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domingo, 7 de dezembro de 2025

O terremoto das migrações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS

 

Acompanhamos perplexos uma escalada mundial da violência. Violência intra e intercontinental que se reflete seja nos governos e formas de oposição, seja nos governos locais. Tampouco ficam imunes as mais diversas instâncias e instituições da sociedade. Semelhante avanço da violência vem mexendo de maneira convulsiva com os ‘formigueiros humanos’. Com efeito, o modus vivendi de comunidades originárias, de povos, nações e culturas vem sendo fortemente sacudido ao redor do planeta. Resultado disso é a dispersão dos migrantes, tais como aves de arribação. A chamada transição paradigmática, de que tanto se tem falado, move as placas tectônicas da política econômica em termos nacionais, regionais e internacionais. É inegável que esse movimento subterrâneo provoca terremotos e tsunamis que, novamente, devastam os ‘formigueiros humanos’, colocando em fuga as formigas, aos milhares e milhões.

O modo de vida e a identidade de grupos inteiros são abalados desde a raiz, o que compromete as bases, os valores e os fundamentos tradicionalmente positivos. Migrantes isolados e/ou com suas famílias cruzam e atravessam fronteiras. Com grande dificuldade, atravessam mares, desertos e florestas para bater às portas de territórios diferentes. Chegam, em geral, cansados e abatidos, feridos e fragmentados. Pessoas e famílias se desfiguram e se desintegram pelo caminho, às vezes para não mais se encontrarem na tão sonhada e ansiada reunificação. As ‘formigas’ dificilmente têm a possibilidade de retornar ao formigueiro (abandonado às pressas no caso dos refugiados), para recriar o modus vivendi de seus antepassados. Milhões e milhões de pessoas vagueiam de cá para lá e de lá para cá, na vã tentativa de encontrar um refúgio seguro. Um solo a que se possa dar o nome de pátria parece cada vez mais distante.

Os abalos sísmicos, porém, tendem a desencadear tragédias climáticas sempre mais extremas e catastróficas. Novos formigueiros são abalados e desmantelados. Novas correntes migratórias se põem em marcha. Cresce progressivamente o número de pessoas sem raiz, sem rumo e sem horizonte. Os processos migratórios não se deixam classificar atualmente por uma origem e destino mais ou menos predeterminados, como ocorreu nas chamadas migrações históricas. Enquanto a origem segue sendo a terra natal, evidentemente, o destino se revela cada vez mais incerto, inseguro e inquietante. Nos dias de hoje, prevalecem, ao invés, a indignação e a impotência. Por toda parte. Multiplicam-se os adjetivos e expressões precedidos pelo prefixo negativo ‘in’, equivalente a um ‘não’. Resta uma certa esperança de que quando esse prefixo se acumula, dos subterrâneos emerge dialeticamente um ‘sim’, de acordo com o pensamento filosófico de Hegel.

Do ponto de vista das forças de esquerda, esse novo ‘sim’ consiste em um tremendo e gigantesco ‘não’. O efeito positivo do que podemos chamar mundo moderno ou modernidade reveste-se de uma marca registrada cunhada pela razão, a ciência e a tecnologia, bem como pelo progresso e pela democracia. Neste momento de mudança de época (não apenas época de mudanças), o que resulta da dialética hegeliana representa um ‘sim’ com sabor amargo de ‘não’. Consiste numa tentativa da extrema direita de usar os canais, instrumentos e mecanismos democráticos para instalar um autoritarismo populista que parecia morto e definitivamente enterrado. Não seria exagero falar de um imperialismo da economia globalizada. Imperialismo de mercado e de poder, contemporaneamente centrífugo e centrípeto. Centrífugo quanto à dispersão das unidades de produção e ao consumo generalizado, centrípeto no que diz respeito à tomada de decisões e à formação de megafusões e conglomerados hegemônicos para as fatias mais rentáveis do processo de produção, como petróleo, telecomunicações, aviação, metais preciosos, entre outras.

De tal maneira que, enquanto as nações mais poderosas ensaiam atritos, rivalidades e até mesmo conflitos bélicos (tendo o cuidado de exportar a guerra aberta para os países periféricos), globalmente o mercado se apresenta muito bem articulado. Exemplo : ao mesmo tempo que, do ponto de vista político, se verifica uma disputa cerrada pela hegemonia política e econômica planetária, desde o ponto de vista econômico, Estados Unidos e China seguem com seus acordos comerciais através desses oligopólios de empresas transnacionais. Numa expressão apocalíptica, semelhante ao imperialismo de mercado total, se converte em uma espécie de dragão de sete cabeças (coincidência com o G7?), onde qualquer uma delas pode assumir o controle global. O combate a essa besta fera passa, simultaneamente, por ações locais e por articulações globais. O desafio gigantesco é justamente equilibrar umas e outras.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-terremoto-das-migracoes/

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

A criminalização da migração e a atribuição da violência aos que “veem de fora”

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Caçados como animais

*Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS


‘No decorrer da história humana, os temas da violência e da migração sempre andaram de braços dados. Tensões, conflitos e guerras têm produzido, aos milhares e milhões, esses ‘condenados da terra’ (Frantz Fanon) : são exilados vencidos, não raro utilizados como escravos pelos vencedores; vítimas do tráfico, em especial de mulheres e crianças, para fins de exploração sexual ou trabalhista; refugiados que se põem em fuga por motivações étnicas, religiosas, políticas, ideológicas e climáticas; migrantes, filhos da pobreza e da desigualdade socioeconômica, que escapam da miséria e da fome, na busca por novas oportunidades de melhor vida. Isso sem falar na saúde e educação, fatores que também deslocam muitas pessoas.

