Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Em uma
sociedade marcada pela velocidade, pela hiper conectividade e por demandas cada
vez mais complexas, o sacerdote continua sendo procurado como alguém que
escuta, consola, aconselha e acompanha. Para muitos fiéis, ele é a presença da
Igreja nas alegrias e nas dores da vida : está no Batismo, no casamento, na
doença, no luto e nas crises familiares. Entretanto, raramente, as pessoas se
perguntam quem cuida daquele que dedica a própria existência ao cuidado dos
outros.
A saúde
mental dos presbíteros deixou de ser um tema periférico para tornar-se uma
preocupação pastoral urgente. O aumento das responsabilidades administrativas,
a diminuição do número de vocações, a ampliação das exigências sociais e a
solidão que frequentemente acompanha o ministério exigem da Igreja uma reflexão
profunda sobre o cuidado integral daqueles que receberam a missão de servir ao
povo de Deus.
Para o Padre
Edelcio Ottaviani, doutor em Filosofia, mestre em Teologia e professor da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), compreender esse
desafio exige olhar, antes de tudo, para as transformações do mundo
contemporâneo. Segundo ele, a realidade pastoral mudou profundamente na última
década e continuará mudando com o avanço das tecnologias.
Essa
constatação conduz a uma reflexão mais profunda sobre a missão sacerdotal. Para
Padre Edelcio, o maior desafio do presbítero não é simplesmente administrar uma
paróquia ou organizar atividades pastorais, mas permanecer fiel à
espiritualidade de Jesus Cristo. Isso significa discernir continuamente aquilo
que promove a dignidade humana daquilo que produz exclusão e opressão. ‘O
Evangelho’, recorda ele, ‘nunca foi neutro diante das injustiças’.
Segundo o
teólogo, existe sempre a tentação de acomodar-se às estruturas de poder, ao
medo ou aos interesses econômicos. ‘Quando isso acontece, corre-se o risco de
reduzir a missão da Igreja a uma prática religiosa desvinculada do compromisso
com os pobres, com a justiça e com a libertação integral da pessoa humana. A
saúde espiritual do sacerdote, portanto, está profundamente ligada à coerência
entre aquilo que anuncia e aquilo que vive’, diz.
Ao analisar a
realidade eclesial brasileira, Padre Edelcio identifica outro elemento que
repercute diretamente sobre a vida dos presbíteros. Em sua avaliação, ao longo
das últimas décadas muitas comunidades reduziram o investimento na formação
permanente dos leigos e passaram a concentrar excessivamente as decisões nas
mãos dos padres. ‘Essa centralização, além de fortalecer o clericalismo,
aumentou significativamente o peso que recai sobre cada sacerdote’,
complementa.
Responsabilidade
coletiva
Em vez de
comunidades corresponsáveis, capazes de compartilhar responsabilidades, muitos
padres passaram a acumular funções litúrgicas, pastorais, administrativas, jurídicas
e financeiras. ‘O resultado é um ministério exercido frequentemente sob intensa
pressão e marcado pelo cansaço permanente. Para o sacerdote, recuperar uma
Igreja mais participativa não representa apenas uma escolha pastoral, mas
também uma necessidade para preservar a saúde daqueles que nela servem’, afirma
Padre Edelcio.
Essa
percepção encontra eco na experiência clínica da psicóloga Milena Elizabeth
Biliu do Vale, membro do Instituto Auxilium, dedicado ao acolhimento do
ministério sacerdotal. Ela observa que o padre precisa administrar expectativas
muito diferentes dentro da própria comunidade. Cabe-lhe mediar conflitos,
harmonizar opiniões divergentes, lidar com comparações em relação a
administradores anteriores e construir vínculos afetivos sólidos com centenas
ou milhares de pessoas.
Segundo a
psicóloga, esse processo exige enorme investimento emocional e frequentemente
produz sentimentos de solidão e exaustão. ‘Embora seja visto como referência
espiritual para todos, o sacerdote também necessita de uma rede de apoio onde
possa ser acolhido em suas próprias fragilidades. Reconhecer que os padres são
seres humanos, com limites e necessidades, é condição indispensável para que
possam exercer seu ministério de maneira saudável’, explica ela.
‘Lideranças
marcadas pela proximidade geram confiança e fortalecimento interior. Já
ambientes baseados apenas na cobrança podem favorecer o esgotamento emocional.
Quando a redução das vocações se soma ao aumento das demandas pastorais e ao
distanciamento dos superiores, cresce o risco de estresse, burnout, depressão e
até pensamentos suicidas’, observa.
Por isso,
Padre Edelcio acredita que o caminho proposto pela sinodalidade representa
muito mais do que uma nova metodologia pastoral. Inspirada e fortalecida pelo
Papa Francisco, a caminhada sinodal oferece um verdadeiro antídoto contra o
isolamento. Para ele, caminhar juntos significa cultivar relações marcadas pela
escuta, pela comunhão, pela corresponsabilidade e pela caridade pastoral,
substituindo disputas de poder por relações fraternas capazes de sustentar
aqueles que dedicam a vida ao serviço do Evangelho.
