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terça-feira, 16 de setembro de 2014

São Roberto Belarmino, Bispo e Doutor da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bento XVI, Papa Emérito
   
São Roberto Belarmino, de quem desejo falar-vos hoje, leva-nos com a memória ao tempo da dolorosa cisão da cristandade ocidental, quando uma grave crise política e religiosa provocou a separação de nações inteiras da Sé Apostólica.

Nasceu a 4 de Outubro de 1542 em Montepulciano, nos arredores de Sena, e era sobrinho por parte da mãe do Papa Marcelo II. Recebeu uma excelente formação humanística antes de entrar na Companhia de Jesus, a 20 de Setembro de 1560. Os estudos de filosofia e teologia, que completou entre o Colégio Romano, Pádua e Lovain, centrados sobre São Tomás e os Padres da Igreja, foram decisivos para a sua orientação teológica. Ordenado sacerdote a 25 de Março de 1570, foi durante alguns anos professor de teologia em Lovain. Sucessivamente, tendo sido chamado a Roma como professor no Colégio Romano, foi-lhe confiada a cátedra de ‘Apologética’; na década em que desempenhou tal cargo (1576–1586), elaborou um curso de lições que depois confluíram nas Controversiae, obra que se tornou imediatamente célebre pela clareza e riqueza de conteúdo e pela sua tonalidade predominantemente histórica. O Concílio de Trento tinha terminado há pouco tempo e para a Igreja católica era necessário revigorar e confirmar a sua identidade, também em relação à Reforma protestante. A obra de Belarmino inseriu-se neste contexto. De 1588 a 1594 foi inicialmente padre espiritual dos estudantes jesuítas do Colégio Romano, entre os quais encontrou e orientou São Luís Gonzaga, e depois superior religioso. O Papa Clemente VIII nomeou-o teólogo pontifício, consultor do Santo Ofício e reitor do Colégio dos Penitenciários da Basílica de São Pedro. Ao biénio de 1597–1598 remonta o seu catecismo, Doutrina cristã breve, que foi a sua obra mais popular.

No dia 3 de Março de 1599 foi criado cardeal pelo Papa Clemente VIII e, a 18 de Março de 1602, nomeado arcebispo de Cápua. Recebeu a ordenação episcopal em 21 de Abril desse mesmo ano. Durante os três anos em que foi bispo diocesano, distinguiu-se pelo zelo de pregador na sua catedral, pela visita que realizava semanalmente às paróquias, pelos três Sínodos diocesanos e um Concílio provincial que promoveu. Depois de ter participado nos conclaves que elegeram Papas Leão XI e Paulo V, foi novamente chamado a Roma, para ser membro das Congregações do Santo Ofício, para o Índex, os Ritos, os Bispos e a Propagação da Fé. Desempenhou inclusive funções diplomáticas, junto da República de Veneza e da Inglaterra, em defesa dos direitos da Sé Apostólica. Nos seus últimos anos, compôs vários livros de espiritualidade, nos quais condensou o fruto dos seus exercícios espirituais anuais. Com a sua leitura o povo cristão ainda hoje se sente muito edificado. Faleceu em Roma, no dia 17 de Setembro de 1621. O Papa Pio XI beatificou-o em 1923, canonizou-o em 1930 e proclamou-o Doutor da Igreja em 1931.

São Roberto Belarmino desempenhou um papel importante na Igreja das últimas décadas do século XVI e do início do século seguinte. As suas Controversiae constituem um ponto de referência, ainda hoje válido, para a eclesiologia católica sobre as questões relativas à Revelação, à natureza da Igreja, aos Sacramentos e à antropologia teológica. Nelas é acentuado o aspecto institucional da Igreja, por causa dos erros que então circulavam a propósito de tais questões. Todavia, Belarmino esclareceu também os aspectos invisíveis da Igreja como Corpo místico e explicou-os com a analogia do corpo e da alma, com a finalidade de descrever a relação entre as riquezas interiores da Igreja e os aspectos exteriores que a tornam perceptível. Nesta obra monumental, que procura sistematizar as várias controvérsias teológicas dessa época, ele evita toda a abordagem polémica e agressiva em relação às ideias da Reforma, mas utilizando os argumentos da razão e da Tradição da Igreja, ilustra a doutrina católica de modo claro e eficaz.

