chamado de diálogo inter-religioso indireto. Isto, por sua vez, não exclui o diálogo inter-religioso direto, no qual a preocupação se encontra no nível conceitual, preocupando-se em analisar e estudar os pontos convergentes e divergentes existentes nas diversas religiões que se colocam para dialogar.

 Nos dois casos, o diálogo se mostra fundamental, de maneira que é impossível pensarmos uma convivência pacífica entre as religiões, se esta não tiver como premissa o diálogo honesto entre si.’


Fonte :

domingo, 31 de janeiro de 2016

Conviver com os hábitos e costumes nas Arábias

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Peregrinando por diversos países, nos cinco continentes, aprendi que a virtude que mais ajuda para ser aceito numa cultura, é o respeito. Existe muita diferença entre cometer erros por falta de conhecimento quanto à cultura receptora e o julgamento negativo sobre as diferenças.

Nas Arábias, como em qualquer outro lugar, existem algumas coisas que devem ser levadas em conta. Sendo a maioria absoluta da população islâmica, os alto-falantes nos minaretes das mesquitas emitem, cinco vezes por dia, o convite para a oração. Os muçulmanos podem prostrar-se em qualquer lugar, à beira da estrada ou no escritório para rezar, voltados para a Meca.

Transeuntes devem evitar de passar na frente de alguém que está rezando.

O consumo de álcool por estrangeiros é permitido, em lugares próprios, mas noitadas em bares e discotecas e diversões mais pesadas são apenas toleradas.

A compra de bebidas alcoólicas pode ser feita em lugares destinados para isso. Existem companhias que fornecem as bebidas para hotéis, e locais com alvará.  Contudo, às vésperas de festas religiosas, não é permitido o comércio de licores.

A carne de porco é proibida. Os estrangeiros podem adquiri-la numa venda separada dos supermercados.

Manifestações de afeto entre homem e mulher, em público, devem ser evitadas.

É considerado insulto mostrar a sola dos pés na direção de alguém. É ofensivo apontar com o dedo alguma pessoa.

Não se iluda em achar que a imagem comum de homens de mãos dadas é uma evidência gay. Entre indianos, paquistaneses e árabes, isso é apenas um sinal de amizade.

Cumprimento dando a mão para uma mulher deve ser evitado.  Coloca-se a mão sobre o lado esquerdo do peito e diz-se a saudação.

 Deve-se ter sempre presente que, quando alguém compara culturas ou as julga, dificilmente vai ter espaço na sociedade receptora.

 O erro é perdoado e não impede à pessoa de ser bem-vinda. Maneiras cordiais e senso de humor servem para superar os impasses.

Assim aprendemos o bom convívio com as pessoas diferentes.’


Fonte :


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Paz na diversidade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Fernando Domingues, 
Missionário Comboniano

 ‘Era quarta-feira de tarde. À noite, nesse mesmo dia, tinha o meu voo marcado para regressar do Paquistão, onde tinha passado uma semana repleta de visitas surpreendentes e experiências muito, muito enriquecedoras. Como ainda tinha umas horas livres, pedi ao bispo que me hospedava e ele disponibilizou um carro com motorista para eu poder ir até à fronteira com a Índia ver uma cerimónia especial de que me tinham falado, o arriar da bandeira na zona onde se tinha combatido a última guerra entre os dois países, há menos de vinte anos. Acompanhava-me Amjad, o jovem sacerdote paquistanês, meu aluno em Roma, em cuja ordenação eu tinha participado alguns dias antes, na catedral de Lahore.

Seguindo acordos entre os dois países, a cerimónia prevê que a bandeira de cada um dos países seja arriada todos os dias antes do pôr-do-sol, exactamente ao mesmo tempo, por dois grupos de soldados alinhados a um metro de distância um do outro, cada grupo do seu lado da linha de fronteira. O arriar da bandeira é precedido por uma parada militar cheia de gestos de força e valentia militar. De cada lado da fronteira os militares seguem exactamente o mesmo programa cronometrado com precisão, cada um dos grupos encorajados por uma plateia de cidadãos de cada lado da fronteira que cantam e gritam palavras de ordem patrióticas. A certa altura, levado pelo entusiasmo, um rapazito diante de mim começou a gritar insultos contra os soldados indianos; imediatamente um dos soldados do nosso lado veio ter com ele para o mandar calar e disse-lhe alto e bom som: «Deves amar a tua pátria sem odiar a pátria dos outros!» De facto, ao início da cerimónia, os altifalantes tinham avisado que se encorajava a todos a exprimir o próprio espírito patriótico, mas era proibido ofender os que estavam do outro lado da fronteira. No meio de muitos milhares de pessoas que cantavam e gritavam palavras de ordem de ambas as partes, gostei imenso de ver que o primeiro e o último gesto da cerimónia oficial foi feito pelos comandantes dos dois contingentes militares que, sozinhos, cada um do seu lado, marcharam solenemente para a linha da fronteira, deram um ao outro a saudação militar e um forte aperto de mão de amizade. Mesmo se a memória da guerra ainda é fresca, ali, na fronteira de Waga, todos os dias ao pôr do Sol, é possível celebrar a paz e cultivar a amizade.

À noite, peguei o avião e regressei a Roma. Na minha memória continuam muitas recordações de um povo onde a convivência pacífica não é fácil entre pessoas de categorias sociais muito diferentes e comunidades que vivem e professam religiões diversas. Tanto os cristãos como os muçulmanos vivem permanentemente sob a ameaça da violência do terrorismo extremista. Enquanto eu lá estava, uma mesquita foi bombardeada, e poucos dias depois uma missionária cristã foi atacada e gravemente ferida. Apesar das dificuldades que são bem visíveis, são admiráveis os esforços que se fazem para cultivar activamente uma coexistência pacífica entre todos. Em todas as dioceses, a comissão de diálogo inter-religioso é sempre activa. Em várias povoações que visitei, os jovens cristãos e muçulmanos frequentam a mesma escola. Particularmente, da parte das escolas católicas, há uma grande abertura para acolher crianças e jovens de todas as religiões e um empenho constante para cultivar o sentido de estima e respeito entre todos.

Numa sociedade plural, onde convivem pessoas de tradições, culturas e religiões diferentes, a paz e a concórdia precisam de ser activamente cultivadas. A Igreja define-se a si mesma como sacramento e sinal daquela unidade que Deus sonha para toda a família humana; é por isso que toda a comunidade cristã é chamada a ver estes esforços concretos para cultivar activamente a reconciliação e a paz como parte integrante da missão que o Senhor lhe confiou.’


Fonte :
*Artigo na íntegra http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFVZkpAuFlUbiZUQwC