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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Bento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 


*Artigo da Comunidade Mundial para Meditação Cristã

 

‘Pode a busca por um caminho espiritual levar ao próprio egocentrismo do qual tenta escapar? Não raramente. Os monges do deserto estavam profundamente conscientes desse perigo, especialmente na solidão, e confiavam sobretudo na relação abade-discípulo para evitá-lo. Foi, no entanto, Bento de Núrsia (480-550) quem concebeu uma fórmula magistral e sapiencial de formação para a vida mística, baseada na comunidade em vez de um mestre pessoal. Sua Regra , porém, é magistral sobretudo em sua modéstia – e apesar de não conter nenhuma doutrina mística direta.

Até mesmo seu nome é anônimo, significando ‘o bem-aventurado’, como Buda era frequentemente chamado por seus seguidores. A história de sua vida é conhecida por meio de relatos lendários de milagres, coletados como ilustrações teológicas pelo Papa Gregório, um ex-monge da Regra de São Bento. Esses relatos inspiraram inúmeras obras de arte, com destaque para os belíssimos afrescos de Signorelli e Sodoma no Monte Oliveto Maggiore, que por si só já valeriam uma semana de retiro. Bento iniciou sua jornada monástica de forma tipicamente desértica. Abandonou os estudos em Roma (‘sabiamente ignorante’), algo curioso para o fundador do sistema que preservou o conhecimento na Idade das Trevas. Tomou o hábito de um eremita próximo e passou anos em uma gruta (Sacro Speco) em Subiaco, perto de Roma, ainda hoje um dos lugares mais sagrados e repletos de presença espiritual do mundo. Ensinou o Evangelho aos camponeses pagãos ao seu redor, antecipando o ramo missionário de sua linhagem espiritual nos séculos futuros. Quando alguns monges sem liderança nas proximidades imploraram que ele viesse ser seu abade, ele, gentilmente, mas imprudentemente, aceitou. Ele era rigoroso demais para eles e, não pela última vez na história monástica, a comunidade tentou assassinar seu abade. Ele os deixou, mas permaneceu na forma cenobítica (comunitária) de vida monástica, em vez de retornar à solidão. Ele fundou doze mosteiros, cada um com doze monges. Sociólogos modernos que leem a regra notam a ênfase no pequeno número de monges para uma dinâmica de grupo saudável. Mesmo na grande comunidade, ele organiza os membros em ‘decanatos’ de dez. Contudo, no Capítulo Um de sua Regra sobre ‘Os Tipos de Monges’, ele vê a solidão como o objetivo. Após um período ‘longo’ não especificado no mosteiro, aqueles que ‘fortaleceram-se … passam da linha de frente nas fileiras de seus irmãos para o combate solitário no deserto’.

A simbologia militar pode parecer mais adequada para homens brincando de soldados. No entanto, as mulheres, incluindo a própria irmã de Bento, Escolástica, que, segundo uma história, rezava melhor e com mais sabedoria do que o irmão, respondem tanto quanto os homens, com certas adaptações, à sabedoria psicológica da Regra. O objetivo do símbolo militar não é o uso da força, mas a solidariedade, a obediência e a boa gestão em uma missão coletiva. A breve Regra provavelmente foi composta ao longo de muitos anos e parece ter um segundo final anexado. A maior parte do material foi extraída diretamente da Regra do Mestre, uma das muitas outras regras monásticas contemporâneas. O Papa Gregório, com a eficiência centralizadora romana , selecionou a de Bento para uso em toda a Igreja Ocidental. O gênio de Bento se revela no que ele omitiu de seu original e no Prólogo, que é de sua autoria. Ele tinha consciência de que estava criando uma regra mais branda do que as da era dourada. ‘Lemos que os monges não devem beber vinho de forma alguma, mas, como os monges de nossos dias não podem ser convencidos disso, concordemos ao menos em beber com moderação.’ Essa via média e o bom senso, aliados a uma estrutura de vida firme, porém flexível, e a princípios perenemente válidos de gestão do tempo, fizeram da Regra, depois da Bíblia, o texto mais influente da civilização europeia por um milênio. Abades e líderes empresariais ainda a utilizam e recorrem a ela em busca de luz sobre questões sociais contemporâneas. E, curiosamente, os melhores comentários sobre a Regra podem não ter sido escritos, como frequentemente se afirma, em quartos de hotel, mas certamente são compostos hoje por mulheres e, sem dúvida, um dia por Oblatos.

A Regra é uma obra-prima de racionalidade, modéstia e autotranscendência. No último capítulo, geralmente o menos comentado, Bento a chama de uma pequena Regra para iniciantes . Aqueles que desejam prosseguir para o ensino médio ou mesmo para a pós-graduação devem consultar Cassiano e os padres. Então, de que maneira essa pequena Regra prepara aqueles que buscam a Deus e anseiam pela experiência contemplativa de ver a Deus e ouvir a Sua Palavra? Primeiramente, identificando o próprio chamado : ‘Há alguém aqui que anseia pela vida e deseja ver a Deus?’. Citando salmos e a literatura sapiencial, como costuma fazer, Bento identifica a busca por Deus com o objetivo da vida humana. Essa vida não deixa de ser humana e variável uma vez que o objetivo esteja sendo buscado. Quando o ‘primeiro fervor da conversão’ se dissipa, seus irmãos não parecem mais santos ou mesmo melhores amigos. A estabilidade, então, é um dos votos que Bento define e requer perseverança tanto física quanto mental. Ele teria gostado do ditado rabínico : ‘Você não é obrigado a ter sucesso, mas não tem permissão para desistir’. Mas, sendo Bento, ele sabe que as pessoas desistirão, e por isso dá ao monge três chances antes que ele seja expulso e não possa retornar.

