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terça-feira, 5 de abril de 2022

Terroristas islâmicos aumentam raptos de crianças e mulheres em Moçambique

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Francisco Vêneto,

jornalista

‘Bandos terroristas islâmicos aumentaram os raptos de crianças e mulheres em Moçambique, denunciou a fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). De acordo com o testemunho de um missionário à entidade, as crianças sequestradas são forçadas a servir militarmente os bandidos e a tornar-se terroristas como eles.

O fenômeno se estende pela província de Cabo Delgado, que começou a ser tomada pelo terrorismo em 2017. A violência na região já deixou mais de 3 mil mortos e provocou a fuga de mais de 850 mil cidadãos.

Uma religiosa cujo anonimato foi respeitado confirmou à fundação pontifícia, no início de fevereiro, que vem sendo perpetrado na região ‘o rapto sistemático de pessoas que se encontram nas aldeias, principalmente mulheres e mães com suas próprias crianças’.

Os Médicos sem Fronteiras, na sua missão de Cabo Delgado, corroboram os relatos de sequestros, como o de sete crianças, ocorrido em fevereiro, que provavelmente foram forçadas a lutar como membros dos grupos terroristas islâmicos.

De acordo com a agência Gaudium Press, abundam depoimentos semelhantes.

O frei Boaventura, do Instituto da Fraternidade dos Pobres de Jesus, também afirmou que os terroristas que invadem as aldeias da região ‘levam as mulheres, levam as crianças, que acabam sendo treinadas nesses lugares, acabam sendo doutrinadas e vivem aquilo que eles veem lá onde estão, no mato, ou nas áreas onde se concentram para fazer os seus treinos’.

A diocese católica mais atingida pela violência em Cabo Delgado é a de Pemba, cujo porta-voz, padre Kwiriwi Fonseca, relatou que é comum, nas visitas aos cidadãos deslocados de seus vilarejos, ouvir relatos das próprias mães que confirmam os sequestros de seus filhos. Segundo o padre, as crianças que caem ‘nas mãos dos terroristas’ acabam sendo obrigadas a tornar-se soldados dos grupos terroristas. Ele acrescenta : ‘Também ensinam a elas a doutrina islâmica’.

No caso das mulheres sequestradas, o destino costuma ser o casamento forçado com os terroristas.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/04/05/terroristas-islamicos-aumentam-raptos-de-criancas-e-mulheres-em-mocambique/

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Comunidade Santo Egídio: "Não abandonemos os moçambicanos"

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Andrea de Angelis


‘Moçambique, país da África Oriental enfrenta uma crise que está afetando e perturbando a vida de seus 30 milhões de habitantes. Especialmente os que vivem no extremo norte, na fronteira com a Tanzânia, na área de Cabo Delgado. Na região, a violência do terrorismo levou centenas de milhares pessoas a se deslocarem internamente nos últimos três anos, especialmente nos últimos 12 meses. As pessoas são obrigadas a deixar tudo para trás para escapar dos ataques terroristas, mas suas viagens nem sempre levam à segurança : nestas viagens do desespero há muitas vítimas, especialmente entre os mais jovens. Em uma coletiva de imprensa ‘Não abandonemos o povo de Moçambique vítima do terrorismo’, a Comunidade Santo Egídio de Roma ilustrou os efeitos da crise humanitária sobre a população e as intervenções realizadas graças à presença da Comunidade em Moçambique. Padre Angelo Romano, responsável pelo Departamento de Relações Internacionais concedeu uma entrevista à Rádio Vaticano - Vatican News.

Padre Angelo, hoje as atenções estão voltadas para Moçambique, um país muitas vezes esquecido. Qual é a situação no momento?

