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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Prolongamento de conflitos desafia atuação de entidades e aumenta migração forçada

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Avanço do Taleban causa deslocamentos forçados no Afeganistão e, potencialmente, refugiados em outros países. (Foto: Edris Lutfi/ACNUR)

*Artigo de Ramana Rech Duarte 


‘Com a retomada do poder pelo grupo radical Talibã no Afeganistão, imagens do aeroporto de Cabul e aviões apinhados de gente desesperada para fugir do país chocaram o mundo. Mesmo antes do retorno do grupo, o país da Ásia Central já era o terceiro do mundo em geração de refugiados, atrás apenas da Síria e Venezuela, segundo dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) de 2020.

A guerra na região corre desde os anos de 1970 e os conflitos nunca cessaram por completo, gerando migração forçada tanto no âmbito interno quanto externo.

Na década de 90, ficou evidente para a comunidade internacional a tendência de prolongamento de crises como essas. O fenômeno tem ampliado preocupações sobre o desrespeito contínuo aos direitos humanos e criado dificuldades para a atuação de organizações humanitárias.

O ACNUR destaca que a continuidade de conflitos agrava a migração de crise. Em 2020, foram 48 milhões de pessoas deslocadas internamente, enquanto dez anos atrás esse número era de 25 milhões. O porta-voz da agência, Luiz Fernando Godinho, disse que a continuidade dos conflitos impede que essas pessoas retornem a seus locais de origem de forma segura e voluntária.

Para o representante da ACNUR, não há organização capaz de resolver as questões humanitárias frutos da violência armada. É preciso vontade e coordenação política para declarar um cessar-fogo. ‘Essa é a única maneira de reduzir o número de pessoas refugiadas no mundo.’

Redução de danos

A vida acaba se tornando insustentável para aqueles que vivem em regiões conflituosas. Segundo o professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, Daniel Rio Tinto, a guerra se difunde na comunidade local e molda todos os aspectos da vida social e política.

Comércios saqueados, ocupação de escolas e hospitais e queima de plantações passam a ser recorrentes, ‘o que torna difícil e pouco prático reconstruir essa infraestrutura ou retomar as atividades normais’, explica Tinto.

A dilatação de guerras está associada a uma maior propensão de conflitos dentro de um mesmo Estado. Essas crises, geralmente, têm menor avanço militar em função do objetivo político e, por isso, costumam se esticar. Ainda que não sofram violências físicas, os civis vivem sob ameaças existenciais, como efeito colateral dos conflitos. 

Nesse cenário de crise incessante, as organizações internacionais buscam minimizar os efeitos para a população ao oferecer serviços básicos, como alimentação, moradia e atendimento em saúde. Embora seja o mínimo, a atuação das entidades humanitárias pode fazer a diferença entre a vida e a morte das pessoas da região.

Prolongamento de conflitos

O chefe da Delegação Regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para o Cone Sul, Alexandre Formisano, afirma que a extensão de conflitos por décadas é o principal desafio para a organização. As violências armadas costumavam durar entre dois a quatro anos, período no qual o CICV trabalhava de forma emergencial. 

Isso [prolongamento de conflitos] está nos forçando a ter uma reflexão mais profunda sobre como trabalhar em contextos de violência prolongada, em parceria com outros atores e garantir mais a sustentabilidade dessas ações’, comenta Formisano. 

Uma pesquisa do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) publicada em maio de 2020 indica que 60% dos conflitos armados atuais persistem por mais de uma década. Na maioria das vezes, eles incluem a proliferação e sofisticação de grupos armados não-estatais. 

André Zuzarte, vice-coordenador do Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes (CEPRI), lembra que o recrutamento da população civil para a luta armada retroalimenta esses conflitos. Hoje, as milícias detém grande poder de fogo e, diversas vezes, são financiadas por atores estrangeiros com interesses no país em crise.