Esse casamento por vezes perverso entre violência e migração vem jogando hoje um papel primordial na prática política dos regimes democráticos. Um papel que emerge com força redobrada no momento dos pleitos eleitorais. Alguns países podem servir de exemplo : Estados Unidos, Portugal, Equador e Chile. Nos quatro casos, a disputa eleitoral mais recente envolveu direta, ou indiretamente, a posição dos candidatos quer em relação à violência, quer em relação à migração. Como pano de fundo, em lugar dos direitos humanos dos migrantes desenraizados, vinha à tona o famigerado discurso da segurança nacional.

Nos Estados Unidos, caso mais emblemático, essa temática foi tão evidente durante a campanha eleitoral que, logo após o retorno de Donald Trump à Casa Branca, este colocou em prática um processo de deportação de números sem precedentes, punindo muitos trabalhadores e trabalhadoras que há anos, e até décadas, fizeram daquele país a sua pátria de adoção. Em Portugal, o partido Chega ganhou um número expressivo de cadeiras no parlamento. E, como havia alardeado e como era de se esperar, pôs-se logo a trabalhar para endurecer e legislação migratória, fechando as portas a novas tentativas de entrar no velho continente. No Chile e no Equador, migração e violência estiveram no topo da disputa pelo poder, porém, ao que tudo indica, com resultados ainda incertos e talvez distintos.

O cenário torna-se sombrio, preocupante. Criminaliza-se a migração e o migrante, a ponto de atribuir a violência aos que ‘veem de fora’. Uma e outro, em geral, aparecem nas páginas, imagens e comentários da crônica policial, ao lado do crime organizado e do terrorismo. Impõe-se como novo bode expiatório o outro, o diferente, o estrangeiro. Com isso legitima-se toda e qualquer atitude de repressão e racismo, de xenofobia, preconceito e discriminação. Trata-se de um rechaço que se mede, de um lado, pela ascensão da extrema direita em boa parte do planeta e, de outro lado, pela rejeição crescente de grande parte da população. Os céus estão prenhes de tormenta e tempestade para quem se aventura pelas estradas do êxodo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/a-criminalizacao-da-migracao-e-a-atribuicao-da-a-violencia-aos-que-veem-de-fora/

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Papa Leão XIV se coloca como resultado da migração e pede respeito à dignidade dos migrantes

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Rodrigo Borges Delfim


‘Em seus primeiros dias de pontificado, o papa Leão XIV fez ao menos três referências à questão migratória em discursos para fiéis e autoridades mundiais. A abordagem propositiva do tema foi uma das marcas do antecessor, o Papa Francisco (2013-2025) e há uma grande expectativa pela continuidade da defesa global dos direitos das pessoas em migração, sobretudo daquelas em deslocamento forçado

Em reunião com diplomatas baseados no Vaticano, na última sexta-feira (16), o Pontífice se colocou ele próprio como resultado de um processo migratório, tanto nas origens familiares como na própria trajetória eclesiástica. E pediu que a dignidade das pessoas migrantes seja respeitada pelos governos de todo o mundo. Ao todo, o Vaticano mantém relações diplomáticas com 184 países.

‘A minha própria história é a de um cidadão, descendente de imigrantes, e também emigrado. Cada um de nós, ao longo da vida, pode encontrar-se saudável ou doente, empregado ou desempregado, na sua terra natal ou numa terra estrangeira : a nossa dignidade, no entanto, permanece sempre a mesma, a de uma criatura querida e amada por Deus’.

Já no dia seguinte, em reunião com membros da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, novamente citou as migrações e fez referência a um termo usado pelo antecessor para descrever o mundo atual.

‘O Papa Francisco recorreu ao termo ‘policrise’ para evocar a dramaticidade da conjuntura histórica que hoje vivemos, na qual convergem guerras, mudanças climáticas, desigualdades crescentes, migrações forçadas e atribuladas, pobreza estigmatizada, inovações tecnológicas revolucionárias, precariedade do trabalho e dos direitos. Sobre questões tão importantes, a Doutrina Social da Igreja é chamada a oferecer chaves interpretativas que coloquem em diálogo ciência e consciência, proporcionando assim uma contribuição fundamental para o conhecimento, a esperança e a paz’.

No domingo (18), na homilia dominical da missa que formalmente marcou o começo de seu pontificado, Leão XIV pediu uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado – fazendo referência ao fim de perseguições e preconceitos.

‘No nosso tempo, ainda vemos demasiada discórdia, demasiadas feridas causadas pelo ódio, a violência, os preconceitos, o medo do diferente, por um paradigma económico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres’.

Declaração da OIM

A OIM, a Agência da ONU para as Migrações, emitiu um comunicado felicitando o começo de pontificado de Leão XIV.

O Papa Leão XIV refletiu hoje (domingo, 18.mai) sobre um mundo ainda marcado pela discórdia, pelo medo do outro, pela marginalização dos pobres e por sistemas econômicos que continuam a pesar fortemente sobre os recursos do planeta. De suas palavras emergiu uma esperança por um mundo reconciliado e um espírito renovado de unidade.

Ainda segundo a agência da ONU, essa visão ressoa com a missão da OIM de promover a dignidade e os direitos de todas as pessoas, incluindo migrantes e populações deslocadas.

