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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

As grandes civilizações africanas - Império de Mali

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 

*Artigo do Padre José Inácio de Medeiros, CSsR

 

‘Com o declínio de Gana ocorreram diversas disputas entre estados menores que eram submissos, ao século XII. Um desses estados era formado pelo povo conhecido por sosso, de etnia Soninke. Através das armas se impuseram e alcançaram a hegemonia regional no século XIII.

O Império era composto por 12 reinos menores ligados entre si, tendo como capital a cidade Kangaba. Os mandingas que eram o povo mais forte chamavam seu território de Manden, que significa terra dos mandingas.

O Império de Mali era formado por povos presentes na região situada entre o Rio Senegal e o Rio Níger. Dentre eles, o mais importante eram os mandingas, que já eram conhecedores do islã desde o século XI. Além deles, os soninquês, fulas, sossos e bozos também fizeram parte desse império.

Após anos de guerras entre os soninquês de Gana e os almorávidas (século XI), e depois das guerras com os sossos (século XII), Mali conseguiu sua independência e adotou o islamismo. Apesar de passar por um período de crise política e econômica, conseguiu se restabelecer e, em 1235, os mandingas de Mali conquistaram o território do antigo Império de Gana, sob a liderança de Maghan Sundiata, que recebeu o título de Mansa, que na língua mandinga significa ‘imperador’.

No domínio de Sundjata Keita, o maior representante do Império Mali, sua autoridade foi estendida sobre outras unidades políticas próximas, formando um estado unificado e hegemônico até o século XV.

Processo de expansão

Ao contrário do Império de Gana, que se preocupava mais em manter os povos dominados, a fim de controlar o comércio regional, o Império de Mali se impôs de forma centralista, estabelecendo fronteiras bem definidas e formulando leis por meio de uma assembleia chamada Gbara, composta por diversos povos do império. A aplicação da justiça era implacável, tanto que vários viajantes se referiam aos povos negros como ‘os que mais odeiam as injustiças - e seu imperador não perdoa ninguém que seja acusado de injusto’.

Acredita-se que o Império de Mali chegou a ter a atual extensão da Europa Ocidental.

Sua hegemonia, numa vasta região da África Ocidental ou África Negra, localizada abaixo do Deserto do Saara ocorreu devido à formação de um exército poderoso, ao controle da extração do ouro e a existência de uma administração eficiente. Esses fatores fizeram do Mali um dos impérios mais bem-sucedidos do continente africano.

Mali chegou a controlar todo o comércio de ouro local, porque o ouro extraído por Mali sustentava grande parte do comércio no Mediterrâneo. Conta-se que, entre 1324 e 1325, Mansa Mussa, em peregrinação a Meca, parou para uma visita ao Cairo e teria presenteado tantas pessoas com ouro, que o valor desse metal se desvalorizou por mais de 10 anos.

Também sob o reinado de Mussa, a cidade de Timbuktu (ou Tombuctu) se tornou uma das mais ricas e importantes da região. Sua universidade era um dos maiores centros de cultura muçulmana da época, e produziu várias traduções de textos gregos que ainda circulavam nos séculos XIV e XV. A grandiosidade de Timbuktu atravessou os tempos e, no século XIX, exploradores europeus se embrenharam pelos caminhos africanos, seguindo o rio Níger, em busca da lendária cidade.

O Império de Mali entrou em decadência a partir do final do século XIV, em função das disputas políticas internas e das incursões dos tuaregues, um povo berbere do deserto, sendo conquistado, no século XV, pelos songais que até então eram dominados por Mali. Foi nesse mesmo século que os portugueses, em pleno processo de expansão marítima, conheceram o já decadente Mali.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-12/foco-historia-grandes-civilizacoes-africanas-imperio-mali.html

 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A pérola do deserto reanima-se

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
*Artigo de Fernando Félix, Jornalista, 
e Christian Media Center


O Mali reconstruiu os 14 mausoléus da cidade de Timbuctu que foram destruídos pelos extremistas islâmicos quando ocuparam o Norte do país em 2012. A pérola do deserto do Saara recobra parte do seu corpo, mas uma parte da alma do seu saber quase milenar já não vai renascer das cinzas.


‘Durante o conflito no Mali, entre 2012 e 2013, os extremistas islâmicos destruíram 14 dos 16 mausoléus da cidade de Timbuctu, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1988.

