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domingo, 7 de dezembro de 2025

O terremoto das migrações

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre Alfredo J. Gonçalves, CS

 

Acompanhamos perplexos uma escalada mundial da violência. Violência intra e intercontinental que se reflete seja nos governos e formas de oposição, seja nos governos locais. Tampouco ficam imunes as mais diversas instâncias e instituições da sociedade. Semelhante avanço da violência vem mexendo de maneira convulsiva com os ‘formigueiros humanos’. Com efeito, o modus vivendi de comunidades originárias, de povos, nações e culturas vem sendo fortemente sacudido ao redor do planeta. Resultado disso é a dispersão dos migrantes, tais como aves de arribação. A chamada transição paradigmática, de que tanto se tem falado, move as placas tectônicas da política econômica em termos nacionais, regionais e internacionais. É inegável que esse movimento subterrâneo provoca terremotos e tsunamis que, novamente, devastam os ‘formigueiros humanos’, colocando em fuga as formigas, aos milhares e milhões.

O modo de vida e a identidade de grupos inteiros são abalados desde a raiz, o que compromete as bases, os valores e os fundamentos tradicionalmente positivos. Migrantes isolados e/ou com suas famílias cruzam e atravessam fronteiras. Com grande dificuldade, atravessam mares, desertos e florestas para bater às portas de territórios diferentes. Chegam, em geral, cansados e abatidos, feridos e fragmentados. Pessoas e famílias se desfiguram e se desintegram pelo caminho, às vezes para não mais se encontrarem na tão sonhada e ansiada reunificação. As ‘formigas’ dificilmente têm a possibilidade de retornar ao formigueiro (abandonado às pressas no caso dos refugiados), para recriar o modus vivendi de seus antepassados. Milhões e milhões de pessoas vagueiam de cá para lá e de lá para cá, na vã tentativa de encontrar um refúgio seguro. Um solo a que se possa dar o nome de pátria parece cada vez mais distante.

Os abalos sísmicos, porém, tendem a desencadear tragédias climáticas sempre mais extremas e catastróficas. Novos formigueiros são abalados e desmantelados. Novas correntes migratórias se põem em marcha. Cresce progressivamente o número de pessoas sem raiz, sem rumo e sem horizonte. Os processos migratórios não se deixam classificar atualmente por uma origem e destino mais ou menos predeterminados, como ocorreu nas chamadas migrações históricas. Enquanto a origem segue sendo a terra natal, evidentemente, o destino se revela cada vez mais incerto, inseguro e inquietante. Nos dias de hoje, prevalecem, ao invés, a indignação e a impotência. Por toda parte. Multiplicam-se os adjetivos e expressões precedidos pelo prefixo negativo ‘in’, equivalente a um ‘não’. Resta uma certa esperança de que quando esse prefixo se acumula, dos subterrâneos emerge dialeticamente um ‘sim’, de acordo com o pensamento filosófico de Hegel.

Do ponto de vista das forças de esquerda, esse novo ‘sim’ consiste em um tremendo e gigantesco ‘não’. O efeito positivo do que podemos chamar mundo moderno ou modernidade reveste-se de uma marca registrada cunhada pela razão, a ciência e a tecnologia, bem como pelo progresso e pela democracia. Neste momento de mudança de época (não apenas época de mudanças), o que resulta da dialética hegeliana representa um ‘sim’ com sabor amargo de ‘não’. Consiste numa tentativa da extrema direita de usar os canais, instrumentos e mecanismos democráticos para instalar um autoritarismo populista que parecia morto e definitivamente enterrado. Não seria exagero falar de um imperialismo da economia globalizada. Imperialismo de mercado e de poder, contemporaneamente centrífugo e centrípeto. Centrífugo quanto à dispersão das unidades de produção e ao consumo generalizado, centrípeto no que diz respeito à tomada de decisões e à formação de megafusões e conglomerados hegemônicos para as fatias mais rentáveis do processo de produção, como petróleo, telecomunicações, aviação, metais preciosos, entre outras.