Todavia, a sua herança consiste no modo como concebeu o seu trabalho. Com efeito, as onerosas funções de governo não o impediram de tender, quotidianamente, para a santidade com a fidelidade às exigências da própria condição de religioso, sacerdote e bispo. É desta fidelidade que provém o seu compromisso na pregação. Dado que, como sacerdote e bispo, é antes de tudo um pastor de almas, sentia o dever de pregar assiduamente. Pregou centenas de sermones — homilias — na Flandres, em Roma, em Nápoles e em Cápua, por ocasião das celebrações litúrgicas. Não menos abundantes são as suas exposições e explanações aos párocos, às religiosas e aos estudantes do Colégio Romano, que têm com frequência como objecto a Sagrada Escritura, especialmente as Cartas de São Paulo. A sua pregação e as suas catequeses apresentam aquela mesma índole de essencialidade, que tinha aprendido da educação inaciana, inteiramente destinada a concentrar as forças da alma sobre o Senhor Jesus, intensamente conhecido, amado e imitado.

Nos escritos deste homem de governo sente-se de modo muito claro, apesar da reserva por detrás da qual ele esconde os seus sentimentos, o primado que ele assegura aos ensinamentos de Cristo. Assim, São Roberto Belarmino oferece um modelo de oração, alma de todas as actividades : uma oração que ouve a Palavra do Senhor, que se satisfaz ao contemplar a sua grandeza, que não se fecha em si mesma, mas tem a alegria de se abandonar a Deus. Um sinal distintivo da espiritualidade de Belarmino é a percepção viva e pessoal da imensa bondade de Deus, pelo que o nosso santo se sentia verdadeiramente filho amado de Deus e o recolher-se com serenidade e simplicidade, em oração, em contemplação de Deus era para ele fonte de grande alegria. No seu livro De ascensione mentis in Deum — Elevação da mente a Deus — composto segundo o esquema do Itinerarium de São Boaventura, exclama : ‘Ó alma, o teu exemplar é Deus, beleza infinita, luz sem sombras, esplendor que supera aquele da lua e do sol. Eleva os olhos a Deus, em quem se encontram os arquétipos de todas as coisas e do qual, como de uma fonte de fecundidade infinita, deriva esta variedade quase infinita das coisas. Portanto, deve concluir : quem encontra Deus, encontra tudo; quem perde Deus, perde tudo’.

Neste texto sente-se o eco da célebre contemplatio ad amorem obtineundum — contemplação para alcançar o amor — dos Exercícios espirituais de santo Inácio de Loyola. Belarmino, que vive na sociedade opulenta e frequentemente malsã do último período do século XVI e do primeiro período do século XVII, desta contemplação haure aplicações práticas e projecta a situação da Igreja do seu tempo com um vigoroso ímpeto pastoral. No livro De arte bene moriendi — A arte de morrer bem — por exemplo, indica como norma segura do bom viver, e também do bom morrer, a meditação frequente e séria, de que se deverá prestar contas a Deus das próprias acções e do próprio modo de viver, e procurar não acumular riquezas nesta terra, mas viver com simplicidade e com caridade, de maneira a acumular bens no Céu. No livro De gemitu columbae — O gemido da pomba, onde a pomba representa a Igreja — exorta com força o clero e todos os fiéis a uma reforma pessoal e concreta da própria vida, seguindo aquilo que ensinam a Escritura e os Santos, entre os quais em particular São Gregório de Nazianzo, São João Crisóstomo, São Jerónimo e Santo Agostinho, além dos grandes fundadores de Ordens religiosas, como Bento, São Domingos e São Francisco. Belarmino ensina com grande clareza e com o exemplo da sua própria vida, que não pode haver uma verdadeira reforma da Igreja, se antes não houver a nossa reforma pessoal e a conversão do nosso coração.

