quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Cafarnaum, a casa do Senhor

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Frantesco Patton


‘«Tendo (Jesus) ouvido dizer que João fora preso, retirou-Se para a Galileia. Depois, abandonando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade situada à beira mar na região de Zabulão e Neftali» (Mt 4, 12-13). É assim que o evangelista Mateus descreve o momento em que Jesus, no início do seu ministério público, deixa a aldeia onde tinha crescido para se mudar para aquela que, a partir daquele momento, será a sua nova residência, «a sua cidade» (cf. Mt 9,1). Mateus Levi, que em Cafarnaum exercia a sua função de cobrador de impostos em nome dos ocupantes romanos na estrada que ligava Cafarnaum a Damasco, apresenta também a motivação teológica desta mudança de residência por parte de Jesus : «para que se cumprisse o que o profeta Isaías anunciara : ‘Terra de Zabulão e Neftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz, e aos que jaziam na sombria região da morte, surgiu-lhes uma luz’» (Mt 4, 14-16).

Cada peregrino que ainda hoje chega a Cafarnaum, nas margens do lago de Tiberíades, pode viver a experiência extraordinária de ver a cidade onde Jesus viveu predominantemente durante os três anos do seu ministério na Galileia. Aqui, Ele chamou os seus discípulos, pregou, curou os doentes e realizou aqueles sinais poderosos que revelam a sua identidade profunda de Messias e Filho de Deus. O Pe. Stanislao Loffreda, arqueólogo franciscano do Studium Biblicum Franciscanum (SBF) de Jerusalém, que dedicou a sua vida a este sítio e foi o principal colaborador do Pe. Virgilio Canio Corbo nas 19 campanhas aqui realizadas entre 1968 e 1986, no guia dedicado a Cafarnaum, que constitui a principal fonte deste artigo, recordava o verdadeiro objetivo da arqueologia : «Nós, arqueólogos, desenterramos os vestígios materiais do passado, mas, na realidade, procuramos algo mais. O nosso objetivo final é restabelecer, na medida do possível, o contacto com as gerações passadas, falar com elas e deixá-las falar às gerações atuais» (Stanislao Loffreda, Cafarnao, Jerusalém, 1995, p. 7). E quando pensamos que Cafarnaum foi «a cidade de Jesus» e dos primeiros apóstolos, percebemos imediatamente a importância que as suas ruínas antigas revestem para toda a humanidade. Para os frades da Custódia da Terra Santa, que guardam este lugar, habitando-o como uma fraternidade orante e acolhedora, Cafarnaum é muito mais do que um sítio arqueológico : é a cidade de Jesus, é a casa do Senhor.

Uma aldeia privilegiada nas margens do lago

O sítio arqueológico situa-se na margem noroeste do lago de Tiberíades (Kinneret), na Galileia, a cerca de 210 metros abaixo do nível do mar, a dezasseis quilómetros de Tiberíades, a três de Tabgha e a cinco do ponto onde o rio Jordão desagua no lago. O nome semítico original do local é, precisamente, Kefar Nahum, ou seja, a aldeia (kefar) de Nahum (que é um nome próprio, pertencente também a um dos chamados ‘profetas menores’). Orígenes tinha-o interpretado como ‘a aldeia da consolação’ (da raiz hebraica nhm), enquanto São Jerônimo o traduzia como ‘a bela cidade’ (segundo a raiz n’m). A transcrição mais próxima da pronúncia hebraica, Capharnaum, é a já adotada por Josefo Flávio (cf. Loffreda, op. cit., pp. 14-15).

As ruínas da antiga Cafarnaum cobrem aproximadamente uma área de seis hectares. Dois terços pertencem à Custódia franciscana da Terra Santa; o restante, no lado oriental, ao Patriarcado greco-ortodoxo. A antiga aldeia foi abandonada há cerca de mil anos, embora algumas famílias árabes da tribo dos Semekiyeh lá tenham permanecido até à guerra árabe-israelita de 1948 (Loffreda, op. cit., p. 10).

