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domingo, 1 de março de 2026

As grandes civilizações africanas - As Confederações de Aldeias Africanas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Aqueles que puderam ler ou ouvir os últimos textos que postamos sobre a História da África puderam ver como o continente abrigou grandes civilizações e impérios antes da chegada dos europeus, sobretudo, a partir do século XVI. Essas civilizações e impérios em nada ficam a dever às grandes civilizações que existiram em outros tempos e em outros lugares de nosso planeta.

Falamos hoje de outro sistema de organização sócio-política que existiu no continente africano que pouco é conhecido : A confederação de aldeias africanas.

É sempre importante relembramos que a África é o maior continente do mundo em extensão e que somente nas últimas décadas é que sua história começou a ser estudada e compreendida fora do contexto da periodização usada para se estudar a história da Europa.

A organização das aldeias africanas

Falar de Confederação de Aldeias é entender um pouco mais da organização social e política de muitas tribos africanas, principalmente as que existiram na região subsaariana. Independentemente de estudarmos um grande e complexo reino ou um pequeno reino africano, a maioria das tribos se organizava em torno da fidelidade ao ‘chefe’ e das relações de parentesco existentes.

Este ‘chefe’ normalmente era o membro mais velho ou então um membro mais jovem, porém capaz de liderar a tribo, sendo responsável pela aplicação da justiça, pela sua condução em caso de luta contra outra tribo, decidindo sobre a divisão do trabalho e dos alimentos de forma justa, pela punição às pessoas que não cumprissem suas obrigações ou causavam algum mal a outra pessoa da mesma tribo, enfim, o ‘chefe’ era o responsável pelo bem-estar global da tribo.

Nestas tarefas geralmente era auxiliado por um conselho, dependendo do tamanho e importância da tribo, mas como fosse mais desafiador a condução das tribos maiores, se fazia necessário um maior apoio administrativo, com atribuições a um número maior de conselheiros que auxiliavam o ‘chefe’ no governo. Em algumas tribos este ‘chefe’ era também o líder religioso do povo. Em outras, o líder religioso era o conselheiro mais importante. Apesar de alguns elementos comuns, a organização sempre variava de uma tribo para outra.

Confederações de Aldeias - Definição

Uma confederação era a união de uma ou mais aldeias em torno de interesses comuns, sejam comerciais, familiares ou militares. A integração entre uma ou mais aldeias podia se dar pelo casamento entre membros de aldeias diferentes ou pela união de duas ou mais aldeias em vista da autodefesa em relação a um inimigo comum.

Essa parceria entre as aldeias poderia resultar na criação de um grande reino, mas não necessariamente porque podia ser uma união temporária ou permanente. Em geral as confederações eram lideradas por um conselho de ‘chefes’, que decidiam qual o melhor rumo a ser tomado numa determinada questão.

Mesmo quando as tribos se uniam não perdiam sua autonomia, pois somente as decisões mais importantes ou urgentes eram levadas ao conselho de ‘chefes’, que não tinha um líder principal, sendo que a opinião de todos os ‘chefes’ tinha o mesmo valor. Quando existia um líder entre várias aldeias, aí sim se podia considerar aquela união como um reino.

Quando a escravidão começou a trazer os negros escravizados para as Américas, no Brasil surgiram algumas organizações sociais semelhantes às confederações africanas, organizadas pelos próprios negros escravizados, adaptadas para a realidade encontrada no Brasil. Essa organização foi muito importante no processo de resistência do negro à escravidão. Alguns quilombos como o de Palmares pode ser considerado como a maior ‘Confederação’ que existiu no Brasil. Criado por volta de 1590 e liderado por Zumbi, Palmares sobreviveu por mais de 100 anos defendendo-se das investidas de expedições militares financiadas principalmente pelos senhores de engenho, que viam no quilombo não só uma defesa contra a escravidão como também uma afronta à autoridade colonial.

As confederações de aldeias foram importantes porque ajudaram na diminuição dos conflitos entre as aldeias e pela solução de questões pelo acordo, evitando guerras e conflitos.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2026-02/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas.html

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A África antes da colonização europeia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘O continente africano era um lugar civilizado no tempo em que os primeiros viajantes europeus começaram a entrar em contato com continente. Quando chegaram ao Golfo da Guiné e desembarcaram em Vaida (na África Ocidental), por exemplo, os capitães e tripulantes dos barcos ficaram surpresos ao encontrar ruas bem traçadas, cercadas de ambos os lados por várias léguas por duas fileiras de árvores. Durante dias eles puderam viajar num país de campos cultivados, habitado por homens vestidos com roupas coloridas produzidas em suas próprias tecelagens.

