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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Tráfico de pessoas, a outra pandemia

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo da Irmã Benjamine Kimala Nanga, 

Missionária Comboniana

 

‘O meu trabalho principal como missionária é colaborar com a Red Kawsay da Conferência de Religiosos do Peru, uma rede de vida consagrada que começou em 2010 e cujo principal objetivo é lutar contra o tráfico e a exploração de seres humanos. «Kawsay» é um termo quéchua que significa «viver». A Palavra de Deus que inspira o nosso compromisso cristão é o texto evangélico de João (10,10), onde Jesus diz : «Vim para que eles possam ter vida, e vida em abundância.» A rede é constituída por mais de 38 congregações religiosas e alguns padres diocesanos.

Eu e três irmãs de outras congregações acompanhamos um grupo de mulheres e menores de Riveras de Cajamarquilla, um bairro do município de San Juan de Lurigancho, na periferia de Lima, que sofreu muito por causa dos deslizamentos de terra. O objetivo do nosso trabalho é a prevenção, sensibilização e formação em relação ao tráfico de pessoas. Fazemo-lo por meio de diversos cursos de capacitação, que visam fortalecer as mulheres, nomeadamente reforçando a auto-estima das menores e promovendo uma cultura de prevenção e cuidado contra os abusos sexuais.

A minha principal atividade é realizar cursos de formação para professores, administradores, gestores, assistentes, pessoal de apoio, autoridades (polícia, fiscais e pessoal de centros de admissão de menores), catequistas e pais. Fiz um curso de formação ministrado pelo Ministério do Interior do Peru; isso permitiu-me conhecer as leis e falar com fundamento, e não apenas com a experiência.

O sofrimento das vítimas

Conheci diferentes realidades no Peru e contactei muitos jovens que partilharam a sua situação pessoal : falta de trabalho, dificuldade em estudar, situação familiar complicada, etc. São essas situações que facilitam o tráfico humano, um problema de dimensões cada vez maiores. Esta forma de escravidão moderna realiza-se com diferentes propósitos e afeta, sobretudo, as pessoas mais vulneráveis. Em muitos ambientes, a maioria das vítimas são jovens e, em particular, raparigas com menos de 18 anos. 

Um dos casos que mais me impressionou foi o de uma rapariga de 17 anos, originária de uma aldeia da selva peruana. No final da escola secundária foi para a cidade para se preparar para o exame de acesso à universidade. Não passou, pois tinha um nível de estudos mais baixo do que os estudantes da cidade. Para permanecer na cidade, as necessidades foram-se acumulando : estudo, renda do quarto, alimentação... Sem querer, caiu na exploração sexual.

Foi contratada para trabalhar num cibercafé, um local que fornecia serviços de Internet. Um dia, quando lhe liguei, ela disse-me calmamente : «Irmã, podes ligar-me mais tarde?» Ao ouvi-la responder dessa forma, pensei que alguma coisa não estava bem. Dias depois, liguei-lhe novamente. Ela contou-me que já não trabalhava no cibercafé porque tinha sido obrigada a assinar um contrato por um mês para prestar serviços sexuais a homens. Ouvi-a sem a julgar. Com o problema acrescido da pandemia, não pode continuar e regressou à sua aldeia.

As distâncias são um dos principais problemas que enfrentamos, pois muitos dos nossos destinatários (jovens e professores) vivem em áreas muito remotas e de difícil acesso, o que dificulta a continuidade. Outra dificuldade é que, em muitos casos, as pessoas não sabem bem o que significa a expressão «tráfico humano». Muitos ficam confusos e pensam que tem que ver com «tratar bem as pessoas».

Ignoram que o tráfico de seres humanos é uma prática que viola os direitos humanos fundamentais. Um crime que não distingue fronteiras e que tem cada vez mais vítimas no Peru : há menores e adultos que são raptados, coagidos, detidos e reduzidos a vários tipos de exploração sexual; forçados a mendigar nas ruas, onde vivem em condições sub-humanas; ou sofrem com a remoção ilegal dos seus órgãos. Este é um grande problema e tem muitas facetas. Os mais afetados são as crianças e adolescentes.

