Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
*Artigo de Frantesco Patton
‘«Tendo
(Jesus) ouvido dizer que João fora preso, retirou-Se para a Galileia. Depois,
abandonando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade situada à beira mar na
região de Zabulão e Neftali» (Mt 4, 12-13). É assim que o
evangelista Mateus descreve o momento em que Jesus, no início do seu ministério
público, deixa a aldeia onde tinha crescido para se mudar para aquela que, a
partir daquele momento, será a sua nova residência, «a sua cidade» (cf. Mt 9,1).
Mateus Levi, que em Cafarnaum exercia a sua função de cobrador de impostos em
nome dos ocupantes romanos na estrada que ligava Cafarnaum a Damasco, apresenta
também a motivação teológica desta mudança de residência por parte de Jesus :
«para que se cumprisse o que o profeta Isaías anunciara : ‘Terra de Zabulão e
Neftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que jazia
nas trevas viu uma grande luz, e aos que jaziam na sombria região da morte,
surgiu-lhes uma luz’» (Mt 4, 14-16).
Cada
peregrino que ainda hoje chega a Cafarnaum, nas margens do lago de Tiberíades,
pode viver a experiência extraordinária de ver a cidade onde Jesus viveu
predominantemente durante os três anos do seu ministério na Galileia. Aqui, Ele
chamou os seus discípulos, pregou, curou os doentes e realizou aqueles sinais
poderosos que revelam a sua identidade profunda de Messias e Filho de Deus. O
Pe. Stanislao Loffreda, arqueólogo franciscano do Studium Biblicum Franciscanum
(SBF) de Jerusalém, que dedicou a sua vida a este sítio e foi o principal
colaborador do Pe. Virgilio Canio Corbo nas 19 campanhas aqui realizadas entre
1968 e 1986, no guia dedicado a Cafarnaum, que constitui a principal fonte
deste artigo, recordava o verdadeiro objetivo da arqueologia : «Nós,
arqueólogos, desenterramos os vestígios materiais do passado, mas, na
realidade, procuramos algo mais. O nosso objetivo final é restabelecer, na
medida do possível, o contacto com as gerações passadas, falar com elas e
deixá-las falar às gerações atuais» (Stanislao Loffreda, Cafarnao,
Jerusalém, 1995, p. 7). E quando pensamos que Cafarnaum foi «a cidade de Jesus»
e dos primeiros apóstolos, percebemos imediatamente a importância que as suas
ruínas antigas revestem para toda a humanidade. Para os frades da Custódia da
Terra Santa, que guardam este lugar, habitando-o como uma fraternidade orante e
acolhedora, Cafarnaum é muito mais do que um sítio arqueológico : é a cidade de
Jesus, é a casa do Senhor.
Uma aldeia
privilegiada nas margens do lago
O sítio
arqueológico situa-se na margem noroeste do lago de Tiberíades (Kinneret), na
Galileia, a cerca de 210 metros abaixo do nível do mar, a dezasseis quilómetros
de Tiberíades, a três de Tabgha e a cinco do ponto onde o rio Jordão desagua no
lago. O nome semítico original do local é, precisamente, Kefar Nahum, ou seja,
a aldeia (kefar) de Nahum (que é um nome próprio, pertencente também a
um dos chamados ‘profetas menores’). Orígenes tinha-o interpretado como ‘a
aldeia da consolação’ (da raiz hebraica nhm), enquanto São Jerônimo
o traduzia como ‘a bela cidade’ (segundo a raiz n’m). A transcrição
mais próxima da pronúncia hebraica, Capharnaum, é a já adotada por Josefo
Flávio (cf. Loffreda, op. cit., pp. 14-15).
As ruínas da
antiga Cafarnaum cobrem aproximadamente uma área de seis hectares. Dois terços
pertencem à Custódia franciscana da Terra Santa; o restante, no lado oriental,
ao Patriarcado greco-ortodoxo. A antiga aldeia foi abandonada há cerca de mil
anos, embora algumas famílias árabes da tribo dos Semekiyeh lá tenham
permanecido até à guerra árabe-israelita de 1948 (Loffreda, op. cit., p. 10).