No Reino do Congo, encontraram pessoas vestidas de seda ou veludo, como vestiam as pessoas mais graduadas da Europa.

Antes da colonização o continente africano abrigou Estados bem organizados e administrados minuciosamente. A situação dos países da costa oriental – Moçambique, por exemplo – era exatamente a mesma com tribos organizadas, funções sociais bem definidas e uma economia que garantia a sobrevivência de todos mesmo em períodos mais críticos como no tempo da seca ou de calamidades naturais.

As grandes civilizações africanas

Durante o período que chamamos de Idade Média (séculos V ao XV), poderosos Estados se desenvolveram na África Ocidental e por sua enorme riqueza, tornaram-se o principal eixo de comércio entre o mar Mediterrâneo e o interior da África.

O reino de Gana. Gana já era um reino rico antes da chegada dos comerciantes do norte e os documentos deixados por esses comerciantes (árabes e berberes) informam o que foi Gana, e relatam um império extraordinário, também chamado de Terra do Ouro. O império tinha como capital Kumbi-Saleh. Dessa cidade, o rei e seus nobres controlavam povos vizinhos, obrigando-os a pagar impostos em troca de proteção. Além disso, Gana controlava o comércio tanto das mercadorias que eram trazidas do norte (como sal e tecidos), quanto das que saíam do interior da África (como ouro e escravos). Na capital, o comércio era intenso e os seus 20 mil habitantes recebiam diariamente as caravanas que vinham de diversas regiões. Entre os séculos 9 e 10, Gana viveu seu apogeu, sendo um dos mais ricos reinos do mundo, segundo Ibn Haukal, viajante árabe da época.

O reino de Mali. O Reino de Mali era, a princípio, uma região do Império de Gana habitada pelos mandingas. Era composto por 12 reinos menores ligados entre si, e tinha como capital Kangaba. O Império se tornou herdeiro do Império de Gana, passando a controlar todo o comércio local. O ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre 1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.

Cidades iorubás. A partir do século IX formaram-se as cidades da civilização iorubá, na região da atual Nigéria, já habitada por esse povo desde o século IV.  Os iorubás nunca unificaram suas cidades, mas mantiveram a mesma cultura. A cidade iorubá mais importante era Ifé, considerada sagrada, por ser o berço dos iorubás, segundo a crença local. Outra cidade importante foi Oyo, um centro militar que, no final do século XVII, tinha se expandido até Daomé (atual Benin).

Império de Axum. O Império Axum data do ano 100 d.C., com a fundação da cidade de mesmo nome. No século IV já era o Estado de maior expressão do reino da Núbia e, por conta das relações no Mar Vermelho – local de articulação entre populações africanas e árabes – adotaram o cristianismo, que se espalhou em boa parte do território sob o domínio romano, inclusive no Egito.

Império Zimbábue. O Império Zimbábue existiu entre os anos de 1200 e 1400, no litoral da África Austral, onde hoje estão localizados Moçambique e Zimbábue. Este Império ficou conhecido por seu grande número de construções, que são testemunhos do poder alcançado por ele. Foi um poderoso Estado com hegemonia na região localizada entre os rios Zambeze e Limpopo.

Império Songai. O Império Songai está relacionado com a cidade de Gao, localizada na curva do Níger. Esta cidade foi um importante centro comercial, político e econômico, com poder militar de arqueiros que se lançavam ao Rio Niger.

Registro de avanços e conquistas

Quando os missionários portugueses chegaram ao Congo encontraram um sistema político bem organizado com cobrança de impostos e taxas. Havia, inclusive, um eficiente tribunal e um funcionalismo público estruturado. O estado construiu estradas, impôs portagens, apoiou um grande exército e tinha um sistema monetário baseado no uso de conchas, do qual o chefe supremo tinha o monopólio.

