Mostrando postagens com marcador atenção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador atenção. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de agosto de 2022

Rivalizai-vos em atenções

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Pintura mostra apóstolo Paulo e escrituras

*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG

Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


Este é um conselho antigo e sempre oportuno : ‘Rivalizai-vos em atenções’. Conselho vindo da escrita do sábio apóstolo Paulo, escrevendo aos Romanos, a partir da preocupação pastoral e espiritual com o relacionamento humano. A dimensão relacional tem importância determinante e incidente no conjunto da vida social e política, bem como no ambiente familiar e profissional. Já aos Gálatas, Paulo escrevia lembrando o mandamento maior - amar ao próximo como a si mesmo. O mandamento maior, sublinha o apóstolo, é a única inspiração correta para não incorrer, conforme diz Paulo, na abominação de morder e devorar uns aos outros. Os seres humanos precisam agir com fidelidade ao mandamento do amor para não se consumirem mutuamente, acentuando o caos que leva a fracassos e prejudica a vida, dom precioso e sagrado que habita cada pessoa. Importa deixar-se guiar pelo Espírito de Deus, o mestre espiritual que ensina o ser humano a ‘rivalizar-se em atenções recíprocas’.

O apóstolo Paulo focaliza a importância de se investir, com humildade, na mudança da própria mentalidade. Assim, sempre e incondicionalmente, abrir-se ao bem. O apóstolo constrói um itinerário precioso para convencer que esse investimento é dimensão fundamental do verdadeiro culto dedicado a Deus, com consequentes desdobramentos que qualificam a vida, superando circunstâncias que promovem a morte, o terror, a violência e as disputas fratricidas, em razão de rancores e ódios. Circunstâncias criadas também por convencimentos mesquinhos, quando se busca vencer ‘a todo custo’, mesmo que a consequência possa significar prejuízos ao bem comum e à sacralidade da vida. Ao invés dessa perspectiva egoísta, Paulo orienta cada pessoa a não ter sobre si uma ideia muito elevada, mas uma justa estima, para evitar que o orgulho contamine escolhas, posturas e modos de se expressar. Cultivar excessiva estima sobre si mesmo compromete a indispensável humildade, pode levar à mesquinhez, gerar a insolência, motivar vinganças, na contramão do amor fraterno.

Quem guarda excessiva estima sobre si mesmo acha-se no direito de formular argumentos para defender o próprio lado ou partido, mesmo que isto signifique distanciar-se da verdade. Corre, ainda, o risco de gerar comprometimentos que atingem a dignidade do próximo, prejudicando o bem maior, mais importante que o brio individual ou os interesses particulares. Importa decisivamente ter bom senso, não comprometendo, instrui o apóstolo Paulo, a medida da fé que Deus deu a cada um. A compreensão a respeito dessa medida pode ser aprofundada a partir da metáfora do corpo, detalhada pelo apóstolo em alguns de seus escritos. Ele sublinha que todas as pessoas são membros de um só corpo. Cada um exercendo função diferente. Assim, embora muitos, todos, em Cristo, são ‘um só corpo’, membros uns dos outros, com dons diferentes, prestando serviços. Nenhuma pessoa deve se julgar proprietária desse ‘corpo’. Reconhecendo-se parte dele, precisa alegrar-se por promover a vida, sem apegos ou disputas, sem se morder e devorar-se uns aos outros.

Ganha sentido e grande alcance, considerados os muitos conflitos que geram prejuízos na contemporaneidade, o conselho precioso ‘rivalizai-vos em atenções’. Isto não significa, obviamente, dedicar-se a cortesias que são demagogias interesseiras, ou motivadas pelo simples cultivo da boa imagem sobre si. Acolher o conselho do apóstolo Paulo é exercício capaz de qualificar o tecido da cultura contemporânea. Uma urgência ante os muitos cenários – das relações globais às regionais, dos contextos políticos e cidadãos à vida em família – onde a fraternidade está sendo substituída por belicosidades. Gestos violentos e irresponsáveis, falas agressivas, entrincheiramentos e disputas fecham corações e poluem mentes. Consideradas as necessidades de mudança, não basta simplesmente exigir adequadas estratégias governamentais ou eficazes funcionamentos da organização social e política. Há uma responsabilidade determinante e insubstituível de cada cidadão, que precisa rivalizar-se em atenções recíprocas.

Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja Católica, fundamentada no Evangelho de Jesus Cristo, é referência para fecundar práticas transformadoras, com incidência na organização de instituições sociais e, também, na qualificação da subjetividade humana. Dentre os princípios reunidos na Doutrina Social da Igreja está o da igualdade de natureza entre todas as pessoas. Reconhecer essa igualdade debela preconceitos e discriminações, criando condições para a superação das vergonhosas desigualdades sociais. Trata-se de importante passo na direção do humanismo integral, investimento da Igreja Católica, em parceria e interface com outras instituições da sociedade civil.

