Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
‘A espiritualidade mariana nos acompanha em todos
os tempos do ano litúrgico; naturalmente que em cada tempo há uma maneira de
vivenciar a espiritualidade mariana e de sermos conduzidos por ela ao seu filho
Jesus.
A espiritualidade quaresmal nos orienta a
aprofundar o autoconhecimento e o crescimento espiritual, seja na oração, na
penitência ou na prática das boas obras; por outro lado, o jejum e a esmola são
formas de viver o controle pessoal e a partilha dos bens. O verdadeiro jejum é
aquele que se transforma em doação aos mais necessitados.
Podemos afirmar que a vida de Maria, a mãe de
Jesus, foi toda ela uma verdadeira Quaresma, no sentido de enfrentar situações
de contínuo sofrimento e superação de si mesma. O Evangelho de Lucas relata o
possível sofrimento de Maria quando diz ‘Por não haver lugar na pousada, o
Menino Jesus foi reclinado numa manjedoura’ (2,7). Não é difícil imaginar
quanto Maria teria desejado que seu filho tivesse um leito digno para repousar.
Hoje nós espiritualizamos e vemos nesse fato a opção do próprio Jesus em se
identificar com os mais pobres, porém, a realidade significou incômodo e
superação.
Os estudiosos atualmente afirmam que um grande
sofrimento de Maria foi o fato de não ter compreendido a missão de seu filho
Jesus, pois seu agir, da infância à vida adulta, fugia totalmente do que se
poderia imaginar, seja de um adolescente, seja de um adulto da época.
O próprio fato da permanência de Jesus no templo
(cf. Lc 2,41-52), às vezes interpretada como se Ele se tivesse perdido, na
verdade foi consciente. A atitude de José e Maria revela incompreensão e, com
certeza, provoca grande dor. No coração deles há um misto de incompreensão e
mistério : como entender que uma criança tenha uma atitude de independência
dessa proporção : ‘Por que me procuravam? Não sabiam que devo ocupar-me das
coisas de meu Pai?’ (Lc 2,49).
Um fato não é revelado pelas Escrituras, mas tem
base histórica : ao chegar à idade adulta, Jesus deixou a família e adotou um
estilo de vida de andarilho, juntando-se às pessoas muitas vezes sem boa fama;
isso destoava totalmente do que se esperava de um filho na época : abandonar a
casa e não continuar a profissão do pai eram atitudes que fugiam completamente
da normalidade e devem ter causado em Maria um grande sofrimento e, até onde se
pode compreender humanamente, podemos dizer que ela teve dificuldade em
entender as escolhas de Jesus, tanto é que os evangelhos não relatam a presença
de Maria com o grupo que normalmente o seguia.
Além disso, como entender um coração de mãe quando
Jesus disse ‘Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a
praticam’ (Lc 8,19-25)?
Espiritualmente, dizemos que Maria é a primeira
discípula de Jesus, o que é uma realidade, porém, o que a Bíblia nos diz é que
o aprendizado dela foi permeado pelo sofrimento ao longo de toda a sua vida e
de forma constante. O sofrimento ainda maior de Maria foi a paixão e a morte de
Jesus. A situação somente mudaria na ressurreição.
Contemplando o sofrimento de Maria, entendemos as
palavras de Jesus : ‘Quem quiser me
seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me’ (Lc 9,22-25). Sua mãe foi
a primeira a vivenciar essa realidade. O que mais impressiona em Maria é sua fé
e sua perseverança, jamais duvidando, em meio a todas as dificuldades e
sofrimentos da vida.
Que ela seja inspiração para todos nós nesta
Quaresma!’
Fonte : *Artigo na íntegra
https://revistaavemaria.com.br/caminhar-com-maria-na-quaresma-2.html
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