Dos exercícios espirituais de Santo Inácio, Belarmino hauria conselhos para comunicar de modo profundo, até aos mais simples, a beleza dos mistérios da Fé. Ele escreve : ‘Se tens sabedoria, compreendes que foste criado para a glória de Deus e para a tua salvação eterna. Esta é a tua finalidade, este é o centro da tua alma, este é o tesouro do teu coração. Por isso, considera verdadeiro bem para ti aquilo que te conduz para o teu fim, e verdadeiro mal aquilo que te priva dele. Acontecimentos prósperos ou adversos, riquezas e pobrezas, saúde e doença, honras e ofensas, vida e morte, o sábio não deve procurá-los nem rejeitá-los para si mesmo. Mas só são bons e desejáveis, se contribuírem para a glória de Deus e para a tua felicidade eterna; são maus e devem ser evitados, se a impedirem’ (De ascensione mentis in Deum, grad. 1).

Obviamente, não se trata de palavras que passaram de moda, mas palavras que hoje devemos meditar prolongadamente, para orientar o nosso caminho nesta terra. Elas recordam-nos que a finalidade da nossa vida é o Senhor, o Deus que se revelou em Jesus Cristo, em quem Ele continua a chamar-nos e a prometer-nos a comunhão com Ele. Estas palavras recordam-nos a importância de confiar no Senhor, de levar uma vida fiel ao Evangelho, de aceitar e iluminar com a fé e com a oração todas as circunstâncias e todas as obras da nossa vida, sempre orientados para a união com Ele. Amém!’

 (23 de fevereiro de 2011)

Fonte :
* Bento XVISantos e Doutores da Igreja (catequeses condensadas), Lisboa, Paulus Editora, 2012.  

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Santo Estêvão da Hungria

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

Nasceu na Panônia cerca do ano 969; tendo recebido o batismo, foi coroado rei da Hungria no ano 1000. No governo do seu reino foi justo, pacífico e piedoso, observando com toda a diligência as leis da Igreja e procurando sempre o bem dos súditos. Fundou vários episcopados e auxiliou com o máximo zelo a vida da Igreja. Morreu em Al ba Real (Szekesfehérvar) no ano 1038.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de Santo Estêvão da Hungria :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Dos Conselhos de Santo Estêvão a seu filho
(Cap. 1.2.10: PL 151,1236-1237, 1242-1244)     (Séc.XI)

Escuta, meu filho, os ensinamento de teu pai
Em primeiro lugar, se deseja honrar a coroa real, recomendo-te, aconselho e exorto, filho muito caro, que guardes a fé católica e apostólica com tanta diligência e cuidado, que te tornes um exemplo para todos os que da parte de Deus te estão sujeitos; e todos os eclesiásticos com razão te denominem o verdadeiro homem da fé cristã, sem a qual, não tenhas dúvida, não te poderás dizer cristão nem filho do Igreja. No palácio real, depois da fé, a Igreja ocupa o segundo lugar, ela que foi plantada por nosso chefe, o Cristo; em seguida, transplantada, solidamente edificada e espalhada pelo universo por seus membros, os apóstolos e santos padres. Embora gerando sempre nova prole, em algum lugar é considerada antiga.

Em nossa monarquia, filho, ela é ainda jovem e recente, por este motivo precisa de protetores mais precavidos e declarados. Não aconteça que por teu desleixo, preguiça e negligência seja destruído e aniquilado o que a divina clemência nos concedeu sem merecimento de nossa parte.

Meu filho muito querido, doçura de meu coração, esperança continuidade de nossa linhagem, rogo-te e ordeno que por tudo e em tudo, firmado na piedade, sejas propício não apenas aos parentes e próximos, ou aos príncipes e aos chefes, ou aos ricos ou vizinhos e povo; mas também aos estrangeiros e a todos que te procuram. Pois a prática da compaixão te leva à máxima felicidade. Sê misericordioso para com os oprimidos, guardando sempre no fundo do coração o exemplo do Senhor : Quero a misericórdia e não o sacrifício (Mt 9,13). Sê paciente com todos, não apenas com os poderosos, mas também com os pequeninos.

Sê, enfim, forte para que a prosperidade não te ensoberbeça ou a adversidade não te abata. Sê também humilde para que Deus te eleve agora e no futuro. Sê, ainda, modesto, e a ninguém castigues ou condenes em excesso. Sê manso para não faltares à justiça. Sê fidalgo, de modo a jamais infligir deliberadamente um ultraje a alguém. Sê casto, para evitares, como aguilhão da morte, todo o mau cheiro da luxúria.