Tráfico de pessoas em tempo de pandemia

Por causa da pandemia, este ano a situação é muito difícil também para as mulheres, por isso ajudamo-las com produtos alimentares e de higiene básicos, e aproveitamos a oportunidade para sensibilizar e protegê-las da covid-19 e contra o tráfico de seres humanos. Noutras paróquias criámos as chamadas «ollas comunes» [panelas comuns] : compramos os alimentos e as mães, organizadas em grupos, revezam-se para cozinhar e distribuir a comida de acordo com o número de pessoas em cada família. 

Embora as fronteiras estivessem fechadas devido à covid-19, o tráfico de seres humanos aumentou. Os traficantes usam outras formas para continuar a atrair e enganar potenciais vítimas, principalmente através da Internet e das redes sociais. Basta pensar em qualquer jovem que perdeu o emprego durante a pandemia e ainda está desempregado, e se alguém lhe oferecer uma oportunidade de emprego no estrangeiro, dizendo-lhe : «Quando a pandemia acabar e as fronteiras abrirem, convido-te para ires a esse país... ou podes ir para os Estados Unidos ou para a Europa, onde podes trabalhar e estudar ao mesmo tempo.» Aquele jovem vai acreditar, pensando que essa oferta é verdadeira.

Por impossibilidade de nos deslocarmos no país devido à pandemia, oferecemos cursos de formação para jovens e professores por videoconferência. Informamos sobre as estratégias que os traficantes usam para convencer as pessoas, alertamos para o perigo que é dar informação pessoal ao primeiro que encontram e de aceitar desconhecidos nas redes sociais. Que investiguem e descubram primeiro se será verdade quando recebem propostas de trabalho. Na ausência de aulas presenciais, difundimos vídeos em que falamos de tráfico, das suas causas e consequências físicas e psicológicas com o objetivo de prevenir este flagelo.

Graças ao nosso trabalho, temos visto resultados e as pessoas começaram a reportar mais frequentemente o tráfico. Não há muito tempo, uma jovem disse-me : «Irmã, ontem à noite vi uma oferta de emprego na Internet. E como nos tinhas falado disto, perguntei-lhe se era verdade. Depois de dois dias, a informação tinha desaparecido. Era um anúncio falso

Nestes anos também aprendi a relativizar muitas questões específicas da minha cultura. No meu país, o Chade, falar de sexo é tabu, mas aqui tenho de falar claramente com jovens que chamam as coisas pelo seu nome, sem complexos, mas com respeito. No início não foi fácil. Também vejo que é necessário adaptar a nossa linguagem ao contexto onde trabalhamos.

Aqui a vida é muito simples, somos muito próximas das pessoas e trabalhamos com elas. É uma população vulnerável que precisa de se envolver na procura de soluções, pois só assim podem avançar. Quando termino um curso com jovens, pergunto-lhes : «O que farias? Que compromisso assumes para ser um agente multiplicador desta formação?» Às vezes dizem que querem fazer alguma coisa, mas não sabem, por isso digo-lhes que ponham as ideias na mesa e falem sobre o tema. Muitos grupos ligam-me para me falar das atividades que estão a fazer. Tudo isso me encoraja e ajuda-me a continuar a trabalhar, porque esse era o sonho de São Daniel Comboni : formar líderes que gerem a mudança, formar a Igreja local.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra https://www.combonianos.pt/alem-mar/actualidade/6/602/trafico-de-pessoas-a-outra-pandemia/

domingo, 11 de agosto de 2019

Escravidão persiste na África Ocidental 400 anos após início de comércio transatlântico


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Angela Ukomadu e Nneka Chile


‘Blessing tinha só seis anos de idade quando sua mãe fez arranjos para ela se tornar uma empregada doméstica desassalariada de uma família da cidade nigeriana de Abuja com a promessa de que eles a colocariam na escola.

Em sua cidade natal do sudoeste da Nigéria, sua mãe tinha dificuldade para ganhar o suficiente para alimentar os três filhos. Mas quando Blessing chegou a Abuja, em vez de ir para a escola, a família a fazia trabalhar o dia todo, a espancava com um fio elétrico se ela esquecia uma de suas tarefas e a alimentava com sobras estragadas.

Mais tarde, quando sua mãe se mudou para a mesma cidade para ficar mais perto da filha, Blessing não tinha permissão de ficar a sós com ela durante as visitas.

Eles me diziam que minha mãe estava vindo, que eu não devia lhe dizer o que estava acontecendo comigo, que nem devia dizer nada’, diz ela sobre a família.