De tal maneira que, enquanto as nações mais poderosas ensaiam atritos, rivalidades e até mesmo conflitos bélicos (tendo o cuidado de exportar a guerra aberta para os países periféricos), globalmente o mercado se apresenta muito bem articulado. Exemplo : ao mesmo tempo que, do ponto de vista político, se verifica uma disputa cerrada pela hegemonia política e econômica planetária, desde o ponto de vista econômico, Estados Unidos e China seguem com seus acordos comerciais através desses oligopólios de empresas transnacionais. Numa expressão apocalíptica, semelhante ao imperialismo de mercado total, se converte em uma espécie de dragão de sete cabeças (coincidência com o G7?), onde qualquer uma delas pode assumir o controle global. O combate a essa besta fera passa, simultaneamente, por ações locais e por articulações globais. O desafio gigantesco é justamente equilibrar umas e outras.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://migramundo.com/o-terremoto-das-migracoes/

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Para onde o papa vai em 2021?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 
*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,

jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras

credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé

 

‘A vida de Francisco (e a de todos nós) começou a ficar incerta a partir de março de 2020. Um vírus letal, que até então circulava em território chinês, chegou à Europa sem pedir licença. E não demorou muito para atravessar o Atlântico, atingir países mais pobres e arrasar famílias inteiras. Nossos projetos, viagens e sonhos tiveram que ficar para depois. O mundo parou diante de uma ameaça invisível.

Muitos se foram sem poder se despedir dos seus parentes. Todos os dias, infelizmente, renovamos esse luto. Para o cristão, o ‘desconhecido’ que luta pela vida numa UTI de hospital é um irmão. É o homem ferido na estrada, diante do qual o bom samaritano que passa, como ensina a parábola, não pode ficar indiferente. Portanto, um ‘e daí?’ diante do sofrimento alheio nunca fez parte do vocabulário evangélico.

É um ano para esquecer. Mas também para lembrar e agradecer por estarmos vivos. O Te Deum do dia 31, o hino utilizado na liturgia católica em eventos solenes de ação de graças, deverá ser entoado para celebrarmos também essa vitória.

Francisco subiu as escadarias da Basílica São Pedro, naquela noite chuvosa de 27 de março de 2020, consciente de que era só o início da batalha. Ele também teve que rever o seu papado. A propósito, o líder máximo da Igreja Católica admitiu, em uma entrevista, que a pandemia o havia colocado em crise. Ele teve que fazer as contas, afinal, é gente como a gente.

E agora, o que vem pela frente?

Num momento em que vários países do mundo anunciam seus planos de vacinação, inclusive o Vaticano, o papa surpreende o mundo ao confirmar que visitará o Iraque em março de 2021. À primeira vista, pode parecer que o pontífice tenha agido de maneira inconsequente. No entanto, é provável que, até lá, todos os cidadãos de seu pequeno Estado já estejam vacinados. O Vaticano, possivelmente, será o primeiro país do mundo a conseguir esse feito, já que conta com pouco mais de 800 habitantes.

Para além da discussão se foi prudente ou não o papa ter marcado essa viagem, uma coisa é certa : no ano da retomada, que será 2021, Francisco orientará todo o seu trabalho pastoral para as periferias. Se ele já faz isso ao longo de quase 8 anos de governo, fará ainda mais no ano que vem.

Não me surpreenderia se ele incluísse na lista de suas visitas apostólicas alguns países da América Latina e outros do Oriente Médio. Ir para onde ninguém quer ir ou jamais foi virou regra no pontificado atual. Para Francisco, é a expressão máxima do ‘ser pastor com cheiro de ovelhas’. E não existe pastor sem povo. Não existe Igreja que não se volte para os pobres.

É provável que o santo padre privilegie os países onde os problemas sociais foram mais acentuados pela pandemia. E nada melhor que iniciar por um dos países mais arrasados pelas guerras no século 21, como é o caso do Iraque. A terra de Abraão, o patriarca bíblico que os cristãos chamam de ‘pai de todos aqueles que creem no mesmo Deus’, será palco de uma nova fase que se inicia para Francisco.