Na época de
Jesus, Cafarnaum era uma cidade fronteiriça dotada de uma alfândega (cf. Mc 2,
13-15) e situada na grande via imperial que conduzia a Damasco. Era a única
localidade na margem noroeste do lago, a cinco quilômetros do alto Jordão, que
marcava a fronteira entre a tetrarquia de Herodes Antipas e o Golã atribuído ao
seu irmão Filipe (ambos filhos de Herodes, o Grande). Em 1975, a cerca de cem
metros a nordeste da sinagoga, foi encontrada uma pedra miliária com o nome do
imperador Adriano, confirmando o traçado da via imperial (cf. Loffreda, op.
cit., pp. 18-19). A presença de um destacamento de soldados romanos, atestada
pelos Evangelhos (cf. Lc 7, 1-10; Mt 8,
5-13), sublinhava a importância da aldeia como ponto de trânsito. Cafarnaum
mantinha relações comerciais com a alta Galileia, o Golã, a Síria, a Fenícia, a
Ásia Menor, Chipre e a África, como se depreende das moedas e da cerâmica
encontradas; surpreende, pelo contrário, segundo o Pe. Loffreda, a escassez de
contatos com o centro e o sul da Palestina (op. cit., p. 19).
Jesus deixa
Nazaré e vai viver em Cafarnaum
Como
recordámos no início, Jesus deixou Nazaré e foi viver em Cafarnaum. A escolha
não foi casual. Nazaré «era uma aldeia montanhosa isolada das grandes vias de
comunicação», enquanto Cafarnaum se situava numa via estratégica e, além disso,
«estava suficientemente distante dos grandes centros urbanos, especialmente de
Tiberíades, onde Herodes Antipas tinha estabelecido a sua capital», de modo que
Jesus pudesse «difundir amplamente a sua mensagem messiânica sem, no entanto,
provocar reações imediatas por parte dos líderes políticos e religiosos».
Cafarnaum tinha, além disso, uma população muito diversificada : pescadores,
agricultores, artesãos, comerciantes, publicanos; e as relações com os Romanos
distinguiam-se «por uma cordialidade singular, ao ponto de ter sido um
centurião romano a construir a sinagoga para a comunidade judaica» (as citações
são de Loffreda, op. cit., p. 68-69). Não é de admirar, portanto, que Jesus
tenha chamado os seus primeiros discípulos precisamente desta comunidade : os
pescadores Pedro e André, Tiago e João, e o publicano Mateus.
A casa de
Pedro : da domus-ecclesia ao Memorial
Entre todos
os vestígios revelados pelas escavações franciscanas, a descoberta mais
significativa é a da chamada insula sacra. As escavações iniciadas
em 1968 pelos padres Virgilio Corbo e Stanislao Loffreda permitiram reconstruir
a história milenar deste local em quatro fases principais. A história da casa
onde Jesus viveu «pode ser resumida da seguinte forma : 1. A data inicial deve
ser fixada no século I a.C. 2. A partir do final do século I d.C., uma parte
dessa casa […] foi transformada numa domus-ecclesia, ou seja,
passou a ser utilizada como local de reuniões religiosas. 3. No século IV, a
referida domus-ecclesia foi ampliada e separada do resto da
aldeia por uma imponente muralha circundante. 4. Na segunda metade do século V,
todas as estruturas da insula sacra foram demolidas e foi
construída uma igreja de forma octogonal» (Loffreda, op. cit., p. 51).
O carácter
cristão da sala venerada é comprovado pela presença, em muitos grafitos, do
nome e do monograma de Jesus, por expressões litúrgicas como Amen e Kyrie
eleison e por uma inscrição em paleo-estrangelo (uma variante antiga
do siríaco) que parece referir-se à Eucaristia. «A pluralidade das línguas leva
fortemente a supor que a domus-ecclesia não era utilizada
apenas pelos simples fiéis locais, mas também pelos peregrinos» (Loffreda, op.
cit., p. 60). Pedro Diácono (1107-1140 d.C.), na sua obra De locis
sanctis, relata o testemunho da peregrina Egéria (século IV d.C.), que
descreve a domus-ecclesia do século IV da seguinte forma :
«Além disso, em Cafarnaum, da casa do príncipe dos apóstolos [Pedro] foi feita
uma igreja, cujas paredes permanecem até hoje tal como eram [originalmente].