Quando, naquele ano de 2012, um golpe de Estado depôs o presidente malinês democraticamente eleito, Amadou Toumani Touré, o consequente derrube do poder estatal deu ao grupo separatista tuaregue do Movimento Nacional de Libertação do Azauade (MNLA) a possibilidade de declarar unilateralmente a independência da parte norte do país. Estes dois acontecimentos precipitaram o surgimento de três grupos islamistas : Ansar Dine, MUJAO (Movimento para a Unidade e a Jihad na África Ocidental) e Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQIM). Estes grupos encontraram o caminho livre e, em poucos dias, conquistaram as cidades setentrionais do Mali, entre as quais Timbuctu, nas mãos dos tuaregues do MNLA. A partir desse momento, o grito de guerra santa ressoou por todo o Norte do país e, em particular, na histórica cidade malinesa, que foi meta de peregrinação para os fiéis muçulmanos da África Ocidental, centro da cultura islâmica entre os séculos XIII e XVII e se afirmou como foco cultural do mundo árabe, atraindo milhares de estudantes de todo o mundo. Os movimentos islamitas trataram de implantar um governo fundamentado numa interpretação rigorosa da lei islâmica – a sharia – nas zonas sob o seu controlo.

A capital religiosa e cultural malinesa foi sempre considerada o El Dorado do mundo árabe, ao ponto de na Europa se discutir a sua existência ou não até inícios de 1800, quando teve finalmente a prova, com o regresso do explorador francês René Caillé.

Dois séculos antes, em 1526, o diplomata, geógrafo e explorador mourisco Leão, o Africano, quando chegou a Timbuctu, escreveu encantado e fascinado com a beleza desta cidade com as cores do deserto do Saara : «Aqui havia uma grande quantidade de doutores, juízes, sacerdotes e outros homens de cultura […] Aqui chegaram diversos manuscritos e livros escapados da barbárie, que são vendidos a um preço mais alto do que qualquer outro bem.»

Não obstante, a beleza desta pérola do deserto não conseguiu travar a brutalidade da ideologia da guerra santa, segundo a qual «o dever do muçulmano é defender o Islã aniquilando os infiéis», como infundem os imãs (pregadores do culto islâmico) radicais. De fato, tudo o que, segundo eles, vai contra os princípios do fundamentalismo sunita tem de ser destruído – o sunismo deriva da palavra «suna» (sunna), que se refere aos preceitos estabelecidos no século VIII, baseados nos ensinamentos de Maomé e dos quatro califas ortodoxos.

Foi em nome deste fundamentalismo que, em Timbuctu, foram destruídos e vandalizados manuscritos antigos, mesquitas, mausoléus, santuários e tumbas sagradas dos pais fundadores da cidade, venerados por séculos como santos. A Unesco qualificou tais atos como trágicos e solicitou a todos os países envolvidos no conflito que atuassem com responsabilidade.

Graças à intervenção do Exército francês em apoio ao Governo do Mali, em Junho de 2013 assinou-se um acordo de paz entre o Governo e as forças tuaregues, que foi violado por diversas vezes, até nova assinatura em 20 de Fevereiro de 2015. Entretanto, a cidade de Timbuctu ficou livre dos fundamentalistas islâmicos e foi assim que, em Março de 2014, puderam ter início os trabalhos de reconstrução dos mausoléus destruídos. Fundamental foi também o apoio logístico da Missão das Nações Unidas no Mali (Minusma) e as ajudas internacionais, de Andorra, Bahrain, Croácia, ilhas Maurício, da Unesco e da União Europeia.

Se os monumentos recobram a vida, recorrendo mesmo à técnica artesanal da arquitetura feita de barro, o mesmo não sucederá com o conhecimento milenar e plural dos livros e manuscritos queimados.


Os monumentos de Timbuctu

No princípio do século XII, Timbuctu, situada na margem norte do rio Níger, era um acampamento temporário dos tuaregues, um povo nômade do deserto. Em finais do século XIII, já tinha crescido e o sultão do Mali mandou construir a torre da Grande Mesquita. Dois séculos mais tarde, já possuía três importantes mesquitas e uma prestigiada universidade, onde chegaram mais de 25 mil estudantes que ali encontravam os melhores professores de Teologia, Direito, Gramática, História ou Astrologia.

Atualmente, a cidade era já uma sombra do seu passado. No entanto, ainda havia reflexos da sua rica história, como a muralha de cerca de cinco quilômetros, as três mesquitas, a biblioteca famosa que guardava manuscritos e foi incendiada pelos islamitas, o centro de estudos Ahmed Baba, que tinha uma coleção de 20.000 manuscritos árabes antigos, o palácio Buctú, as residências dos exploradores, o museu Almansour Korey, o mercado, os 16 mausoléus de santos, a arquitetura feita de barro e as, também típicas e únicas no mundo, portas requintadamente trabalhadas, arte que requereu uma dedicação longa dos artesãos.

O grupo islamita Ansar al-Dine justificou a destruição dos mausoléus, dizendo que «os santuários são uma forma de idolatria, o que não é permitido pela lei do Islã». E a queima dos manuscritos tem por base uma crença já com os mesmos resultados ao longo da História : as bibliotecas seriam como um repositório das memórias, crenças, valores, fantasias, criações, histórias e sabedoria de pessoas, coisas que, ou não estão no Alcorão e, por isso, são obra dos infiéis, ou estão no Alcorão, e, portanto, estão a mais.’


Fonte :