Acolhemos esse apelo para que se olhe além das divisões e trabalhemos juntos na construção de sociedades mais inclusivas e humanas, onde todos possam viver com segurança e respeito, independentemente de sua origem ou condição.

Tendência

As manifestações de Leão XIV reforçam a tendência de o atual Pontífice de manter uma forte preocupação com a questão social, o que inclui a manutenção de parte significativa dos processos iniciados por Francisco. Entre eles se encontra a defesa da dignidade das pessoas migrantes e as críticas às políticas adotadas por governos em todo o mundo que colocam os que se deslocam em situação vulnerável.

A própria escolha do nome faz uma alusão de continuidade ao que trouxe Leão XIII (1878-1903) em seu pontificado, que ficou conhecido pela encíclica Rerum Novarum, de 15 de maio de 1891, e que abordava a condição degradante dos operários industriais da época. Chamada por alguns de ‘Manifesto Comunista da Igreja’ ou de resposta da Igreja ao Manifesto Comunista – que já tinha sido lançado em 1848 –, essa encíclica é considerada ainda o marco inicial dos chamados ‘Documentos Sociais da Igreja’.

Embora seja nascido nos Estados Unidos, o atual papa passou a maior parte de sua carreira religiosa no Peru, onde atuou desde a década de 1980 em cidades como Piura, Trujillo e Chiclayo. Tal vivência no país sul-americano permitiu que em 2015 ele visse a obter também a nacionalidade peruana.

            A dupla nacionalidade e o fato de ter feito grande parte de sua vida longe da terra natal fazem de Leão XIV de fato, uma pessoa migrante. Além disso, ainda como cardeal Robert Prevost, fez criticas à política migratória conduzida pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que coloca o novo chefe da Igreja Católica como um potencial contraponto ao presidente republicano e líder global da ultradireita que tem no rechaço à migração uma de suas principais bandeiras.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/papa-leao-xiv-defesa-publica-migrantes/

sábado, 10 de maio de 2025

O que esperar do Papa Leão XIV sobre as migrações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo de Rodrigo Borges Delfim

‘Dezessete dias após a morte de Francisco, a Igreja Católica conheceu na última quinta-feira (8) seu mais novo Papa. O escolhido pelos cardeais reunidos na Capela Sistina, no Vaticano, foi o estadunidense-peruano Robert Francis Prevost, de 69 anos, que assumiu o título de Leão 14. E o que pensa o novo pontífice sobre a questão migratória, um dos pontos mais abordados pelo antecessor?

Em seu primeiro discurso, o novo Pontífice não fez menções diretas à temática migratória. Ele fez um ‘chamado à paz’ para ‘todos os povos’ e instou a ‘construir pontes’ por meio do ‘diálogo’, avançando ‘sem medo, unidos, dando a mão a Deus e estendendo-a entre nós’.

No entanto, manifestações recentes e até mesmo o nome que escolheu para ser Papa indicam uma forte preocupação com a questão social, o que inclui a manutenção de parte significativa dos processos iniciados por Francisco. Entre eles se encontra a defesa da dignidade das pessoas migrantes e as críticas às políticas adotadas por governos em todo o mundo que colocam os que se deslocam em situação vulnerável.

‘Buscando inspiração em Leão XIII, pastor dos operários e da Doutrina Social da Igreja, e dando seguimento a Francisco, pastor dos pobres e migrantes, é de se esperar que o novo sucessor de Pedro seja firme na defesa dos direitos humanos e na promoção da dignidade humana, linha mestra do ensino social da Igreja’, avalia o padre Alfredo J. Gonçalves, assessor do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM) na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em comentário enviado ao MigraMundo sobre o novo Papa.

Leão XIII, Doutrina Social da Igreja e migrações

Mas afinal, quem foi Leão XIII? Papa de 1878 a 1903, ele teve o quarto pontificado mais longo da Igreja Católica e ficou conhecido pela encíclica Rerum Novarum, de 15 de maio de 1891, e que abordava a condição degradante dos operários industriais da época. Chamada por alguns de ‘Manifesto Comunista da Igreja’ ou de resposta da Igreja ao Manifesto Comunista – que já tinha sido lançado em 1848 –, essa encíclica é considerada ainda o marco inicial dos chamados ‘Documentos Sociais da Igreja’.

Naquela época, a Revolução Industrial causava mudanças profundas na mentalidade e no cotidiano das sociedades europeias. Enquanto as cidades se desenvolviam, as condições de trabalho nas fábricas eram extremamente precárias. Ao mesmo tempo, lavradores perdiam espaço devido ao avanço das indústrias sobre áreas produtivas para fornecimento de matérias-primas para o setor, e muitos tampouco conseguiam se manter no meio urbano.

Diante desse contexto, muitas vezes a contragosto, a migração se tornou uma das saídas para as pessoas excluídas pela Revolução Industrial. Ou seja, esse fato histórico foi um dos motivadores da chamada ‘Grande Imigração’, que se deu entre o final do século XIX e meados do século XX da Europa em direção a outros continentes – em especial a América.

‘Ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável’, traz trecho da Rerum Novarum.

‘Enquanto Francisco nos remetia ao pobre de Assis, Leão XIV nos remete a Leão XIII. Leão XIII, por sua vez, foi o Papa que teve a coragem de publicar a Carta Encíclica Rerum Novarum, em 1891, que tinha como subtítulo ‘a condição dos operários’. Isso coloca o novo pontífice na esteira dos papas que se preocuparam com a chamada questão social’, explica Padre Alfredo.