Se ela me perguntasse como estou, devia dizer que estava ótima, diziam’.

No momento em que o mundo lembra os 400 anos transcorridos desde que os primeiros escravos africanos registrados chegaram à América do Norte, a escravidão persiste como um flagelo dos tempos modernos. Estima-se que mais de 40 milhões de pessoas estejam submetidas a trabalhos forçados, casamentos forçados e outras formas de exploração sexual, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Blessing, hoje com 11 anos, é uma destas vítimas. Ela foi resgatada em 2016 pela Fundação de Erradicação do Tráfico de Mulheres e do Trabalho Infantil (Wotclef, na sigla em inglês), um grupo de combate ao tráfico humano, depois de dois anos de isolamento e abusos. Ela ainda está sob os cuidados da Wotclef, que consentiu que ela fosse entrevistada para esta reportagem.

Blessing é um pseudônimo exigido para proteger seu anonimato.

A África tem a maior prevalência de casos de escravidão, com mais de sete vítimas para cada mil pessoas, segundo um relatório de 2017 do grupo de direitos humanos Walk Free Foundation e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O relatório define escravidão como ‘situações de exploração que uma pessoa não consegue recusar ou deixar por causa de ameaças, violência, coerção, artimanhas e/ou abuso de poder’.

O tráfico sexual, que ludibria muitas pessoas levadas a crer que trabalharão em outra coisa, é uma das formas mais disseminadas e abusivas de escravidão moderna.


Fonte :

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

“Juju”: o vínculo surpreendente e assustador entre magia negra e tráfico humano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 juju


 ‘São crescentes as notícias sobre mulheres nigerianas que foram subjugadas pelas máfias da exploração sexual e do tráfico de pessoas mediante o recurso ao terror provocado nelas por ritos de magia negra relacionados com o assim chamado ‘juju’.

Esse termo não se refere a um ritual específico, mas sim, de modo geral, a um conjunto tradicional de crenças animistas presentes na África Ocidental, em particular na Nigéria, e relacionadas com a magia negra. A palavra ‘juju’, em certo sentido, evoca um conceito semelhante ao de ‘tabu’ nas sociedades polinésias : tem a ver com o que é sobrenatural, assustador, poderoso e que não deve ser desafiado. É uma dimensão obscura do sobrenatural. Envolve seres malignos e vingativos com os quais seria possível fazer determinados pactos, selados durante rituais que incluem oferendas e sacrifícios de animais.

Ficará mais fácil começar a entender este conceito difuso com o exemplo que relataremos a seguir.

Em algumas regiões da Nigéria, mulheres jovens, muitas vezes ainda adolescentes, são recrutadas em seus povoados com falsas promessas de trabalho na Europa ou na Ásia. Pressionadas por suas famílias, que vislumbram nessas promessas a ilusória oportunidade de sair da pobreza, as jovens são induzidas a aceitar tais propostas – às vezes, no fundo, sabendo que o ‘trabalho’ envolverá a venda do próprio corpo, mas, na maioria dos casos, sem suspeitar do inferno que realmente as espera.

Aceitar essas ofertas de ‘trabalho’ implica aceitar também uma dívida altíssima, a ser paga em dólares ou euros : as máfias recrutadoras explicam que, do salário que vierem a receber, as jovens terão que destinar uma parte a saldar os seus custos com passagem, visto, hospedagem, alimentação. O que elas não sabem é que os valores da dívida serão inflados de modo impagável, amarrando-as a uma escravidão sem perspectivas de libertação. As dívidas, arbitrariamente determinadas pelos exploradores, frequentemente ultrapassam os 100 mil dólares.

Mas não é a soma estratosférica em dinheiro o que subjuga com mais eficácia as escravas nigerianas do terceiro milênio : é a aterrorizante ‘dívida espiritual’ que, sob pressão, elas acreditam que também estão assumindo ao aceitarem a ‘oferta de trabalho’.

É aqui que entra o ‘juju’.

Para comprovar o seu comprometimento em pagar a dívida, as jovens são submetidas a rituais de magia negra. Nessas cerimônias, são colhidas amostras de suas unhas, cabelos e até pelos púbicos. Tudo é misturado com o sangue de animais oferecidos em sacrifício durante o mesmo rito e levado em oferenda a obscuras divindades como um pacto irrevogável. Esse pacto é simples : as mulheres se comprometem a saldar completamente a dívida em dinheiro; do contrário, assumirão consequências espirituais aterrorizantes.