Em 4 de outubro de 1992, foi assinado um Acordo de Paz em Roma, aqui na Comunidade Santo Egídio, pondo fim a uma guerra civil de quase 17 anos e que tinha causado quase um milhão de mortes. Moçambique conseguiu recomeçar, chegou a uma alta taxa de crescimento, tinha reiniciado, o país tinha todas as características para enfrentar seu futuro com esperança. Porém, em 2017, explodiu uma revolta islâmica em Cabo Delgado, no norte do país, na fronteira com a Tanzânia. Os ataques terroristas se multiplicaram por parte de uma organização que mais tarde aderiu formalmente, ao Ísis. Ataques destinados a destruir a estrutura social do país para depois reconstruí-la segundo as regras do auto-proclamado Estado islâmico. Esses ataques atingiram a população indiscriminadamente. No último ano, o número de refugiados internos cresceu enormemente, atualmente chegam a cerca de 740.000, dos quais apenas um décimo está em campos assistidos por agências internacionais. A maioria desses indivíduos são refugiados em contextos familiares, em acomodações improvisadas. A situação é, portanto, muito grave no momento, afetando tanto a comunidade cristã quanto a muçulmana. Os terroristas consideram os muçulmanos que não seguem sua visão como inimigos, e os perseguem da mesma forma que os outros. Este é um projeto maligno e extremamente perigoso. Moçambique não tem tido os meios ou a capacidade para lidar com esta crise há muito tempo.

Qual foi a resposta da comunidade internacional, especialmente nos últimos meses? Estão sendo tomadas medidas apropriadas?

Houve uma série de decisões, há uma intervenção holandesa em andamento e outra da comunidade de estados da África Austral está prestes a começar. O treinamento europeu está começando, mas, como Comunidade Santo Egídio, estamos convencidos de que a resposta não pode ser apenas militar. A população foi marginalizada, é necessário um esforço muito grande para recuperar a confiança das pessoas e, neste sentido, a comunidade internacional pode desempenhar um papel importante.

Neste ‘projeto maligno’, como o senhor o definiu, qual é o preço que os mais novos pagam? Muitas vezes o Papa, falando de cenários dramáticos, tem chamado a atenção ao drama dentro do drama que as crianças vivem. Qual é a situação das crianças do país?

As crianças estão pagando o preço mais alto nesta crise. Estamos falando de uma porcentagem muito alta desses refugiados, quase metade do total. Junto com as mulheres, elas representam 75% dos deslocados internos. Pagam o preço mais alto porque têm que interromper seus estudos e muitos são sequestrados por terroristas para serem treinados como combatentes. Muitas garotas são sequestradas e escravizadas. Há uma fragilidade adicional na própria condição das crianças, que são expostas ao conflito. Também deve ser dito que estes refugiados internos têm caminhado ou viajado em barcos improvisados durante semanas, ou mesmo meses, para escapar de ataques terroristas. Muitos deles morreram de fome, exaustão. A Comunidade Santo Egídio aumentou sua ajuda humanitária a estas pessoas, alcançamos cerca de 25.000 pessoas com centenas de toneladas de ajuda. Queremos fazer ainda mais, especialmente permitindo que as crianças estudem. Estamos construindo prédios escolares em alguns campos de refugiados, estamos trabalhando em um programa de bolsas de estudo e graças a um programa já presente em Moçambique para registrar refugiados, chamado 'Bravo', estamos trabalhando para conseguir esses documentos. Mais da metade deles perderam seus documentos. Eles fugiram sem documentos ou os perderam no caminho e isto obviamente cria grandes problemas. Nós também os ajudamos restituindo-lhes os documentos necessários para que possam utilizar os serviços estatais.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2021-07/mocambique-santo-egidio-fome-guerra.html

terça-feira, 23 de março de 2021

Moçambique: aumento de casos de Covid, Cólera e ataques terroristas

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da reportagem local Fundação AIS


‘Novas histórias de terror vindas de Moçambique chegam à Fundação Pontifícia ACN, quase semanalmente, mas com pouca atenção da comunidade internacional. De fato, o país do sudeste da África está sofrendo uma catástrofe humanitária atrás de outra. Desde 2017, Moçambique tem sido alvo de inúmeros ataques de jihadistas. Os objetivos perseguidos pelos grupos terroristas não são conhecidos, mas observadores sugerem uma mistura de interesses econômicos, políticos e religiosos.