Na época de Jesus, Cafarnaum era uma cidade fronteiriça dotada de uma alfândega (cf. Mc 2, 13-15) e situada na grande via imperial que conduzia a Damasco. Era a única localidade na margem noroeste do lago, a cinco quilômetros do alto Jordão, que marcava a fronteira entre a tetrarquia de Herodes Antipas e o Golã atribuído ao seu irmão Filipe (ambos filhos de Herodes, o Grande). Em 1975, a cerca de cem metros a nordeste da sinagoga, foi encontrada uma pedra miliária com o nome do imperador Adriano, confirmando o traçado da via imperial (cf. Loffreda, op. cit., pp. 18-19). A presença de um destacamento de soldados romanos, atestada pelos Evangelhos (cf. Lc 7, 1-10; Mt 8, 5-13), sublinhava a importância da aldeia como ponto de trânsito. Cafarnaum mantinha relações comerciais com a alta Galileia, o Golã, a Síria, a Fenícia, a Ásia Menor, Chipre e a África, como se depreende das moedas e da cerâmica encontradas; surpreende, pelo contrário, segundo o Pe. Loffreda, a escassez de contatos com o centro e o sul da Palestina (op. cit., p. 19).

Jesus deixa Nazaré e vai viver em Cafarnaum

Como recordámos no início, Jesus deixou Nazaré e foi viver em Cafarnaum. A escolha não foi casual. Nazaré «era uma aldeia montanhosa isolada das grandes vias de comunicação», enquanto Cafarnaum se situava numa via estratégica e, além disso, «estava suficientemente distante dos grandes centros urbanos, especialmente de Tiberíades, onde Herodes Antipas tinha estabelecido a sua capital», de modo que Jesus pudesse «difundir amplamente a sua mensagem messiânica sem, no entanto, provocar reações imediatas por parte dos líderes políticos e religiosos». Cafarnaum tinha, além disso, uma população muito diversificada : pescadores, agricultores, artesãos, comerciantes, publicanos; e as relações com os Romanos distinguiam-se «por uma cordialidade singular, ao ponto de ter sido um centurião romano a construir a sinagoga para a comunidade judaica» (as citações são de Loffreda, op. cit., p. 68-69). Não é de admirar, portanto, que Jesus tenha chamado os seus primeiros discípulos precisamente desta comunidade : os pescadores Pedro e André, Tiago e João, e o publicano Mateus.

A casa de Pedro : da domus-ecclesia ao Memorial

Entre todos os vestígios revelados pelas escavações franciscanas, a descoberta mais significativa é a da chamada insula sacra. As escavações iniciadas em 1968 pelos padres Virgilio Corbo e Stanislao Loffreda permitiram reconstruir a história milenar deste local em quatro fases principais. A história da casa onde Jesus viveu «pode ser resumida da seguinte forma : 1. A data inicial deve ser fixada no século I a.C. 2. A partir do final do século I d.C., uma parte dessa casa […] foi transformada numa domus-ecclesia, ou seja, passou a ser utilizada como local de reuniões religiosas. 3. No século IV, a referida domus-ecclesia foi ampliada e separada do resto da aldeia por uma imponente muralha circundante. 4. Na segunda metade do século V, todas as estruturas da insula sacra foram demolidas e foi construída uma igreja de forma octogonal» (Loffreda, op. cit., p. 51).

O carácter cristão da sala venerada é comprovado pela presença, em muitos grafitos, do nome e do monograma de Jesus, por expressões litúrgicas como Amen e Kyrie eleison e por uma inscrição em paleo-estrangelo (uma variante antiga do siríaco) que parece referir-se à Eucaristia. «A pluralidade das línguas leva fortemente a supor que a domus-ecclesia não era utilizada apenas pelos simples fiéis locais, mas também pelos peregrinos» (Loffreda, op. cit., p. 60). Pedro Diácono (1107-1140 d.C.), na sua obra De locis sanctis, relata o testemunho da peregrina Egéria (século IV d.C.), que descreve a domus-ecclesia do século IV da seguinte forma : «Além disso, em Cafarnaum, da casa do príncipe dos apóstolos [Pedro] foi feita uma igreja, cujas paredes permanecem até hoje tal como eram [originalmente]. Foi ali que o Senhor curou o paralítico. Existe também a sinagoga onde o Senhor curou o endemoninhado, à qual se acende subindo muitos degraus; essa sinagoga foi construída com pedras aparelhadas. Não muito longe dali avistam-se degraus de pedra sobre os quais o Senhor se deteve» (Petrus Diaconus, Liber de Locis Sanctis, em Itineraria et alia geographica, ed. R. Weber CCL, 175, Turnhout 1965, pp. 98-99).

