domingo, 23 de julho de 2017

Os “pecados” da Terra Santa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Margarida Santos Lopes,
jornalista


‘No léxico dos Palestinos há duas palavras que resumem as suas derrotas. Uma é nakba (catástrofe), a guerra de 1948 que os forçou ao exílio do que é hoje o Estado de Israel. A outra é naksa (revés), a guerra de 1967 que os obrigou a novo êxodo ou deixou sob ocupação.

E tudo começou há cem anos, a 2 de Novembro de 1917, com ‘um simples parágrafo’ numa carta que Arthur James Balfour, então ministro dos Negócios Estrangeiros de Londres, enviou à Federação Sionista da Grã-Bretanha e Irlanda. «O Governo de Sua Majestade vê favoravelmente a criação na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e fará o possível para facilitar esse objetivo

A Declaração Balfour e o Mandato Britânico da Palestina iniciado em 1920, após o desmoronamento do Império Otomano, abalaram a região como um sismo. Os árabes esperavam autodeterminação por terem lutado ao lado dos Ingleses contra os Turcos da Sublime Porta, mas os horrores do Holocausto conduziram a uma imigração em massa que aumentou a população judaica de 50 mil, em 1917, para mais de 600 mil, em 1947. A 29 de Novembro, a ONU votou a criação de dois Estados.

Os árabes, denunciando ‘traição’, recusaram a ‘partilha’. Os judeus proclamaram a ‘independência de Israel’, em 2 de Maio de 1948. Apagaram do mapa mais de 500 aldeias. Mais de 700 mil palestinos tornaram-se refugiados.

Em 5 de Junho de 1967, numa guerra que em apenas seis dias derrotou vários exércitos árabes hostis, Israel expandiu território para incorporar áreas reservadas ao Estado palestino. Em 1968, com um governo trabalhista, iniciou a colonização dos territórios ocupados.

Os Palestinos tentaram libertar-se em 1987, com uma primeira Intifada. Esta revolta, que misturou pedras e protestos pacíficos, levou Israel a negociar os Acordos de Oslo (1993) com uma OLP enfraquecida após o apoio à invasão iraquiana do Kuwait (1989).

Oslo confinou os Palestinos a enclaves em 40% do território ocupado, administrado por uma Autoridade Palestina (AP), cuja missão tem sido a de guardião de Israel. Nos restantes 60%, estão agora mais de 200 colonatos e os recursos de água.

Em 2000, os Palestinos lançaram outra Intifada, uma série de atentados suicidas visando sobretudo civis. Israel construiu um ‘muro de separação’ na Cisjordânia. Em 2005, retirou unilateralmente colonos e soldados de Gaza, mas tem voltado com bombas sempre que o Hamas lança foguetes. Foi assim em 2008-2009, em 2012 e em 2014. Em Telaviv, a extrema-direita consolidou o poder.


Nivine, Rami e Larry

«Ainda hoje os Palestinos vivem as consequências da Declaração Balfour», afirma Nivine S., residente em Jerusalém Leste, setor árabe anexado em 1967. «Se a promessa [britânica] não tivesse sido feita, talvez vivêssemos hoje numa Palestina independente. Por outro lado, quando vejo o que se passa nesta região, pergunto-me se a Palestina estaria ou não em paz. Talvez se dividisse em diferentes grupos, porque enfrentamos os nossos próprios conflitos internos

Nascida em 1982, o ano das chacinas de Sabra e Shatila, em Beirute, Nivine concluiu um mestrado em Democracia e Direitos Humanos na Universidade de Bir Zeit (Cisjordânia). É co-directora de uma organização não governamental que junta judeus e árabes pela coexistência : Israel Palestine Regional Creative Initiatives (IPCRI). É especialista em programas de construção da paz e igualdade de gênero. Trabalha com outras associações, locais e internacionais, de mulheres e da sociedade civil.

Depois de Balfour, outro acontecimento ainda hoje traumático é a Naksa. «Sem a guerra de 1967, não haveria a ocupação que diariamente afeta as nossas vidas», observa Nivine. «Talvez fôssemos vizinhos de Israel, duas nações em paz e em segurança

«A ocupação controla a nossa liberdade, as nossas escolhas – com quem vivemos, com quem nos casamos, quem são os nossos amigos. A ocupação dividiu os Palestinos – os da Cisjordânia, os de Jerusalém, os de Gaza, os Palestinos de Israel. Cada um destes grupos está submetido a diferentes leis. Fazem-nos sentir que uns são melhores do que outros. Os meus amigos em Gaza queixam-se de que pagam o preço mais elevado : acham que nós, em Jerusalém, vivemos no céu por não termos tantas restrições de movimento; pensam que os palestinos em Israel são traidores

«Perdemos a esperança», afirma Nivine. «Já nem sequer nos importa que Israel comece outra guerra. Damos o melhor de nós, avançando com iniciativas, mas sentimo-nos atraiçoados pelos nossos dirigentes e pelo mundo. A ocupação tem sido usada pela Autoridade Palestina para ignorar apelos a eleições e reformas. A corrupção aumenta, e aumenta também a fúria dos jovens

«A Autoridade Palestina tem de ser desmantelada, para permitir que Israel assuma as suas responsabilidades como potência ocupante», sublinha Nivine. «A luta deve ser um homem, um voto, uma voz, um Estado.»