Há relatos de decapitações em massa e violência inimaginável contra a população civil. O governo dos EUA classificou o grupo como um desdobramento do ‘Estado Islâmico’ (EI) e como uma organização terrorista global e impôs sanções. Dada a obscuridade dos protagonistas e seus apoiadores, no entanto, estas sanções não devem surtir efeito.

Enquanto o terrorismo jihadista continua a corroer a região ao longo da fronteira com a Tanzânia, aumentando ainda mais a miséria dos refugiados, o país também está sendo agredido pela pandemia da COVID-19. ‘Embora a primeira onda tenha sido relativamente leve, o número de pessoas infectadas disparou desde janeiro.  É alarmante como o número de mortes aumentou’, disse o responsável por projetos da ACN para a região, Ulrich Kny. Além disso, a cólera também está se espalhando devido às condições precárias de higiene nos campos de refugiados, que não têm acesso à água limpa.

Mais de 600 mil refugiados

Centenas de milhares de refugiados das partes norte do país encontraram refúgio na capital da província de Cabo Delgado e suas comunidades vizinhas. Segundo a ONU, até o final de 2020 havia quase 670.000 pessoas deslocadas.

Ataques foram realizados em nove dos 17 distritos da província de Cabo Delgado. A violência é direcionada a toda a comunidade, não apenas aos cristãos, relatou a Irmã Aparecida Ramos Queiroz, responsável pela coordenação de projetos de auxílio na diocese de Pemba.

‘Tanto instituições muçulmanas quanto cristãs estão sendo atacadas. Nós, cristãos, não somos o alvo principal dos insurgentes. Várias igrejas foram completamente destruídas; seis das 23 paróquias da diocese de Pemba estão desertas – a situação é tão instável que a maioria dos membros da paróquia fugiu. Apesar disso, uma irmã religiosa e um jovem vigário paroquial ainda estão trabalhando em uma das aldeias abandonadas da paróquia para servir aquelas pessoas que são muito pobres até mesmo para fugir’, disse a Irmã.

Cuidados religiosos com os refugiados

O governo começou a reassentar os refugiados de Pemba para outras partes do país. ‘Muitos encontram abrigo com outras famílias, outras em novos assentamentos de refugiados. A maioria dos padres e irmãs das áreas de conflito fugiram com membros de suas paróquias. Eles agora tentam continuar seu trabalho pastoral entre os refugiados de suas paróquias’, diz Ulrich.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://pt.aleteia.org/2021/03/23/mocambique-aumento-de-casos-de-covid-colera-e-ataques-terroristas/

domingo, 14 de junho de 2020

Moçambique: Irmãs de São José descrevem ataque jihadista “forte e cruel”

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)        

 ACN
*Artigo da Fundação AIS

‘É a primeira vez que as irmãs Carmelitas Teresas de São José descrevem o mais recente ataque de grupos terroristas em Macomia, que ocorreu no final de Maio. Segundo a descrição da irmã Blanca Nubia Castaño, ‘o ataque’, que começou na madrugada de 28 de Maio, ‘foi forte, cruel e durou três dias’.

As irmãs, sabendo ‘do risco’ que corriam, pois a região estava já sobressaltada pela ameaça dos grupos armados que reivindicam pertencer ao Daesh, abandonaram a missão dias antes.

Só na passada quinta-feira, dia 4 de Junho, ‘apesar de os riscos não terem passado totalmente’, as irmãs decidiram regressar a Macomia para ver a dimensão dos estragos causados pelos terroristas.

Nas palavras da irmã Castaño, a destruição foi brutal. ‘Como resultado desta barbárie, temos a zona urbana totalmente destruída, a maioria das infraestructuras do Estado danificadas e a zona comercial reduzida a cinzas.’