O investimento no humanismo integral não se efetiva a partir de subjetivismos ou da desconsideração da complexa realidade social, política, cultural e econômica. Ao invés disso, exige esta atitude humanística de cada pessoa : rivalizar-se em atenções recíprocas, dedicando-se ao próximo, contribuindo para o bem de todos, com a política melhor e com o qualificado exercício da cidadania. Vale a humildade de ser aprendiz da prática de ‘rivalizar-se em atenções’, para que floresçam solidariedades, diálogos e intuições dos passos novos, impulsionando a recomposição de tecidos sociopolíticos, por uma nova configuração civilizatória.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://domtotal.com/artigos/?id=10103

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Atentos à vida no Espírito

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo d0 Padre Alfredo Sampaio Costa, SJ


‘A Espiritualidade na sua riqueza e complexidade convive igualmente com uma ambiguidade inata. Quando pedimos a alguém para falar sobre sua vida ‘espiritual’, o que esperamos ouvir? Seguramente algo sobre sua oração ou algum aspecto concreto de sua vida na Igreja. Mas será que nossa vida ‘espiritual’ se circunscreve somente a isso?

Quando ouvimos falar de ‘vida espiritual’, quase automaticamente nossos olhos (e coração) se movem para o termo ‘espiritual’, que qualifica a vida aqui. Talvez seja esse o erro mais comum, que acaba por desviar a nossa atenção do que vem primeiro e que jamais deverá ser relegada a uma posição secundária : estamos falando da VIDA! Vida no Espírito! Se queremos compreender o que se passa na nossa vida espiritual, é preciso partir sempre da vida como tal!

Quem me abriu os olhos para essa realidade foi Ives Raguin, no seu livro ‘Atenção ao Mistério’. Deixemo-nos provocar por suas sugestivas reflexões.

Vida interior, vida espiritual e relação com Deus

Ao ouvir a expressão ‘experiência mística’ sentimos nossos pés se desprenderem do chão da realidade, rumo a cumes e êxtases. Mas será isso mesmo? Não deixa de ser curioso que sejam os místicos os primeiros a falarem que Deus deve ser experimentado na Vida!

Se queremos falar de ‘experiência’ e de ‘mística’, temos que forçosamente partir de algo que vivemos, que experimentamos, que faz parte da nossa vida. Na espiritualidade, trata-se sempre da nossa relação com Deus. Ou, se preferimos, como Deus está presente na nossa vida, como captamos, sentimos, experimentamos essa Presença e como reagimos diante dela.

Grandes místicos como Teresa de Ávila, João da Cruz, Inácio de Loyola acenaram com suas vidas para a necessidade de nos voltarmos para o mais profundo de nós. Os termos ‘vida interior’ e ‘vida espiritual’ significam praticamente a mesma coisa. Ainda devedores ao dualismo grego, tendemos a seguir opondo ‘carne/espírito’ como compartimentos estanques incomunicáveis, perdendo de vista a unidade da pessoa humana. Vem em nosso socorro a antropologia tripartida de Paulo, onde entra também o ‘espírito’ : ‘E o mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo’ (1 Ts 5,23).

Aí compreenderemos : falar de vida ‘espiritual’ implica uma atenção às coisas do Espírito, diferenciadas aqui do carnal e do sensível. Convém, todavia, não confundir vida espiritual e vida intelectual. Há muita gente que coleciona diplomas e tem um currículo invejável, mas no que toca à vida espiritual é bastante frágil. Por outra parte, conhecemos muitas pessoas que, na sua simplicidade, revelam ter uma intensa e profunda vivência espiritual.

Falar de ‘vida espiritual’ implica sempre uma atenção à nossa relação com o Absoluto. Todos os seres humanos temos uma relação com o Transcendente e somente a partir dela nos compreendemos e somos. No cristão, essa relação é ainda mais íntima e, portanto, mais pessoal. O cristão precisa ‘viver’ essa relação. Viver essa relação supõe uma tomada de consciência, e em seguida uma orientação de todas as atividades humanas para a compreensão e a ‘realização’ da relação com Deus.

Ao considerarmos a nossa ‘vida espiritual’, é importante partir do primeiro termo : da ‘vida’! Temos que partir da nossa experiência vivida, experimentada. Não podemos nos limitar a uma mera reflexão. Tampouco a uma simples atenção curiosa. É preciso ‘viver’ a realidade da vida divina em nós… Ora, isso implica a pessoa toda : inteligência, sensibilidade, vontade, liberdade etc. Mais ainda : nossa existência é marcada (positiva ou negativamente) por muitas e muitas pessoas, que dão sentido, tempero, gosto ao que vivemos. Pessoas cuja presença ou ausência mudam tudo. Não podemos relegá-las a um plano inferior ou esquecê-las ao considerar nossa vida espiritual. Elas são, em grande parte, responsáveis pela nossa saúde interior!

No contexto tremendamente especializado em que vivemos, temos que cuidar para que a vida espiritual não seja uma especialização a mais, que alguns poucos estudiosos da espiritualidade consideram (e o restante da humanidade ignora), mas que todos possam assumir a responsabilidade de cuidar da sua vida espiritual e da dos outros (e da Igreja).

Falar de ‘vida espiritual’ e não ‘espiritualidade’ já indica que estamos considerando a pessoa nas suas mais diversas relações e atividades, em posse de todas as suas potências e qualidades humanas. Bem sabemos como a nossa relação com Deus toca de forma determinante a nossa vida em todas as suas expressões.
A pergunta que temos que nos fazer constantemente é : como anda a saúde da nossa vida espiritual. Ela existe? Como estamos cuidando dela? E o que podemos fazer para elevar o nível da saúde espiritual de nossa comunidade de fé e da Igreja como um todo? Como cuidar dos mais fragilizados?