Todas estas coisas ditas acima, reunidas, tecem a coroa real, porque sem ela ninguém consegue reinar aqui nem chegar ao reino eterno.
  

Fonte :
‘In Liturgia das Horas IV’, 1205, 1206

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A alegria da dádiva

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  * Artigo de José Rebelo,
Missionário Comboniano

As pessoas assumem um estilo de vida que não lhes deixa tempo nem meios para darem a atenção devida aos outros e experimentarem a alegria da dádiva.


‘Nas recentes eleições na África do Sul, algumas aldeias da periferia da cidade de Tzaneen, na província de Limpopo, uma das mais pobres do país, boicotaram o acto eleitoral e barricaram as estradas de acesso a mais de duas dúzias de comunidades com os postes da electricidade e pedras, para impedirem a actuação da comissão eleitoral. Razão do protesto : reivindicar a construção de um centro comercial na zona! Nem mais nem menos!

O episódio acaba por ser emblemático, a vários títulos, da situação que o país (ainda) vive, em que se recorre com facilidade à violência e destruição de propriedade pública, e ajuda a compreender a fidelidade ‘inquestionável’ ao Congresso Nacional Africano : apesar dos escândalos financeiros que envolvem vários membros do Governo, em especial o seu líder e presidente da República, Jacob Zuma, e apesar do seu escasso desempenho, que leva as pessoas frequentemente à rua, o ANC voltou a ganhar com uma folgada maioria absoluta.

O que, porém, mais me chamou a atenção quando, pela primeira vez, ouvi a notícia do boicote na rádio foi a deriva consumista que o país atravessa. O protesto é um direito e nas periferias as populações têm seguramente razões de sobejo para se indignarem. Mas protestar pela falta de um centro comercial desafia a imaginação. Está em sintonia com uma tendência infeliz da nossa época : a pessoa define-se pelo que tem e consegue comprar; e as aparências contam mais do que a verdade do ser. As pessoas sentem-se valorizadas no acesso à feira das vaidades. Aos domingos, podem vir à Missa de Mercedes e não ter uma pequena nota para pôr na bandeja.

Num livro que acaba de sair na Inglaterra (The Good Life : Wellbeing and the New Science of Altruism, Selfishness and Immorality), diz-se que o nosso instinto natural para o altruísmo está a ser destruído pelas mudanças sociais e exigências da vida moderna, que nos empurram para o egoísmo e a indiferença em relação aos outros. A autora, a psicoterapeuta Graham Music, diz que ‘estamos a perder a empatia e a compaixão em relação ao resto da sociedade’.

Music contesta a noção de que as crianças nascem egoístas. Para sustentar a sua tese, refere-se a uma série de experiências efectuadas no Instituto Max Planck, na Alemanha, em que um grupo de crianças, com 15 meses de idade, foi colocado numa sala onde um adulto finge que precisa de ajuda. Explica : ‘Há uma tendência natural para ajudar. As crianças adoram ajudar, recebem uma recompensa intrínseca só e exclusivamente por o fazerem, até que as começam a recompensar por aquele comportamento com um brinquedo. O subgrupo de crianças recompensado materialmente, rapidamente perde o interesse em ajudar. As crianças não recompensadas – e que não sabem que as do outro grupo estão a sê-lo – continuam a ajudar, satisfeitas, sem outra razão que não seja o mero acto de ajudar.

A autora diz que outros estudos têm demonstrado que as crianças se sentem mais felizes a dar mimos do que a recebê-los. Esta conclusão está na linha das palavras de adeus que São Paulo, já prisioneiro e a caminho de Roma, dirige aos chefes da comunidade de Éfeso reunidos em Mileto (Actos dos Apóstolos 20,35), em que afirma que Jesus mesmo terá dito ‘que há mais alegria em dar do que em receber’. Por outro lado, os dados da nossa própria experiência confirmam também os méritos do altruísmo. Mas infelizmente, e cada vez mais, as pessoas, no afã de mostrarem que não estão atrás das outras, assumem um estilo de vida que nem sempre podem sustentar e que não lhes deixa nem tempo nem meios para darem a atenção devida aos outros e experimentarem a alegria da dádiva.