Além da destruição material, importa apurar o número de vítimas. Mas essa contabilidade ainda está por fazer. ‘Ainda não sabemos o número de vítimas civis e nem das forças [de segurança]. Só ontem, [dia3 de Junho], as pessoas começaram a voltar lentamente para as suas casas, algumas foram queimadas, outras saqueadas… Lembrem-se que há apenas um ano que vivemos a destruição da passagem do ciclone Keneth…’

A missão das irmãs Carmelitas Teresas de São José foi poupada, mas, ao que parece, segundo a irmã, apenas por estar situada relativamente fora da zona atacada pelos terroristas. ‘A nossa missão salvou-se por estar na parte alta, ao lado de uma base militar. Apesar de os riscos não terem passado totalmente, hoje [dia 4 de Junho] decidimos ir visitar, encorajar e ajudar pelo menos os nossos trabalhadores e as suas famílias. Por questões de segurança, tivemos que voltar hoje mesmo para a outra missão onde estamos refugiadas.’

A Irmã Blanca Castaño refere ainda, na mensagem que colocou nas redes sociais, o sentimento de indignação perante o cenário de destruição a que ficou reduzida a zona. As irmãs estão presentes em Macomia há 16 anos, desenvolvendo um trabalho notável na área educacional. ‘Desde há dois anos e meio’, escreve ainda a religiosa, a região de Macomia, como aliás toda a província de Cabo Delgado, tem vindo a ser ‘aterrorizada’ por ataques cruéis por parte de grupos armados jihadistas.

‘Dói-nos a alma pelo atropelamento aos nossos irmãos, ficamos indignadas com a injustiça, ficamos tristes com a incerteza e sentimo-nos impotentes. Só nos resta esperar e confiar no Deus da Vida’, escreve ainda a irmã Castaño.’



Fonte :
*Artigo na íntegra

sábado, 4 de abril de 2020

Nigéria: Pregar sob o terror do Boko Haram

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Xáquin López,
jornalista
  
‘A Igreja Católica da Nigéria é uma das mais castigadas do mundo devido aos ataques do grupo jiadista Boko Haram. O Catolicismo é minoritário na metade norte do país mais populoso da África. O problema acentua-se na região nordeste, onde o grupo étnico predominante, o Kanuri, é cem por cento muçulmano.

Neste contexto de assédio e destruição, qualquer boa notícia da comunidade cristã é celebrada como uma vitória. Por esta razão, o passado dia 16 de Janeiro foi uma data marcante na Catedral de Maiduguri, capital do Estado de Borno. Três jovens foram ordenados padres numa cerimônia solene presidida pelo bispo, Oliver Dashe.

Centenas de pessoas começaram a chegar a Saint Patrick’s no início da manhã. As medidas de segurança postas em prática eram fortes. Um bunker de sacos de terra protegia a única entrada aberta para o recinto. Após dez anos de cerco, os controles de segurança fazem parte do protocolo diário.

A Catedral de Maiduguri é um moderno edifício, presidido por uma torre visível a quilómetros de distância. Ocupa um terreno equivalente a um campo de futebol numa área muito movimentada da cidade.

Todos os ingredientes de uma celebração católica africana estiveram presentes naquele dia no templo. Uma banda tradicional, com tambores e instrumentos de madeira, dividia o espaço com uma orquestra de estilo ocidental acompanhada por um tambor, teclado e saxofone. Cada orquestra era acompanhada por um coro, composto maioritariamente por mulheres uniformizadas com um vestido de estilo nigeriano em tons vermelhos e amarelos.

Um dos momentos mais marcantes da celebração deu-se depois do rito da ordenação. A assembleia aplaudiu com entusiasmo enquanto os coros cantavam hinos religiosos em língua haúça. Espontaneamente, os fiéis organizaram uma procissão festiva e os participantes, dançando, aproximaram-se do altar para receber a bênção dos neo-sacerdotes.

Compromisso contra o terror

A barbárie do Boko Haram contra os católicos começou, precisamente, na cidade de Maiduguri em 2010, poucos meses depois de a Polícia nigeriana ter executado o seu líder, o imã salafita Mohammed Yusuf. Desde essa data até 2016, as estatísticas da Diocese de Maiduguri assinalam cinco mil católicos mortos. É provável que, atualmente, o número tenha duplicado. Deve-se acrescentar ainda a destruição de mais de 350 templos e casas paroquiais, algumas delas em mais de uma ocasião.