Para equilibrar a estabilidade que, de outra forma, se tornaria estática, seu segundo voto enfatiza o compromisso com uma conversão contínua de vida e conduta, uma forma da busca incessante por Deus na vida mística descrita por Gregório de Nissa. E a obediência – idealmente ou eventualmente praticada sem demora, espontaneamente e por amor, não por medo – completa a tríade. A obediência deve ser praticada verticalmente em relação ao abade e horizontalmente entre os monges, tornando-se assim semelhante à de Cristo. Ao contrário de ordens religiosas posteriores que viam a vontade de Deus nos mandamentos do superior, Bento permite ao monge apelar caso lhe seja ordenado fazer algo que considere impossível. Se falhar, ele deve fazer o possível para obedecer e confiar em Deus.

O mosteiro é o laboratório onde os votos e as ‘ferramentas das boas obras’ preparam o monge para os desafios mais elevados. Se bem administrado, torna-se um lugar tão amoroso e libertador que se assemelha ao cume, mas isso depende de uma boa gestão. Primeiramente, a gestão do tempo, encontrando o equilíbrio certo entre o trabalho físico, a lectio (leitura espiritual) e a oração, que correspondem à composição do ser humano como corpo, mente e espírito. O tipo de oração que Bento descreve é a salmodia e a leitura comunitárias – uma lectio coletiva que serve de preparação para a verdadeira oração contemplativa. O estresse é a ruptura da harmonia humana natural. A paz é o bom funcionamento de todos esses elementos. A murmuração (fofoca e queixa) é especialmente destacada por seu ataque corrosivo à paz. A gestão organizacional na Regra demonstra as virtudes romanas da paternidade da gravidade, com pouco espaço (pelo menos oficialmente) para a alegria. Em suma, o abade tem uma tarefa impossível. Ele deve ser capaz de manter a lista das ferramentas distribuídas para o trabalho a cada dia e adaptar-se constantemente a cada temperamento diferente. Ele tem a palavra final, mas está sujeito à Regra e deve consultar.

É uma descrição maravilhosa, breve, vívida e humana do estilo de vida cristão, no qual ‘todos os membros viverão em paz’. Exceções confirmam qualquer regra, e Bento faz muitas delas, especialmente para os idosos, os doentes e as crianças, os membros mais vulneráveis de qualquer sociedade. As fraquezas do corpo e do caráter são tratadas com paciência – uma característica rara na maioria das doutrinas espirituais. No entanto, há uma determinação inabalável (‘não preferir nada ao amor de Cristo’) que jamais transforma moderação em concessão. Ao se concentrar no cotidiano, como faz, Bento alcança algo surpreendente. Vemos Deus refletido no ordinário – Cristo dançando em mil lugares. E, no entanto, ele insiste que isso ainda é o jardim de infância espiritual, apenas o começo.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.wccm.org.br/ensinamento-semanal/bento-2/

terça-feira, 21 de outubro de 2025

O celeireiro na Regra de São Bento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Médard Kimengwa, OSB

Mosteiro de Lubumbashi, Kiswishi (RDC)


Um pai para toda a comunidade, tal como o Abade e com ele[1] 

‘Por que nos interessar pelo espírito e pela motivação que devem animar as ações do celeireiro em uma comunidade monástica de tradição beneditina?

Pertencemos a um mundo que tem uma concessão de economia, não sempre em harmonia com o nosso ideal monástico e cristão em geral. O problema é que, basicamente, somos herdeiros da cultura grega desde Platão, de uma antropologia (uma visão do homem e do composto humano) dualista. Portanto negativa. Trata-se de uma concessão do Homem que dissocia o corpo e o espírito. Esta antropologia dualista determina a concessão atual da economia até uma simplificação errada que chega a parecer uma caricatura.

Esta concessão faz uma clara separação entre vida econômica (temporal) e vida espiritual. Assim, o superior religioso, abade/abadessa ou prior/prioresa, no nosso contexto beneditino, é a pessoa que tem como única e exclusiva responsabilidade o cuidado das almas, quer dizer, sem relação com a vida material, temporal (tudo o que diz respeito à produção dos bens, os meios para obtê-los, assim como a sua administração), que seria, então, reservada ao ecônomo, ao celeireiro/celeireira.

Mas será verdadeira a ideia que, no contexto da espiritualidade beneditina, o superior religioso não tem nada a ver com a vida material, assim como o ecônomo não teria nada a ver com a vida espiritual?  Seria, então, normal que este último sacrificasse horas de oração ou de outras atividades espirituais para realizar sua tarefa administrativa? Esta concessão é simplista e falsa.

Nada é mais falso do que esta caricatura, sobretudo segundo os dados da RB. De fato, na espiritualidade beneditina não há separação entre os dois domínios. Concretamente, na Regra, o abade não é somente identificado com seu papel espiritual, mas com o conjunto do que concerne a pessoa humana, incluindo a vida material. É claro que ele tem de cuidar da vida material, caso contrário, a vida espiritual não pode florescer. Para que o abade possa gerar filhos conformes com a vontade de Deus, seu Pai, ele deve cuidar das condições materiais necessárias. Não diziam os antigos que é preciso um mínimo de bem-estar para praticar a virtude?

Cabe ao celeireiro, conforme a Regra, ocupar-se da vida temporal (econômica) de todo o mosteiro (RB 31,1). Mas São Bento não se detém nesta formalidade da sua missão. Indica também o espírito que deve caracterizar o seu modo de agir na gestão do temporal. Concretamente São Bento diz ao celeireiro que deve ‘agir em colaboração com o abade, sendo como um pai para todo mosteiro’ (RB 31, 2). Isto é muito importante. Pai, como o abade : sua missão é, portanto, também espiritual. Participa do cargo do abade no exercício de sua missão. Como o abade, o celeireiro participa da missão de gerar filhos para Deus. Por isso o celeireiro tem também a missão de cuidar das almas dos irmãos no mosteiro. Quando não tiver nada para dar, que dê uma resposta boa (RB 31, 7.13). Não se trata de recusar por recusar, mas ajudar seus irmãos a serem gerados para a vida no Espírito.