Fonte  :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EupEZlVEukGsUIsjpv



domingo, 13 de julho de 2014

São Camilo de Lellis, Presbítero

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



Nasceu em Chieti, nos Abruzos (Itália), em 1550; seguiu primeiramente a carreira militar e, quando se converteu, consagrou-se ao cuidados dos enfermos. Terminados os estudos e ordenado sacerdote, fundou uma Congregação destinada a construir hospitais e atender os doentes. Morreu em Roma, no ano 1614.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Camilo de Lellis, 
Presbítero :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Da Vida de São Camilo, escrita por um companheiro seu
(S. Cicatelli, Vita de P. Camillo de Lellis, Viterbo, 1615)        (Séc.XVIII)

Servindo o Senhor nos irmãos
Começarei pela santa caridade, raiz de todas as virtudes e dom familiar a Camilo mais do que qualquer outro. Ele vivia sempre inflamado pelo fogo desta santa virtude, não só para com Deus, mas também para com o próximo, especialmente os doentes. Bastava vê-los para que se enchesse de ternura e se comovesse no mais íntimo do coração, a tal ponto que esquecia completamente todas as delícias, prazeres e afetos terrenos. Quando tratava de algum doente, parecia doar-se com tanto amor e compaixão que, de bom grado, tomaria sobre si toda doença, pra aliviar-lhe as dores ou curar as enfermidades.

Contemplava nos doentes, com tão sentida emoção, a pessoa de Cristo que, muitas vezes, quando lhes dava de comer, pensando serem outros cristos, chegava a pedir-lhes a graça e o perdão dos pecados. Mantinha-se diante deles com tanto respeito, como se estivesse realmente na presença do Senhor. De nada falava com mais frequência e com mais fervor do que da santa caridade. O seu desejo era imprimi-la no coração de todos os homens.

Para incutir em seus irmãos religiosos esta santa virtude, costumava recordar-lhes aquelas dulcíssimas palavras de Jesus Cristo : Eu estava doente e cuidastes de mim (Mt 25,36). Parecia que ele tinha estas palavras verdadeiramente gravadas em seu coração, tal era a frequência com que as dizia e repetia.

Camilo era um homem de tão grande caridade, que tinha piedade e compaixão não somente dos doentes e moribundos, mas também, de modo geral, de todos os outros pobres e miseráveis. Seu coração era tão cheio de bondade para com os indigentes, que costumava dizer : ‘Ainda que não se encontrassem pobres no mundo, os homens deveriam andar a procura-los e desenterra-los, para lhes fazerem o bem e praticar a misericórdia para com eles’.


Fonte :
‘In Liturgia das Horas III’, 1423, 1424


sexta-feira, 20 de junho de 2014

São Luís Gonzaga, Religioso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Nasceu em 1568 perto de Mântua, na Lombardia (Itália), filho dos príncipes de Castiglione. Sua mãe educou-o cristãmente e, desde cedo, manifestou grande desejo de abraçar a vida religiosa. Renunciando ao principado em favor de seu irmão, ingressou na Companhia de Jesus, em Roma. Durant os estudos de teologia, ocupando-se com o serviço dos doentes nos hospitais, contraiu uma doença que o levou à morte em 1591.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de São Luís Gonzaga, Religioso :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Da Carta escrita por São Luís Gonzaga à sua mãe.
(Acta Sanctorum, Iuni, 5,578)      (Séc.XVI)

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor
Ilustríssima senhora, peço que recebas a graça do Espírito Santo e a sua perpétua consolação. Quando recebi tua carta, ainda me encontrava nesta região dos mortos. Mas agora, espero ir em breve louvar a Deus para sempre na terra dos vivos. Pensava mesmo que a esta hora já teria dado esse passo. Se é caridade, como diz São Paulo, chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram (cf. Rm 12,15), é preciso, mãe ilustríssima, que te alegres profundamente porque, por teus méritos, Deus me chama à verdadeira felicidade e me dá a certeza de jamais me afastar do seu temor.