O Reino do Congo tinha também alguns estados satélites como o estado do Ngola (ie Ndongo) localizado na atual Angola. O reino original era aproximadamente do tamanho da França e da Alemanha juntas. Há registros da existência de uma arte metalúrgica especializada no antigo Congo.  Como os artífices Bakongo estavam cientes da toxicidade dos vapores de chumbo, criaram métodos preventivos e curativos, tanto farmacológicos usando doses maciças de mamão e óleo de palma e quanto mecânicos, para combater o envenenamento por chumbo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-11/foco-historia-conhecendo-melhor-continente-africano2.html

 

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, torna-se propriedade do Estado egípcio

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Nikos Tzoitis


 

`Após 15 séculos, um dos mais importantes e antigos mosteiros cristãos do mundo, o Mosteiro de Santa Catarina no Monte Sinai, perde sua autonomia administrativa e torna-se propriedade do Estado egípcio, após uma decisão do tribunal local. Uma disposição que levanta sérias preocupações quanto ao presente e ao futuro do Mosteiro e da comunidade que nele vive.

O Mosteiro no Monte Sinai foi fundado no século VI d.C. por Justiniano e sobreviveu a guerras, conquistas e perseguições graças também ao seu status de "Vakuf", um Lugar Sagrado a ser guardado de acordo com a tradição corânica. Como tal, também era respeitado pelos beduínos do deserto do Sinai.

A UNESCO o incluiu entre os monumentos reconhecidos como Patrimônio Mundial. Os tesouros inestimáveis do Mosteiro – ícones, manuscritos, relíquias, bibliotecas e propriedades – eram administrados pelos vinte monges da comunidade monástica local, que gozavam de ampla autonomia dentro do Patriarcado Greco-Ortodoxo de Jerusalém.

De acordo com a decisão proferida pelo Tribunal de Ismailia na quarta-feira, 28 de maio, os bens do Mosteiro foram efetivamente confiscados e transferidos para o Estado egípcio, enquanto os monges tiveram seu acesso restrito a certas propriedades. Eles foram autorizados a permanecer no Mosteiro apenas para fins religiosos e sob as condições estabelecidas pelo novo proprietário estatal.

O site orthodoxia.info descreveu a aplicação da decisão como "uma das mais graves violações das liberdades religiosas e individuais dos últimos séculos", perpetrada em um período conturbado para o Oriente Médio.

A medida, que efetivamente priva o Mosteiro de sua autonomia, ocorre após um longo período de disputas judiciais e ações judiciais movidas contra a relativa autonomia exercida pelo Mosteiro.

Algumas autoridades egípcias justificam a medida tomada como um ato de proteção do patrimônio cultural do Mosteiro.

O arqueólogo Abdel Rahim Rihan argumentou, a esse respeito, que os bens imóveis do mosteiro se enquadram nas leis de patrimônio cultural e que a decisão implementada após a decisão judicial garante sua valorização em benefício do "patrimônio mundial e dos monges". Os monges, por sua vez, falam de uma expulsão de fato de seu próprio mosteiro.

A decisão tomada põe fim, de forma controversa, à ofensiva legal de vários anos contra os monges de Santa Catarina por parte do Estado egípcio, que, em etapas alternadas, desde a época do governo controlado pela Irmandade Muçulmana, tem buscado colocar o Mosteiro sob o próprio controle.

Segundo alguns analistas, a disposição implementada demonstra que o próprio presidente, general Abdel Fattah Sisi, não seria capaz de controlar aparatos que fazem parte do "Estado Profundo", alguns dos quais também estão ligados a grupos salafistas.

Agora, o Cairo precisa administrar uma crise com a Grécia, que reagiu duramente à ação do governo sobre o Mosteiro, em um momento em que o Egito está no centro de acontecimentos tumultuados na Palestina que também afetam a Península do Sinai, uma área onde grupos jihadistas organizados no passado operam no Sinai e que, no passado, ameaçaram o mosteiro, realizando também ataques com comandos armados. E a disposição implementada também enfraquece o Mosteiro também nas inúmeras disputas civis que o colocaram contra várias contrapartes em casos de usucapião.

A reação dos monges foi forte. Uma campanha internacional de conscientização e informação dirigida a Igrejas e outras comunidades religiosas já está planejada, com o objetivo de obter a revogação da decisão.

A reação do arcebispo greco-ortodoxo de Atenas, Ieronymus, também foi imediata. "Não quero e não posso acreditar - afirmou  Ieronymus - que hoje o helenismo e a Ortodoxia estejam vivenciando outra 'conquista' histórica". "Este farol espiritual da Ortodoxia e do helenismo — acrescentou — enfrenta agora uma questão de sobrevivência"`. 