A relação da chamada Grande Migração com os Documentos Sociais da Igreja foi tema de um curso ministrado em São Paulo em 2017 pelo próprio Padre Alfredo.

Dupla nacionalidade e papa migrante

Prevost nasceu em Chicago, nos Estados Unidos, tendo mãe de ascendêndia espanhola e pai americano. No entanto, passou a maior parte de sua carreira religiosa no Peru, onde atuou desde a década de 1980 em cidades como Piura, Trujillo e Chiclayo. Tal vivência no país sul-americano permitiu que em 2015 ele visse a obter também a nacionalidade peruana.

A reverência com a pátria que adotou ficou clara no primeiro discurso de Prevost como Papa, fazendo-o parte dele em espanhol e mencionando de forma especial a Diocese de Chiclayo.

‘E se me permitem também uma palavra : [em espanhol] a todos aqueles, de modo particular, à minha querida diocese de Chiclayo no Peru, onde um povo fiel acompanhou o seu bispo, compartilhou a sua fé e deu tanto a mim para seguir sendo igreja fiel de Jesus Cristo’.

No país sul-americano, também expressou preocupação com os migrantes venezuelanos – o Peru é um dos principais destinos dessa diáspora, que enfrenta dificuldades de integração com a economia local e com manifestações de preconceito.

A dupla nacionalidade e o fato de ter feito grande parte de sua vida longe da terra natal fazem de Prevost, de fato, uma pessoa migrante. ‘Creio que a dupla nacionalidade, da mesma forma que o domínio sobre vários idiomas, é um forte indicativo de abertura a outros povos, culturas e nações’, complementa Padre Alfredo.

Críticas ao governo Trump

Ser uma pessoa migrante de fato (e mostrar que ser migrante não é apenas vir de um país do Sul Global em direção ao Norte) e ter dupla nacionalidade – estadunidense e peruana – são fatores que já colocam o novo Papa em rota de colisão com o governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem no rechaço à migração uma de suas principais bandeiras.

O agora Papa Leão XIV, antes de ser eleito para o mais alto cargo da Igreja Católica, já havia se manifestado publicamente contra a política migratória trumpista.

Em mensagem publicada em 14 de abril, o então Cardeal Prevost repostou na rede social X (antigo Twitter) uma mensagem com críticas à deportação ilícita de um residente estadunidense. ‘Vocês não veem o sofrimento? A sua consciência não está perturbada? Como podem ficar em silêncio?’

Em outra mensagem, ele repostou na mesma rede um artigo com o título ‘JD Vance está errado: Jesus não pede para ranquearmos nosso amor pelos outros’, em 3 de fevereiro, em crítica direta ao atual vice-presidente.

Além disso, o agora Papa Leão XIV também apoiou a carta divulgada por Francisco em fevereiro passado aos bispos católicos dos Estados Unidos, poucas semanas antes de morrer. Nela, fez críticas diretas à política de perseguição a imigrantes realizada por Trump e pediu que os católicos de todo o mundo se posicionem e ‘não deem atenção a narrativas que sejam discriminatórias’.

‘Tenho acompanhado com atenção a importante crise que está ocorrendo nos EUA devido ao início de um programa de deportações em massa. ‘Exorto todos os fiéis da Igreja Católica (…) a não ceder a narrativas que discriminam e causam sofrimento desnecessário aos nossos irmãos e irmãs migrantes e refugiados. O que é construído com base na força, e não na verdade sobre a igual dignidade de todo ser humano, começa mal e terminará mal’, traz trecho do documento.

Embora Trump tenha declarado que ‘não veja a hora de conhecer’ Leão XIV e de celebrar o fato dele ser nascido nos Estados Unidos, o alinhamento com a política de Francisco em relação à migração coloca o novo Papa como um potencial contraponto ao presidente republicano.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-que-esperar-do-papa-leao-xiv-sobre-as-migracoes/

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Sobre o direito de ir e vir quando a migração se torna uma fuga

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
Um grupo de refugiados e migrantes caminha em direção à cidade de Canaan, no extremo sul do Panamá, depois de atravessar a região de Darién, uma das rotas migratórias mais letais do mundo. (Foto: Nicolo Filippo Rosso/ACNUR)

 *Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS


‘O direito de ir e vir comporta, necessariamente, uma face tríplice : a possibilidade de migrar, a liberdade de permanecer na terra natal e o sonho antecipado de retornar (em caso de ter migrado). Os três verbos – migrar, ficar e retornar –  desenham os contornos daquele direito fundamental de todo cidadão. Concentrando o olhar no contexto atual, na imensa maioria dos casos, em lugar de desfrutar desse direito de ir e vir, os migrantes sofrem uma obrigação compulsória de deixar o próprio país, lugar onde estão sepultados os restos mortais de seus antepassados.

A migração torna-se, assim, uma fuga. Fuga da violência em todas as suas manifestações : guerras, intolerância étnico-religiosa, oposição político ideológica, conflitos localizados; fuga da situação de pobreza, miséria e fome, bem como de condições adversas que se revelam na falta de terra e trabalho ou de oportunidades para abrir caminhos em direção a uma vida melhor; fuga, enfim, dos efeitos devastadores das catástrofes cada vez mais extremadas, provocadas pelo aquecimento global e pela vertiginosa velocidade das mudanças climáticas. O planeta Terra, em sua genuína trajetória, não consegue reciclar-se ao ritmo frenético e alucinado com que a política econômica globalizada utiliza de seus recursos.