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O P. Peter Uchebo (esq.) durante a entrevista com o autor do artigo (Fotos: Sonsoles Meana)

Um relatório da diocese de Maiduguri, que inclui os Estados de Borno, Yobe e o Norte de Adamawa, pormenoriza que 22 das 40 paróquias foram atacadas ou destruídas pelo Boko Haram.

«A minha igreja foi queimada pelo Boko Haram», diz o P.e Peter Uchebo. O ataque realizou-se em Outubro de 2015 na aldeia de Bahuli, a norte do Estado de Adamawa. «Os rebeldes chegaram à noite de mota, bradando a Alá. Ouvi os gritos na casa paroquial. Um funcionário disse-me que tínhamos de correr porque senão seríamos assassinados. Entrei na igreja, tomei o Santíssimo, rezei e fechei o templo. As pessoas já estavam a fugir para as montanhas. As mães corriam com os bebês às costas e dando as mãos às crianças. Quando estávamos a salvo, pudemos ver os insurgentes a invadir o templo e a incendiá-lo. Quatro horas depois, regressamos e a igreja estava em cinzas. As pessoas choravam e diziam que pagariam o trabalho de reconstrução.»

Hoje, o P.e Uchebo é pároco na Igreja de Saint Mary’s em Maiduguri, que também tem uma escola para mais de 600 alunos.

No domingo seguinte à ordenação sacerdotal, o P.e Clement Yaga presidiu à primeira missa em Saint Hillary, no bairro de Polo, um dos mais perigosos de Maiduguri. Ele saúda-nos na sacristia enquanto um acólito o ajuda a paramentar-se. «Sinto-me como um herói. Há nove anos isto era um sonho para mim. Estou muito nervoso e feliz por poder presidir a minha primeira missa. O Boko Haram não foi capaz de destruir a nossa fé, nem tem a nossa felicidade», sublinha o neo-sacerdote.

Os outros dois novos sacerdotes, Fidelis Mburema e Moisés Zawa, foram designados para paróquias no interior do Estado de Borno. A sua missão é muito mais arriscada : a nova estratégia do Boko Haram é bloquear as estradas e assaltar os carros que circulam. Os cristãos são raptados de imediato, enquanto os viajantes muçulmanos são autorizados a seguir a sua viagem. Na pior das hipóteses, os reféns são executados depois de um longo e doloroso cativeiro. Foi o que aconteceu a onze cristãos mortos em Dezembro de 2019.

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Grupo de rapazes numa rua de Maiduguri (Foto: Sonsoles Meana)

Passada uma década, Maiduguri permanece sitiada pelos rebeldes do Boko Haram, embora tenha recuperado uma normalidade aparente e frágil. As pessoas que têm de deslocar-se pelo estado continuam a acudir à estação de autocarros da cidade para apanhar uma carrinha da empresa local, a Borno Express. «Não nos vamos esconder», disse-nos um religioso durante a confraternização improvisada no pátio da catedral, depois da ordenação dos novos padres. Muitos dos presentes estavam preocupados com o destino dos novos presbíteros, porque todos estão cientes do perigo, e a única dúvida que tinham era se aquela tinha sido a ordenação de heróis ou de mártires.’


Fonte :

domingo, 12 de julho de 2015

Crucificação : a abominável humilhação retomada pelo Estado Islâmico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
  
 Punição imposta pelos jihadistas remete às barbáries cometidas nos primórdios das civilizações e funcionam como eficazes propagandas do poder do autoproclamado califado.

‘‘Ficarão crucificados o dia todo e serão castigados com 70 chicotadas por romper o jejum do Ramadã’, diz a mensagem estampada nos cartazes que a polícia do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) pendurou nos pescoços de dezessete pessoas que foram crucificadas na Síria. A selvageria foi acompanhada por uma multidão que, não satisfeita com a humilhação das vítimas, zombou dos crucificados e atirou pedras contra eles. É difícil crer que execuções dessa natureza foram perpetradas há poucos dias, e não nos primórdios da civilização.