Essas regiões já são bastante castigadas por governos corruptos, a pobreza, falta de infraestrutura básica, e a guerra vem destruir o mínimo que existia’, diz Zuzarte. ‘Muitos veem a adesão a grupos paramilitares como a única saída’, completa.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://migramundo.com/prolongamento-de-conflitos-desafia-atuacao-de-entidades-e-aumenta-migracao-forcada/

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Comunidade Santo Egídio: "Não abandonemos os moçambicanos"

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Andrea de Angelis


‘Moçambique, país da África Oriental enfrenta uma crise que está afetando e perturbando a vida de seus 30 milhões de habitantes. Especialmente os que vivem no extremo norte, na fronteira com a Tanzânia, na área de Cabo Delgado. Na região, a violência do terrorismo levou centenas de milhares pessoas a se deslocarem internamente nos últimos três anos, especialmente nos últimos 12 meses. As pessoas são obrigadas a deixar tudo para trás para escapar dos ataques terroristas, mas suas viagens nem sempre levam à segurança : nestas viagens do desespero há muitas vítimas, especialmente entre os mais jovens. Em uma coletiva de imprensa ‘Não abandonemos o povo de Moçambique vítima do terrorismo’, a Comunidade Santo Egídio de Roma ilustrou os efeitos da crise humanitária sobre a população e as intervenções realizadas graças à presença da Comunidade em Moçambique. Padre Angelo Romano, responsável pelo Departamento de Relações Internacionais concedeu uma entrevista à Rádio Vaticano - Vatican News.

Padre Angelo, hoje as atenções estão voltadas para Moçambique, um país muitas vezes esquecido. Qual é a situação no momento?

Em 4 de outubro de 1992, foi assinado um Acordo de Paz em Roma, aqui na Comunidade Santo Egídio, pondo fim a uma guerra civil de quase 17 anos e que tinha causado quase um milhão de mortes. Moçambique conseguiu recomeçar, chegou a uma alta taxa de crescimento, tinha reiniciado, o país tinha todas as características para enfrentar seu futuro com esperança. Porém, em 2017, explodiu uma revolta islâmica em Cabo Delgado, no norte do país, na fronteira com a Tanzânia. Os ataques terroristas se multiplicaram por parte de uma organização que mais tarde aderiu formalmente, ao Ísis. Ataques destinados a destruir a estrutura social do país para depois reconstruí-la segundo as regras do auto-proclamado Estado islâmico. Esses ataques atingiram a população indiscriminadamente. No último ano, o número de refugiados internos cresceu enormemente, atualmente chegam a cerca de 740.000, dos quais apenas um décimo está em campos assistidos por agências internacionais. A maioria desses indivíduos são refugiados em contextos familiares, em acomodações improvisadas. A situação é, portanto, muito grave no momento, afetando tanto a comunidade cristã quanto a muçulmana. Os terroristas consideram os muçulmanos que não seguem sua visão como inimigos, e os perseguem da mesma forma que os outros. Este é um projeto maligno e extremamente perigoso. Moçambique não tem tido os meios ou a capacidade para lidar com esta crise há muito tempo.

Qual foi a resposta da comunidade internacional, especialmente nos últimos meses? Estão sendo tomadas medidas apropriadas?

Houve uma série de decisões, há uma intervenção holandesa em andamento e outra da comunidade de estados da África Austral está prestes a começar. O treinamento europeu está começando, mas, como Comunidade Santo Egídio, estamos convencidos de que a resposta não pode ser apenas militar. A população foi marginalizada, é necessário um esforço muito grande para recuperar a confiança das pessoas e, neste sentido, a comunidade internacional pode desempenhar um papel importante.

Neste ‘projeto maligno’, como o senhor o definiu, qual é o preço que os mais novos pagam? Muitas vezes o Papa, falando de cenários dramáticos, tem chamado a atenção ao drama dentro do drama que as crianças vivem. Qual é a situação das crianças do país?