Falamos grego ou hebraico?

Grande parte das confusões a respeito da espiritualidade seriam equacionadas respondendo à questão acima : ao falar de espiritualidade/espírito, estamos falando em que língua? Jean Daniélou apontava para esse perigo, quando afirmava : ‘Quando falamos que Deus é Espírito, que queremos dizer? Falamos grego ou hebraico? Se falamos grego, queremos dizer que Deus é imaterial etc. Se falamos hebraico, dizemos então que Deus é um furacão, uma tempestade, uma força irresistível. Daí todas as ambiguidades quando falamos de espiritualidade. Espiritualidade consiste em nos tornarmos imateriais ou em sermos animados pelo Espírito?(1).

O termo ‘espiritual’ deve ser tomado no sentido de ‘relativo a Deus’. O Espírito, em absoluto, é Deus. A vida é chamada de ‘espiritual’ por ser orientada para Deus. Ela será, portanto, no seu âmago, uma atenção ao Mistério da Presença da vida divina em nós, uma realização crescente da nossa relação com Deus. Dessa atitude fundamental irá decorrer todas as práticas que permitirão àquela ‘vida interior’ se desenvolver : esforços de conhecimento pelo estudo do Evangelho e da doutrina cristã, esforços de conformidade a Cristo, de contemplação, de união… Assim se explica a elaboração, ao longo dos tempos, de teorias e técnicas da vida espiritual, por todas as religiões (2).

Nossa vida é uma vida orientada para Deus? Pergunta provocadora e não fácil de responder. Como a desenvolvemos?

Vida interior sem relação explícita a Deus?

Seria possível algo assim? Ives Raguin faz notar que existem muitos métodos de vida interior e de meditação que nada tem de religioso, isso é, não possuem nenhuma referência objetiva a Deus. Cada vez mais e mais pessoas, no mundo secularizado em que vivemos, os utiliza e com resultados muito positivos. A finalidade desses métodos é oferecer meios para a pessoa poder se concentrar, harmonizar suas energias, pacificar-se interiormente. Tais métodos de controle mental e tomada de consciência foram particularmente desenvolvidos na Índia pela yoga e na China e no Japão pelo zen.

O confucionismo também desenvolveu certos métodos de cultura pessoal que nada tem a ver com uma busca religiosa. O taoísmo, da mesma forma, desenvolveu métodos muito elaborados cujo objetivo é alimentar as energias vitais que trazemos no nosso interior. Hoje encontramos muitas oficinas de meditação transcendental, por exemplo.

Tais métodos proporcionam uma tomada de consciência prazerosa da riqueza oculta do ser humano, produzindo assim sentimentos de alegria, de paz, de plenitude, por vezes tão grandes que nada mais parece desejado ou desejável. Contudo, essa experiência é sempre, de modo essencial, limitada ao meu ser. Seja qual for o sentimento de plenitude percebido no mais profundo de meu ser, não consigo explicar a mim mesmo o que sou nem de onde venho. A plenitude que vislumbro deve acabar por me parecer relativa em vista de outra relação que, essa sim, será plena, absoluta.

Ao me adentrar no mais íntimo da minha unidade e de minha identidade, perceberei a presença de um ‘Outro’ em quem nada é relativo. Ao pretender dar passos por um caminho humano, subitamente me encontrarei trilhando também uma estrada divina e, aí sim, minha experiência se tornará genuinamente religiosa.’

Notas :

[1] Citado em Y. CONGAR, Credo nello Spirito Santo, I, Queriniana, Brescia 1982,18.

[2] Yves RAGUIN, Atenção ao Mistério. Um aprofundamento na vida espiritual. Paulinas, SP 1981, 12-16.

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1550063/2021/11/atentos-a-vida-no-espirito/

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Teologias que não escutam

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)         

*Artigo de Fabrício Veliq,

teólogo protestante


‘Todo relacionamento precisa de escuta atenta. Não raro ouvimos sobre relações que acabaram por uma pessoa não ouvir a outra ou porquê uma das partes não se atentava à demanda da outra, causando-lhe a sensação de falar com as paredes. De tanto insistir em ser ouvida e não obter resposta, considera-se o rompimento como única coisa a se fazer. Uma vez acabada a esperança, encerram-se também as possibilidades de retorno.

Quando olhamos para a questão da teologia e sua relação com o mundo, a premissa com a qual começamos nosso artigo também se aplica. Não dificilmente temos presenciado abordagens teológicas que se distanciam do mundo, não ouvindo o que este tem a dizer em suas diversas vozes. Focando-se somente em doutrinas, normas, teorias etc., a teologia tem constantemente se tornado surda àqueles com quem deveria se relacionar.

No entanto, em um país no qual a maioria das pessoas se diz cristã, ainda é possível perceber que elas querem ouvir algo dos teólogos. Algo que faça sentido para suas existências, que traga conforto e respostas aos seus dramas.

