Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘Frequentemente
as guerras ocupam as manchetes de jornais e internet, sabendo que na atualidade
mais de 40 conflitos ocorrem simultaneamente em nosso planeta. A guerra entre a
Rússia e a Ucrânia, por exemplo, ou a guerra entre os Estados Unidos e Irã e mesmo
entre Israel e os palestinos expuseram várias realidades terríveis de uma
guerra, como o aumento do número de refugiados, os milhares de feridos,
mutilados e mortos e a destruição de cidades e vilas como se viu na Faixa de
Gaza. Mas a guerra mais sangrenta desde a Segunda Guerra Mundial não ocorre na
Europa, no Sudeste Asiático e não ocorreu também no Oriente Médio.
Esse trágico
episódio ocorreu na África, mais precisamente na República Democrática do Congo
e suas consequências são sentidas até hoje, pois o país não consegue voltar à
normalidade.
A Grande
Guerra Africana
O conflito
conhecido como a Grande Guerra Africana ou Segunda Guerra do Congo ocorreu
entre os anos de 1998 e 2008. O país era um barril de pólvora, com mais de 200
grupos étnicos, muitos inimigos entre si.
Essa guerra
se transformou no mais mortal conflito do mundo desde a Segunda Guerra Mundial,
envolvendo nove nações africanas e mais de 20 grupos armados, causando cerca de
5 milhões de mortes e devastando a conhecida região dos Grandes Lagos.
O Congo,
conhecido anteriormente como Zaire possui imensa riqueza mineral com grandes
jazidas de ouro, diamantes e outras matérias primas fundamentais para as
tecnologias globais, sobretudo, o coltan, matéria prima usada na indústria que
produz os modernos aparelhos de comunicação.
Após ajudar
Laurent-Désiré Kabila a chegar ao poder em 1997, derrotando Mobutu Sese Seko
que havia governado o país de 1965 a 1997, naquela que ficou conhecida como
Primeira Guerra do Congo, Ruanda e Uganda, dois países fronteiriços, foram
privados do poder. Laurent Kabila expulsou suas tropas por medo de
interferência, desencadeando uma invasão liderada pelos antigos aliados.
Esses países
invadiram o leste do Congo buscando reprimir grupos rebeldes hostis aos seus
governos que haviam fugido para o país. A República Democrática do Congo
recebeu apoio de Angola, Zimbábue, Namíbia e Chade. Ruanda e Uganda, por sua
vez, receberam o apoio de várias milícias rebeldes locais.
O conflito
rapidamente se transformou em uma guerra por procuração, pois visava guerra o
controle da exploração de recursos. Algumas províncias orientais, especialmente
Kivu do Norte e do Sul tornaram-se o epicentro de uma violência sem precedentes
contra a população civil.
O triste
legado de um conflito
A pressão de
algumas potências ocidentais, entre elas a Grã-Bretanha, forçou os demais
países africanos a sair do Congo, firmando acordos com o governo congolês.
A guerra
terminou formalmente entre 2002 e 2003 graças aos acordos internacionais de
paz, incluindo o chamado Acordo de Pretória, África do Sul. Apesar disso,
diversos grupos armados continuaram a espalhar o caos e o terror no interior do
país.
Para
completar esse ‘caldeirão de instabilidade’, o presidente Joseph Kabila que
deveria deixar o governo no final de 2016, realizando eleições gerais, não
cumpriu sua palavra. Um novo acordo político foi feito, acertando sua
permanência no poder e novas eleições foram marcadas para o final de 2018.
A transição
de poder no Congo aconteceu em janeiro de 2019, quando Félix Tshisekedi tomou
posse como presidente, após vencer eleições marcadas por muitos casos de
violência e com resultado contestado por Joseph Kabila que foi assassinado em
2021.
A Grande
Guerra Africana causou a morte de cerca de 5 milhões de pessoas e apenas para
se ter uma ideia, a Guerra na Síria que durou muito mais tempo provocou cerca
de 500 mil mortes.
Apesar dos
acordos, a estabilidade de longo prazo nunca foi alcançada, porque tensões
geopolíticas e exploração ilegal de recursos continuam a alimentar a violência.
As províncias de Kivu, no leste do país, continuam sendo palco de confrontos
entre o exército regular e grupos rebeldes como o M23, apoiados por países da
região como Ruanda num ciclo interminável de crises humanitárias.
A República
Democrática do Congo (RDC) está enfrentando uma crise política e de segurança
muito séria em 2026, que causa uma catástrofe humanitária com mais de 7 milhões
de deslocados. A corrupção e a fraqueza do Estado mantêm o país entre os mais
pobres do mundo.
O presidente
Félix Tshisekedi, reeleito, precisa lidar com forte insatisfação interna devido
a ineficácia no combate aos rebeldes e a corrupção desenfreada. E pra complicar
ainda mais a situação veio agora o surto provocado pelo vírus ebola que já
matou centenas de pessoas e infectou muito mais.
Dois países,
desafios semelhantes
É importante
recordar que existem dois países com nomes muito próximos numa mesma região.
Também na África, fazendo fronteira com a República Democrática existe também a
República do Congo, da qual Brazzaville tornou-se a capital. Em 1958, uma
colônia francesa pré-existente foi dividida em quatro países atuais e, em 28 de
novembro do mesmo ano, a região do Congo Central tornou-se a República do
Congo, declarada independente da França no dia 15 de agosto de 1960.
Portanto, são
dois estados distintos na África Central. Ambos devem seu nome ao rio do mesmo
nome, mas têm histórias e dimensões diferentes. Também chamado
Congo-Brazzaville, a antiga colônia francesa possui tamanho muito menor, com
cerca de 6 milhões de habitantes, enquanto a República Democrática é bem maior,
possui população próxima de 115 milhões de habitantes.
Os dois
países são separados a oeste pelo Rio Congo e suas respectivas capitais
Kinshasa e Brazzaville são as duas capitais mundiais mais próximas de todos os
tempos.’
Fonte : *Artigo na íntegra
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