O ritual funciona, portanto, como uma espécie de ‘caução’, uma garantia ‘espiritual’ de que essas jovens de baixa educação formal, profundamente crédulas em tradições tribais imemoriais, pagarão a dívida assumida com os seus ‘recrutadores’ para não sofrerem a pavorosa maldição que recairia sobre elas próprias e sobre as suas famílias se rompessem o pacto. Apavoradas, elas se tornam reféns de corpo e de mente : longe de casa, transferidas quase sempre clandestinamente a países como Itália, Espanha, Turquia, vigiadas implacavelmente o tempo todo, elas são forçadas pela impossibilidade de pagar o impagável a se prostituírem diariamente, até dezenas de vezes por dia, durante anos e anos a fio, em condições de absoluta e abominável desumanização e terror psicológico.

Importante : quando se fala em ‘exploradores’, não se está falando apenas em vilões do sexo masculino. De acordo com o Escritório contra Drogas e Crime (Unodc), departamento da ONU, quase a metade dos traficantes humanos da Nigéria são mulheres. Conhecidas como ‘madames’, elas são, na maioria dos casos, ex-vítimas que se tornaram uma combinação de cafetinas, recrutadoras e sequestradoras : para tentarem escapar elas próprias da prostituição, passam a enganar outras mulheres e, por conseguinte, eternizam o ciclo de escravização humana sem que a consciência as consiga impedir.

O ‘juju’

Os rituais de ‘juju’ se contextualizam na complexa teia de crenças animistas que permeia as culturas tribais da África Ocidental.

animismo não é uma religião hierárquica e dogmaticamente organizada, mas uma visão de mundo em que, grosso modo, não há uma clara separação entre o material e o espiritual : praticamente tudo pode ser ‘habitado’ por espíritos, inclusive plantas, rochas, rios, trovões, o vento, as sombras. Essa visão de mundo engloba um conjunto amplo e polifacético de mitos cosmológicos e ritos mágicos que, no geral, não se voltam prioritariamente ao louvor de divindades ou à busca da salvação da alma, e sim à obtenção de soluções imediatas para problemas do dia-a-dia. Embora o animismo em si mesmo não seja uma religião institucionalizada, foram surgindo dele, ao longo do tempo, inúmeras manifestações religiosas mais definidas, que, trazidas com o tráfico de escravos entre África e América, estão hoje arraigadas em várias partes do Novo Mundo : é o caso, por exemplo, do vodu haitiano, da ‘santería’ cubana e das religiões afro-brasileiras, que, pelo processo de sincretismo religioso, foram também incorporando diversos aspectos do cristianismo.

A influência dessa ancestral visão de mundo também perdura na África Ocidental em paralelo com as grandes religiões monoteístas. De fato, na Nigéria, o Estado de procedência de quase 90% das escravas sexuais traficadas para a Europa é majoritariamente cristão : Edo, com cerca de 3 milhões de habitantes. Apesar de nominalmente cristã, grande parte da população local mantém vivos muitos elementos culturais caracteristicamente animistas.

Um deles é o sombrio conceito de ‘juju’.’


Fonte :

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Prostituição e tráfico de menores africanos entre máfias e redes sociais


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Com mais e mais jovens nas ruas, organizações católicas se comprometem com sua causa.
*Artigo de Francesco Peloso,
jornalista


 ‘Ela é uma menina entre 14 e 20 anos, como qualquer outra, sozinha ou de uma família que tem problemas econômicos, no sul da Nigéria. Ela é abordada por uma ‘maman’, uma mulher de 40 anos que tem uma aparência rica, que a convida para ir à Europa prometendo-lhe um emprego e dinheiro fácil. Ela também pode ser abordada em uma das muitas igrejas pentecostais que foram construídas recentemente, onde acha que pode encontrar um ambiente seguro, neste caso, pode até ser um ‘pastor’ que fala com ela o mesmo que a maman. Às vezes, aproximam-se a elas através de uma mensagem via Facebook ou Whatsapp vindo de um futuro ‘namorado’, que lhe diz que está esperando por ela na Itália e já pediu asilo e, além disso, a convida a se juntar a ele. Em outros casos, ela passa por rituais mágicos durante os quais faz promessas que não podem ser quebradas ou de outra forma algo ruim aconteceria com seus familiares.