Diante desse cenário, torna-se importantíssima uma teologia pública, que seja feita a partir de baixo, das experiências do povo, de suas lutas e questões. Isso não implica em deixar a seriedade de lado. Muito pelo contrário, significa tomar a atitude essencial para um bom relacionamento, que é ouvir o outro com quem se relaciona. Descer de certo pedestal imaginário – no qual diversos teólogos se colocam, achando que estão acima de todo mundo – e abrir mão da pretensão de serem os detentores da verdade última, a qual somente eles têm acesso, são tarefas imprescindíveis. Não cabe mais uma visão teológica nos moldes da cristandade medieva, quando o cristianismo ditava o quer era certo e errado. Esse saudosismo nutrido por uma grande parte das pessoas religiosas no país somente contribui para o constante afastamento da teologia na relação cristianismo–sociedade.

É imprescindível que o cristianismo compreenda que não há escuta sincera se não há humildade e que não se alcançam pessoas sem a disposição de ouvi-las com atenção. Talvez, na contemporaneidade, ouvir seja um dos maiores desafios para o cristianismo.

Ao mesmo tempo, lidar com tal desafio pode fazer com que a proposta cristã volte ao seu fundamento: Jesus de Nazaré, o galileu que andava com os humildes e pobres de seu tempo, expondo o Reino de Deus numa linguagem cotidiana, de fácil assimilação, sem rebuscamentos, mas com profundidade e seriedade. Uma mensagem que, como disseram os caminhantes de Emaús, ‘ardia o coração’ quando se ouvia. 

A principal tarefa teológica da atualidade deveria consistir em recuperar o exemplo de Jesus, refazer seu comprometimento de caminhar com o povo, sentir suas dores, ouvir seus clamores e anunciar-lhe a esperança do Reino de Deus. Todo o resto, portanto, seria adendo e nota de rodapé para explicitar algo importante de ser lembrado.

Infelizmente, é o exemplo de Jesus que tem sido tomado como nota de rodapé nas pomposas e bem articuladas elucubrações que vários teólogos têm feito em suas tentativas de falar somente a seus pares, deixando de lado aqueles para quem Jesus se dirigiria e a quem ouviria.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://domtotal.com/noticia/1472714/2020/09/teologias-que-nao-escutam/

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Atenção espiritual é chave para administração de conflitos


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O afresco do pintor italiano Giusto de 'Menabuoi (1320-1390) de 1375 mostra como Judas trai o Filho de Deus através de um beijo.
O afresco do pintor italiano Giusto de 'Menabuoi (1320-1390) de 1375 mostra como Judas trai o Filho de Deus através de um beijo.
(Hervé Champollion / akg-images)

*Artigo de Pádraig Ó Tuama,
teólogo, professor e poeta 


‘Os conflitos revelam o que é importante para nós. Às vezes me encontro em conflito porque descobri algo que não sabia que me importava muito. Alguém muda os móveis no escritório e percebo por que gostava mais da disposição anterior; alguém posta uma mensagem de mídia social que me enfurece por algum motivo até então não considerado; alguém fala alguma coisa do meu país, minha religião, minha política, minha língua, minhas prioridades e muitas outras coisas que supõem centenas de anos de ressentimento que carrego em mim.

O conflito é uma informação poderosa; e essas informações poderosas podem ser difíceis de reconhecer, difíceis de processar, difíceis de aceitar, de aprender ou de agir. O conflito pode dizer muito sobre nós mesmos, e pode nos dizer muito sobre Jesus. Ele nos mostra por que não devemos temer.

Ouvir atentamente um grupo de discussão significa obter um vislumbre peculiar dos desejos e ansiedades desse grupo. Você também aprende suas táticas, alianças, ameaças, o que estão dispostos a fazer para vencer e o que lhes acontece quando sentem que perderam. Você também percebe o medo e a habilidade. Uma pessoa pode demonstrar a capacidade de contornar ou reformular um argumento, ou suas alianças, ou sua falta de vontade de se envolver, inclusive seus sentimentos em relação a compromissos.

O que significa prestar atenção espiritual e moral aos conflitos de nossas vidas? Muita energia religiosa parece ser gasta imaginando vidas religiosas livres de conflito : Adão e Eva no paraíso; Jesus manso em uma manjedoura; os santos mais focados em sua pureza do que em suas políticas. Você entende a foto.

Mas isso trai a literatura bíblica e a condição humana. O objetivo de nossas vidas não é contornar conflitos e sair ileso, mas nos envolvermos com eles de uma maneira que teste, aprimore e evolua nossos impulsos morais em direção a uma ética de compromisso sério e criativo.

Medo do Medo

Durante anos, tive medo de conflitos. Não só estava com medo de conflitos, mas também com medo do medo — camadas e camadas me impediam de encarar o convite e as informações que o conflito apresentava. Então duas coisas aconteceram. Minha saúde diminuiu e, acidentalmente, aprendi a orar.

O declínio da minha saúde era previsível. Estava trabalhando no ministério religioso, gay, fechado, assustado e ansioso. Não tinha os recursos para expressar as informações da minha vida. Então meu corpo sofreu. Peguei um vírus grave, que afetou meu sistema imunológico, tornando-o hiperativo, e o vírus não foi embora. Algo estava chamando minha atenção.