O celeireiro deve agir como o abade. Deve ter em conta as pessoas. Deve trabalhar em estreita colaboração com o abade. No exercício do seu cargo não deverá fazer nada sem a ordem do abade, e fazer unicamente o que este ordenou (RB 31,4-5; 12.15) Se o celeireiro vive esta relação de obediência com o abade (RB 31,9.16), é para que reine a paz no mosteiro. E é-lhe dito que se não houver harmonia, também lhe serão pedidas contas.

O estilo de vida, ou de espiritualidade que implica a questão econômica no mosteiro, deveria ter relação principalmente com a preocupação pela pessoa humana e uma visão sagrada das coisas (é pedido ao celeireiro que trate os objetos do mosteiro como vasos sagrados do altar - RB 31,10 - e que venda o que é produzido sem cupidez (RB 57,4-8).

Tendo criado o Homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,26), Deus o quer de pé! Ele encontra sua glória no homem que vive com dignidade (cf. Santo Irineu de Lião). Todos os comentadores da RB são unânimes em reconhecer que o que torna a Regra tão atual é a sua adaptação a cada pessoa humana no interior da comunidade. O horizonte da Regra é que o homem esteja de pé, pois São Bento considera a vida monástica como um empenho de conversão, uma volta para Deus pelo labor, pelo caminho da obediência, libertando-se do jugo da vontade própria (RB Pról. 2-3,8).

A necessidade da espiritualidade com este horizonte de atenção ao Homem, é perceptível em uma corrente econômica, ‘a economia social do mercado’. A preocupação pela pessoa humana, ou a atenção ao homem, é a última das preocupações do que se chama liberalismo econômico, ou ‘capitalismo selvagem’. Se na economia social de mercado há interesse pela pessoa humana, no capitalismo selvagem o homem não conta : o que é importante é unicamente o lucro, o ganho. E justamente, com o Congolês e participante desta sessão em Goma, no Norte-Kivu, nos arredores do Sul-Kivu e do Ituri, podemos ver a ilustração desta concessão econômica, considerando a guerra ‘à baixa intensidade’ (de fato não acaba) que devasta os territórios, obriga as pessoas a deixar suas terras por causa da ameaça das armas… ‘Que morram…’ : isso não importa para as multinacionais e para seus dirigentes, que estão a seu serviço. Que o embaixador italiano tenha sido sacrificado, isso não importa para os lucros. O mundo pode comover-se por um momento, quando se levanta um pouco o véu que cobre os negócios desta guerra infame, mas logo chega o silêncio imposto pelo deus Mamom, que os novos senhores do mundo servem, aqueles que controlam a bolsa mundial.

Guardadas as proporções, podemos dizer que Max Weber poderia, em certa medida, ser considerado como um antepassado da economia social de mercado, especialmente com seu livro : A Ética do protestantismo e o espírito do capitalismo (1904-1905). Ele mostra como os países Escandinavos, sob a influência do protestantismo, conheceram um funcionamento da economia com o Homem no centro. A ética protestante, segundo ele, gerou, neste contexto, um capitalismo com rosto humano.

Compreende-se porque a economia social de mercado é bem vista pelo Magistério da Igreja, através de sua doutrina social a partir de Paulo VI com sua encíclica Populorum Progressio (1967). Mas o próprio Paulo VI se inscrevia numa sensibilidade eclesial sobre o assunto, uma sensibilidade já notada em Leão XIII com sua encíclica Rerum Novarum (Maio 1891) e João XXIII com sua encíclica Mater et Magistra (1961). Seus sucessores não deixaram de andar na mesma direção como se pode constatar em João Paulo II (Laborem exercens, de Setembro 1981; Sollicitudo rei socialis, de Dezembro 1987; Centesimus annus, de Maio 1991), Bento XVI (Deus caritas est, 2005, 3º cap.; Exortação apostólica Africae munus, de Novembro 2011) e Francisco (Laudato si’, de Maio 2015; Exortação apostólica Querida Amazônia, de Fevereiro 2020). Em suas várias declarações nestas ocasiões, incluindo a questão que estamos considerando, o Magistério da Igreja quer encorajar os cristãos e os homens de boa vontade a levar em conta o Homem, sua dignidade, defendendo uma economia que preste atenção à pessoa humana. Com tudo isso, percebemos que espírito que deve animar o celeireiro no seu serviço tem um sólido fundamento no Magistério.

Neste contexto, que espírito deve animar o celeireiro? Que estilo de vida ele deve adotar no exercício de sua missão?

Em resposta a esta realidade, e em ligação com nosso ideal de vida, na base da nossa ideia de economia deve estar a fé na divina Providência. Realizamos que, às vezes, nossos investimentos económicos, apesar de todas as precauções, não dão um rendimento suficiente. Por isso, devemos viver, produzir, providenciar para a nossa subsistência, partilhar e ao mesmo tempo ser humildes e pedir ajuda, confiando na Providência. E devemos participar na tomada de consciência de como funciona a economia capitalista mundializada, usando nosso poder de educadores de massas.

Como eco a todas as preocupações e inquietações expressas pelos participantes diante da realidade do capitalismo selvagem, o Padre Simon nos desperta propondo o seguinte :

Diante da agressão da economia liberal, por que não construir uma rede de venda de produtos dos nossos mosteiros (MAC) cujas condições de produção respeitam o Homem e o meio ambiente?  Promover a iniciativa privada, entrar em sinergia entre nós e com outros. Fazer uma cooperativa? Um circuito ético! Pois junto com as populações que nos rodeiam, somos vítimas da economia liberal. Os supermercados afogam-nos! A publicidade nos condiciona. Eis por que devemos selecionar a informação sobre o que consumimos.