As crianças estão pagando o preço mais alto nesta crise. Estamos falando de uma porcentagem muito alta desses refugiados, quase metade do total. Junto com as mulheres, elas representam 75% dos deslocados internos. Pagam o preço mais alto porque têm que interromper seus estudos e muitos são sequestrados por terroristas para serem treinados como combatentes. Muitas garotas são sequestradas e escravizadas. Há uma fragilidade adicional na própria condição das crianças, que são expostas ao conflito. Também deve ser dito que estes refugiados internos têm caminhado ou viajado em barcos improvisados durante semanas, ou mesmo meses, para escapar de ataques terroristas. Muitos deles morreram de fome, exaustão. A Comunidade Santo Egídio aumentou sua ajuda humanitária a estas pessoas, alcançamos cerca de 25.000 pessoas com centenas de toneladas de ajuda. Queremos fazer ainda mais, especialmente permitindo que as crianças estudem. Estamos construindo prédios escolares em alguns campos de refugiados, estamos trabalhando em um programa de bolsas de estudo e graças a um programa já presente em Moçambique para registrar refugiados, chamado 'Bravo', estamos trabalhando para conseguir esses documentos. Mais da metade deles perderam seus documentos. Eles fugiram sem documentos ou os perderam no caminho e isto obviamente cria grandes problemas. Nós também os ajudamos restituindo-lhes os documentos necessários para que possam utilizar os serviços estatais.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2021-07/mocambique-santo-egidio-fome-guerra.html

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Caim e Abel

  Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Vieira,

Missionário Comboniano


‘A agricultura e o pastoreio são dois modos de vida que surgiram há uns dez mil anos com a revolução agrícola. A competição pelos recursos tem oposto pastores e agricultores ao longo dos tempos. A Bíblia representa esta tensão primordial por meio de um episódio entre Caim e Abel, os filhos de Eva e Adão. Conta o Livro do Gênesis no capítulo quarto que Abel (o pastor) e Caim (o agricultor) apresentaram ao Senhor os respectivos dons:  primícias do rebanho e respectivas gorduras e uma oferta dos frutos da terra. O Senhor gostou mais da oferta de Abel, e Caim, zangado, matou o irmão.

A narrativa do homicídio de Abel é testemunho da violência latente entre as comunidades que se dedicam à agricultura e à pastorícia, embora nas minhas observações tanto na Etiópia como no Sudão do Sul sejam os pastores os mais violentos.

Esta tensão tem aumentado na última década sobretudo na zona semiárida do Sahel, devido aos conflitos agro-pastoris e aos muçulmanos radicais. O deserto avança cerca de 3600 quilômetros quadrados por ano devido ao aquecimento e à diminuição das chuvas e a competição pela terra e pela água é feroz. A violência nas zonas rurais do Mali, Níger, Burquina Faso, Nigéria e Camarões fez no ano passado mais de dez mil mortes.

A União Africana estima que no continente um quarto da população – cerca de 268 milhões de pessoas – se dedique à criação de gado usando cerca de 43 por cento da terra. Muitos são povos nômades transnacionais que deslocam manadas enormes à procura de pastagens.

O conflito no Darfur é exemplar. Pastores da etnia árabe baggara – com mais de três milhões de pessoas que vivem nos Camarões, Nigéria, Chade, Sudão, Níger, República Centro-Africana e Sudão do Sul – disputam aos agricultores negros fures, masalites e zaghanas locais o controlo da água e das terras férteis desde 2003. A ONU calcula que esse conflito, que foi politizado pelo governo de El Bashir, já matou cerca de 300 mil pessoas e deslocou 2,7 milhões.

O cenário repete-se na Nigéria e nos países vizinhos entre os pastores fulanis – cerca de 20 milhões de nômades que se espalham pelos países da África Central e Ocidental – e as comunidades agrícolas. Em Março, cerca de 300 mil pessoas foram forçadas a abandonar o vale de Benue, no Centro da Nigéria, devido aos ataques.

O acentuar do conflito entre pastores e agricultores está ligado à disponibilidade de armas ligeiras, ao aumento demográfico, à degradação ambiental. Embora os pastores sejam vistos como os vilões, a agricultura industrial e o arrendamento ou venda de grandes extensões a multinacionais ou a governos estrangeiros interfere com áreas tradicionais de pastoreio.