Aprendi a orar. Acidentalmente. A história real é que eu decidi desistir de minha fé. E, num movimento irônico que estava totalmente perdido para mim, decidi ir a um mosteiro — comunidade de Taizé — para desistir de Deus. Para formalizar minha desistência, decidi voltar à cena da crucificação. E decidi imaginar que eu era uma das pessoas ao longo do caminho da cruz e que tive a oportunidade de dizer adeus ao Deus que não amava mais. Mas naquela oração, Jesus disse algo para mim, e eu lhe disse algo. E estava no meio de um tipo de oração que nunca havia imaginado.

— Decidi que ou você me odeia, ou é hora de parar de me importar – disse.— Você se importa com o quê? – Perguntou Jesus.— Eu não sei – respondi.— Nem eu – Jesus disse.— Eu não sei o que fazer – falei.— Eu sei – ele disse, olhando para mim.

Senti que faltava uma coisa nos anos em que me aproximei de Jesus : respeito. Respeito dele para mim e de mim para ele.

Então, bem na tentativa de me divorciar de Deus, encontrei-me conversando com Jesus com inesperado respeito recíproco. O que ele pensava ditava tudo o que devia pensar. Mas estava curioso. Queria saber o que aborreceu Jesus, o que chateou ele, o que comoveu. Comecei a ler os evangelhos e a escrever cartas para o Jesus que não conhecia.

Cresci com muitos conflitos à minha volta : o conflito do legado da colonização da Irlanda, o conflito de ser gay, o conflito de me odiar, o conflito de violências que conhecia. Por isso, prestei muita atenção aos conflitos nos evangelhos : a mulher empurrando a multidão, confrontando essas pessoas com suas leis limitantes; os argumentos públicos sobre adeptos religiosos; as diferentes visões sobre como entender o papel dos estrangeiros no território ocupado; perguntas sobre a forma do casamento; argumentos sobre o pecado e os pecadores. Em quem devo tocar? Quem devo permitir que me toque?

Em cada uma dessas interações, os personagens estavam comunicando informações íntimas sobre suas vidas : as coisas que amam sobre si mesmas; as coisas que se recusam a considerar; os preconceitos sobre suas vidas; as regras que dominam, mas pelas quais nunca gostariam de ser conduzidas; inclusive as leis que quebram.

Em uma história, Jesus chega a uma casa. Não nos dizem de quem é a casa, mas é possível que seja dele em Cafarnaum. Jesus tem seus discípulos consigo; e quando chegam lá, pergunta sobre o que estavam discutindo ao longo do caminho.

A questão em si é intrigante. A palavra grega para perguntar é dialogizomai, da qual obtemos a palavra diálogo. Se Jesus dissesse : ‘Que dialogais um com o outro pelo caminho?’, A cena inteira teria um sabor diferente. No entanto, os tradutores são unânimes em afirmar que a melhor tradução para o português é discussão, não dialogar.

De qualquer forma, você pode ler o resto da história. Os discípulos estão calados porque têm vergonha; eles têm discutido sobre quem é o melhor.

É fácil pensar que conhecemos a substância desse conflito, mas vale a pena fazer uma pausa por um momento. O que significaria ser o maior? Aquele que passou mais tempo com Jesus? Quem foi mais elogiado? Aquele que era o mais forte? Aquele com o maior insight político? Aquele que mais se parecia com ele? Aquele que era o melhor em discutir? Estes são  devemos assumir  homens discutindo. Eles estão discutindo sobre tamanho, a força, o corpo? Em qualquer grupo, sempre há tensões sobre o maior, e cada grupo tem seu próprio critério para definir quem o seja. A comparação é como uma faísca para a mecha do conflito. Uma vez iniciado o jogo de comparação, é improvável encerrar até que acabe de alguma forma  levando-nos à agressão, à exclusão, ao julgamento e à redução; nesse jogo de determinar de uma vez por todas quem é o perdedor.

Porque é isso que está acontecendo em uma discussão sobre o maior. Por trás de tudo, também há uma discussão sobre quem é o menor.

Os evangelhos às vezes prestam muita atenção à linguagem corporal. Nesta cena, vemos Jesus sentado. O que é isso? Um convite para um exame atento de seus vícios competitivos? Possivelmente. Provavelmente, é uma indicação da postura de idosos reverenciados em muitas culturas. Os discípulos teriam sentado abaixo dele com toda a probabilidade. Então, a linguagem corporal deles mudou; são chamados de uma multidão de homens zombadores para uma postura de humildade e hierarquia (às vezes a hierarquia  quando é possível confiar  tem suas funções). Então, a coisa mais surpreendente acontece : Jesus apresenta uma criança.

A propósito, essa é uma das partes mais ricas da história. De onde veio a criança? Alguém dirá  é claro que sim  que essa criança é de Jesus. Ou talvez fosse um filho de um vizinho, ou um sobrinho ou sobrinha, ou um filho da casa. Se esta é a casa de Jesus, isso indica que a casa de Jesus era uma casa pela qual as crianças passavam, prontas para serem incluídas em uma parábola explicativa.