O coronavírus fez com que o país mergulhasse (ainda mais) na crise humanitária da qual nunca saiu desde 2003, quando os Estados Unidos e seus aliados invadiram o território. Por lá, sobretudo agora, o deserto virou cemitério, como relataram algumas agências de notícias internacionais.

Ao longo de 2020, Francisco fez um apelo à comunidade internacional para que deixe de investir em armas e use esse dinheiro para socorrer os países mais pobres. Também pediu um cessar-fogo global ‘que permita a paz e a segurança indispensáveis para fornecer a assistência humanitária’. Ele pensa nos países que receberam várias sanções por parte das grandes potências e, por conta disso, não puderam receber suporte necessário para combater a doença.

Francisco pediu um pacto global de fraternidade na sua encíclica Fratelli Tutti, publicada em outubro deste ano. Através das suas próximas viagens e documentos, certamente vai reforçar esse desejo. Se ‘todos estão no mesmo barco’, como ele disse em várias ocasiões, quer mostrar que, somente juntos, poderemos chegar à terra firme.

Será um ano diferente para um papa que estava acostumado a seguir um programa muito específico. Ele assume a responsabilidade de preparar a Igreja para uma mudança de época. E isso ficou evidente tanto nos últimos textos que lançou quanto no último consistório que convocou. Os seus gestos, daqui para frente, serão uma resposta a essa missão que acabou sendo desenhada pela própria pandemia.

Francisco se prepara para o fim e para o novo; coroa seu pontificado com o discurso da esperança, mas não deixa de denunciar as mazelas da sociedade. Sabe que o tempo urge e o próximo papa que virá terá muito trabalho.

Ele pensa na Igreja e no mundo do pós-pandemia. Quer que o cristianismo resplandeça como uma proposta que dá sentido à vida, não como uma religião dos perfeitos onde o ritualismo estéril transforma as comunidades católicas em ‘guetos dos perfeitos’. Se ao longo da história, quando a humanidade estava em ruínas, a Igreja assume as vestes de um grande hospital de campo, como pontua o papa Francisco, para ele é hora, então, de não negligenciar essa característica que lhe é própria.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1489265/2020/12/para-onde-o-papa-vai-em-2021/

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Há desertos que é impossível atravessar?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Marta Arrais,
cronista


‘Somos feitos de paisagens. É debaixo da pele que guardamos os instantes que nos mudaram para sempre. Os que nos fizeram estremecer para, depois, nos tornarem mais fortes. Os que nos permitiram conhecer as pessoas da nossa vida. Os que nos fizeram recomeçar. Os que nos fizeram pôr um ponto final no que já não nos dava sentido. É debaixo da pele, e nas paredes do coração, que dormem todas as nossas histórias e aventuras. Umas mais trágicas que outras. Umas mais alegres. Umas mais tranquilas e outras que carregam o estrondo de uma tempestade (ainda que já tenham sido vividas há muito tempo).

Somos feitos de cenários de guerra, também. Há momentos em que somos obrigados a desbravar caminho sem saber quais os monstros que nos poderão fazer cair. Somos obrigados a ir limpar as armas que a vida nos deu para enfrentar o que vier. No entanto, e enquanto não bebemos a força necessária para a próxima batalha, vivemos uma espécie de travessia do deserto. Parece-nos que caminhamos sozinhos e sem luz que nos guie. Parece-nos que o calor nos tira o fôlego e não se vislumbra a promessa de uma fonte ou de um fio de água. Parece-nos que a tempestade de areia nos cega e não nos deixa ver o caminho. De olhos semicerrados, avançamos sem saber como. É uma travessia sem barulho de risos ou de pássaros. É como se o silêncio se fizesse golpe e, ao ferir-nos, nos ganhasse.

Deixem-me esclarecer que as travessias do deserto são diferentes para cada um de nós e ninguém sabe, realmente, quando estamos a fazê-las. Podemos imaginar, quando estamos atentos, que aqueles olhos sem brilho (que adivinhamos neste amigo ou naquela pessoa da família) são olhos de quem só pode estar a travar uma batalha. Mas nunca podemos ter a certeza do impacto desta travessia em cada um dos que se cruzam connosco.