Para entrar neste circuito proposto, temos de potencializar o que temos a intenção de pôr no mercado. Que sejam produtos de qualidade, e sobretudo éticos, para seduzir os clientes que se podem orientar para nós como alternativa aos supermercados.

Dentro deste registro, para promover a solidariedade no interior do funcionamento da economia nos nossos mosteiros, podíamos também pensar num projeto de seguro de saúde para nossos mosteiros MAC como expressão de nossa atenção à pessoa humana na procura de uma saúde financeira. Seria uma boa ilustração do nosso esforço para produzir, pondo a pessoa no centro.

Em resumo, interessamo-nos sobretudo pelo espírito que deve animar aqueles que têm a responsabilidade direta da gestão da economia no mosteiro pensado por São Bento, o ecónomo e o abade em particular. Trata-se de entrar no espírito da economia segundo os Pais do monaquismo Ocidental. É a perspectiva de uma economia segundo o espírito da Regra. À sua escola, a economia fundamenta-se sobre uma espiritualidade. 

A vida monástica segundo São Bento na sua Regra

São Bento concebeu a vida monástica como um caminho de conversão, de volta para Deus. Trata-se de um caminho de volta através do labor da obediência. E isto depois da falência das ilusões da vontade própria e da escolha de viver a autonomia (cf. RB, Prol 2-3, 8). O destino deste caminho de volta para Deus (cf. RB, Prol 1 e ss) é a vida eterna, ou simplesmente a vida autêntica, o reino de Deus, a vida de comunhão com Deus : a bem-aventurança (cf. RB, Prol 42, 5.3.10, 7,11; 72, 2,12).

Quando São Bento faz da ‘vida eterna’ (RB, Prol 15, 17, 20, 42), do ‘reino das luzes’, dos ‘dias felizes’ (RB Prol 21), o escopo do caminho de retorno a Deus, que o monge percorre, ele não pensa nos ‘fins últimos’, mas a uma experiência já na vida presente, a harmonia vivida com aqueles que partilham a vida do monge no mesmo mosteiro. O lugar concreto da experiência desta felicidade e desta paz, é a vida dos mandamentos de Deus : a vida iluminada pela Palavra de Deus. Em outras palavras: São Bento pede que seus discípulos percorram este caminho se deixando guiar pela Palavra, como principal fonte do agir, e luz para seus passos no cotidiano (cf. RB Pról. 10-12, 21-22, 25, 29, 33-34, 40).

Como conclusão, São Bento quis a vida monástica como uma escola para aprender a servir o Senhor (RB Prol. 45), ou a ser totalmente dado ao Senhor.

Na vida do ideal monástico, além do seu desejo de fazer da vida monástica uma escola do serviço do Senhor, São Bento também quis que a vida monástica fosse como um atelier, uma oficina (cf. RB 4, 78) no interior da qual se aprende a exercer a arte espiritual (RB 4, 75).

O abade é o depositário deste ideal monástico assim definido. Ele deveria ser o primeiro a encarná-lo, ser o seu defensor, e o animador de todos os que, com ele, integram a escola do serviço do Senhor e o atelier do treino desta arte espiritual.

Perfil e missão do abade segundo a RB (RB 2 e 64)

Os dados dos cap. 2 e 64 da Regra devem ser completados por outros : 21-24, 28, 31-33, 36, 39-41, 44, 47-51, 53-57, 60, 66-68, 70 para se entender bem o perfil e a missão do abade.

O abade como guardião do ideal que São Bento propõe aos seus discípulos, tem a missão de guiar os monges que lhe são confiados, na realização do ideal da volta para Deus. Porque ele torna presente o Cristo, por meio dele Deus gera, ou melhor, gera de novo filhos. Ele não é o Cristo, mas torna-o presente pelo seu testemunho e ensinamento. O abade deve gerar filhos para Deus ensinando, mas de modo particular. Pois ensinar, não é o problema. A questão é a maneira de ensinar. É por sua palavra, habitada pela Palavra de Deus, que ele tem de ensinar. Ele deve possuir essa palavra, proclamá-la, explica-la, mas sobretudo ilustrá-la pelo exemplo, pelo seu testemunho de vida, pelo modo como a põe em prática. Por exemplo, ao corrigir os outros, corrige-se a si mesmo. Tem de cuidar das almas, mas com a condição que os monges lhe abram seu coração, expondo-lhe suas doenças espirituais (RB 7, 44), como por exemplo, submetendo-lhe o que querem oferecer a Deus, durante a quaresma, para o realizarem com sua oração, para que não caiam na presunção e vã glória (RB 49, 8-10).

Esta forma da paternidade do abade, segundo São Bento, é herdeira da figura do pai espiritual da tradição do deserto do Egito, nas origens do monaquismo, figura imortalizada pelos Apoftegmas.

O abade, para que a vida espiritual dos seus monges cresça, deverá cuidar particularmente das condições materiais necessárias. Quer dizer sobre a vida temporal, de que é o primeiro responsável. Os superiores são os primeiros responsáveis pela vida temporal dos mosteiros que lhes são confiados. Concretamente, São Bento prevê que o abade vele para que os monges durmam em boas condições (RB 22), num dormitório, por exemplo. Deve velar pela quantidade da comida (RB 39) e da bebida, cf. RB 40 (verdadeiramente é um homem realista!) Deverá ter em atenção os fracos (os idosos, os doentes, as crianças) cf. RB 36 e 37.

Vai mais longe com os doentes : prescreve uma enfermaria aonde devem receber os cuidados apropriados (RB 36, 7-8). Entre os fracos, de que deve cuidar, estão os estrangeiros, os peregrinos, os hóspedes. É-lhe pedido que cuide para que sejam acolhidos decentemente, num lugar gerido por um homem temente a Deus (cf. 53, 16-22). Verdadeiramente a pessoa está no centro dos cuidados que o abade deve ter pela vida material do mosteiro.