Semelhante agitação febril da humanidade, ao sacudir as placas tectônicas da economia capitalista de lucro e de mercado, sacode igualmente as ondas superficiais, provocando, dessa forma, deslocamentos humanos de massa cada vez mais frequentes. E, ao mesmo tempo, mais intensos, diversificados e complexos. Disso se conclui que o fenômeno migratório em seu conjunto, se nas décadas passadas tinha uma origem e um destino mais ou mens pré-determinados, nos dias de hoje os migrantes passam a errar pelas estradas sem saber onde replantar as raízes arrancadas à força.

Numa palavra, as migrações tornam-se mais incertas, mais inseguras e mais inquietantes. Nos rumos e horizontes dos migrantes, as nuvens se acumulam e adensam sombriamente. Nessa perspectiva, as três faces do direito de ir e vir, como vimos acima, se reduzem a uma mera fuga, não raro apressada pelas bombas, pela fome ou por estiagens e enchentes dramáticas. Na verdade, se essas três alternativas não estão contemporaneamente presentes, acaba por prevalecer apenas uma espécie de saída pressionada pelas mais diversas circunstâncias. As alternativas de permanecer como cidadão do próprio país, por uma parte, ou de retornar após uma experiência migratória, por outra, tornam-se opções descartadas de antemão por algum tipo de constrangimento violento.

A verdade é que quando se apresenta para uma pessoa ou família a necessidade de sair, deveria se apresentar, ao mesmo tempo, a possibilidade de ficar, bem como a de retornar em caso de partida. Se as três alternativas não ocorrem de forma simultânea, verificamos então que o direito de ir e vir fica limitado à obrigação de escapar a todo custo de uma situação hostil e adversa. Ao pretender migrar, a pessoa ou família experimenta simultaneamente o desejo de permanecer com as raízes no solo em que nasceu, como também o sonho de um possível retorno mais ou menos próximo. Em caso contrário, o migrante se vê diante de uma contingência de inapelável impotência. Pressionado pela necessidade ou pela perseguição, sente-se condenado a fugir. Neste caso, convém distinguir corretamente o que representa a fuga e o que representa a busca. A fuga não permite qualquer tipo de escolha : a carência e falta de novas oportunidades, os abalos climáticos ou as divergências político-ideológicas exigem via de saída, por vezes tão imediata quanto inesperada. A busca, pelo contrário, contém boa dose de opção : embora o migrante não esteja pressionado por adversidades, opta por migrar em direção a um futuro mais promissor numa outra região ou país. No primeiro caso, prevalece a necessidade de salvar a si mesmo e à família; no segundo, prevalece a liberdade de fazer uma aposta pessoal/familiar por uma mobilidade geográfica que represente, ao mesmo temo, uma mobilidade social.

Quando o migrante se vê empurrado à estrada devido à penúria, à violência ou a alguma catástrofe, está em jogo o instinto de sobrevivência. Migrar se converte em uma solução última, por mais precária que seja, mas uma solução que o submete ao destino, como se diz. De forma inversa, quando ele resolve subjetivamente aventurar-se através de novas veredas e novas oportunidades, embora não esteja à beira do desespero ou da miséria, está em jogo a liberdade de escolha. Ou seja, quando aquilo que o leva a se decidir pela partida são as circunstâncias externas, o direito de ir e vir torna-se, a rigor, definitivamente comprometido. Tal direito só existe em termos reais e verdadeiros, quando em correspondência existe também o direito de ficar. Um e outro – partir ou permanecer – devem ter o mesmo peso na balança, então sim cria-se o terreno propício para uma decisão livre e espontânea.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/sobre-o-direito-de-ir-e-vir-quando-a-migracao-se-torna-uma-fuga/

domingo, 15 de setembro de 2024

Uma reflexão sobre os caminhos tortuosos da migração

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Migrantes em trânsito na região de Colchane, no Chile (Foto: OIM Chile)

*Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS


‘Migrar é um direito, direto de ir e vir? Teoricamente, sim, na verdade não! Pelo contrário, para milhões e milhões de pessoas, migrar é uma obrigação. Migração forçada, compulsória. Sair não por decisão própria, mas por uma série de circunstâncias adversas. Alguns autores falam de fatores de expulsão. Fatores que pressionam as pessoas a deixarem sua terra natal, às vezes a família, amigos e parentes. A terra natal tem subjetivamente um caráter sagrado : nela estão sepultados os restos mortais dos antepassados. Os principais ‘fatores de expulsão’ estão ligados, em primeiro lugar, às condições socioeconômicas em que vive a população de origem. Faltam oportunidades reais de sobrevivência, o que leva a buscá-las em outra parte. Evidente que os países de origem coincidem com o subdesenvolvimento, a pobreza, a miséria e a fome.

Em segundo lugar, as tensões, conflitos e guerras formam um segundo bloco de expulsão. Diferenças e turbulências de ordem étnica, religiosa, política ou ideológica tendem a produzir refugiados em série. O refugiado é aquele que não pode voltar atrás, sob pena de perseguição, encarceramento ou morte. Daí a fuga em massa dos países conflagrados, com a intenção de encontrar um lugar de refúgio. Segundo o ACNUR, o número de refugiados e deslocados internos forçados em todo planeta já ultrapassa a casa dos 120 milhões de indivíduos.