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-06/egito-mosteiro-santa-catarina-propriedade-estado-egipcio.html


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Crise de consciência

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
  
‘Na raiz das muitas crises que a sociedade brasileira enfrenta - hídrica, energética, política, econômica, moral, com a exigência de pronta reação - está a falta de consciência. Uma carência que produz absurdos em série. São incontáveis os prejuízos para a coletividade que resultam da falta de princípios éticos e morais. Uma deficiência que é fonte de arbitrariedades, desmandos, incompetência para reações e respostas. Promove a perda dos sentidos de beleza, justiça e equilíbrio, que devem ser construídos cotidianamente, para se evitar situações ainda mais caóticas.

Há crise de consciência? Esta interrogação ganha pertinência quando se constata extremismos e desequilíbrios na sociedade, em atitudes individuais e coletivas, fundamentadas na irracionalidade e abominável mesquinhez. Um exemplo? A recente notícia de que parlamentares votaram um auxílio moradia em benefício de quem não precisa. Trata-se do princípio de ‘usufruir das vantagens’, que tudo corrói, de maneira demolidora, inclusive o tecido da consciência social, política. Esse princípio é impulsionado por uma perigosa permissividade, que justifica atos individuais e coletivos, merecedores da indignação de homens e mulheres de bem, no exercício do direito de exigir o tratamento adequado do que é público.

Não conseguir debelar o crescente processo de falta de consciência cidadã é um caminho para a ruína da sociedade. Essa constatação é reforçada ao observar fenômenos recentes que devem ser motivo de preocupação : a violência que não pára de crescer, a miséria que faz tantos sofrerem, a presença de grupos interesseiros, especializados em corrupção, que tornam pantanoso o caminho da sociedade, comprometendo avanços e a construção da cultura da vida.

A falta de consciência revela-se de alta gravidade. Muitos agem como devastadores do erário e, pior, tratam de modo predatório os bens da criação. Ora, o mínimo que se pode esperar de cada cidadão é uma conduta balizada pela moralidade. E essa deve ser a postura e o compromisso de quem representa o povo e dirige instâncias governamentais mantidas com dinheiro público. Na contramão do compromisso ético-moral, certamente por perda e esgarçamento da própria consciência, indivíduos e grupos agem cegamente, inspirados só pelos interesses próprios. Perdem a credibilidade, o que aumenta a crise e deflagra uma verdadeira situação de ‘pé de guerra’. Esses cenários de descompassos colocam em pauta uma urgente necessidade : o tratamento da falta de consciência, problema grave e central na sociedade brasileira.

Há um comprometimento sério da consciência moral, comprovado em atitudes inadequadas, em nível individual e institucional. Infelizmente, para impor o próprio interesse, garantir a benesse, consolidar o usufruto de vantagem, vale tudo. Isso gera sérias consequências que efetivam a perda do gosto pela honestidade, do respeito aos limites que possibilitam contentar-se eticamente com o que é justo. A falta da consciência moral, que compromete a conduta honesta, para ser vencida, requer verificações em âmbitos muito complexos da sociedade. Paga-se alto preço pela relativização de normas objetivas e absolutas. O atual contexto cultural tem grande influência nesse processo, pois favorece o enfraquecimento de princípios inegociáveis e fundamentais ao exercício da cidadania.

Autonomia e liberdade não são justificativas para se fazer tudo o que se quer, leiloando princípios ético-morais básicos que alimentam o bom senso. Princípios capazes de fazer crescer o apreço não pelo que se lucra e se ajunta, mas pela honestidade e respeitável conduta cidadã.  É hora de reagir à perda da consciência moral.

Uma possibilidade de reação a esse problema, com incidência em todas as dinâmicas sociais, é conhecer profundamente e vivenciar os valores do Evangelho, guiados pelo Mestre mais completo de todos os tempos, na sua condição de Deus e Homem. Enquanto se reage para debelar a crise pela perda da consciência moral, raiz e vetor de outras graves crises, espera-se que as instituições respeitem as leis, que os representantes estejam, verdadeiramente, a serviço do povo, que cada pessoa se reconheça e participe como cidadão. A recuperação da moralidade deve fazer crescer uma incômoda crise de consciência, capaz de reconduzir a sociedade para o caminho do bem, da verdade e da justiça.


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.arquidiocesebh.org.br/site/artigoArcebispo.php