A comunidade, aonde o monge deve se tornar conforme ao Cristo, deve ter tudo o que é necessário no plano material (RB 66, 6). Tudo! É uma proposta universal. É uma comunidade aonde se deveria encontrar os diversos instrumentos para os serviços necessários. (cf. RB 32) O abade deve ter um inventário de tudo isso (RB 32, 3). Por que não pensar, por exemplo, num inventário anual sistemático nos nossos mosteiros?

O abade deve também cuidar que os monges da sua comunidade tenham o que é necessário para o trabalho, esforçando-se por se adaptar a cada pessoa (RB 2, 23-32; 33, 5).

A missão do abade deve, pois, consistir que no seu mosteiro todos os membros estejam em paz (cf. RB 34, 5). Um mínimo de paz nas nossas comunidades e seria o paraíso! Mas é por causa do nosso pecado que não é assim. Todos os membros, mesmo aqueles que não se tem uma boa relação, devem viver em paz. Pois, justamente, no seio da casa de Deus, que o abade governa, ninguém deve estar triste, nem preocupado (RB 31, 19). Cada manhã, olhar cada irmão, cada irmã para verificar seu estado de ânimo : Ele/ela está em paz ou está perturbado/a interiormente? Ele/ela tem problemas, preocupações?

A saúde econômica do mosteiro é uma dimensão importante para o desenvolvimento da saúde psicológica e espiritual de cada membro. É fator de paz, de harmonia para cada vocação monástica. Por isso na regra o abade é visto como dependente de uma autoridade superiora, a que deve prestar contas (RB 2, 1 e também RB 64, 7-8. 20-21). Deve cuidar do conjunto do mosteiro no que toca à vida material e à vida espiritual, com atenção particular a cada um, tentando adaptar-se a cada um. O abade deve cuidar das pessoas, antes de cuidar dos bens. Se tem de gerir bens, é unicamente porque estão a serviço de pessoas, no processo desse ser de novo gerado por Deus. Há, portanto, a primazia da pessoa sobre os bens.

Para que não se afaste da sua missão espiritual, o abade delega seu poder ao celeireiro, e aos outros oficiais, colaborando com eles. Além de ser um administrador, deve transmitir a Palavra de Deus, atualizando-a. É pai, em referência a Cristo, deve velar sobre seus monges, amando-os como Deus ama a seus filhos, e cuidando para que tenham pão. Em última análise é também um pastor, um médico. É chamado a ter compaixão, e a cuidar, a cobrir de cuidados seus monges, sobretudo os que estão em dificuldade. Que os responsáveis das comunidades aprendam ‘a perder o sono’, para merecerem ser pais e mães. Não há nenhum mérito em ser o único perfeito numa comunidade de delinquentes…é juntos que devemos chegar à meta (RB 72)

A espiritualidade do celeireiro deveria seguir o perfil e a missão do abade, devendo agir como um pai, imitando seu abade, gerando filhos para Deus.

Segundo os dados da Regra, a identidade e a missão do abade que se repercutem na espiritualidade do celeireiro, é a da encarnação em relação à justiça e à paz. Esta espiritualidade exige que :

– O celeireiro seja marcado pelo temor de Deus, virtuoso, habitado pela Palavra de Deus para ser transfigurado por ela; encontrando nela consolação e força.

– Que seja obediente, submisso, dócil, atento (cf. RB 31, 4)

– Que seja caridoso, compassivo, tenha discernimento, para privilegiar os fracos, porque convicto que os bens colocados à disposição do homem deveriam ser, em primeiro lugar, postos a serviço dos fracos. É por isso uma espiritualidade de diaconia, de serviço.

– Que tenha o sentido da responsabilidade pelas pessoas e pelos bens, crescendo na liberdade diante das coisas do mundo, mas também na confiança na Providência.

– Que seja humilde, abrindo-se à colaboração, com a consciência que é um servo inútil.

– Que seja honesto.

No fundo, o celeireiro, como o abade, é convidado a viver uma espiritualidade da cruz. O celeireiro é aquele que se ocupa do temporal para a salvação das almas. De fato, o abade e o celeireiro devem colaborar bem, na confiança, na fé, na paz e na harmonia.'

[1] Relato da intervenção do P. Simon Madeko, prior do Mosteiro de Mambré, em Kinshasa (RDC), na sessão da Associação MAC, em julho 2021

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/122

domingo, 14 de setembro de 2025

A hospitalidade na Regra beneditina e em São Leão Magno

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Vital Corbellini,

Bispo de Marabá, PA

 

‘A hospitalidade é uma atitude bíblica que coloca a presença de Deus na vida da pessoa que vem de longe ou de perto para a residência humana para pedir ajuda, consolo, uma palavra de esperança e de amor. No dia do juízo é bem presente a palavra de Jesus : ‘Eu era peregrino e me acolhestes em casa’ ( Mt 25, 35). O Senhor Jesus se fará presente nas pessoas que nós acolhermos em nossas vidas. Diante de um mundo de tantas pessoas que se deslocam por causa das mudanças climáticas, guerras, perseguições, violência, é fundamental a acolhida, a hospitalidade das pessoas, dos pobres. Veremos a seguir como esta atitude esteve presente na regra beneditina, séculos V e VI e em São Leão Magno, papa no século V.

A presença de Jesus Cristo

A regra de São Bento recomendava a todos os seus seguidores que os hóspedes que se achegassem às suas casas, fossem acolhidos como Cristo Jesus porque Ele disse : ‘Fui hóspede e vós me tendes acolhido’ (Mt 25,35). É a honra devida para ser dada, seja aos irmãos na fé, seja aos estrangeiros, peregrinos [1]. Ao anúncio de um hóspede, o superior e os irmãos iriam ao seu encontro com todas as considerações da caridade. Haja a oração em comum e depois haja o abraço da paz [2].