A viagem para a Itália é longa, da Nigéria ela chega ao Níger, depois à Líbia, a Trípoli, depois sobe na balsa que a levará para a Itália em uma viagem indescritível. Ela quase certamente será estuprada, até pela polícia que patrulha as fronteiras, enquanto uma rede de organizadores, os ‘drivers’, constantemente acompanham sua jornada. São eles que a ‘ajudam’ a atravessar fronteiras e chegar as costas italianas. Uma vez na Itália, depois de cruzar as portas de um centro de recepção, a menina deverá ligar para um número de telefone que lhe foi dado no início de sua provação, assim ela entrará em contato com aqueles que a abordaram no princípio prometendo trabalho, dinheiro e outras coisas. O sonho de uma vida melhor, mas em vez disso a colocarão no inferno da prostituição nas ruas italianas. A ‘maman’ é outra traficante de seres humanos : jovens e minores da África, detidos por organizações criminosas étnicas e italianas que exploram as fraquezas do sistema de acolhimento, uma rede transnacional que gera lucros vertiginosos - e, obviamente, totalmente ilegais -, de modo que é difícil dizer quantas meninas estão nas ruas, certamente dezenas de milhares, entre 50 e 100 mil.

A história é mais ou menos sempre a mesma, com poucas variações : no fundo, ameaças à família, tortura em caso de rebelião, o risco muito real de morrer. A questão da prostituição ligada ao tráfico de seres humanos voltou a ser atual quando o Papa, em 19 de março passado, em uma reunião preparatória do próximo Sínodo dos Jovens (outubro de 2018), falou com Blessing Okoedion, uma jovem vítima do tráfico, da Nigéria, que perguntou ao Papa Francisco : ‘O que mais me preocupa é a alta demanda, há muitos clientes e muitos deles, como já foi dito, são católicos’. ‘Pergunto-me e lhe pergunto : a Igreja é ainda tão chauvinista até o ponto de não ser capaz de se perguntar com sinceridade sobre essa alta demanda de clientes católicos?A resposta de Bergoglio foi bastante longa e complexa, até severa : ‘É um crime contra a humanidade, é um crime mesmo contra a humanidade e nasceu de uma mentalidade doentia que crê que as mulheres devam ser exploradas’, afirmou.

Francisco falou então de uma clientela feita de muitos ‘batizados’. O tema é claramente dramático por causa de suas muitas implicações, mas há aqueles que há muito tempo lutam contra o duplo flagelo do tráfico e da prostituição, como a Comunidade do Papa João XXIII. ‘As meninas são contatadas hoje também por meio das redes sociais, em especial do Facebook e do Whatsapp - explica Irene Ciambezi, comprometida com a comunidade e autora do livro ‘Não estamos à venda’, sobre escravos adolescentes que são atraídos - meninas que nem concluíram ainda o ensino médio, têm 14 a 15 anos de idade - pois estão em um estágio de suas vidas em que ainda não desenvolveram uma personalidade e não têm objetivos claros para o futuro.

A origem desta situação pode ser um contexto familiar muito pobre, para o qual faltam recursos suficientes para terminar a escola. ‘Quando não é possível avançar na educação’, explica Irene, ‘facilmente terminam nas redes de traficantes. Eles atraem crianças, meninas de diferentes faixas etárias diferente de anos passados, quando as vítimas tinham entre 24 e 25 anos. A promessa de um trabalho fácil na Europa está na base; durante a viagem, então - usando um telefone celular, redes sociais - elas confiam em alguém que ‘guia’ sua migração’.

A rota principal ainda é a Líbia, que agora está mudando para a Argélia, mas sempre através do Níger : Ao longo do caminho há toda uma rede de intermediários que acompanham a garota, quem carrega um número de celular com o qual ela terá que entrar em contato assim que chegar na Itália. Os intermediários organizam, por exemplo, a travessia de várias fronteiras, como a fronteira entre o Níger e a Líbia. Uma vez na costa, elas têm que esperar pela embarcação, atravessar o Mar Mediterrâneo, chegar à costa italiana e depois serem transferidas para os vários centros. Nesse momento - as garotas são instruídas a ligar para o número que lhes foi dado no começo. E é nesse ponto que surge o ‘driver’ final, a pessoa que as levará ao trecho final de seu destino.