Não é muito diferente, embora mais otimista, a posição de Rami Younis, 32 anos, palestino de cidadania israelita, residente em Haifa, biólogo, ativista, escritor, produtor artístico.

«É importante distinguirmos o modo como a velha e a nova geração de palestinos olha para Balfour e outras efemérides», diz-nos Rami. «Há cada vez mais jovens abandonando a mentalidade de vítima. A nossa resistência à ocupação liga-se cada vez mais ao exterior e cada vez menos às lágrimas das memórias dolorosas do passado.»

«Não me interpretem mal. Essas memórias e aniversários são importantes para que os jovens aprendam o que aconteceu ao seu povo e às suas famílias, mas nós, terceira geração da nakba, não abraçamos apenas essas memórias. Nós agimos de forma criativa e independente

«Os melhores exemplos estão na cena cultural», explica Rami. «Em Haifa, realizamos [em Março] o segundo festival de cinema independente – sem qualquer apoio de Israel ou da Autoridade Palestina – e a Expo Música da Palestina [em Abril]. O objetivo é ligarmo-nos ao mundo apesar de a ocupação nos tentar isolar. É uma resistência ativa que não depende dos líderes. A Autoridade Palestina, corrupta, perdeu toda a nossa confiança

Rami Younis, como Nivine, também advoga a solução de um só Estado : «É a única maneira de eliminar o apartheid, porque qualquer tipo de separação só mantém o statu quo

«Sim», admite Larry Derfner, filho de sobreviventes do Holocausto, «o modo como Israel olha para os Palestinos é idêntico à forma como os brancos na África do Sul olhavam para os negros durante o apartheid [1967-1991], pelo menos, num aspecto importante : eles são invisíveis

«As pessoas que invocam uma ‘ameaça demográfica’ se Israel mantiver a ocupação estão erradas», acrescenta Derfner, judeu americano que em 1985 se mudou de Los Angeles para Telaviv, apenas para ser jornalista e acabou por ficar. «Israel não se preocupa com os árabes que vivem sob o seu domínio enquanto eles não tiverem direito de voto ou qualquer poder – tal como os não-brancos durante o regime de segregação racial na África do Sul

Autor de No Country For Jewish Liberals, as suas memórias recém-publicadas, Derfner lamenta que a esquerda seja fraca, «provavelmente, doente terminal». No seu percurso de vida, ele sempre fez a si próprio duas perguntas : «Porque é que os judeus têm de ter mais direitos do que os árabes entre nós? Se fôssemos maltratados, como Israel faz com os Palestinos, como reagiríamos nós?» A realidade amargura-o.

«A maioria dos israelitas pensa que já foram tentadas todas as soluções de esquerda, desde negociar Oslo à retirada unilateral de Gaza, e que a retribuição tem sido violência. A maioria pensa que ofereceu aos Palestinos ‘um bom acordo’ [em Camp David, em 2000] e que, como recompensa, recebeu terrorismo. O que eles não entendem é que ofereceram aos Palestinos um acordo muito mau. Nunca lhes prometeram independência, soberania e liberdade. Pelo contrário, prosseguiram os abusos da ocupação e, por isso, o terrorismo não cessou.»

Na conjuntura atual, onde se situa Larry Derfner, colunista do diário Ha’aretz e um dos 85 mil residentes da cidade de Modi’in, nenhum deles árabe, «como é hoje a norma»? «Sou pós-sionista porque acredito que o Estado sionista já está garantido e chegou a hora de o tornar democrático. Continuo, porém, a ser sionista porque quero que Israel se mantenha um Estado judaico. Um Estado binacional é receita para uma guerra civil


 Cronologia do conflito Palestino-Israelita

Acordo de Sykes-Picot e Declaração Balfour

Um compromisso secreto firmado, em 1916, entre Sir Mark Sykes e François George-Picot, com luz verde da Rússia, visou desmembrar o moribundo Império Otomano. O chamado ‘Acordo da Ásia Menor’ não chegou a ser aplicado, mas, anos depois, lançaria as bases para dividir o território governado pelos Turcos em áreas administradas por Britânicos (Iraque e Palestina) e Franceses (Síria e Líbano). Em 1917, com a ‘Declaração Balfour’, a Grã-Bretanha apoia a criação de um ‘lar nacional para o povo judeu’ na Palestina.