A humildade

São Bento em sua regra afirmava que na saudação, aos hóspedes, quando se aproximassem ou mesmo quando partissem da sua residência, fosse dada das pessoas que acolhessem os estrangeiros, a atitude de humildade pela presença do Senhor Jesus que foi acolhido [3]. Haja a leitura divina em vista da edificação da pessoa e se ofereça toda a atenção humana. Em seguida também se faça a limpeza das mãos e dos pés e todas as pessoas digam em voz alta que acolheram o Senhor Deus, na pessoa dos estrangeiros, a sua misericórdia em meio ao seu templo (cfr. Sl 47 (48), 10) [4].

A ajuda aos pobres

O Papa Leão Magno afirmou a atitude da compaixão com os pobres. Os fiéis sejam generosos na doação da comida para eles, aqueles que desejam fazer parte da comunidade dos bem-aventurados. O fato é que um ser humano não apareça desprezado por outra pessoa, que o Criador do universo fez como sua [5]. É impossível a pessoa recusar outra que sofre alguma coisa o que é de toda a pessoa, pois é o próprio Cristo Jesus que está sendo visto, doado. É ajudada uma pessoa de serviço e é o Senhor que é presente, dando-lhe graças [6].

O preço do Reino dos céus

O Papa Leão dizia que o alimento do pobre é o preço do Reino celeste e a pessoa que doa os bens terrenos torna-se herdeiro de bens celestes. A medida das obras é valorizada sobre a balança da caridade, porque quando o ser humano ama aquilo que Deus privilegia, sobe o ser humano no Reino dos céus; É dada a honra ao Senhor que se tornou próximo das pessoas e assumiu a nossa natureza (cfr. Jo 1,14). O bispo de Roma exortava para que os fiéis trouxessem de casa bens, alimentos em vista das obras de misericórdia para merecer a bem-aventurança da qual gozará para a eternidade aquele que discerne o necessitado e o pobre (cfr. Sl 40,(41), 2. Desta forma é reconhecida no necessitado e no pobre a ‘Pessoa do Senhor nosso Jesus Cristo, o qual de rico que era, como disse São Paulo fez-se pobre, para enriquecer-nos com a sua pobreza’ (2 Cor 8,9) [7].

A natureza humana é igual para todas as pessoas

Uma vez que Deus é o Criador do ser humano, São Leão Magno afirmou que a natureza humana é igual para todas as pessoas. Desta forma a nossa natureza mortal mutável é reconhecida em todo o ser humano e por motivo desta condição humana, cada pessoa é chamada a alimentar um sentimento de solidariedade em relação a todas as pessoas de sua espécie : chorar com as pessoas que choram, unir-se com aquelas que sofrem, ajudar aquelas necessitadas, ter presente os doentes que estão em seus leitos, prover alimentos com as pessoas famintas, doar roupas para aquelas pessoas que estão na nudez ou passam frio [8].

A misericórdia dada

O Papa São Leão exortava os fiéis para que as coisas poupadas através do jejum tornar-se-iam alimento para os pobres numa reta intenção de misericórdia dada com amor aos mais necessitados. Os fiéis eram chamados a empenhar-se na defesa das viúvas, dos órfãos, dos sofredores, a fazer paz com aqueles que lutam, brigam entre si [9]. Desta forma acolha-se o estrangeiro, ajuda-se o oprimido, veste-se o nu, seja dada a atenção à pessoa doente, de modo que a oferenda de tais coisas dadas com amor a Deus, autor de todo o bem, seja concedida por graça divina a sua recompensa celeste [10].

O evangelho de Jesus Cristo era bem vivido na pessoa dos santos padres, no povo de Deus e hoje é dado para nós, em vista da conversão de vida que o Senhor Jesus tanto pede de cada um de nós. As pessoas pobres, necessitadas de ajuda estão presentes na vida de todos os seguidores, seguidoras de Jesus Cristo e de sua Igreja. Nós somos chamados a viver o mandamento do amor a Deus, ao próximo como a si mesmo, para um dia participar do Reino dos céus.’

 

[1] Cfr. Regola di Benedetto 53,1-24. In: ’Non dimenticate L´ospitalità’. Antologia dai Padri della Chiesa. Milano, Paoline, 2022, pg. 198.

[2] Cfr. Idem, pg 198.

[3] Cfr. Ibidem, pgs. 198-199.

[4] Cfr. Ibidem, pg. 199.

[5] Cfr. Discorso sulle collete 9, 2-3. In: Idem, pg. 207.

[6] Cfr. Ibidem, pg. 207.

[7] Cfr. Ibidem, Discorso sulle collette, 9, 2-3, pgs. 207-209.

[8] Cfr. Ibidem, 11,1-2, pg. 209.

[9] Cfr. Ibidem, Discorso sul digiuno del decimo mese 13, pg 211.

[10] Cfr. Ibidem, pg. 211.

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-09/dom-vital-hospitalidade-regra-beneditina-leao-magno.html

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Os céus e a terra proclamam a glória de Deus (Sl 19[18], 1-7)

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo da Madre Nirmala Narikunnel, OSB

Abadessa de Shanti Nilayam, India


Os céus proclamam a glória de Deus,

e o firmamento anuncia as obras de suas mãos.

O dia transmite ao dia a mensagem

e a noite dá conhecimento à outra noite. 


Não são palavras nem discursos

nem se ouve a sua voz.

Por toda a terra se difunde o seu som,

e até os confins do mundo vai sua mensagem. 


Ali armou uma tenda para o sol,

que sai como um noivo do quarto nupcial,

e exulta como um gigante a percorrer

o seu caminho. 


A sua saída é desde os confins dos céus

e o seu percurso vai até o outro extremo,

e nada pode subtrair-se ao seu calor.

 

O salmista seria talvez um pastor que cuidava de seu rebanho e admirava a criação de Deus. Mesmo sem qualquer conhecimento científico e ignorando a tecnologia do futuro, podia maravilhar-se com a criação e cantar este belo salmo.