Foi ali que o Senhor curou o paralítico. Existe também a sinagoga onde o Senhor
curou o endemoninhado, à qual se acende subindo muitos degraus; essa sinagoga
foi construída com pedras aparelhadas. Não muito longe dali avistam-se degraus
de pedra sobre os quais o Senhor se deteve» (Petrus Diaconus, Liber de Locis
Sanctis, em Itineraria et alia geographica, ed. R. Weber CCL,
175, Turnhout 1965, pp. 98-99).
A igreja
octogonal da segunda metade do século V foi concebida de forma a indicar aos
peregrinos, através da posição do octógono central, «a localização exata da
casa de São Pedro, agora sepultada sob o podium da igreja»
(Loffreda, op. cit., p. 66). Perto do final do século V d.C., no lado oriental,
foram também acrescentadas uma pia batismal e uma abside (cf. Joseph
Patrich, Baptism in the Holy Land: 4th–7th Centuries, Milão 2025,
pp. 103-104). O Memorial moderno, obra do arquiteto italiano Ildo Avetta, foi
consagrado a 29 de junho de 1990. O padre Corbo, que tinha supervisionado as
obras, falecido em 1991, está sepultado junto à casa de São Pedro, sob o
Memorial.
As sinagogas :
a do século IV e a da época de Jesus
O outro
grande monumento de Cafarnaum é a sinagoga ‘branca’. Ao contrário das casas
particulares construídas em pedra basáltica escura, esta foi quase inteiramente
edificada com blocos aparelhados de pedra calcária branca, transportados de
pedreiras situadas a vários quilômetros de distância, cujo peso podia, em
alguns casos, atingir quatro toneladas. Os elementos decorativos são muito
requintados e repletos de simbolismo judaico. Como sintetiza o Pe. Geiger :
«Quanto à sinagoga dos tempos de Jesus, os pioneiros da arqueologia mantiveram-se,
na sua maioria, convencidos, até aos primórdios do século XX, de que a tinham
encontrado. Os arqueólogos alemães Heinrich Kohl e Carl Watzinger, ao estudarem
as suas ruínas entre 1905 e 1916, dataram-na, no entanto, por volta do ano 200
d.C. Como, portanto, aquela não podia ser a sinagoga da época de Jesus, entre
1968 e 1990 os franciscanos esforçaram-se por apurar — com as devidas
precauções — se, por baixo da sinagoga atualmente visível, não se encontraria
talvez uma mais antiga. Uma primeira surpresa foi a descoberta, no pavimento da
então sinagoga, de mais de 30.000 (!) moedas datadas do final do século IV d.C.
(anos 383-395)» (Heinrich Fürst, Gregor Geiger, Terra Santa. Guida
francescana per pellegrini e viaggiatori, Milão 2018, p. 220-221/1021).
As escavações
de Corbo–Loffreda permitiram datar esta sinagoga do final do século IV,
baseando-se precisamente no estudo das moedas tardo-romanas e da cerâmica
encontrada em vários níveis do sítio. Por baixo da sinagoga branca, os
arqueólogos encontraram ainda um pavimento de pedra basáltica que remonta ao
século I, pertencente a um edifício público de dimensões tais que não poderia
tratar-se de uma casa particular. Corbo e Loffreda reconhecem que «o amplo
pavimento do século I, descoberto sob a nave central da sinagoga branca, pode
pertencer à tão procurada sinagoga, ou seja, aquela construída pelo centurião
romano e visitada por Jesus» (Loffreda, op. cit., pp. 32-49). Foi nesta
sinagoga que Jesus, aos sábados, ensinou com autoridade, expulsou os espíritos
impuros (cf. Mc 1, 21-28) e desenvolveu o discurso sobre o Pão
da Vida (cf. Jo 6, 22-71).