A crucificação carrega uma simbologia especial no Ocidente por remeter às passagens bíblicas que narram a morte de Jesus Cristo. Mas a punição já era usada em larga escala muito antes do veredicto acatado por Pôncio Pilatos. Historiadores acreditam que os romanos aprenderam a crucificar os prisioneiros em Cartagena, dominada em 149 a.C. A condenação era aplicada principalmente contra pessoas desprovidas de direitos, como os escravos e agitadores políticos e religiosos que ameaçavam a autoridade do Império Romano. Foram crucificados, por exemplo, aproximadamente 6.000 rebeldes que lutaram na rebelião iniciada pelo gladiador Espártaco. A prática também era comum no Império Persa, onde o rei Dario I crucificou cerca de 3.000 oponentes na Babilônia.

Na Roma antiga, o condenado tinha os braços presos a um pedaço de madeira horizontal e era flagelado e ridicularizado por multidões até chegar ao ponto de execução. No local, uma estaca fincada na terra continha as inscrições com o nome e o crime cometido pelo prisioneiro. Mãos e pés eram pregados na madeira e depois de crucificado, o condenado tinha as roupas rasgadas para ampliar a humilhação. O suplício durava, em média, doze horas. A causa da morte geralmente era exaustão ou parada cardíaca. Em alguns casos, as autoridades concordavam em quebrar as pernas do crucificado para acelerar a morte. O corpo, então, ficava exposto até que virasse comida para pássaros e outros animais.

A brutalidade era tamanha que os próprios romanos evitavam deixar registros do uso da crucificação. ‘Isso é importante porque, embora a crucificação fosse uma prática comum, os escritores não a discutiam em detalhes e não vemos sua representação na arte romana’, diz Felicity Harley-McGowan, especialista no cristianismo antigo e em arte medieval pela Universidade de Yale. ‘A elite intelectual romana considerava a crucificação uma prática associada aos bárbaros, não a uma sociedade civilizada’, afirma.

Os primeiros retratos da punição na antiguidade remetem justamente à morte de Jesus Cristo e visam à imortalização do episódio. O imperador romano Constantino, o primeiro a se converter ao cristianismo, aboliu a crucificação por volta do século 4 d.C. em respeito à religião. Por mais que a proibição tenha sido respeitada nos anos que se seguiram, a crucificação ressurgiu na Idade Média como uma forma de reforçar o controle das autoridades sobre o comportamento da população.


​Barbárie

Séculos de história e evolução da humanidade separam o Império Romano do califado de terror autoproclamado pelo EI na Síria e no Iraque. Mas não são muito diferentes os motivos que levaram ambos a adotar uma forma tão brutal de execução e humilhação. ‘Sabemos por várias fontes que a crucificação era empregada pelos romanos com objetivo de dissuasão. As pessoas eram crucificadas em espaços públicos, geralmente nos portões das cidades ou na beira de estradas, para maximizar a visibilidade da execução. A prática era uma espécie de espetáculo visual’, afirma Felicity.

À rede CNN, o professor assistente de estudos islâmicos da Universidade Estadual da Geórgia, Abbas Barzegar, disse que esses atos violentos são ‘parte de uma campanha fundamentalista de retomada de símbolos antigos’. ‘As punições desse tipo raramente foram vistas no mundo muçulmano nos séculos recentes’, ressaltou Barzegar. Os jihadistas do EI vêm sistematicamente usando as crucificações - visualmente chocantes, fisicamente crueis e moralmente humilhantes - como forma de propaganda para aterrorizar as populações locais e também o Ocidente, pois sabem que as imagens dos corpos crucificados correm o mundo. ‘O EI precisa anexar um significado às suas mortes. Cometer meros assassinatos em um estado constante de guerra carece de valor. Eles precisam promover uma mensagem de propaganda por trás do que estão fazendo’, conclui Barzegar.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/crucificacao-a-abominavel-humilhacao-resgatada-pelo-estado-islamico

domingo, 5 de julho de 2015

Terrorismo coloca as sociedades de joelhos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

‘Uma abordagem internacional na luta ao terrorismo deve dar sempre ‘prioridade às vítimas’ e não fazer prevalecer interesses financeiros, políticos ou ideológicos, afirmou o Observador Permanente da Santa Sé junto à ONU em Genebra, Arcebispo Silvano Tomasi, ao pronunciar-se na 29ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos sobre o tema dos efeitos do terrorismo na vida dos indivíduos e dos Estados.