A igreja octogonal da segunda metade do século V foi concebida de forma a indicar aos peregrinos, através da posição do octógono central, «a localização exata da casa de São Pedro, agora sepultada sob o podium da igreja» (Loffreda, op. cit., p. 66). Perto do final do século V d.C., no lado oriental, foram também acrescentadas uma pia batismal e uma abside (cf. Joseph Patrich, Baptism in the Holy Land: 4th–7th Centuries, Milão 2025, pp. 103-104). O Memorial moderno, obra do arquiteto italiano Ildo Avetta, foi consagrado a 29 de junho de 1990. O padre Corbo, que tinha supervisionado as obras, falecido em 1991, está sepultado junto à casa de São Pedro, sob o Memorial.

As sinagogas : a do século IV e a da época de Jesus

O outro grande monumento de Cafarnaum é a sinagoga ‘branca’. Ao contrário das casas particulares construídas em pedra basáltica escura, esta foi quase inteiramente edificada com blocos aparelhados de pedra calcária branca, transportados de pedreiras situadas a vários quilômetros de distância, cujo peso podia, em alguns casos, atingir quatro toneladas. Os elementos decorativos são muito requintados e repletos de simbolismo judaico. Como sintetiza o Pe. Geiger : «Quanto à sinagoga dos tempos de Jesus, os pioneiros da arqueologia mantiveram-se, na sua maioria, convencidos, até aos primórdios do século XX, de que a tinham encontrado. Os arqueólogos alemães Heinrich Kohl e Carl Watzinger, ao estudarem as suas ruínas entre 1905 e 1916, dataram-na, no entanto, por volta do ano 200 d.C. Como, portanto, aquela não podia ser a sinagoga da época de Jesus, entre 1968 e 1990 os franciscanos esforçaram-se por apurar — com as devidas precauções — se, por baixo da sinagoga atualmente visível, não se encontraria talvez uma mais antiga. Uma primeira surpresa foi a descoberta, no pavimento da então sinagoga, de mais de 30.000 (!) moedas datadas do final do século IV d.C. (anos 383-395)» (Heinrich Fürst, Gregor Geiger, Terra Santa. Guida francescana per pellegrini e viaggiatori, Milão 2018, p. 220-221/1021).

As escavações de Corbo–Loffreda permitiram datar esta sinagoga do final do século IV, baseando-se precisamente no estudo das moedas tardo-romanas e da cerâmica encontrada em vários níveis do sítio. Por baixo da sinagoga branca, os arqueólogos encontraram ainda um pavimento de pedra basáltica que remonta ao século I, pertencente a um edifício público de dimensões tais que não poderia tratar-se de uma casa particular. Corbo e Loffreda reconhecem que «o amplo pavimento do século I, descoberto sob a nave central da sinagoga branca, pode pertencer à tão procurada sinagoga, ou seja, aquela construída pelo centurião romano e visitada por Jesus» (Loffreda, op. cit., pp. 32-49). Foi nesta sinagoga que Jesus, aos sábados, ensinou com autoridade, expulsou os espíritos impuros (cf. Mc 1, 21-28) e desenvolveu o discurso sobre o Pão da Vida (cf. Jo 6, 22-71).