Esta ‘viagem’, custa entre 35 e 40 mil euros, uma quantia muito elevada, afinal é uma característica do tráfico para fins sexuais, mais uma forma de exploração para a qual existem muitos intermediários a pagar, desde a ‘maman’ até os ‘drivers’, e muitos outros tipos de máfias. O fenômeno está sempre mudando : até agora o importante papel desempenhado por essas mamans, mulheres na faixa dos 40 anos, que viajam de Itália a Nigéria e de volta, para organizar o tráfego. ‘Hoje, no entanto - observa Irene Ciambezi - há também igrejas que nascem de maneira absolutamente autônoma e que não têm nenhuma relação com o mundo protestante, igrejas pentecostais nas quais os próprios pastores são organizadores ou intermediários dessas formas de exploração. O papel desses ‘namorados’ que enganam e atraem também está crescendo. Os próprios namorados estão na rede de requerentes de asilo’.

A partir da experiência no campo e da colaboração com as Forças da Lei e da Ordem, surge cada vez mais uma conivência entre as organizações criminosas africanas e italianas, como a 'Ndrangheta e a Camorra’, em particular nas regiões do sul. O relatório da Comissão de Investigação Anti-Mafia de 2017 também fala disso. Mas o fenômeno atravessa os centros de recepção : ‘Os traficantes e exploradores conhecem nosso sistema de recepção e como se organizar para pegarem as vítimas assim que recebem a ligação da garota. Depois disso, elas serão treinadas para ficarem nas ruas’.

Para combater a exploração - diz Irene - acreditamos que precisamos de uma rede de colaboração muito forte, temos 25 unidades de rua em toda a Itália, devidamente treinadas, mas também temos muitos voluntários, entre eles os que vêm do Agesci, dos Focolares, da Ação Católica. Precisamos então cooperar com a polícia. No entanto, assim que uma menina é tirada da rua, ela é substituída por outra, a rotação é muito alta. As histórias são quase diárias, apenas recentemente, uma garota que afirmava ter 20 anos de idade entrou em contato com a Comunidade do Papa João XXIII; depois de uma série de entrevistas, estabeleceu-se uma relação de confiança e descobriu-se facilmente que tinha apenas 17 anos de idade. Ela pediu ajuda e foi levada para outra região por razões de segurança. Mas, igualmente importante, é o trabalho que deve ser feito com a família de origem, as ameaças de retaliação são de fato muito fortes. Quando possível, os membros da família na Nigéria também devem ser ajudados a mudar de região e moradia. De muitas maneiras, a redescoberta de uma dimensão religiosa é importante.

No fundo, o tema da alta demanda permanece, o verdadeiro motor dos lucros da prostituição. É evidente - salienta Irene - que os clientes estão agora à procura de pessoas mais vulneráveis porque vão submeter-se ao que querem e pedem, são moças que vêm de outros países, por isso é mais fácil pedir serviços sexuais de qualquer tipo. A idade também é cada vez mais baixa, há um problema de dignidade da pessoa e também igualdade de gênero porque as mulheres menores de idade são mais exploradas. Várias associações estão propondo a introdução de uma sanção administrativa, após o modelo francês - para os clientes. Um passo crucial para começar a lidar com esse fenômeno.

Gabriella Bottani, uma religiosa de origem comboniana da rede internacional de organizações religiosas antitráfico, ‘Thalita Kum’, aponta que o fenômeno assumiu uma dimensão mundial. O recrutamento, explica ela, ocorre explorando as necessidades econômicas, aproveitando-se das famílias e, às vezes, com o envolvimento das igrejas pentecostais. Outro capítulo é o dos rituais mágicos. A garota - explica a irmã Bottani - é colocada diante de um líder religioso e pedaços de sua roupa e cabelo são tirados dela. Ela deve então prometer não se rebelar e permanecer fiel ao compromisso assumido. Se esta restrição for quebrada, algo de ruim pode acontecer com ela ou com os membros de sua família. É por isso que a pessoa não se revolta, tem medo.

No entanto, ‘é a presença de uma clientela - a religiosa aponta - que produz um enorme fluxo de dinheiro’. Essa grande quantidade de dinheiro é o que move esse tipo de mercado e a razão pela qual o tráfego é continuamente alimentado e as pessoas são ‘consumidas’ através do sexo. Não sei até que ponto os clientes estão cientes de que estão consumindo uma pessoa, além disso, na frente de menores, não há dúvidas de que estamos enfrentando um crime. ‘Há uma reversão das coisas - observa a irmã Bottani - os adultos devem ser as pessoas que cuidam de menores, mas agora temos menores que cuidam das necessidades e desejos dos adultos, sem mencionar que um limite está quebrado, o de sexualidade’.