Aumento vertiginoso de vítimas do terrorismo

O autoproclamado Estado Islâmico, os milicianos do Boko Hara. Antes ainda a Al Qaeda e uma dezena de siglas nas quais se alistam homens e mulheres, levando nas mãos um fuzil ou uma metralhadora e na cabeça o objetivo de construir algo, espalhando medo e derramando sangue inocente. Dom Tomasi cita os nomes e faz um cálculo : do ano 2000 até hoje, ‘o mundo assistiu a um aumento vertiginoso de 500% no número de vítimas de ataques terroristas’. Somente em 2013 – acrescenta – 82% dos vítimas foram mortas em apenas cinco países : Iraque, Afeganistão, Paquistão, Nigéria e Síria. Um quadro de tamanha brutalidade que não traz boas perspectivas no horizonte. Antes pelo contrário, afirma com realismo Dom Tomasi, se delineia um recrudescimento na situação caso a comunidade internacional não encontrar um modo de fazer frente comum a esta ‘impunidade’ que os terroristas parecem desfrutar.


‘Potências antagonistas’ e o financiamento ao terrorismo

O terrorismo – observa o prelado, abordando especificamente o tema da sessão – traduz-se em milhões de pessoas sendo pisadas em seus direitos humanos e liberdades fundamentais. ‘O terrorismo é a antítese dos valores partilhados e dos compromissos que estão na base da convivência pacífica nacional e internacional’. Salta aos olhos a ‘globalização dos terrorismo’ que se vale – afirma – de ‘poderes políticos antagonistas’ tentados ‘a desempenhar um papel’ através do fornecimento às organizações integralistas de ‘recursos da moderna tecnologia, armas avançadas e financiamentos’, com uma queda dramática no sentido humanitário e social.


Efeito dominó

Como ‘o terrorismo não reconhece a dignidade das suas vítimas’, a sua virulência – afirma o Observador Permanente junto à ONU – gera uma espécie de ‘efeito dominó’, ou seja, uma vez ‘negado a uma pessoa o seu direito à vida, se abusa dos outros direitos fundamentais, incluído o direito à liberdade de credo e de culto, o direito de expressão e a liberdade de consciência, o direito à educação e o direito de ser tratados com a mesma dignidade como qualquer outro cidadão de uma nação, não obstante a diferença de religião, de status social e econômico, de língua ou etnia’.


Repercussão nas gerações futuras

Onde com a sua loucura destrutiva ‘o terrorismo efetivamente fincou pé, foi provocado um dano social e cultural irreparável que terá repercussões sobre as gerações futuras - denunciou Dom Tomasi. Destruindo a infra-estrutura das cidades e das regiões, sobretudo atacando os edifícios governamentais, as escolas, as instituições religiosas, o terrorismo coloca, literalmente, uma sociedade de joelhos. Além disto – prossegue – a demolição de sítios culturais e antigos por parte dos terroristas ameaça aniquilar a história das culturas e populações. Tal destruição cria terreno fértil para um extremismo ainda mais violento, perpetuando assim o círculo viciosos da violência com a multiplicação de ulteriores violências’.


Santa Sé defende esforços políticos concordes

Após ter falado das influências que o terrorismo exerce nas democracias, especialmente naquelas ainda não consolidadas – compreendidos os condicionamentos sobre os Estados que às vezes as utilizam como uma ‘desculpa’ para reduzir as liberdades fundamentais – Dom Tomasi reitera a profunda convicção da Santa Sé, para quem o terrorismo, ‘em particular aquelas formas derivantes do extremismo religioso, devem ser enfrentadas por esforços políticos concordes’, em particular com todas as partes locais e regionais interessadas.

