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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Tolkien, esperança e o combate do nosso tempo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Sergio Carvalho


‘Na sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV surpreendeu muitos leitores ao recorrer ao universo literário de J. R. R. Tolkien e a uma das frases mais emblemáticas de Gandalf. Alguns terão visto apenas um detalhe curioso, quase uma piscadela de olho cultural. Mas talvez seja muito mais do que isso. Talvez seja um sinal dos tempos.

A frase de Gandalf «Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que fomos colocados…» tornou-se uma espécie de manifesto contemporâneo diante da incerteza, das guerras, das crises culturais e do cansaço espiritual que atravessa o Ocidente. O Papa sabe disso. E sabe também que milhões de pessoas encontraram em Tolkien não apenas fantasia, mas uma verdadeira gramática moral para compreender o bem, o mal, a esperança e o sacrifício.

Tolkien era um católico profundamente convicto. A sua obra está impregnada de uma visão cristã da história : a luta entre luz e trevas, a fidelidade dos pequenos, a corrupção do poder absoluto, a importância da amizade, da misericórdia e da perseverança. Na trilogia O Senhor dos Anéis não vence o mais forte. Vence quem permanece fiel.

Ao citar Gandalf, Leão XIV aproxima-se de uma linguagem capaz de dialogar com gerações inteiras que cresceram entre livros, filmes e culturas digitais. É um gesto pastoral inteligente. Durante décadas, a Igreja falou sobretudo através de categorias clássicas, teológicas ou filosóficas. Hoje, percebe-se cada vez mais que também a literatura, o cinema e a cultura popular podem tornar-se ‘átrios dos gentios’, espaços de encontro entre fé e humanidade.

A escolha de Tolkien não é inocente. Vivemos um tempo marcado por uma sensação coletiva de impotência. Muitos sentem que o mundo está demasiado complexo, demasiado polarizado, demasiado ferido para ser transformado. A tentação do desânimo tornou-se uma epidemia silenciosa. E é precisamente aí que a frase de Gandalf ganha uma força quase espiritual : não controlamos o tempo histórico, mas somos responsáveis pela forma como o habitamos.

Há nesta ideia um eco profundamente evangélico. Jesus nunca prometeu aos discípulos facilidade ou sucesso imediato. Pediu-lhes apenas fidelidade. O cristianismo não é uma religião de vencedores triunfalistas, mas de homens e mulheres capazes de acender pequenas luzes na noite. Como Frodo, Sam ou Gandalf, também o cristão é chamado a caminhar mesmo sem ver claramente o fim da estrada.

Talvez por isso a referência do Papa tenha causado tanto impacto. Porque une duas linguagens que muitos julgavam incompatíveis : a tradição cristã e a cultura contemporânea. Num tempo em que tantos acusam a Igreja de estar distante das novas gerações, esta citação mostra precisamente o contrário : a fé continua capaz de dialogar com os símbolos, narrativas e perguntas do nosso tempo.

Existe, ainda, outra lição importante. Gandalf não pergunta quanto tempo temos. Pergunta o que fazemos com ele. Num mundo obcecado pela produtividade, pela velocidade e pela distração permanente, a grande questão volta a ser moral e espiritual. O que fazemos com os dias que nos são dados? Que legado deixaremos? Que esperança transmitiremos?

No fundo, a encíclica de Leão XIV recorda-nos algo essencial : mesmo em tempos sombrios, a esperança continua a ser uma escolha. Não é ingênua. Não é alienada. Mas profundamente humana e cristã.

E talvez Tolkien sorrisse ao ver que, muitos anos depois, um Papa encontrou em Gandalf palavras capazes de iluminar o coração do mundo contemporâneo.’

 

Fonte  : *Artigo na íntegra

https://www.osservatoreromano.va/pt/news/2026-06/por-006/tolkien-esperanca-e-o-combate-do-nosso-tempo.html


quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Tolkien e a morte: uma reflexão a propósito do dia de Finados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Francisco Borba Ribeiro Neto


‘Hoje em dia, é fato relativamente bem reconhecido que a literatura de fantasia do século XX deve muito ao imaginário cristão – particularmente pela contribuição que J.R.R. Tolkien deu ao gênero. Católico fervoroso, suas obras não têm intenção catequética, mas estão impregnadas por uma mentalidade cristã. Seu maior herói, Frodo, o pequeno hobbit, nascido numa terra perdida e depreciada, como a Nazaré bíblica, aparentemente fraco e impotente, irá carregar o mal do mundo (o Anel) e ser, com seu sofrimento, o instrumento para a salvação. A associação a Cristo é inescapável. Sam Gamgee, o fiel companheiro trapalhão de Frodo, por sua vez, representa claramente a figura do santo pecador.