Mandato britânico da Palestina

Um território que, após o colapso do Império Otomano, incluía o que é hoje Israel, a Cisjordânia (incluindo Jerusalém), a Faixa de Gaza e a Jordânia, a Palestina ficou sob mandato britânico por decisão da Liga das Nações (que precedeu a ONU). Esta administração durou de 1920 a 1948. Em 1923, os Ingleses concederam uma autonomia limitada ao que era então a Transjordânia e é hoje a Jordânia.


Partilha da Palestina

Em 1947, com os Britânicos a enfrentarem sublevações dos árabes, que se sentiam ‘traídos’, e a luta armada de grupos judaicos revoltados contra as restrições à imigração dos que fugiam do Holocausto, a ONU dividiu a Palestina em dois Estados. Um para os judeus; outro para os árabes. Jerusalém seria uma cidade com estatuto internacional. O plano foi rejeitado pela população árabe e nunca aplicado.

Em 1948, os judeus proclamaram o Estado de Israel e países árabes vizinhos declararam guerra. Após oito meses de batalhas foi acordada uma linha de armistício, em 1949, que permitiu a Israel controlar mais território do que o previsto no Plano de Partilha de 1947, incluindo Jerusalém Ocidental. A Cisjordânia e a Faixa de Gaza como ‘unidades geográficas distintas’ : a primeira anexada pela Jordânia; a segunda ocupada pelo Egito.

A guerra que os Palestinos chamam Nakba (Catástrofe) forçou ao exílio 750 mil de 1,2 milhões de árabes – uns fugiram e outros foram expulsos em campanhas de limpeza étnica. De 1948 até 1967, a Cisjordânia foi governada pela Jordânia e a Faixa de Gaza esteve sob administração militar egípcia. De 1949 até aos anos 1960, foram viver para Israel mais de 250 mil sobreviventes do Holocausto e ainda mais de um milhão de imigrantes e refugiados judeus de países de maioria muçulmana.


A Guerra dos Seis Dias

Em 1956, tropas israelitas conquistaram a península do Sinai ao Egito, depois de o presidente Nasser ter nacionalizado o Canal do Suez. Em 1967, o Egito expulsou as tropas da ONU, que tinham substituído as israelitas, forçadas a retirar-se. Nasser bloqueou o acesso de Israel às rotas de navegação e subiu a tensão regional.

Num ‘ataque preventivo’, a 6 de Junho de 1967, que destruiu toda a aviação egípcia, no solo, e atraiu a Síria e a Jordânia para um conflito regional, Israel ganhou a guerra em seis dias. Os Jordanianos perderam a Cisjordânia e Jerusalém Leste; os Egípcios a Faixa de Gaza e a Península do Sinai, e os Sírios os Montes Golã. Israel anexou prontamente Jerusalém Leste, e proclamou a cidade sua capital. Em 1981, anexaria também os Montes Golã (apenas evacuou a cidade de Quneitra, após a guerra de Outubro de 1973).

A ocupação em 1967 foi imediatamente acompanhada da colonização da Cisjordânia e Gaza. A ONU fez aprovar duas resoluções exigindo a Israel a retirada dos territórios ocupados em troca de segurança. Só o Egito recuperou o Sinai, depois de assinar o primeiro tratado de paz israelo-árabe, em 1979. A Jordânia seguiu o exemplo do Cairo, um ano depois de a OLP e Israel se reconhecerem mutuamente. Mas os Acordos de Oslo de 1993 não cessaram o conflito com os Palestinos e a ‘solução de dois Estados’ parece cada vez mais impossível, 70 anos depois de a ONU ter dividido a Palestina do Mandato Britânico.


Os Acordos de Oslo

O chefe do governo de Israel, Yitzhak Rabin, e o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, assinaram na Casa Branca (EUA), a 13 de Setembro de 1993, os documentos em que se comprometiam a unir esforços para a realização da paz entre os dois povos. Os Acordos de Oslo, mediados por Bill Clinton, tinham sido negociados secretamente na Noruega durante vários meses entre representantes israelitas e palestinos. Estes acordos previam o término dos conflitos, a abertura das negociações sobre os territórios ocupados, a retirada de Israel do Sul do Líbano e a questão do estatuto de Jerusalém.


Construção do muro

O Muro de Israel começou a ser construído em Junho de 2002, quando o na altura primeiro-ministro israelita Ariel Sharon defendeu a criação de uma fronteira para travar a violência e os atentados frequentes na zona. Esta barreira tem mais de 700 quilômetros e é composta por cimento, tijolos, arame farpado e valas. A construção do muro foi considerada ilegal e ilegítima pela ONU e pelo Tribunal Internacional de Justiça.’


Fonte :