O Observador Permanente da Santa Sé na ONU em Genebra conclui afirmando : ‘Os esforços para atingir uma abordagem comum na luta ao terrorismo devem dar prioridade às vítimas do terrorismo. Motivos financeiros, políticos ou ideológicos não deveriam nunca prevalecer sobre a capacidade de atingir a uma visão unitária de como a chaga do terrorismo deva ser combatida’.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.news.va/pt/news/dom-tomasi-terrorismo-coloca-as-sociedades-de-joel


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Humanismo ou terror?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Ivanaldo Santos,
filósofo e doutor em estudos da linguagem pela UFRN


‘Em 1947 o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty publicou o livro : Humanismo e terror. Nesse livro ele defende a tese que, ao contrário do que poderiam pensar os grupos sociais vencedores da II Guerra Mundial (1939-1945), o terror não se encontra preso a um país, a um partido político ou a uma estrutura de poder. Ele afirma que o regime nazista é um regime de terror, mas o terror na está apenas na Alemanha nazista, ele está diluído e presente em quase toda a sociedade ocidental. A cultura ocidental moderna, que fala do humanismo, que enfatiza um discurso humanístico, está cheia de estruturas de terror (o horror existente na cultura fabril, a violência cotidiana e, muitas vezes, sem consciência, etc) que, em muitos sentidos, se misturam ou são disfarçadas pelo humanismo. Por isso, segundo Merleau-Ponty, o ocidente pós-II Guerra Mundial viveria uma situação contraditória, onde o humanismo e o terror convivem lado a lado.

No início da segunda década do século XXI o Ocidente vive uma situação parecida com a que é descrita por Merleau-Ponty em Humanismo e terror. De um lado, fala-se em humanismo (humanizar a política, humanizar a saúde, etc) e, do outro lado, prolifera-se toda sorte de terror (violência do cotidiano, terrorismo, crescimento alarmante do número de refugiados, etc). Sendo que no atual momento histórico existe um agravante, parece que hoje não existe mais uma convivência, lado a lado, do humanismo com o terror, mas, ao que parece, temos um triunfo do terror. A questão contemporânea não é mais : ‘Humanismo e Terror’, mas sim a opção de escolha : ‘Humanismo ou Terror’.

O motivo dessa piora na situação, da gravidade do momento histórico atual, é que hoje em dia não existem mais discursos, ações, países e estruturas sociais que tenham um discurso humanizador que possa se impor diante do crescimento das ações de terror.

De um lado, os grupos e países que tradicionalmente defendem a liberdade e os direitos humanos estão passando por algum tipo de crise interna. Por exemplo, os EUA, que foram os grandes defensores da liberdade na primeira metade do século XX, estão perdidos em apoios duvidosos a países neo-autoritários, como, por exemplo, a Turquia e a Arábia Saudita. Do outro lado, muitos segmentos que, em um passado recente, defendiam a liberdade e a dignidade da pessoa humana, estão burocratizados, carregados com ideologias, cheios de disputas internas por poder e dinheiro. A consequência disso é que vemos segmentos que, historicamente defendem a liberdade e a ética, irem a público defenderem grupos que espalham o terror e a violência e até pedirem diálogo com o grupo terrorista Estado Islâmico (EI). Nesse contexto, as vítimas, a população civil, são esquecidas.

A sociedade contemporânea está paralisada, sem conseguir reagir à onda de terror que, de formas variadas, se alastra em escala internacional. O discurso humanístico está ficando fraco e chega, em alguns ambientes, até mesmo a perder o sentido. Em muitos lugares, a juventude não se empolga mais pelas campanhas em prol da paz, da sociedade do amor e da pregação feita pela Igreja e pelos místicos. Enquanto isso, essa mesma juventude se alegra com a pregação de ódio e de sangue feita por líderes terroristas.

Diante disso, para onde iremos? Será que os dias de desenvolvimento e de humanização, iniciados na Grécia antiga, perpassados pela pregação de Jesus Cristo e que atingiu a modernidade, chegaram finalmente ao fim? Será que a sociedade viverá um triunfo do terror e a morte do humanismo? Estamos diante do impasse : Humanismo ou Terror? É tempo das forças vivas da sociedade (a Igreja, grupos que lutam pela liberdade, etc) escolherem, mais uma vez, o humanismo e lutarem para tirar o ser humano do terror.’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.zenit.org/pt/articles/humanismo-ou-terror