Em seus textos, Tolkien projetou, igualmente, suas inquietações existenciais e reflexões ‘teológicas’ (mesmo que sem nenhuma pretensão de fazer teologia, bom frisar). Viveu um tempo particularmente angustiante, lutou na Primeira Grande Guerra e viu seus filhos lutarem na Segunda, atravessando um entreguerras no qual a experiência de um confronto não deu à humanidade a sabedoria de evitar um outro. O conjunto de sua obra (na qual O hobbit e O Senhor dos Anéis são os textos mais conhecidos) narra a dramática história desse mundo imaginário onde os mais belos e mais poderosos irão sendo continuamente vencidos pelo mal, vítimas de sua própria arrogância e cobiça. Só a pureza do pequeno hobbit e a sabedoria do mago Galdalf, que reconhece na fragilidade a força de um Outro, trarão a vitória definitiva sobre o Mal.

O Dia de Finados e o lançamento mundial de uma nova série de streaming, Os anéis do poder, a mais cara já filmada, baseada na obra de Tolkien, sugerem uma reflexão sobre um dos pontos mais interessantes da ‘teologia’ desse autor : o grande dom de Ilúvatar.

O mundo criado por Tolkien

No imaginário tolkieniano, mitos de outros povos, em particular os nórdicos, são revistos e reinterpretados numa chave de leitura católica. Os textos nos quais essa mitologia é constituída são apresentados em obras não publicadas em vida pelo autor, como O Silmarillion e Contos inacabados. Nessas obras, Ilúvatar é o deus criador, onipotente e aparentemente (mas só aparentemente) distante de tudo que acontece no mundo. Os Valar, deuses menores que frequentemente se confundem com a imagem dos anjos cristãos, são seus representantes para a guarda da Criação. O mal entrou no mundo por obra de um Valar decaído, Melkor ou Morgoth – imagem evidente de Lúcifer, que será substituído por Sauron, o grande antagonista de O Senhor dos Anéis. Duas raças, ambas criadas por Ilúvatar, disputam entre si a hegemonia no mundo (a chamada Terra Média) : os elfos, os primogênitos, belos, poderosos e imortais, e os homens, os filhos ‘mais novos’, fracos, contraditórios e destinados a morrer.

Ao longo das eras dessa Terra Média, vamos conhecendo o destino cruel dos elfos. Por mais belos e sábios que sejam, acabam sempre sendo vencidos por se tornarem arrogantes e cobiçosos. Os homens, por sua vez, seres ignóbeis que raras vezes demonstram honra e dignidade, em sua fraqueza e contradição são frequentemente arrastados para o mal. Contudo, e aqui está o centro desse artigo, Ilúvatar lhes concedeu um presente paradoxal, que desperta simultaneamente desprezo e inveja de seus irmãos elfos. Aos homens foi concedido o dom maravilhoso da morte.

Como a morte pode ser um dom maravilhoso? Não seriam os seres mortais que deveriam invejar a imortalidade dos elfos? De fato, a morte na mitologia de Tolkien ocupa esse lugar contraditório e escandaloso. Os mortais invejam a vida eterna dos imortais, mas também os imortais invejam o dom da morte dado aos mortais. Vivendo num tempo marcado pela morte aparentemente injusta e sem sentido nos campos da guerra, compreende-se que Tolkien tenha tido que dar uma resposta à grande pergunta : pode existir um Deus bom que permita a morte indevida de tantos seres humanos?

O dom do qual se tem medo

A resposta de Tolkien para o drama da morte é, sem dúvida, fascinante e totalmente cristã : a morte é um dom, pois por meio dela os seres humanos poderão encontrar ao Criador, que os ama tanto e pelo qual eles tanto anseiam. Nesta perspectiva, os homens têm medo de morrer porque, para os vivos, a convivência com Ilúvatar, após a morte, é inevitavelmente um mistério. Nem mesmo os Valar sabem exatamente como se dará… O Tentador, sabendo disso, insinuou-se na mente dos seres humanos, aproveitando-se de seu medo diante do desconhecido, para fazer com que temessem a morte – e assim se afastassem de Deus e de seu grande dom de amor.

A maior função das religiões – e isso vale para todas – é nos ajudar a superar o medo da morte. A grande maioria delas apresenta, de uma forma ou de outra, essa grande intuição que a morte é a possibilidade de encontrarmo-nos com a divindade. Nem todas, contudo, pensam essa divindade como um Deus de amor. Muitas, mesmo reconhecendo o amor de Deus, consideram a possibilidade de encontrá-lo muito difícil, exigindo uma série de esforços e sacrifícios nessa vida. No próprio cristianismo muitas vezes o medo do inferno parece maior do que a esperança na salvação.

Um sacerdote italiano, que foi missionário no Brasil por muito tempo, padre Luigi Valentini, já idoso, falando sobre a própria morte, dizia que agora se aproximava o momento em que finalmente iria encontrar o grande amor ao qual havia dedicado toda sua vida. Essa deveria ser a maneira, cheia de esperança, pela qual todos nós deveríamos nos aproximar do momento da própria morte. Também deveria ser o sentimento com o qual pensamos em nossos falecidos.

Oxalá o dom maravilhoso do encontro com o Pai ilumine a nossa vida e nos ajude a viver com alegria e comprometidos com o bem.’

 

Fonte : *Artigo na íntegra

https://pt.aleteia.org/2022/11/06/tolkien-e-a-morte-uma-reflexao-a-proposito-do-dia-de-finados/