A
coexistência de uma comunidade cristã e de uma judaica
Na aldeia
bizantina (séculos IV-VII d.C.), coexistiam lado a lado uma maioria já cristã,
atestada pela difusão generalizada de fragmentos cerâmicos marcados com cruzes
em quase todas as áreas do lado franciscano, e uma minoria judaica, como
confirmam a presença de uma sinagoga ativa e achados como um pingente dedicado
ao Tetragrama Sagrado. Cafarnaum revela-se, assim, um caso excepcional em
relação ao modelo predominante na região, onde as diferentes comunidades
religiosas tendiam a estabelecer-se em aldeias separadas em vez de viverem
juntas (cf. Sharon Lea Mattila, Capernaum, Village of Nahum: From
Hellenistic to Byzantine Times, em: Galilee in the Late Second Temple and
Mishnaic Periods: Vol. 2, 2015, pp. 249-251).
A história
arqueológica
A história
arqueológica de Cafarnaum tem início em 1838 com Edward Robinson, que
identificou as ruínas da sinagoga sem as associar ao lugar mencionado nos
Evangelhos; a identificação correta só ocorreu em 1866, com Charles Wilson. Em
1894, a Custódia da Terra Santa, por intermédio do frade Giuseppe Baldi,
adquiriu as ruínas aos beduínos. No início do século XX, foram realizadas escavações
pela Deutsche Orient-Gesellschaft (Kohl e Watzinger) e, posteriormente, pelo
Pe. Wendelin von Menden, ofm. Na década de 1920, o Pe. Gaudenzio Orfali, ofm
(1889-1926), franciscano de Nazaré, desenterrou a basílica bizantina. Após uma
longa pausa, em 1968, a Custódia confiou as escavações ao Pe. Virgilio Corbo,
ofm (1918-1991) e ao Pe. Stanislao Loffreda, ofm (1932-2025), auxiliados pelo
Pe. Bellarmino Bagatti, ofm e pelo Pe. Godfrey Kloetzly, ofm. Já em 1968,
descobriram sob a igreja octogonal uma domus-ecclesia do
século IV e, a uma profundidade maior, uma casa do século I, confirmando que um
ambiente doméstico original tinha sido transformado num lugar de culto cristão
já meio século após a morte de Jesus, em memória de Pedro. As escavações de
Corbo reconstruíram toda a cronologia do sítio, desde o Bronze Médio
(aproximadamente 2000-1550 a.C.) até à época árabe (século VII), redefiniram a
datação da sinagoga monumental e identificaram uma anterior, da época de Jesus.
Corbo concluiu o trabalho com o Memorial sobre a Casa de Pedro (1990).
Sucedeu-lhe o Pe. Loffreda, que investigou as fases bizantina e árabe e
coordenou a coleção científica «Cafarnaum» (9 volumes, SBF). O Pe. Eugenio
Alliata, ofm, catalogou todo o material lapidário do sítio (cf. https://www.custodia.org/it/santuari/cafarnao/).
No lado
nordeste, propriedade do Patriarcado greco-ortodoxo de Jerusalém, as escavações
foram, por sua vez, dirigidas por Vassilios Tzaferis (1978–1987) e revelaram
quatro áreas principais, além de uma imponente muralha marítima com cerca de
200 metros de comprimento e dois cais ortogonais que se estendem para o lago.
Foi também descoberto um pequeno tesouro de 282 dinares de ouro, da época de
transição árabe-bizantina (cf. Mattila, op. cit., pp.
226–228).
A presença
franciscana
Ainda hoje,
os frades da Custódia acolhem diariamente os peregrinos que vêm a Cafarnaum em
busca de um contacto com ‘a cidade de Jesus’, com os lugares onde o seu olhar
se fixou, a sua voz ressoou e a sua mão agiu. O esplendor da sinagoga branca, a
simplicidade das casas de pedra basáltica, a casa de Pedro transformada
primeiro em domus-ecclesia, depois em basílica bizantina e hoje em
memorial de São Pedro, o silêncio do lago à sua frente : tudo fala de uma
presença que a fé reconhece ainda viva. Ao contemplar as ruínas da antiga
Cafarnaum, o peregrino pode imaginar as casas e os habitantes da antiga aldeia,
as cenas narradas pelos Evangelhos e aqui ambientadas, e pode sentir ressoar as
palavras de Jesus sobre o Pão da Vida e professar, juntamente com Pedro :
«Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6,
68).
Fonte : *Artigo na íntegra
https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-09/por-009/cafarnaum-a-casa-do-senhor.html
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