A reintegração das meninas que são tiradas do caminho da prostituição não é óbvia nem fácil : ‘A reintegração é possível quando há meninas que não têm feridas profundas, que já têm educação prévia e têm caminhos de vida mais sólidos. São caminhos difíceis e não são muitas as que conseguem repensar e reorganizar suas vidas’.’


Fonte :

terça-feira, 6 de março de 2018

Freiras queixam-se do salário e da forma como são tratadas


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 A editora-chefe diz que quer dar voz a estas irmãs e entende que elas são exploradas pela Igreja Católica.


‘A revista do Vaticano para o público feminino, a Women Church World, expôs, na sua edição de Março, a forma servil como são tratadas algumas freiras pelos cardeais e bispos da Igreja Católica, para quem trabalham e cozinham a troco de quase nada.
O artigo central da revista publicada pelo Osservatore Romano, intitulado ‘O trabalho (quase) gratuito das freiras’, é assinado pela jornalista francesa Marie-Lucile Kubacki, a correspondente em Roma da revista La Vie, do grupo Le Monde. A editora da revista é Lucetta Scaraffia, professora de História da Universidade La Sapienza, em Roma. ‘Até agora ninguém teve a coragem de denunciar estas coisas’ publicamente, disse à AP. Scaraffia contou à AP que o Papa Francisco lhe disse que lê e gosta da revista.
Algumas deles servem nas casas de bispos e cardeais, outras trabalham nas cozinhas das instituições católicas ou ensinam. Há quem, para servir os homens da Igreja, se levante de manhã para fazer o pequeno-almoço e só se deite quando estiver tudo limpo, a roupa lavada e engomada’, diz a irmã Maria, nome fictício. Acrescentou que as freiras servem o clero mas ‘raramente são convidadas a sentar-se nas mesas que servem’.
A falta de salário digno para o trabalho desempenhado não é novidade na Igreja Católica, mas a Women Church World foi pioneira na forma como o abordou. No artigo principal, expõe-se a falta de contratos das mulheres que vão para os prelados. Quando adoecem, as trabalhadoras são enviadas de novo para a congregação e rapidamente substituídas por outras.
A editora diz querer dar voz a estas irmãs, mas conta-se entre as exploradas da Igreja Católica : afinal de contas, os redatores e os editores da revista trabalham gratuitamente. A revista foi fundada com dinheiro dos correios italianos e paga aos seus colaboradores pelos artigos, mas sai todos os meses devido ao esforço gratuito dos editores.
Há freiras com intelectos brilhantes que prosseguem estudos, mas não podem pô-los em prática, uma vez que o avanço em termos pessoais é desencorajado, explicou a irmã Paule (nome fictício) à revista. ‘Por detrás está sempre a ideia infeliz de que as mulheres valem menos do que os homens, e de que os padres são tudo na igreja e de que as irmãs não são nada’, acrescentou.
A razão para o silêncio de muitas freiras é o fato de virem de longe, dos continentes africano, asiático ou sul-americano, fazerem os seus estudos religiosos no Vaticano pagos pelas congregações. Sentem-se em dívida e por isso não se querem queixar do trabalho que desempenham : ‘Elas sentem-se em dívida, amarradas, e por isso mantém-se caladas’, disse a irmã Maria, que também foi de África para Roma para prosseguir os estudos.
A revista tem feito opções editoriais que não agradaram a todos na Igreja Católica. O número de Março de 2016, sobre o tema Mulheres que Pregam, tinha um artigo em que se defendia que as freiras deviam poder dar homilias. A autora do artigo teve de se defender publicamente e dizer que não queria sugerir uma mudança nem na doutrina nem na prática. O número de Dezembro de 2017 explorou o tema O Poder Simbólico do Corpo Feminino e a violação enquanto forma de tortura.
A edição deste mês explora temas como as diferenças salariais de gênero e a falta de mulheres em posições de chefia. O movimento sul-americano Ni Una Menos, contra o femicídio e a violência contra as mulheres, também teve espaço nesta edição da Women Church World.
O Papa Francisco não é alheio a estes temas – na visita ao Peru denunciou o femicídio e a violência contra as mulheres, comum na América do Sul, onde nasceu. Também tem pedido, frequentemente, que se dignifique o trabalho feminino e o salário.’