A coexistência de uma comunidade cristã e de uma judaica

Na aldeia bizantina (séculos IV-VII d.C.), coexistiam lado a lado uma maioria já cristã, atestada pela difusão generalizada de fragmentos cerâmicos marcados com cruzes em quase todas as áreas do lado franciscano, e uma minoria judaica, como confirmam a presença de uma sinagoga ativa e achados como um pingente dedicado ao Tetragrama Sagrado. Cafarnaum revela-se, assim, um caso excepcional em relação ao modelo predominante na região, onde as diferentes comunidades religiosas tendiam a estabelecer-se em aldeias separadas em vez de viverem juntas (cf. Sharon Lea Mattila, Capernaum, Village of Nahum: From Hellenistic to Byzantine Times, em: Galilee in the Late Second Temple and Mishnaic Periods: Vol. 2, 2015, pp. 249-251).

A história arqueológica

A história arqueológica de Cafarnaum tem início em 1838 com Edward Robinson, que identificou as ruínas da sinagoga sem as associar ao lugar mencionado nos Evangelhos; a identificação correta só ocorreu em 1866, com Charles Wilson. Em 1894, a Custódia da Terra Santa, por intermédio do frade Giuseppe Baldi, adquiriu as ruínas aos beduínos. No início do século XX, foram realizadas escavações pela Deutsche Orient-Gesellschaft (Kohl e Watzinger) e, posteriormente, pelo Pe. Wendelin von Menden, ofm. Na década de 1920, o Pe. Gaudenzio Orfali, ofm (1889-1926), franciscano de Nazaré, desenterrou a basílica bizantina. Após uma longa pausa, em 1968, a Custódia confiou as escavações ao Pe. Virgilio Corbo, ofm (1918-1991) e ao Pe. Stanislao Loffreda, ofm (1932-2025), auxiliados pelo Pe. Bellarmino Bagatti, ofm e pelo Pe. Godfrey Kloetzly, ofm. Já em 1968, descobriram sob a igreja octogonal uma domus-ecclesia do século IV e, a uma profundidade maior, uma casa do século I, confirmando que um ambiente doméstico original tinha sido transformado num lugar de culto cristão já meio século após a morte de Jesus, em memória de Pedro. As escavações de Corbo reconstruíram toda a cronologia do sítio, desde o Bronze Médio (aproximadamente 2000-1550 a.C.) até à época árabe (século VII), redefiniram a datação da sinagoga monumental e identificaram uma anterior, da época de Jesus. Corbo concluiu o trabalho com o Memorial sobre a Casa de Pedro (1990). Sucedeu-lhe o Pe. Loffreda, que investigou as fases bizantina e árabe e coordenou a coleção científica «Cafarnaum» (9 volumes, SBF). O Pe. Eugenio Alliata, ofm, catalogou todo o material lapidário do sítio (cf. https://www.custodia.org/it/santuari/cafarnao/).

No lado nordeste, propriedade do Patriarcado greco-ortodoxo de Jerusalém, as escavações foram, por sua vez, dirigidas por Vassilios Tzaferis (1978–1987) e revelaram quatro áreas principais, além de uma imponente muralha marítima com cerca de 200 metros de comprimento e dois cais ortogonais que se estendem para o lago. Foi também descoberto um pequeno tesouro de 282 dinares de ouro, da época de transição árabe-bizantina (cf. Mattila, op. cit., pp. 226–228).

A presença franciscana

Ainda hoje, os frades da Custódia acolhem diariamente os peregrinos que vêm a Cafarnaum em busca de um contacto com ‘a cidade de Jesus’, com os lugares onde o seu olhar se fixou, a sua voz ressoou e a sua mão agiu. O esplendor da sinagoga branca, a simplicidade das casas de pedra basáltica, a casa de Pedro transformada primeiro em domus-ecclesia, depois em basílica bizantina e hoje em memorial de São Pedro, o silêncio do lago à sua frente : tudo fala de uma presença que a fé reconhece ainda viva. Ao contemplar as ruínas da antiga Cafarnaum, o peregrino pode imaginar as casas e os habitantes da antiga aldeia, as cenas narradas pelos Evangelhos e aqui ambientadas, e pode sentir ressoar as palavras de Jesus sobre o Pão da Vida e professar, juntamente com Pedro : «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68).


Fonte  *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-09/por-009/cafarnaum-a-casa-do-senhor.html

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