De qualquer forma, uma criança é apresentada. E a criança é abraçada. A criança é a personificação física do exato oposto da grandeza. Qualquer que seja a medida mundana de grandeza, essa criança não é ótima. A criança é pequena. A criança é impotente. A criança pode não ser fofa. A criança é uma criança, longe dos jogos de poder dos homens. Ao ouvir uma discussão sobre a grandeza conduzida pelos homens, Jesus os faz sentar para aprender e depois os enfrenta com um outro independente, que encarna o oposto do que os consumia. Essa criança perturba a economia de eminência que tem sido sua obsessão. Quando ouço as pessoas dizerem que a teologia deve ser objetiva, não subjetiva, penso em como Jesus interrompeu a objetividade. Não podemos comentar casos únicos, dizem empresas e governos. Contudo, Jesus parece dizer que só comenta casos individuais, caso contrário, não haveria sentido. Ele fala sobre hospitalidade, vincula-a à virtude, liga esta à noção de valor e valor à grandeza.

Reenquadrando a imagem

Exercitando-me em resolução de conflitos, ouvi a frase ‘reenquadrar’ repetidamente. Vale a pena pensar nessa palavra de maneira tangível. Quando se pega uma obra de arte e a reenquadramos, isso pode ajudar o espectador a ver o que tem ali. Talvez a moldura capte uma cor até então escondida, oculta no centro do trabalho. Talvez o quadro seja grande o suficiente para mostrar mais da foto. Uma foto recente de um partido político na Irlanda mostrou seus representantes sentados com uma pessoa de renome. Alguém no Twitter  sempre o Twitter  mostrou o original. Mostrou representantes de duas partes opostas sentadas com uma pessoa de renome. A foto foi reenquadrada e cortada. Liberte-me, o conflito chama; mostre as partes inconvenientes.

Conflito é informação, e muitas vezes não desejamos que o conflito revele a informação. Assim, contamos a história que torna nosso colega, nosso chefe, nosso bispo ou os leigos irrelevantes, até ridículos. Caricaturamos os indivíduos para que o ouvinte da história do conflito saiba imediatamente o que um bom ouvinte deve saber : quem é a pessoa boa e quem é a pessoa má.

Não me interpretem mal  é divertido. Está no centro de todas as boas histórias sobre ‘meu chefe é um idiota’. Mas as histórias nem sempre dizem a verdade; nós sabemos isso. Os Evangelhos sim. Lembra de Judas?

  • Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu’ (Mt 10, 4);
  • e ‘Judas Iscariotes, aquele que o entregou’ (Mc 3,19);
  • e ‘Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor’ (Lc 6,16);
  • E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze.’ (Jo 6,71).

Existem outros Judas nos Evangelhos  um deles é parente de Jesus (Mc 6,3)  e há um seguidor chamado ‘Judas (não o Iscariotes)’ no Evangelho de João (14,22). Estamos preparados para odiar essa pessoa. Iscariotes se tornou um palavrão em algumas línguas, e certamente não é usado como elogio em muitas.

Desde a introdução de Judas, somos levados a um ponto de vista sobre ele. O que Judas diria? O que faria? Conhecemos parte da história, mas pouco nos lembramos dela. Parece-me que Judas era um homem que procurava escalar conflitos. Procurou provocar um aumento do conflito com os ocupantes romanos. Ele não estava sozinho. Os discípulos no caminho de Emaús contaram a um estranho a história de seu lamento, decepção e choque que Jesus havia fracassado em seu projeto de conflito pela liberdade : ‘Mas esperávamos que ele fosse o único a redimir Israel’ (Lc 24,21).

Judas costuma ser considerado um personagem faminto por dinheiro, mas ele não era faminto por dinheiro. João nos diz que Judas roubou da bolsa (12,6), mas não tenho certeza se acredito nisso. Que evidência há no texto de que os autores são narradores confiáveis das motivações de Judas quando o apresentaram sem considerar seu ponto de vista na história? Mateus é quem desfaz tudo. Mateus está preocupado com a justiça, particularmente a justiça narrativa. Ele introduz a genealogia de Jesus, nomeando 42 homens e cinco mulheres, e ele  sozinho entre os evangelistas  termina a história de Judas assim : ‘Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata’ (Mt 27,3).

A palavra arrepender só foi usada algumas vezes em outras partes do Evangelho de Mateus. Duas vezes Jesus pede que as pessoas se arrependam por causa da proximidade do reino (3,2 e 4,17) e duas vezes Jesus usa a palavra ao falar de cidades cujas políticas precisam mudar (11,21 e 12,41).

A visão de Mateus parece diferente. A palavra arrepender-se é rica : a palavra usada no grego é metanoia, o que significa mudar de ideia ou mudar de direção. Judas não se importava com o dinheiro  ele trouxe as 30 moedas de prata de volta. Judas não queria que Jesus fosse condenado  isso o levou a por fim a si mesmo. Às vezes, o conflito pode ser intensificado para nos distrair de uma história mais profunda, uma história mais verdadeira, uma história mais inconveniente.

O conflito é uma economia peculiar. Algumas pessoas usarão conflitos contra um grupo para escalar mais conflitos com outros. No evangelho de João, uma mulher está sendo levada para ser apedrejada porque foi pega ‘no próprio ato de cometer adultério’ (8,4). Que notavelmente conveniente. Essa coisa toda parece tão surpreendentemente conveniente que acho que é uma configuração. De qualquer forma, alguns homens estão prontos para encenar o conflito final  assassinato  contra essa mulher, a fim de escalar um conflito entre eles e Jesus.

