Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A
Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a existência de 193
Estados-membros, países soberanos e independentes que podem participar
plenamente de sua Assembleia Geral e de outras atividades. Existem dois Estados
observadores não-membros que são o Vaticano (Santa Sé) e o Estado da Palestina,
totalizando 195 entidades reconhecidas, mas os países membros plenos são 193.
Entidades internacionais como a FIFA que reconhece 211 federações chegam a
reconhecer um número maior de países, mas sem validade política.
Ao lado dos
países legalmente constituídos existem regiões ou povos que lutam para se
tornarem independentes podendo, quem sabe um dia, se constituírem como um país
livre e soberano. Entre esses são citados os Curdos (Turquia, Síria, Iraque,
Irã), a Catalunha (Espanha), a Escócia (Reino Unido), o Tibete e Xinjiang
(China), o Saara Ocidental (Marrocos) e a Chechênia (Rússia) que impulsionados
por fatores como identidade étnica, cultural ou religiosa distintas, recursos
naturais e repressão política, buscam a autodeterminação em meio a complexos
cenários geopolíticos.
Outras
regiões que aparecem menos, também travam uma grande luta na busca de sua
independência, sem o tão sonhado reconhecimento internacional. Entre essas
podemos citar a Somalilândia da qual tem se falado bastante nos últimos tempos.
Uma história
tumultuada
Localizado no
norte do continente, na região conhecida como ‘Chifre da África’, este
território semidesértico, que tem aproximadamente 137 mil km2, mais ou menos o
tamanho de um estado de tamanho médio do Brasil, declarou sua independência em
1991, mas até agora a independência como um Estado foi reconhecida apenas por
Israel.
O
reconhecimento solitário até poderia encorajar outras nações a seguirem o
exemplo, fortalecendo a posição diplomática da região separatista e seu acesso
aos mercados internacionais, mas a rejeição de Israel no cenário internacional
por causa da Questão Palestina e a falta de apoio de nações mais influentes do
globo terrestre, não ajuda a conseguir a tão sonhada autonomia.
Localizada
entre a Etiópia e a Somália da qual faz parte, a Somalilândia foi um
protetorado do grande Império Britânico até sua independência em 26 de junho de
1960. Mas a autonomia durou pouco, porque apenas cinco dias depois se fundiu
com a Somalilândia Italiana, também recém-independente.
As diferenças
começaram quase que imediatamente após o parlamento aprovar a lei que fundou a
República da Somália, com a região começando a viver uma história bastante
tumultuada. Em 1963, aconteceu o golpe de estado liderado pelo General Mohamed
Siad Barre, que tomou o poder, mudando o nome do país para República
Democrática da Somália. O descontentamento foi geral pela forma ditatorial como
conduziu o país, com perseguições e mortes generalizadas.
Durante esse
período, a força aérea somali realizou diversos bombardeios em larga escala
contra Hargeisa, a capital da autoproclamada República da Somalilândia, matando
milhares de civis e destruindo parcialmente a cidade.
Após vários
anos de um conflito sangrento, em 1991, Siad Barre foi deposto, e o país
mergulhou numa guerra civil.
Perspectivas
de futuro
O fim do
regime militar de Siad Barre levou a Somalilândia a declarar sua independência.
Porém, mais de três décadas depois, a região funciona quase como um país
independente, mas sem sê-lo, oficialmente, possuindo sistema político próprio,
parlamento, força policial própria, bandeira, moeda e até mesmo emitindo os
seus próprios passaportes.
Embora Israel
tenha se tornado o primeiro país a reconhecer formalmente a Somalilândia como
nação soberana, o restante da comunidade internacional não reconhece sua
independência, incluindo as Nações Unidas, a Liga Árabe e a União Africana.
O seu caso
frequentemente é comparado ao de Taiwan (Formosa), pois ambos parecem ser
Estados plenamente funcionais, declarando com orgulho a independência em
relação a seus vizinhos maiores, Somália e China, que insistem em afirmar que
as áreas rebeldes fazem parte de seus territórios. Reconhecendo essa
proximidade, Hargeisa (capital da Somalilândia) e Taipei (capital de Taiwan)
fortaleceram seu relacionamento e estabeleceram oficialmente laços diplomáticos
em 2020, provocando a ira de seus vizinhos.
Além da
questão política e da independência institucional, a Somalilândia é muito mais
estável que o resto da Somália, sendo considerada como um exemplo de democracia
na região, uma vez que seus líderes chegam ao poder por meio de eleições cujos
resultados, ao contrário de outros países africanos, são respeitados, mesmo
quando a oposição vence. Apesar de ser uma cidade com pobreza generalizada e
uma taxa de desemprego muito alta, a capital Hargeisa é uma das cidades mais
seguras da região. O contraste não poderia ser maior, mas essa relativa paz se
deve aos esforços da Somalilândia desde a década de 1990.
A Somália,
porém, considera a Somalilândia parte integrante do país e não aceita conversar
sobre a independência. Nos últimos anos, Hargeisa e Mogadíscio, capital da
Somália, realizaram negociações de paz, mas para a Somália, a integridade do
país é inegociável.
Outro grande
problema da região vem da ação dos grupos islamitas. Apesar do governo da
Somália consolidar os grupos sob controle seu controle em Mogadíscio e outras
grandes cidades, grupos como o Al-Shabaab, continuam uma ameaça ativa e
recuperaram influência em diversas áreas do país.
A grave crise
de segurança na qual vive o país é mais um dos entraves e, com isso, a luta
pela independência tão cedo não se encerrará. Seja como for, a decisão final
sobre a independência da Somalilândia provavelmente terá que vir da Somália,
com o intermédio da ONU para que, assim como aconteceu com a secessão do
vizinho Sudão do Sul, a separação possa vir após um referendo.’
Fonte : *Artigo na íntegra
Nenhum comentário:
Postar um comentário