A competição pelos recursos e o conflito têm de dar lugar à cooperação no uso dos bens naturais cada vez menos abundantes para pacificar as relações entre as comunidades que vivem da terra e apoiar modos de vida e oportunidades económicas para lavradores e criadores de gado. As autoridades tradicionais têm um papel importante na mediação.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/opiniao/4/560/caim-e-abel/

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Atenção espiritual é chave para administração de conflitos


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O afresco do pintor italiano Giusto de 'Menabuoi (1320-1390) de 1375 mostra como Judas trai o Filho de Deus através de um beijo.
O afresco do pintor italiano Giusto de 'Menabuoi (1320-1390) de 1375 mostra como Judas trai o Filho de Deus através de um beijo.
(Hervé Champollion / akg-images)

*Artigo de Pádraig Ó Tuama,
teólogo, professor e poeta 


‘Os conflitos revelam o que é importante para nós. Às vezes me encontro em conflito porque descobri algo que não sabia que me importava muito. Alguém muda os móveis no escritório e percebo por que gostava mais da disposição anterior; alguém posta uma mensagem de mídia social que me enfurece por algum motivo até então não considerado; alguém fala alguma coisa do meu país, minha religião, minha política, minha língua, minhas prioridades e muitas outras coisas que supõem centenas de anos de ressentimento que carrego em mim.

O conflito é uma informação poderosa; e essas informações poderosas podem ser difíceis de reconhecer, difíceis de processar, difíceis de aceitar, de aprender ou de agir. O conflito pode dizer muito sobre nós mesmos, e pode nos dizer muito sobre Jesus. Ele nos mostra por que não devemos temer.

Ouvir atentamente um grupo de discussão significa obter um vislumbre peculiar dos desejos e ansiedades desse grupo. Você também aprende suas táticas, alianças, ameaças, o que estão dispostos a fazer para vencer e o que lhes acontece quando sentem que perderam. Você também percebe o medo e a habilidade. Uma pessoa pode demonstrar a capacidade de contornar ou reformular um argumento, ou suas alianças, ou sua falta de vontade de se envolver, inclusive seus sentimentos em relação a compromissos.

O que significa prestar atenção espiritual e moral aos conflitos de nossas vidas? Muita energia religiosa parece ser gasta imaginando vidas religiosas livres de conflito : Adão e Eva no paraíso; Jesus manso em uma manjedoura; os santos mais focados em sua pureza do que em suas políticas. Você entende a foto.

Mas isso trai a literatura bíblica e a condição humana. O objetivo de nossas vidas não é contornar conflitos e sair ileso, mas nos envolvermos com eles de uma maneira que teste, aprimore e evolua nossos impulsos morais em direção a uma ética de compromisso sério e criativo.

Medo do Medo

Durante anos, tive medo de conflitos. Não só estava com medo de conflitos, mas também com medo do medo — camadas e camadas me impediam de encarar o convite e as informações que o conflito apresentava. Então duas coisas aconteceram. Minha saúde diminuiu e, acidentalmente, aprendi a orar.

O declínio da minha saúde era previsível. Estava trabalhando no ministério religioso, gay, fechado, assustado e ansioso. Não tinha os recursos para expressar as informações da minha vida. Então meu corpo sofreu. Peguei um vírus grave, que afetou meu sistema imunológico, tornando-o hiperativo, e o vírus não foi embora. Algo estava chamando minha atenção.

Aprendi a orar. Acidentalmente. A história real é que eu decidi desistir de minha fé. E, num movimento irônico que estava totalmente perdido para mim, decidi ir a um mosteiro — comunidade de Taizé — para desistir de Deus. Para formalizar minha desistência, decidi voltar à cena da crucificação. E decidi imaginar que eu era uma das pessoas ao longo do caminho da cruz e que tive a oportunidade de dizer adeus ao Deus que não amava mais. Mas naquela oração, Jesus disse algo para mim, e eu lhe disse algo. E estava no meio de um tipo de oração que nunca havia imaginado.

— Decidi que ou você me odeia, ou é hora de parar de me importar – disse.— Você se importa com o quê? – Perguntou Jesus.— Eu não sei – respondi.— Nem eu – Jesus disse.— Eu não sei o que fazer – falei.— Eu sei – ele disse, olhando para mim.

Senti que faltava uma coisa nos anos em que me aproximei de Jesus : respeito. Respeito dele para mim e de mim para ele.

Então, bem na tentativa de me divorciar de Deus, encontrei-me conversando com Jesus com inesperado respeito recíproco. O que ele pensava ditava tudo o que devia pensar. Mas estava curioso. Queria saber o que aborreceu Jesus, o que chateou ele, o que comoveu. Comecei a ler os evangelhos e a escrever cartas para o Jesus que não conhecia.