Aqui é onde a linguagem corporal entra novamente : a mulher conhecia a linguagem corporal das pedras. Eles estavam quase contra ela. Jesus também conhece a linguagem corporal. Ele se agacha. Diante de uma multidão de homens sendo reduzida a um sentimento primordial de pertencimento, ele vê uma multidão se exaltando. Jesus fez um gesto. Ele se agachou. O que estava escrevendo?

Diante do conflito, Jesus se torna menor e faz algo que ninguém mais pode ver. O conflito é a busca da curiosidade. Quando a curiosidade entra em uma multidão de pessoas enfurecidas, algo pode mudar. Jesus poderia estar rabiscando, poderia estar escrevendo pecados, poderia estar escrevendo uma pergunta interessante  onde está esse suposto homem? - ou poderia estar apenas demonstrando que o drama do conflito desses homens não era o drama que eles pensavam. Ele fez uma pausa. Chamou a atenção, levantou-se, falou e se agachou novamente.

Os homens vão embora; Jesus fica e fala com a mulher. Mas ele a deixa em conflito  afinal, ela agora sabe do que esses homens são capazes de voltar. E certamente alguns desses homens são conhecidos dela ou parentes. E Jesus diz para ela não pecar mais. Qual foi o pecado dela? Apaixonar-se por um homem que mentiu sobre ser casado? Ser considerada não casada e cortejar um homem? Ser enganado em sexo? Ser um cenário para as obsessões teológicas dos homens projetadas em seu próprio corpo? Eu não sei. Mas eu sei que gostaria de questionar.

A linguagem está no coração do que me move. Para mim, poesia, conflito e religião circulam em torno da mesma coisa : as palavras que dizemos, de corpo e língua. Jesus também gostava de palavras. Ele elogiou a mulher pelas palavras dela. Jesus estava cansado, queria fugir, mas alguém não o deixou. Não dê comida para cachorros, ele diz. E então ele mesmo aprende. Ah, mas senhor, diz essa mulher estrangeira, até os cachorrinhos comem migalhas. Ela pega o insulto de cachorrinhos e vira o diálogo. Ensinando como dar do que transborda do seu coração. Ele para, ouve, muda de ideia. Ele a elogia por suas palavras. E ainda nos lembramos dela.

Alguns conflitos precisam se intensificar para que os detentores do poder percebam que são eles que causam o conflito do qual estão reclamando. Alguns conflitos precisam aumentar para que as pessoas possam colaborar. Alguns conflitos precisam diminuir. Alguns de nós precisamos ser tirados do conflito. Alguns de nós precisamos ser jogados no coração dos conflitos que estamos negando.

Estamos cercados por tantos conflitos. Vale a pena perturbar as águas do conflito com um andarilho aquático encarnado : aquele que acalma tempestades, aquele que revela conflitos onde pensávamos que não existiam, aquele que não era possuído pelo medo do medo. Nossos conflitos revelam algo curiosamente íntimo sobre nós. Essas tempestades nos dizem coisas que não queremos que digam. Passemos sobre estas tempestades como Jesus de Nazaré. Oremos.


Fonte :

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Papa Francisco fora dos holofotes

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Encontro entre Papa Francisco e Angeles Conde a bordo do avião papal, em fevereiro de 2019.
Encontro entre Papa Francisco e Angeles Conde
a bordo do avião papal, em fevereiro de 2019.
(Acervo pessoal/ Mirticeli D. Medeiros)

*Artigo de Mirticeli Dias de Medeiros,
jornalista e mestre em História da Igreja, uma das poucas brasileiras
credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé
  

‘Um papa que não está preocupado em refinar as palavras : o mais importante é ser compreendido. Um homem que quebra protocolos, de modo que quem está ‘fora do esquema’ se sinta contemplado. Um bispo de Roma que comete erros de italiano como qualquer outro estrangeiro que vive por aqui e, curiosamente, talvez se sinta até feliz por isso; afinal, os imigrantes da capital não podem frequentar um curso de idiomas. Um líder que não tem medo de driblar as barreiras linguísticas para atingir o coração - de todos, sem exceção. Seus gestos calam o grito dos desesperados. Seu governo derruba do trono os poderosos e exalta os humildes. É um verdadeiro magnificat.

Chegou em minhas mãos a história de uma amiga jornalista que viveu uma experiência com Francisco ‘dentro de casa’. Ela, acostumada a escrever sobre o pontífice para agências e sites de notícias internacionais, passou a retratá-lo em um lugar mais restrito : em seu próprio coração, e em caixa alta. E tudo aconteceu no improviso, como aquela chuva de verão que ninguém espera.

O nome dela é Angeles Conde, jornalista espanhola, diretora de conteúdo da agência de notícias Rome Reports. No voo em direção aos Emirados Árabes, em meio à correria daquele evento histórico, ela entregou um bilhete a Francisco – como todos nós fazemos, quando temos a oportunidade. Sem expectativa de respostas, ela deu andamento a seu trabalho, afinal, a agenda do papa estava cheia – e quando ela está cheia, caros amigos, é sinônimo de noites mal dormidas para todos os que escolheram fazer da informação um ofício. Quem poderia imaginar que ele teria tempo de atender aquele pedido? E seria justo se não pudesse fazê-lo. Um senhor de 82 anos também é digno do sagrado descanso.