Fonte :

sábado, 29 de outubro de 2016

Prêmio Sakharov atribuído a duas iraquianas raptadas pelo Estado Islâmico

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Resultado de imagem para Murad Basee Taha e Lamiya Aji Bashar

‘O Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento foi atribuído a Nadia Murad Basee Taha e Lamiya Aji Bashar, duas jovens yazidis que foram raptadas pelo autoproclamado Estado Islâmico e sobreviveram para contar a sua história.

A comunidade yazidi é uma minoria religiosa que tem sido objeto de uma campanha de genocídio por militantes do Estado Islâmico no Iraque.

Nadia Murad e Lamiya Aji são ambas vítimas e sobreviventes da violência do grupo Estado Islâmico contra esta comunidade.

Violentadas sexualmente e escravizadas pelo grupo islamita durante meses, como milhares de outras mulheres yazidis, Nadia e Lamiya são atualmente as porta-vozes da luta pelo reconhecimento dos crimes de guerra levados a cabo pelo EI, nomeadamente o genocídio da comunidade Yazidi.

Foi graças aos relatos das duas mulheres que a comunidade internacional se apercebeu da campanha de violência sexual levada a cabo pelo grupo islamita.

O Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento foi instituído em 1988 e é atribuído a pessoas que tenham dado uma contribuição excecional para a luta em prol dos direitos humanos em todo o mundo, chamando a atenção para as violações dos direitos humanos.


Informações gerais sobre as laureadas

Em 3 de agosto de 2014, o EI assassinou todos os homens da aldeia de Kocho, cidade natal de Lamiya Aji Bashar e Nadia Murad em Sinjar, no Iraque. Na sequência do massacre, as mulheres e as crianças foram escravizadas : todas as jovens, incluindo Lamiya Aji Bashar, Nadia Murad e as suas irmãs foram raptadas, compradas e vendidas várias vezes, e exploradas para fins de escravatura sexual. Durante o massacre de Kocho, Nadia Murad perdeu seis dos seus irmãos e a mãe, que foi morta juntamente com oitenta mulheres mais idosas consideradas como não tendo qualquer valor sexual. Lamiya Aji Bashar também foi explorada como escrava sexual, juntamente com as suas seis irmãs. Foi vendida cinco vezes entre os militantes e forçada a fabricar bombas e coletes suicidas em Mossul depois de os militantes do EI executarem os seus irmãos e o pai.

Em novembro de 2014, Nadia Murad conseguiu fugir com a ajuda de uma família vizinha, que a retirou clandestinamente da zona controlada pelo EI, permitindo-lhe seguir para um campo de refugiados no norte do Iraque e depois para a Alemanha. Um ano mais tarde, em dezembro de 2015, Nadia Murad dirigiu-se ao Conselho de Segurança das Nações Unidas na sua primeira sessão sobre tráfico de seres humanos com um discurso de grande impacto sobre a sua experiência. Em setembro de 2016, tornou-se a primeira embaixadora da Boa Vontade do UNODC para a Dignidade dos Sobreviventes do Tráfico de Seres Humanos, participando em iniciativas de sensibilização globais e locais sobre a difícil situação das inúmeras vítimas do tráfico de seres humanos. Em outubro de 2016, o Conselho da Europa homenageou-a com o Prêmio dos Direitos Humanos Václav Havel.

Lamiya Aji Bashar tentou fugir várias vezes até escapar finalmente em abril, com a ajuda da sua família, que contratou passadores locais. Ao fugir da fronteira curda para território controlado pelo Governo do Iraque, com militantes do EI no seu encalço, uma mina terrestre explodiu, matando duas pessoas das suas relações e deixando-a ferida e quase cega. Felizmente, conseguiu escapar e acabou por ser enviada para tratamento médico na Alemanha, onde se juntou aos seus irmãos sobreviventes. Desde a sua recuperação, Lamiya Aji Bashar tem trabalhado ativamente na sensibilização para a difícil situação da comunidade yazidi e continua a ajudar mulheres e crianças que foram vítimas da escravatura e das atrocidades do EI’.
  

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