Muitos migrantes estão sendo expulsos, em terceiro lugar, devido aos efeitos nocivos, e cada vez mais extremos, das mudanças climáticas. Estiagens, inundações, tornados, furacões, etc. afetam em geral os setores mais vulneráveis da população. Na verdade, não poucos destes migrantes já viviam em situação precária no país de origem, forçadas a ocupar os lugares mais perigosos e sujeitos a tragédias. Poder-se-ia dizer que essas catástrofes climáticas apenas marcam a hora da partida. Alguns falam de ‘refugiados climáticos’, expressão que o ACNUR ainda não reconhece. Claro, outras motivações levam as pessoas a migrar. Saúde, educação, moradia, turismo são algumas delas. Também vivem em constante migração aqueles que trabalham com os meios de transporte, tais como motoristas, marítimos, aeroviários… Sem ignorar, ainda, os missionários, peregrinos, soldados, técnicos de empresas transnacionais, entre outros.

Por outro lado, no processo de migração, os autores falam também em fatores de atração. Um dos mais batidos são as luzes, atrativos e oportunidades proporcionadas de modo particular pelo universo urbano. O termo ‘luzes’, neste caso, poderia servir de metáfora para os direitos humanos mais elementares : acesso mais fácil ao trabalho, à moradia, à escola, aos serviços de saúde, transportes, e assim por diante. Em outras palavras, os ‘fatores de atração’ pressupõem, em geral, os ‘fatores de expulsão’. A carência extrema alimenta o sonho de vida melhor, impondo a necessidade de migrar. O que significa que ‘fatores de expulsão’ e ‘fatores de atração’ comportam duas faces da mesma moeda.

O fenômeno migratório, cada vez mais intenso, diversificado e complexo inclui, via de regra, três aspectos : polo de origem, polo de destino e lugares de passagem. Alguns países são predominantemente pontos de saída, outros de chegada e outros ainda de trânsito. Mas não é incomum que algumas nações reúnam, ao mesmo tempo, duas ou três dessas circunstâncias, tais como Turquia e Grécia, México e Portugal, Espanha e Líbia, para citar casos específicos. O certo é que origem, destino e trânsito, apesar de existirem enquanto predominância, se cruzam e se misturam, se interpelam e se entrelaçam. O que levanta a dificuldade de trabalhar com o esquema estreito de ‘fatores de expulsão’ e ‘fatores de atração’.

Se é certo que os migrantes contemporâneos sabem evidentemente de onde partiram, poucos sabem onde replantar as próprias raízes. Tal como nas migrações históricas da Europa para as Américas, os migrantes de hoje nunca esquecem a terra onde nasceram e criaram raízes. Diferentemente daqueles, porém, grande parte dos atuais desconhece o lugar de chegada. Batem de fronteira em fronteira, até encontrarem acolhida. Em outros tempos, o lugar de origem e o lugar de destino estavam mais ou menos determinados. Não é o que ocorre atualmente. Aos milhares e milhões, os migrantes passam a errar de um lugar a outro, como aves de arribação, sem um galho onde repousar. Tudo na ‘aventura’ da migração se tornou mais incerto, mais inseguro e mais inquietante. Em conclusão, não custa lembrar que o direito de migrar (ir-e-vir) corresponde ao direito de permanecer em sua pátria. Tudo depende de oferecer a cada cidadão oportunidades iguais de desenvolvimento. Aqui, se fazem necessárias políticas públicas estruturais, no sentido de evitar a todo custo a migração forçada. Então, sim, migrar ou ficar será um direito de todos’.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/uma-reflexao-sobre-os-caminhos-tortuosos-da-migracao/

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Prolongamento de conflitos desafia atuação de entidades e aumenta migração forçada

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Avanço do Taleban causa deslocamentos forçados no Afeganistão e, potencialmente, refugiados em outros países. (Foto: Edris Lutfi/ACNUR)

*Artigo de Ramana Rech Duarte 


‘Com a retomada do poder pelo grupo radical Talibã no Afeganistão, imagens do aeroporto de Cabul e aviões apinhados de gente desesperada para fugir do país chocaram o mundo. Mesmo antes do retorno do grupo, o país da Ásia Central já era o terceiro do mundo em geração de refugiados, atrás apenas da Síria e Venezuela, segundo dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) de 2020.

A guerra na região corre desde os anos de 1970 e os conflitos nunca cessaram por completo, gerando migração forçada tanto no âmbito interno quanto externo.

Na década de 90, ficou evidente para a comunidade internacional a tendência de prolongamento de crises como essas. O fenômeno tem ampliado preocupações sobre o desrespeito contínuo aos direitos humanos e criado dificuldades para a atuação de organizações humanitárias.

O ACNUR destaca que a continuidade de conflitos agrava a migração de crise. Em 2020, foram 48 milhões de pessoas deslocadas internamente, enquanto dez anos atrás esse número era de 25 milhões. O porta-voz da agência, Luiz Fernando Godinho, disse que a continuidade dos conflitos impede que essas pessoas retornem a seus locais de origem de forma segura e voluntária.

Para o representante da ACNUR, não há organização capaz de resolver as questões humanitárias frutos da violência armada. É preciso vontade e coordenação política para declarar um cessar-fogo. ‘Essa é a única maneira de reduzir o número de pessoas refugiadas no mundo.’

Redução de danos

A vida acaba se tornando insustentável para aqueles que vivem em regiões conflituosas. Segundo o professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, Daniel Rio Tinto, a guerra se difunde na comunidade local e molda todos os aspectos da vida social e política.