Porém, Francisco gosta de fazer surpresas : principalmente nos bastidores, na surdina, longe dos holofotes. E foi desse jeito peculiar que ele marcou a história da família Conde. Aquela carta, entregue no voo de ida para Abu Dhabi, recebeu uma resposta imediata. Na terça-feira, ao aterrissar em Roma, o pontífice atendeu prontamente a solicitação. E não foi um mês depois, mas ao final daquela viagem cansativa, ou seja, dois dias depois. Angeles havia lhe pedido que fizesse uma ligação a seu tio sacerdote que vive em uma casa repouso para padres na diocese de Toledo, na Espanha. Na primeira tentativa, as freiras responsáveis pelo lugar não conseguiram encontrá-lo : o padre rezava no jardim, no escondimento de uma vida doada que, lentamente, se encerra na simplicidade do cotidiano.

Francisco insistiu. Três dias depois, na sexta-feira, o sumo pontífice – o argentino insistente que todos conhecemos –, retornou a ligação. Os dois trocaram algumas palavras. Uma conversa carregada de reconhecimento e veneração, não por causa do títulos, mas em razão da dose de amor com a qual cada um escolheu gastar sua vida.

Querem que o papa dê todas as respostas, que seja mais requintado e solene quando discursa. Não se recordam que o mestre dele escolheu utilizar as parábolas para entrar no universo daqueles que o rodeavam. Querem que Francisco destile preceitos por onde passa, mas se esquecem que a missão principal de Pedro era pescar o maior número de homens possível, antes de qualquer sermão. Querem um papa-rei. Mas se esquecem que o Filho de Homem transformou o coração das pessoas em trono, renunciando às cátedras do poder. Que se apaguem os holofotes. Queremos um papa que nos mostre a face de Deus, a única que deve ser iluminada para que todos vejam. Que seja sempre assim.


Fonte :

               

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Por uma teologia atenta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Um dos riscos dos cristãos é trabalhar com sujeitos etéreos, que só existem no campo do imaginário, sem se envolver com os problemas reais da comunidade em que se estão inseridos.
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG
  

‘Que hoje se viva dentro de uma sociedade individualista e que se preocupa extremamente consigo mesma é um dado que, provavelmente, a maioria das pessoas irá concordar. Essa forma de viver é observável em diversas esferas do cotidiano, desde as relações familiares, passando pelas relações de trabalho até chegar às relações dentro das igrejas que se frequentam todos os domingos.
 Uma das características dessa sociedade individualista é a falta de atenção para com aqueles que estão mais próximos e, disso, a comunidade cristã, obviamente, também não está isenta. Muitas vezes, essa comunidade, nas diversas preocupações, algumas até mesmo legítimas, a respeito dos congressos a se realizar, dos encontros de jovens a se organizar, das atividades administrativas a se fazer e dos cultos a se preparar, se esquece do principal que é a atenção que deve ser dada àqueles que estão organizando essas coisas, bem como àqueles que são o alvo de todos esses esforços.
 Nesse sentido, a ânsia de se ter tudo perfeito acaba desviando o olhar para aquilo que é mais importante, ou seja, o relacionamento pessoal e de amor que deve se fazer presente no meio da comunidade.
 Os teólogos e teólogas, muitas vezes, também seguem essa mesma dinâmica. Em seus discursos a respeito do se importar com os outros, do olhar para o necessitado, assumindo sua causa e lutando em seu favor, diversas vezes se esquecem de que esse necessitado está mais perto do que se imagina, estando, não raras às vezes, dentro da própria casa, sendo um filho ou filha que sente a ausência dos pais porque esses nunca estão presentes, pois estão organizando coisas em suas igrejas, ou uma mãe e um pai que precisam de cuidados especiais devido à idade, ou ainda um irmão ou irmã que está em crise devido a diversos fatores, dentre tantos outros exemplos que se poderiam citar.
  Nesse sentido, é importante que os representantes desse discurso teológico de auxílio aos necessitados estejam atentos ao lugar onde eles se encontram no dia a dia da comunidade. Isso, claramente, não quer dizer olhar somente para suas próprias relações pessoais e familiares, esquecendo-se dos demais, mas, justamente, ter a atenção de que, muitas vezes, o necessitado do qual tanto se fala está clamando ao seu lado.
 Um dos riscos dos cristãos é trabalhar com sujeitos etéreos, que só existem no campo do imaginário, sem se envolver com os problemas reais da comunidade em que se estão inseridos. Quando isso acontece, é comum que as respostas dadas aos problemas das pessoas e da sociedade sejam rápidas e fáceis, uma vez que sujeitos ideais têm também soluções ideais. Contudo, uma teologia assim não responde às questões da sociedade. Somente se entrando na realidade, atento a ela em suas diversas nuanças é que é possível propor respostas para questões concretas, que afligem realmente os envolvidos nelas.
 Diante disso, é urgente que se desenvolva uma teologia que se mostre atenta e se envolva com os problemas da comunidade, sejam os de perto, sejam os de longe, ouvindo os necessitados e agindo concretamente para os auxiliarem em suas questões, trazendo com isso, a boa nova de que Deus está atento à humanidade e se importa com ela.’

Fonte :