Como é que se atravessa o deserto?

A verdade é que não há estratégias que nos sirvam a todos. Ainda bem. Há quem atravesse o deserto com a coragem de um super-herói e há quem o faça desfeito em lágrimas. Há quem lhe encontre sentido e há quem não entenda as razões de ter de suportar tal cansaço e provação. Há quem entregue a travessia ao Céu e há quem se entregue ao silêncio da sua própria coragem.

Há desertos que é impossível atravessar?

Há. Todos nos parecem impossíveis quando ainda não começámos a travessia. Tudo nos parece assustador quando nos é desconhecido. Tudo nos perturba se, dentro de nós, estiver escuro. Ainda assim, e no meio da inevitável solidão de alguns momentos, sobra-nos a memória. Sobra-nos a memória dos que caminham conosco mesmo que não possam caminhar por nós. Sobra-nos uma esperança corajosa. Firme. Que nos diz baixinho que nem tudo se explica mas tudo se poderá (tentar) compreender. E sobram-nos as estrelas. Não há noite maior do que elas.


Fonte :

sexta-feira, 20 de junho de 2014

São Luís Gonzaga, Religioso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Nasceu em 1568 perto de Mântua, na Lombardia (Itália), filho dos príncipes de Castiglione. Sua mãe educou-o cristãmente e, desde cedo, manifestou grande desejo de abraçar a vida religiosa. Renunciando ao principado em favor de seu irmão, ingressou na Companhia de Jesus, em Roma. Durant os estudos de teologia, ocupando-se com o serviço dos doentes nos hospitais, contraiu uma doença que o levou à morte em 1591.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Luís Gonzaga, Religioso :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Da Carta escrita por São Luís Gonzaga à sua mãe.
(Acta Sanctorum, Iuni, 5,578)      (Séc.XVI)

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor
Ilustríssima senhora, peço que recebas a graça do Espírito Santo e a sua perpétua consolação. Quando recebi tua carta, ainda me encontrava nesta região dos mortos. Mas agora, espero ir em breve louvar a Deus para sempre na terra dos vivos. Pensava mesmo que a esta hora já teria dado esse passo. Se é caridade, como diz São Paulo, chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram (cf. Rm 12,15), é preciso, mãe ilustríssima, que te alegres profundamente porque, por teus méritos, Deus me chama à verdadeira felicidade e me dá a certeza de jamais me afastar do seu temor.

Na verdade, ilustríssima senhora, confesso-te que me perco e arrebato quando considero, na sua profundeza, a bondade divina. Ela é semelhante a um mar sem fundo nem limites, que me chama ao descanso eterno por um tão breve e pequeno trabalho; que me convida e chama ao céu para aí me dar àquele bem supremo que tão negligentemente procurei, e me promete o fruto daquelas lágrimas que tão parcamente derramei.

Por conseguinte, ilustríssima senhora, considera bem e toma cuidado em não ofender a infinita bondade de Deus. Isto aconteceria se chorasses como morto aquele que vai viver perante a face de Deus e que, com sua intercessão, poderá auxiliar-te incomparavelmente mais do que nesta vida. Esta separação não será longa; no céu nos tornaremos a ver. Lá, unidos ao autor da nossa salvação, seremos repletos das alegrias imortais, louvando-o com todas as forças da nossa alma e cantando eternamente as suas misericórdias. Se Deus toma de nós aquilo que havia emprestado, assim procede com a única intenção de colocá-lo em lugar mais seguro e fora de perigo, e nos dar aqueles bens que desejamos dele receber.

Disse tudo isto, ilustríssima senhora, para ceder ao desejo que tenho de que tu e toda a minha família considereis minha partida como um feliz benefício. Que a tua bênção materna me acompanhe na travessia deste mar, até alcançar a margem onde estão todas as minhas esperanças. Escrevo isto com alegria para dar-te a conhecer que nada me é bastante para manifestar com mais evidência o amor e a reverência que te devo, como um filho à sua mãe.


Fonte:
‘In Liturgia das Horas III’, 1361, 1363