Comércios saqueados, ocupação de escolas e hospitais e queima de plantações passam a ser recorrentes, ‘o que torna difícil e pouco prático reconstruir essa infraestrutura ou retomar as atividades normais’, explica Tinto.

A dilatação de guerras está associada a uma maior propensão de conflitos dentro de um mesmo Estado. Essas crises, geralmente, têm menor avanço militar em função do objetivo político e, por isso, costumam se esticar. Ainda que não sofram violências físicas, os civis vivem sob ameaças existenciais, como efeito colateral dos conflitos. 

Nesse cenário de crise incessante, as organizações internacionais buscam minimizar os efeitos para a população ao oferecer serviços básicos, como alimentação, moradia e atendimento em saúde. Embora seja o mínimo, a atuação das entidades humanitárias pode fazer a diferença entre a vida e a morte das pessoas da região.

Prolongamento de conflitos

O chefe da Delegação Regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para o Cone Sul, Alexandre Formisano, afirma que a extensão de conflitos por décadas é o principal desafio para a organização. As violências armadas costumavam durar entre dois a quatro anos, período no qual o CICV trabalhava de forma emergencial. 

‘Isso [prolongamento de conflitos] está nos forçando a ter uma reflexão mais profunda sobre como trabalhar em contextos de violência prolongada, em parceria com outros atores e garantir mais a sustentabilidade dessas ações’, comenta Formisano. 

Uma pesquisa do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) publicada em maio de 2020 indica que 60% dos conflitos armados atuais persistem por mais de uma década. Na maioria das vezes, eles incluem a proliferação e sofisticação de grupos armados não-estatais. 

André Zuzarte, vice-coordenador do Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes (CEPRI), lembra que o recrutamento da população civil para a luta armada retroalimenta esses conflitos. Hoje, as milícias detém grande poder de fogo e, diversas vezes, são financiadas por atores estrangeiros com interesses no país em crise.

‘Essas regiões já são bastante castigadas por governos corruptos, a pobreza, falta de infraestrutura básica, e a guerra vem destruir o mínimo que existia’, diz Zuzarte. ‘Muitos veem a adesão a grupos paramilitares como a única saída’, completa.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://migramundo.com/prolongamento-de-conflitos-desafia-atuacao-de-entidades-e-aumenta-migracao-forcada/

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Conheça duas mães que vivem em campos de refugiados na Grécia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de I.Media para Aleteia


‘Cinco anos após sua primeira visita, o Papa Francisco vai Lesbos novamente, em 5 de dezembro de 2021. Duas mulheres concordaram em testemunhar sobre sua experiência como refugiadas na Grécia, tendo passado pelas ilhas do Egeu, que se tornaram símbolo da crise migratória no Mediterrâneo nos últimos anos.

Zita – camaronesa

Zita é mãe de três filhos, mas não os vê desde que saiu de Camarões, onde as condições de vida se tornaram impossíveis. Depois de uma longa jornada, ela foi primeiro para a Turquia, onde ficou por vários meses. Mas ‘não correu bem; eu não consegui encontrar um emprego’, ela explicou a I.Media.

Então ela tentou chegar à Europa de barco inflável. ‘Foi muito arriscado’, lembra ela. ‘Atravessamos o mar. Chegamos à Grécia, a Samos, em 30 de outubro de 2019.’ Para Zita, o campo de refugiados da ilha de Samos, a cerca de cem quilômetros ao sul de Lesbos, ‘é o inferno; é muito, muito, muito difícil viver naquele acampamento’. Ela ficou lá por quase dois anos, antes de ser transferida em 30 de agosto de 2021, para outro lugar a uma hora de Atenas.

Hoje, a mulher camaronesa vive em um contêiner com outras três mulheres, sem trabalho e sem apoio econômico. ‘Eu daria qualquer coisa para ir para outro país’, diz ela à beira das lágrimas, expressando sua angústia.

Zita é cristã? ‘Sem dúvida’, ela responde com convicção. Ela espera que a vinda do Papa Francisco melhore as condições dos refugiados : ‘Na Grécia é tão difícil… E aqueles que ficaram em Samos dizem que o novo campo é como uma prisão’.

Sara – afegã

No Afeganistão, os artigos que Sara (nome fictício, por razões de segurança) sobre o tratamento às mulheres no Islã não caíram bem. Atacada várias vezes na rua e ameaçada, a escritora deixou seu país em junho de 2019. Sozinha com seu filho de quatro anos, ela primeiro foi para o Irã, depois atravessou ilegalmente a fronteira com a Turquia, à noite, pelas montanhas.

Então começou uma viagem de seis meses rumo à Grécia. ‘Tivemos que parar cinco vezes; os barcos, de cerca de 10 metros, estavam sobrecarregados com cerca de 50 pessoas cada’, diz a jovem afegã em um inglês hesitante. Na sexta travessia, em janeiro de 2020, Sara e seu filho desembarcaram em Samos, onde viveram por 15 meses em um acampamento de tendas em uma floresta.

Tendo obtido o status de refugiada — mas ainda esperando por documentos — ela foi então transferida para Atenas, em um abrigo compartilhado com outras duas mães solteiras. A situação continua dramática, sem assistência estatal : ‘Alguns refugiados têm familiares que trabalham, mas mulheres como nós não têm ajuda com as crianças’.

Sara, que é filha de muçulmanos mas não segue o Islã, vê a visita do Papa como um evento de paz. ‘O Papa é um homem de paz. Ele transmite essa mensagem em suas viagens’, afirma.