Na verdade, ilustríssima senhora, confesso-te que me perco e arrebato quando considero, na sua profundeza, a bondade divina. Ela é semelhante a um mar sem fundo nem limites, que me chama ao descanso eterno por um tão breve e pequeno trabalho; que me convida e chama ao céu para aí me dar àquele bem supremo que tão negligentemente procurei, e me promete o fruto daquelas lágrimas que tão parcamente derramei.

Por conseguinte, ilustríssima senhora, considera bem e toma cuidado em não ofender a infinita bondade de Deus. Isto aconteceria se chorasses como morto aquele que vai viver perante a face de Deus e que, com sua intercessão, poderá auxiliar-te incomparavelmente mais do que nesta vida. Esta separação não será longa; no céu nos tornaremos a ver. Lá, unidos ao autor da nossa salvação, seremos repletos das alegrias imortais, louvando-o com todas as forças da nossa alma e cantando eternamente as suas misericórdias. Se Deus toma de nós aquilo que havia emprestado, assim procede com a única intenção de colocá-lo em lugar mais seguro e fora de perigo, e nos dar aqueles bens que desejamos dele receber.

Disse tudo isto, ilustríssima senhora, para ceder ao desejo que tenho de que tu e toda a minha família considereis minha partida como um feliz benefício. Que a tua bênção materna me acompanhe na travessia deste mar, até alcançar a margem onde estão todas as minhas esperanças. Escrevo isto com alegria para dar-te a conhecer que nada me é bastante para manifestar com mais evidência o amor e a reverência que te devo, como um filho à sua mãe.


Fonte:
‘In Liturgia das Horas III’, 1361, 1363

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Santa Águeda, Virgem e Mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Foi martirizada em Catânia, na Sicília, provavelmente na perseguição de Décio. O seu culto propagou-se desde a Antiguidade por toda a Igreja e seu nome foi incluído no Cânon romano.


A Liturgia das Horas e a reflexão no dia de Santa Águeda (Ágata) :

Ofício das Leituras

Segunda leitura
Do Sermão na festa de Santa Águeda, 
de São Metódio da Sicília, bispo
(Analecta Bollandiana, 68, 76-78)       (Séc. IX)


               Dom que nos foi concedido por Deus, verdadeira fonte da bondade
A comemoração do aniversário de Santa Águeda nos reúne a todos neste lugar, como se fôssemos um só. Bem conheceis, meus ouvintes, o combate glorioso desta mártir, uma das mais antigas e ao mesmo tempo tão recente que parece estar agora mesmo lutando e vencendo, através dos divinos milagres com os quais diariamente é coroada e ornada.

A virgem Águeda nasceu do Verbo de Deus imortal e seu único Filho, que também padeceu a morte por nós. Com efeito, João, o teólogo, assim se exprime: A todos aqueles que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12).

É uma virgem esta mulher que nos convidou para o sagrado banquete; é a mulher desposada com um único esposo, Cristo, para usar as mesmas expressões do apóstolo Paulo, ao falar da união conjugal. É uma virgem que pintava e enfeitava os olhos e os lábios com a luz da consciência e a cor do sangue do verdadeiro e divino Cordeiro; e que, pela meditação contínua, trazia sempre em seu íntimo a morte daquele que tanto amava. Deste modo, a mística veste de seu testemunho fala por si mesma a todas as gerações futuras, porque traz em si a marca indelével do sangue de Cristo e o tesouro inesgotável da sua eloquência virginal.

Ela é uma imagem autêntica da bondade, porque, sendo de Deus, vem da parte de seu Esposo nos tornar participantes daqueles bens, dos quais seu nome traz o valor e o significado: Águeda (que quer dizer “boa”) é um dom que nos foi concedido por Deus, verdadeira fonte de bondade.

Qual a causa suprema de toda a bondade, senão aquela que é o Sumo Bem? Por isso, quem encontrará algo mais que mereça, como Águeda, os nossos elogios e louvores?

Águeda, cuja bondade corresponde tão bem ao nome e à realidade! Águeda, que pelos feitos notáveis traz consigo um nome glorioso, e no próprio nome demonstra as ilustres ações que realizou! Águeda, que nos atrai com o nome, para que todos venham ao seu encontro, e com o exemplo nos ensina a corrermos sem demora para o verdadeiro bem, que é Deus somente!


Fonte :
‘In Liturgia das Horas III’, pg. 1250, 1251