domingo, 19 de novembro de 2017

O fascínio do poder

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor
  
‘Quando se conversa com um jovem sobre seus projetos para o futuro, é comum ouvir dele que seu sonho é ter uma profissão bem rentável, proporcionando-lhe recursos que lhe dê vida farta e confortável. Bem, é verdade que nem sempre a resposta é tão direta assim, todavia nas linhas e entrelinhas o que, com facilidade se deduz, é esta obviedade de seus anseios. Ter dinheiro, muito dinheiro, é a síntese dos sonhos de muitos jovens e adultos.
Permitindo-me um pequeno deslize para lugar comum, nos dias atuais os ocupantes de cargos políticos são, talvez com raríssimas exceções, exemplos típicos dos caçadores de tesouros, cujo objetivo máxime é exatamente este : grandes fortunas. Disputam cargos eletivos sem qualquer motivação altruística, pouco se importando com a fome e a miséria dos que os cercam, muitos deles seus futuros eleitores. Estão com os olhos dilatados em busca de polpudos ganhos, não importando a forma, a origem, nem as retribuições que por eles terão de dar. Há muito ouvi de um familiar, já falecido, e na época bastante envolvido com a política, que a única coisa importante na vida é o dinheiro. Afirmava, com insistência e convicção, que o dinheiro é a força única que move o mundo. E por dinheiro, muitos fazem qualquer coisa, sem qualquer escrúpulo. Vendem seu corpo, sua alma, sua dignidade, sua família e, se preciso for, matam pessoas, mesmo sendo pais, irmãos, parentes e amigos, bastando para isso que eles obstaculizem os seus ambicionados projetos de polpudos ganhos. Na verdade, o fazem até mesmo por modestos estipêndios...
Contudo, hoje tenho absoluta convicção de que o dinheiro não é o objetivo final dessas pessoas. Se assim fosse, ao chegar a um certo teto – digamos, bastante elevado – certamente parariam com sua fúria conquistadora para poder desfrutar, da melhor maneira possível, dos milhões arrecadados, sem outras preocupações. Mas, observando bem, elas não se contentam com teto algum. Algumas, nem sequer usufruem das benesses proporcionadas pelas grandes fortunas amealhadas. Querem mais, sempre mais, muito mais do que lhes será possível gastar, por mais perdulários que sejam, por mais longa que imaginem suas vidas. Basta observar as cifras levantadas por esta avalanche moralista que está sendo a ‘Operação Lava jato’. Montantes de dinheiro que nem sequer ousávamos pensar existir em qualquer corporação, são abocanhadas insaciavelmente por deputados, senadores, seus asseclas e outros ocupantes de cargos públicos. Tudo à custa de manobras sujas, das quais sequer se envergonham quando desveladas as suas safadezas, e são conduzidos coercivamente por policiais federais fortemente armados. Basta observar o cinismo com que os seguem. Como explicar então essa ganância? Respondo que é pelo verdadeiro objetivo final de sua fome insaciável : o poder. O que realmente almejam é o poder, e este não tem limites. Para conseguir todo o poder que desejam, em níveis insanamente sonhados, somente através do dinheiro, muito dinheiro. Daí a sua necessidade, sempre crescente, de arrecadar mais e mais, permitindo-lhes comprar pessoas, cargos, e tudo o mais que representa ou que lhes possa proporcionar o poder com que sonham.  
Vem então uma pergunta crucial : para que se quer, ou se precisa de tanto poder? Pesquisando a história descobrimos que nenhuma pessoa, mesmo conquistando poderes em níveis inimagináveis, logrou alcançar a felicidade, esta sim o desejo oculto no fundo dos corações e mentes de todos os humanos. Para quem goza de poder extremo, extremos também são os riscos que corre. Sua vida é uma constante caminhada em corda bamba, equilibrando-se no tênue fio da navalha, sem poder nem conseguir viver plenamente a vida. Seus prazeres são fugazes, sempre com o sabor amargo da insegurança que os cerca e que fingem ignorar. Vaidosos e arrogantes, vivem enquistados num mundo de iguais, com os quais compete e por vezes são por eles traídos. Afinal, a luta pelo pódio não tem quartel nem condescendência. Tudo é válido para sobrepujar o outro, ou para se livrar das perdas que lhes acontecem. Exemplos evidentes eram as lutas de gângsteres nos anos 30, e são as dos grupos de traficantes nos dias atuais; entre os coronéis da política no passado e a larga safra de políticos desnudados pela ‘Lava jato’ na atualidade. A delação premiada é hoje a arma de dois gumes para tentar se safar, ao mesmo tempo em que destroem os concorrentes. Cabeças raspadas, tornozeleiras eletrônicas, escolta da Federal, apontam os poderosos em declínio.
Curiosamente, o símbolo do poder total é Deus. Não é sem razão o que dizem dos poderosos : ‘Eles se julgam deuses!’ Mas poucos têm a consciência de que Deus, aquele que É, não tem, não precisa, nem quer poder algum. Se assim fosse, seríamos todos marionetes sem vontade própria, manipulados por um ser todo poderoso. Quem tem poder sempre quer dominar os mais fracos, exercendo sobre eles a força que acreditam possuir, ampliando seus próprios benefícios, espoliando os dominados, insensíveis às suas penúrias e aos seus sofrimentos.  
Deus, na sua imensidade infinita, jamais precisou nem buscou dominar ninguém, pois se assim fosse ele não seria amado, e sim temido. Condição incompatível com a perfeição de um Ser supremo. Nós é que distorcemos o que desconhecemos, como o frequentemente referido ‘temor de Deus’, usado para amedrontar e ameaçar os crentes mais ingênuos. O sentido real dessa expressão é o profundo respeito que devemos ter à Deus, resultado do máximo amor que lhe temos, em retribuição ao amor infinito que Ele nos dedica. Assim como o temor dos pais e mestres, hoje tão fora de moda, nunca deve ser o medo, mas o respeito indispensável a quem devemos tanto, se não tudo. Onde existe verdadeiro amor, certamente o poder jamais encontra lugar ou guarita.’

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