Paz é o que Sara está procurando, e planeja emigrar para outro lugar. ‘Eu gostaria de publicar minhas memórias como refugiada, quando meu espírito se tornar livre. Não conseguimos encontrar paz aqui. Se não tivermos condições mínimas satisfatórias, não poderemos continuar…’

Ela também espera que a visita do Papa destaque a crise migratória. ‘Acho que se falou muito sobre isso no início, mas agora as pessoas estão esquecendo os refugiados na Grécia.’

Números

De acordo com a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), mais de um milhão de migrantes chegaram à costa grega desde 2014; e quase 8.000 desde o início de 2021.

Recentemente, os antigos campos em Samos e Lesbos fecharam. Seus ocupantes foram transferidos para o continente grego, para países da Europa ou para outros acampamentos nessas ilhas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/11/30/conheca-duas-maes-que-vivem-em-campos-de-refugiados-na-grecia/

domingo, 12 de janeiro de 2020

Trem de pouso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Avião
*Artigo de Silvonei José,
jornalista


‘O ano apenas começou, e a vida continua. Enquanto nos preocupamos em sonhar novas conquistas para os próximos 366 dias ( este ano é bissexto) e nos identificarmos com os votos de um ano de paz e prosperidade para todos; enquanto seguimos as tensões no Oriente Médio, África, e na nossa América Latina, muitos dramas se consomem na total escuridão dos holofotes midiáticos. Um desses foi o sonho de uma criança da Costa do Marfim que se transformou numa tragédia.

Ele morreu congelado na barriga de um avião onde se escondeu para chegar à Europa, mais precisamente à França. A ideia certamente do menino era : a Europa está longe, mas um avião pode encurtar a distância e me levar para além da miséria, das favelas, do deserto e do Mar Mediterrâneo. Provavelmente pensamentos que enchiam a mente do menino de somente dez anos, que chegou ao Aeroporto Internacional de Abidjan para procurar ‘uma ponte’ para a Europa.

Um avião fornece o sonho de poder conquistar a segurança que parece não ter em casa. Talvez, segundo as primeiras reconstruções, com a cumplicidade de alguém que lhe permitiu passar pelos controles do aeroporto.

O som dos motores

Vestido com roupas leves, ele se aproximou de um Boeing 777 da Air France, partindo para Paris. Ele aconchega-se no trem de pouso da aeronave. É um espaço apertado, não aquecido e nem pressurizado. Depois, o som dos motores e o avião decola.

O Boeing sobe então para uma altitude de 10.000 metros e a temperatura cai para -50°C. Acima de 42 graus abaixo de zero, o corpo já não consegue regular a sua temperatura. O oxigênio é rapidamente consumido e nestas condições extremas a febre, o suor, as convulsões e os desmaios são processos inevitáveis e inexoráveis. Os últimos pensamentos da criança marfinense estão envoltos pelo frio, solidão e escuridão. Depois o seu corpo, agora sem vida, chega a França.

Em Paris é quase madrugada e os operadores do aeroporto Charles de Gaulle encontram no trem de pouso do Boeing 777, que partiu de Abidjan, um corpinho endurecido pelo gelo. Ele é uma criança negra, cerca de dez anos de idade. Um ‘passageiro irregular’, diz numa declaração a companhia aérea. O rosto não tem nome.

Esperanças traídas

As suas esperanças traídas são, em vez disso, comuns às de muitos jovens africanos que procuram um futuro diferente daquele que seus países podem oferecer.

O drama deste menino marfinense é um drama terrível da emigração que não pode deixar ninguém indiferente. Um drama que traz à memória o caso de  outros dois jovens guineenses que foram encontrados no trem de pouso de um avião que tinha chegado a Bruxelas. Também se falou muito deles porque foi encontrada uma carta pedindo à Europa para ter um futuro diferente, para poder estudar, trabalhar e ter uma vida normal como a vida que os jovens europeus tem. O drama de uma África esquecida nos seus dramas. Para muitos este continente é considerado apenas um problema. Em vez disso, é um grande recurso de jovens que olham para a Europa.

O nosso menino de 10 anos e os muitos jovens que perderam a sua vida em busca da realização de um sonho, queriam somente uma oportunidade de vida, um futuro que não encontraram em suas realidades. Talvez – com disse a Comunidade romana de Santo Egídio - já tenha passado o momento de todos nós fazermos um exame de consciência e compreender por que, numa condição - como a da Itália e de muitos outros países europeus onde há necessidade de força juvenil, dado o envelhecimento da população - as portas não são reabertas à imigração legal para trazer pessoas que também querem contribuir para o desenvolvimento e o crescimento na Europa.

Ajudá-los em casa

Sant'Egidio lançou um apelo aos governos africanos, porque muitas vezes também eles fecham os olhos àquilo que é uma tragédia para eles : a saída de pessoas dos seus países, um fenômeno que não é considerado como um problema mas, muitas vezes, como uma libertação.

O drama do nosso menino de 10 anos, que não tem nem mesmo que chore por ele, deve se traduzir em pensamentos concretos e clarividentes para o grande continente africano, tão explorado. ‘Ajudá-los em casa’ não deve ser um slogan para parar o que se pensa ser uma invasão, inexistente, mas deve servir para abrir um diálogo, para ajudar os necessitados de uma forma concreta e urgente. Ajudá-los a sonhar dentro e fora de casa, e que um avião seja uma meio para fazer sonhar uma terra nova, e não o ambiente de uma morte na escuridão e no frio de um trem de pouso.’


Fonte :