Cresci com muitos conflitos à minha volta : o conflito do legado da colonização da Irlanda, o conflito de ser gay, o conflito de me odiar, o conflito de violências que conhecia. Por isso, prestei muita atenção aos conflitos nos evangelhos : a mulher empurrando a multidão, confrontando essas pessoas com suas leis limitantes; os argumentos públicos sobre adeptos religiosos; as diferentes visões sobre como entender o papel dos estrangeiros no território ocupado; perguntas sobre a forma do casamento; argumentos sobre o pecado e os pecadores. Em quem devo tocar? Quem devo permitir que me toque?

Em cada uma dessas interações, os personagens estavam comunicando informações íntimas sobre suas vidas : as coisas que amam sobre si mesmas; as coisas que se recusam a considerar; os preconceitos sobre suas vidas; as regras que dominam, mas pelas quais nunca gostariam de ser conduzidas; inclusive as leis que quebram.

Em uma história, Jesus chega a uma casa. Não nos dizem de quem é a casa, mas é possível que seja dele em Cafarnaum. Jesus tem seus discípulos consigo; e quando chegam lá, pergunta sobre o que estavam discutindo ao longo do caminho.

A questão em si é intrigante. A palavra grega para perguntar é dialogizomai, da qual obtemos a palavra diálogo. Se Jesus dissesse : ‘Que dialogais um com o outro pelo caminho?’, A cena inteira teria um sabor diferente. No entanto, os tradutores são unânimes em afirmar que a melhor tradução para o português é discussão, não dialogar.

De qualquer forma, você pode ler o resto da história. Os discípulos estão calados porque têm vergonha; eles têm discutido sobre quem é o melhor.

É fácil pensar que conhecemos a substância desse conflito, mas vale a pena fazer uma pausa por um momento. O que significaria ser o maior? Aquele que passou mais tempo com Jesus? Quem foi mais elogiado? Aquele que era o mais forte? Aquele com o maior insight político? Aquele que mais se parecia com ele? Aquele que era o melhor em discutir? Estes são  devemos assumir  homens discutindo. Eles estão discutindo sobre tamanho, a força, o corpo? Em qualquer grupo, sempre há tensões sobre o maior, e cada grupo tem seu próprio critério para definir quem o seja. A comparação é como uma faísca para a mecha do conflito. Uma vez iniciado o jogo de comparação, é improvável encerrar até que acabe de alguma forma  levando-nos à agressão, à exclusão, ao julgamento e à redução; nesse jogo de determinar de uma vez por todas quem é o perdedor.

Porque é isso que está acontecendo em uma discussão sobre o maior. Por trás de tudo, também há uma discussão sobre quem é o menor.

Os evangelhos às vezes prestam muita atenção à linguagem corporal. Nesta cena, vemos Jesus sentado. O que é isso? Um convite para um exame atento de seus vícios competitivos? Possivelmente. Provavelmente, é uma indicação da postura de idosos reverenciados em muitas culturas. Os discípulos teriam sentado abaixo dele com toda a probabilidade. Então, a linguagem corporal deles mudou; são chamados de uma multidão de homens zombadores para uma postura de humildade e hierarquia (às vezes a hierarquia  quando é possível confiar  tem suas funções). Então, a coisa mais surpreendente acontece : Jesus apresenta uma criança.

A propósito, essa é uma das partes mais ricas da história. De onde veio a criança? Alguém dirá  é claro que sim  que essa criança é de Jesus. Ou talvez fosse um filho de um vizinho, ou um sobrinho ou sobrinha, ou um filho da casa. Se esta é a casa de Jesus, isso indica que a casa de Jesus era uma casa pela qual as crianças passavam, prontas para serem incluídas em uma parábola explicativa.