Santidade x
esgotamento
A psicóloga e
religiosa Irmã Veridiana Kiss reforça essa compreensão ao recordar que a Igreja
sempre ensinou a importância do cuidado integral do sacerdote. Documentos
fundamentais, como a Exortação apostólica Pastores Dabo Vobis e
a Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, insistem numa
formação permanente que une as dimensões humana, espiritual, intelectual e
pastoral. Como frequentemente recordava o Papa Francisco, o padre não pode
reduzir sua identidade ao ativismo; antes de ser administrador ou gestor ele é
discípulo de Cristo.
A formação
humana, nesse sentido, não aparece como elemento secundário, mas como condição
para que a graça encontre uma personalidade integrada. Irmã Veridiana observa
que oração, descanso, maturidade afetiva, vínculos fraternos e acompanhamento
psicológico não competem entre si; ao contrário, fortalecem-se mutuamente : ‘Um
sacerdote que cuida do corpo, das emoções e da própria relação com Deus serve
com mais liberdade, alegria e profundidade. Cuidar da saúde mental, portanto,
não diminui a entrega ao povo, mas torna essa entrega sustentável ao longo da
vida’.
Essa
perspectiva ajuda a desfazer um equívoco ainda presente em muitos ambientes
eclesiais : imaginar que o sofrimento permanente seja um sinal de fidelidade ao
Evangelho. ‘A tradição cristã nunca identificou santidade com esgotamento.
Jesus retirava-se para rezar, descansava com os discípulos, cultivava amizades
profundas e não hesitava em interromper o ritmo da missão para restaurar as
forças. O equilíbrio entre missão e descanso sempre fez parte da
espiritualidade cristã’, observa Irmã Veridiana.
‘A comunidade
que pratica a caridade santifica também o padre’, afirma Padre Edelcio. A
lembrança nasce de uma experiência pessoal vivida ao lado de Dom Luciano Mendes
de Almeida. Enquanto seminarista, ao acompanhá-lo como motorista, percebia que
bastavam poucas horas de convivência para despertar nele um desejo ainda maior
de fazer o bem. Aquela convivência transformava interiormente quem dela
participava. Essa visão amplia o conceito de cuidado. Não se trata apenas de
oferecer ajuda material ou preocupar-se quando o sacerdote adoece.
Milena
Elizabeth Biliu chama atenção justamente para essa corresponsabilidade. Segundo
ela, compreender que o sacerdote é uma pessoa antes de exercer uma função muda
profundamente a maneira como os fiéis se relacionam com ele. ‘O padre também
experimenta inseguranças, limitações, frustrações e momentos de solidão.
Esperar dele uma perfeição inalcançável apenas amplia sua sobrecarga emocional’,
salienta.
O verdadeiro
cuidado de si
Quando a
conversa chega ao plano pessoal, Padre Edelcio compartilha uma experiência
significativa. Há muitos anos realiza análise psicológica, ainda que de forma
intermitente. Para ele, existem momentos em que a pessoa simplesmente não
consegue enfrentar sozinha determinados conflitos interiores, tornando legítima
e necessária a ajuda profissional.
Além da
psicoterapia, ele destaca a influência da filosofia, especialmente da noção
foucaultiana do ‘cuidado de si’ : ‘Longe de representar individualismo, esse
conceito significa desenvolver uma atenção permanente sobre a própria maneira
de viver, relacionar-se e conduzir a existência’. Padre Edelcio aproxima essa
reflexão da própria vida de Jesus. A beleza de Cristo, afirma, não estava nas
aparências, mas na forma como acolhia as crianças, tratava as mulheres,
defendia os pobres e anunciava a paz. Cuidar de si, portanto, consiste em
configurar a própria vida segundo esses gestos do Evangelho, permitindo que a
humanidade seja continuamente moldada pela graça.
Irmã
Veridiana insiste que a cultura do cuidado precisa começar ainda nos
seminários. Para ela, não basta oferecer disciplinas sobre saúde mental, é
necessário ensinar futuros sacerdotes a reconhecer emoções, estabelecer
limites, cultivar amizades sacerdotais, aprender a pedir ajuda, desenvolver
hábitos saudáveis, praticar atividade física, reservar tempos de descanso e
integrar direção espiritual com acompanhamento psicológico sempre que
necessário. A prevenção, recorda ela, é muito mais eficaz do que agir apenas
quando o sofrimento já se tornou intenso. Afinal, como recorda Padre Edelcio, ‘Uma
comunidade sadia cura aqueles que dela se aproximam. Quando essa verdade é
vivida concretamente, também o sacerdote encontra nela um lugar para renovar
suas forças e continuar anunciando, com alegria e esperança, o Reino de Deus’.’
Fonte : *Artigo na íntegra
Nenhum comentário:
Postar um comentário