Pela sua potente Palavra, Deus criou e organizou o universo inteiro, e os seus planos são irreversíveis. A glória, a magnificência, o esplendor de Deus manifestam-se no salmo. Deus é o criador dos céus e do sol que ilumina o mundo. Os corpos celestes e a sucessão regular do dia e da noite manifestam a glória de Deus e transmitem silenciosamente a sua mensagem, chamando-nos ao louvor de Deus. Deus arranjou maravilhosamente o universo e tudo o que ele contém é para o nosso bem. O céu e a terra manifestam a sua glória. As perfeições de Deus são proclamadas num silêncio eloquente pelo mundo criado. O salmista medita sobre o perfeito silêncio da natureza. Não podemos aproveitar as maravilhas da natureza senão em silêncio. Como o profeta Elias, encontraremos o Criador numa brisa suave. Sem palavra nem voz, a criação descreve a glória de Deus. Ela segue perfeitamente a lei da natureza. O sol não deixará de nascer ou de se pôr porque Deus Criador colocou ordem na criação, e ela segue perfeitamente a ordem que, a menos que ele o queira, não mudará.

São Bento consagra um capítulo inteiro da Santa Regra ao silêncio.  Somente no silêncio podemos encontrar Deus como também os nossos semelhantes. Quanto mais o espírito do Homem penetra no mundo que o envolve, mais este testemunho nos espanta pela sua grandeza e glória. Deus maravilhoso de um mundo maravilhoso que merece uma grande honra e uma grande glória. A glória de Deus significa a sua manifestação de si e a sua comunicação, exigindo a resposta de louvor do homem. Em numerosos outros salmos, o salmista convidará toda a criação a celebrar a grandeza do Criador, como, por exemplo, no Salmo 148.

A noite é a ausência de luz solar. A noite e o dia cantam a glória de Deus. O dia proclama o esplendor de Deus, e a noite o seu caráter escondido e o seu mistério. Nem o dia nem a noite podem falar como o homem, mas, não obstante, eles transmitem a sua mensagem enquanto «sacramentos» do poder e da majestade de Deus. A sua eloquência é silenciosa. O louvor prestado a Deus de dia como de noite cobre toda a terra; ela é entendida universalmente.

O sol é a principal e a mais evidente testemunha do esplendor de Deus. É poeticamente concebido como escondido em uma tenda no céu do Oriente antes de aparecer na aurora, e é comparado a um esposo vestido com trajes esplêndidos devido à intensidade do seu calor, e a um herói militar por causa da sua luz.

O salmista impressionou-se muito com o céu, a sequência ininterrupta dos dias e das noites, e o nascer e o pôr do sol. Compôs um poema e cantou-o em presença dos fiéis. O mundo da criação é um espelho que reflete Deus, e todos aqueles que creem como o salmista podem ver os reflexos de Deus no mundo natural. A extrema grandeza e o poder de Deus brilham no santuário celeste, na vasta extensão do céu e sobre toda a terra.

«O sol quando aparece, fazendo uma proclamação à medida que surge, é um instrumento maravilhoso, obra do Altíssimo. Ao meio-dia ele seca a terra, e quem pode suportar seu calor ardente? Um homem que se ocupa de uma fornalha trabalha em um calor feroz, mas o sol queima três vezes mais as montanhas, exala vapores ardentes e, com raios luminosos, cega a vista. Grande é o Senhor que o fez e a seu comando ele se apressa a seguir seu curso.» (Ben Sira 43)

«Louvado sejais, meu Senhor, com todas as vossas criaturas. Sobretudo pelo Irmão sol, que é o dia e através do qual vós nos concedeis a luz, e ele é belo e radiante com grande esplendor, e ele se assemelha a vós, ó Altíssimo.» (São Francisco de Assis)

Deus criou o céu e a terra, e a coroa da criação é o homem. O homem é um pouco menos de Deus (Sl 8). O salmista, um homem comum dotado de uma imaginação prodigiosa e de um profundo sentimento de temor, proclama a majestade e o poder do Criador. Mas o homem desfigurou a beleza da criação pelo pecado. Cristo, como a luz do sol, veio dissipar as trevas deste mundo. O Criador do imenso e maravilhoso universo é tão grande e poderoso, e, contudo, cuida dos seres humanos. Quando o homem abusa ou trata mal a criação, a natureza reage. Recentemente, o nosso mosteiro e as proximidades ficaram inundadas porque algumas pessoas lançaram dejetos na drenagem. Esta ficou bloqueada com chuvas incessantes que afetaram a nossa fazenda e a maior parte das nossas culturas, e contaminaram a água potável. Sofremos grandes perdas. Nada pudemos fazer até que a água recuasse lentamente e isto levou mais de uma semana. Quando a natureza reage, nada podemos fazer senão confiar em Deus transcendente presente na criação.

Rezando este salmo, podemos maravilhar-nos com a criação : com que sabedoria e amor Deus tudo planificou e organizou? Agradecemos a Deus Soberano do universo, todo sábio e todo poderoso, por tudo ter criado tão bom e tão belo. Todo o louvor e toda a glória a Deus pela sabedoria infinita, o seu poder, a sua beleza, a sua criatividade e o seu amor. Louvamos a Deus em nome de toda a criação. Louvar e glorificar o Criador e Sustentador do universo inteiro é o fim último de todas as criaturas e seres humanos.

Senhor Deus, nós te louvamos em nome de toda a criação. A beleza e a bondade de tudo o que fazes, bem como o sistema e a ordem perfeitos na natureza manifestam a tua sabedoria e o teu amor. Tudo o que fazes é uma maravilha. Aceita os louvores e a adoração que te oferecemos, e faz com que todos os seres humanos possam reconhecer a bondade e a sabedoria que estão ativas na criação, e louvar-te de todo o coração.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/122

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Ecologia e vida monástica

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Dom Jean-Pierre Longeat, OSB

ex-Presidente da AIM

 

‘Literalmente, a ecologia segundo a origem grega desta palavra (oikos-logos), é o discurso sobre a vida dentro de uma casa, neste caso, o espaço e o tempo em que os seres humanos vivem.