De qualquer forma, uma criança é apresentada. E a criança é abraçada. A criança é a personificação física do exato oposto da grandeza. Qualquer que seja a medida mundana de grandeza, essa criança não é ótima. A criança é pequena. A criança é impotente. A criança pode não ser fofa. A criança é uma criança, longe dos jogos de poder dos homens. Ao ouvir uma discussão sobre a grandeza conduzida pelos homens, Jesus os faz sentar para aprender e depois os enfrenta com um outro independente, que encarna o oposto do que os consumia. Essa criança perturba a economia de eminência que tem sido sua obsessão. Quando ouço as pessoas dizerem que a teologia deve ser objetiva, não subjetiva, penso em como Jesus interrompeu a objetividade. Não podemos comentar casos únicos, dizem empresas e governos. Contudo, Jesus parece dizer que só comenta casos individuais, caso contrário, não haveria sentido. Ele fala sobre hospitalidade, vincula-a à virtude, liga esta à noção de valor e valor à grandeza.

Reenquadrando a imagem

Exercitando-me em resolução de conflitos, ouvi a frase ‘reenquadrar’ repetidamente. Vale a pena pensar nessa palavra de maneira tangível. Quando se pega uma obra de arte e a reenquadramos, isso pode ajudar o espectador a ver o que tem ali. Talvez a moldura capte uma cor até então escondida, oculta no centro do trabalho. Talvez o quadro seja grande o suficiente para mostrar mais da foto. Uma foto recente de um partido político na Irlanda mostrou seus representantes sentados com uma pessoa de renome. Alguém no Twitter  sempre o Twitter  mostrou o original. Mostrou representantes de duas partes opostas sentadas com uma pessoa de renome. A foto foi reenquadrada e cortada. Liberte-me, o conflito chama; mostre as partes inconvenientes.

Conflito é informação, e muitas vezes não desejamos que o conflito revele a informação. Assim, contamos a história que torna nosso colega, nosso chefe, nosso bispo ou os leigos irrelevantes, até ridículos. Caricaturamos os indivíduos para que o ouvinte da história do conflito saiba imediatamente o que um bom ouvinte deve saber : quem é a pessoa boa e quem é a pessoa má.

Não me interpretem mal  é divertido. Está no centro de todas as boas histórias sobre ‘meu chefe é um idiota’. Mas as histórias nem sempre dizem a verdade; nós sabemos isso. Os Evangelhos sim. Lembra de Judas?

  • Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu’ (Mt 10, 4);
  • e ‘Judas Iscariotes, aquele que o entregou’ (Mc 3,19);
  • e ‘Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor’ (Lc 6,16);
  • E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze.’ (Jo 6,71).

Existem outros Judas nos Evangelhos  um deles é parente de Jesus (Mc 6,3)  e há um seguidor chamado ‘Judas (não o Iscariotes)’ no Evangelho de João (14,22). Estamos preparados para odiar essa pessoa. Iscariotes se tornou um palavrão em algumas línguas, e certamente não é usado como elogio em muitas.

Desde a introdução de Judas, somos levados a um ponto de vista sobre ele. O que Judas diria? O que faria? Conhecemos parte da história, mas pouco nos lembramos dela. Parece-me que Judas era um homem que procurava escalar conflitos. Procurou provocar um aumento do conflito com os ocupantes romanos. Ele não estava sozinho. Os discípulos no caminho de Emaús contaram a um estranho a história de seu lamento, decepção e choque que Jesus havia fracassado em seu projeto de conflito pela liberdade : ‘Mas esperávamos que ele fosse o único a redimir Israel’ (Lc 24,21).

Judas costuma ser considerado um personagem faminto por dinheiro, mas ele não era faminto por dinheiro. João nos diz que Judas roubou da bolsa (12,6), mas não tenho certeza se acredito nisso. Que evidência há no texto de que os autores são narradores confiáveis das motivações de Judas quando o apresentaram sem considerar seu ponto de vista na história? Mateus é quem desfaz tudo. Mateus está preocupado com a justiça, particularmente a justiça narrativa. Ele introduz a genealogia de Jesus, nomeando 42 homens e cinco mulheres, e ele  sozinho entre os evangelistas  termina a história de Judas assim : ‘Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata’ (Mt 27,3).

A palavra arrepender só foi usada algumas vezes em outras partes do Evangelho de Mateus. Duas vezes Jesus pede que as pessoas se arrependam por causa da proximidade do reino (3,2 e 4,17) e duas vezes Jesus usa a palavra ao falar de cidades cujas políticas precisam mudar (11,21 e 12,41).

