quarta-feira, 20 de junho de 2018

Onde está o teu tesouro aí está o teu coração


Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Se queremos encontrar onde está nosso coração basta perceber onde ou em que colocamos a maioria das nossas forças e nossa maior porção de tempo.
*Artigo de Fabrício Veliq,
teólogo protestante
  
‘‘Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração. Mateus 6:19-21

Esses versículos, inseridos no chamado Sermão do Monte que segue de Mateus 5 e vai até o capítulo 7 são muito conhecidos. Mesmo sendo comumente ouvidos, na maioria das vezes, são associados somente às questões de cunho espiritual e usados para fazer uma total dicotomia entre coisas do céu e coisas da terra, termos esses entendidos não no sentido bíblico, mas no sentido literal.

A princípio, podemos pensar que Jesus está fazendo uma mera contraposição entre céu e terra e que, assim, devemos pensar somente nas coisas que são do alto e ignorar as coisas que estão na parte de baixo, numa espécie de pensamento de que nada aqui vale a pena e, ainda pior, que tudo que é terreno recebe a reprovação de Deus.

Porém, ao se ter em mente que céu na Bíblia é simplesmente um nome para Deus é possível reler esse versículo como sendo um conselho para que guardemos nossos tesouros em Deus.  Qual seria o motivo para isso? O texto nos mostra dois: porque ali a ferrugem e a traça não o destroem e, o mais importante de todos, porque ali onde está nosso tesouro ali estará o nosso coração, o que, de maneira inversa pode ser dito que, onde está o nosso coração, ali está o nosso tesouro.

Dizer que nosso coração está em algo quer dizer que esse algo é o que define nossas prioridades e nosso comportamento diante das situações do cotidiano. Dessa forma, se queremos encontrar onde está nosso coração basta perceber onde ou em que colocamos a maioria das nossas forças e nossa maior porção de tempo.

A chamada de Jesus, desse modo, nos confronta para uma tomada de decisão que é justamente onde guardaremos nosso tesouro, se nas coisas de Deus, ou se nas coisas terrenas. Se atentarmos ao Evangelho pregado por Jesus é possível identificar quais são as coisas dos céus e quais são as coisas da terra. As coisas dos céus, que é o mesmo que dizer a respeito das coisas de Deus, são aquelas que têm a ver com o se importar com pobres, marginalizados e esquecidos da sociedade, o que o texto de Mateus 25 deixa muito claro quando afirma que fazer algo aos pequeninos é fazer ao próprio Deus. Nesse sentido, empatia e misericórdia é o modo de viver de todo/a aquele/a que decide por guardar seus tesouros nas coisas de Deus.

Por outro lado, com relação às coisas terrenas, é sempre importante lembrar que terra aqui não tem a ver com o planeta, antes com um sistema e uma forma de vida. Ser terreno, nesse sentido, é viver uma vida que é voltada somente para si, movida pelo individualismo e sem se importar com outros. Dessa forma, individualismo e egoísmo são marcas de todos/as que decidem guardar o seu tesouro nas coisas terrenas.

Por sua vez, esse lugar onde nosso tesouro está não fica em secreto de maneira que os outros não têm como saber onde o guardamos. Lao Tsé já dizia que ‘A alma não tem segredos que o comportamento não revele’. Esse ensinamento, então, serve de critério para avaliação de toda coadunação entre discurso e prática. Em outras palavras, muito além do discurso, é o comportamento que nos indica onde está o nosso tesouro e, ao mesmo tempo, torna-o visível para todos/as que os observam e estão atentos ao nosso modo de viver. Nesse sentido, é importante lembrar que o grito de nosso comportamento é sempre maior que a ênfase de nossas palavras e que nosso esforço deve ser sempre de, assim como Jesus, viver uma vida na qual a nossa prática manifeste nosso discurso e nosso discurso seja reflexo de nossa prática.’


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