Este discurso deve conduzir à ação : literalmente, estes estão agrupados sob o termo economia; de fato, de acordo com a origem grega do termo (oikos-nomos), a economia é o conjunto de «leis» que damos para viver juntos neste espaço e neste tempo. É uma pena que este vocábulo seja, hoje, aplicado apenas no sentido financeiro. No entanto, ele diz respeito a todos os elementos da vida pessoal, social e mesmo espiritual. Há uma maneira econômica de viver juntos e uma ecologia pessoal saudável. Os monges estão, sem dúvida, neste estado de espírito.

Segundo a Regra de São Bento, sua prioridade econômica é a escuta de Deus e dos seus semelhantes para a livre partilha de uma palavra útil com relação aos fundamentos. É por isso que os monges privilegiam o silêncio, na medida do possível, a fim de que as palavras trocadas tenham o seu autêntico peso. Poder-se-ia dizer que a escuta essencial, tanto de si mesmo como dos outros e dessa Voz misteriosa que nos precede e que chamamos Deus, é a base de toda a economia ecológica. O múltiplo sentido da palavra está certamente na origem de toda a primeira crise econômica da vida humana. A palavra é um bem recebido e está à disposição de todos. Ela requer um grande desimpedimento para poder ser percebida em toda a sua grande riqueza.

Assim, tudo no mosteiro é organizado em função desta ecologia humana, tanto para a vida pessoal como para a vida comunitária.

Dia a dia, os monges tornam-se atentos ao bem supremo da Palavra que vem do Alto. Eles se reúnem sete vezes por dia para a oração. Eles se colocam na presença da fonte ativa à qual querem se conectar em primeiro lugar, e respondem-lhe cantando em abundância tanto para exprimir o louvor do dom da criação e da vida como para lançar o grito de angústia de uma humanidade frequentemente posta à prova no caminho deste mundo.

Eles organizam os seus espaços de maneira que cada detalhe tenha todo o seu valor. A Regra de São Bento pede ao celeireiro do mosteiro que vele para que se trate todas as coisas no mosteiro com o mesmo cuidado que os vasos sagrados do altar.

Espaços verdes, hortas, pomares, florestas ou terrenos agrícolas : tudo no mosteiro se torna um espaço de contemplação. Hoje muitos mosteiros são cuidadosos em preservar o espaço através de regras elementares sobre as quais o movimento ecológico chama nossa atenção.

A relação com o tempo partilhado é igualmente vivida em uma economia saudável, mesmo que hoje a instituição monástica, pelo menos no Ocidente, seja pressionada pelos mesmos imperativos de produtividade que a sociedade ao seu redor. Todavia, o equilíbrio que se pretende viver entre oração, trabalho e vida fraterna continua sendo uma regra importante que deve a todo o custo ser preservada para uma boa economia social. Para isso, os mosteiros contam com o potencial da extraordinária rede de solidariedade constituída pelas numerosas comunidades espalhadas pelos cinco continentes. Poder-se-ia dizer que a vida monástica desenvolve o ideal ecológico de uma globalização fraterna.

A alimentação é também um importante item econômico e ecológico para os monges. Comer, para eles, implica sempre o reconhecimento de um dom recebido e partilhado. Comer sobriamente, sem excessos nem desperdícios, é uma regra sobre a qual insiste São Bento. Os pratos serão suficientes, saudáveis e equilibrados para permitir um crescimento feliz e um bom desenvolvimento do resto das atividades. Se há um símbolo de um bom equilíbrio na vida, é o do consumo, especialmente de alimentos. As comunidades monásticas realmente tentam refletir sobre isso, mesmo quando são obrigadas a recorrer a serviços externos.

O conforto da vida ordinária limita-se ao que é necessário. Dá-se a cada um aquilo de que precisa efetivamente. Tudo é posto em comum para uma economia solidária. Colocar em comum os recursos de uma comunidade permite reduzir as despesas e investir em projetos mais desenvolvidos, que um indivíduo ou uma família isolados não poderiam realizar.

Ao acolher hóspedes por períodos de silêncio ou retiro, os centros monásticos se apresentam no coração das nossas sociedades como um oásis onde podemos tentar respirar e partilhar de uma maneira melhor, possuir ilusoriamente menos, a fim de sermos mais nós próprios no relacionamento com os outros.

É surpreendente, na Regra de São Bento, constatar que o capítulo mais ecológico é aquele que concerne a economia do mosteiro :

«Seja escolhido para Celeireiro do mosteiro, dentre os membros da comunidade, um irmão sábio, maduro de caráter, sóbrio, que não coma muito, não seja orgulhoso, nem turbulento, nem injuriador, nem tardo, nem pródigo, mas temente a Deus; que seja como um pai para toda a comunidade. Tome conta de tudo. [...] Não entristeça seus irmãos. Se algum irmão, por acaso, lhe pedir alguma coisa desarrazoadamente, não o entristeça desprezando-o, mas negue, razoavelmente, com humildade, ao que pede mal. Guarde a sua alma. [...]

Cuide com toda solicitude dos enfermos, das crianças, dos hóspedes e dos pobres. [...]

Considere todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar. Nada negligencie. Não se entregue à avareza, nem seja pródigo e esbanjador dos bens do mosteiro; mas faça tudo com medida.» (RB 31)

É claro que a vida do mosteiro não recai sobre o celeireiro, mas o seu exemplo, como o exemplo de todos no mosteiro, pode encorajar a comunidade a tomar decisões justas para um testemunho ecológico sempre atualizado.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.aimintl.org/pt/communication/report/122