A visão de Mateus parece diferente. A palavra arrepender-se é rica : a palavra usada no grego é metanoia, o que significa mudar de ideia ou mudar de direção. Judas não se importava com o dinheiro  ele trouxe as 30 moedas de prata de volta. Judas não queria que Jesus fosse condenado  isso o levou a por fim a si mesmo. Às vezes, o conflito pode ser intensificado para nos distrair de uma história mais profunda, uma história mais verdadeira, uma história mais inconveniente.

O conflito é uma economia peculiar. Algumas pessoas usarão conflitos contra um grupo para escalar mais conflitos com outros. No evangelho de João, uma mulher está sendo levada para ser apedrejada porque foi pega ‘no próprio ato de cometer adultério’ (8,4). Que notavelmente conveniente. Essa coisa toda parece tão surpreendentemente conveniente que acho que é uma configuração. De qualquer forma, alguns homens estão prontos para encenar o conflito final  assassinato  contra essa mulher, a fim de escalar um conflito entre eles e Jesus.

Aqui é onde a linguagem corporal entra novamente : a mulher conhecia a linguagem corporal das pedras. Eles estavam quase contra ela. Jesus também conhece a linguagem corporal. Ele se agacha. Diante de uma multidão de homens sendo reduzida a um sentimento primordial de pertencimento, ele vê uma multidão se exaltando. Jesus fez um gesto. Ele se agachou. O que estava escrevendo?

Diante do conflito, Jesus se torna menor e faz algo que ninguém mais pode ver. O conflito é a busca da curiosidade. Quando a curiosidade entra em uma multidão de pessoas enfurecidas, algo pode mudar. Jesus poderia estar rabiscando, poderia estar escrevendo pecados, poderia estar escrevendo uma pergunta interessante  onde está esse suposto homem? - ou poderia estar apenas demonstrando que o drama do conflito desses homens não era o drama que eles pensavam. Ele fez uma pausa. Chamou a atenção, levantou-se, falou e se agachou novamente.

Os homens vão embora; Jesus fica e fala com a mulher. Mas ele a deixa em conflito  afinal, ela agora sabe do que esses homens são capazes de voltar. E certamente alguns desses homens são conhecidos dela ou parentes. E Jesus diz para ela não pecar mais. Qual foi o pecado dela? Apaixonar-se por um homem que mentiu sobre ser casado? Ser considerada não casada e cortejar um homem? Ser enganado em sexo? Ser um cenário para as obsessões teológicas dos homens projetadas em seu próprio corpo? Eu não sei. Mas eu sei que gostaria de questionar.

A linguagem está no coração do que me move. Para mim, poesia, conflito e religião circulam em torno da mesma coisa : as palavras que dizemos, de corpo e língua. Jesus também gostava de palavras. Ele elogiou a mulher pelas palavras dela. Jesus estava cansado, queria fugir, mas alguém não o deixou. Não dê comida para cachorros, ele diz. E então ele mesmo aprende. Ah, mas senhor, diz essa mulher estrangeira, até os cachorrinhos comem migalhas. Ela pega o insulto de cachorrinhos e vira o diálogo. Ensinando como dar do que transborda do seu coração. Ele para, ouve, muda de ideia. Ele a elogia por suas palavras. E ainda nos lembramos dela.

Alguns conflitos precisam se intensificar para que os detentores do poder percebam que são eles que causam o conflito do qual estão reclamando. Alguns conflitos precisam aumentar para que as pessoas possam colaborar. Alguns conflitos precisam diminuir. Alguns de nós precisamos ser tirados do conflito. Alguns de nós precisamos ser jogados no coração dos conflitos que estamos negando.

Estamos cercados por tantos conflitos. Vale a pena perturbar as águas do conflito com um andarilho aquático encarnado : aquele que acalma tempestades, aquele que revela conflitos onde pensávamos que não existiam, aquele que não era possuído pelo medo do medo. Nossos conflitos revelam algo curiosamente íntimo sobre nós. Essas tempestades nos dizem coisas que não queremos que digam. Passemos sobre estas tempestades como Jesus de Nazaré. Oremos.


Fonte :