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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Via da misericórdia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



Esse caminho está na contramão da perversidade e da indiferença. Envolvendo corações e mentes, esses males marcam os tempos atuais com os frutos da insanidade e da ignorância, insensíveis às muitas possibilidades para os avanços humanitários, sociais e políticos. A misericórdia é, assim, remédio indispensável, lição inigualável.

Quando um coração é forjado pela misericórdia, torna-se base para uma mente límpida, orientada para a fraternidade solidária, repleta de uma luz que inspira a inteligência e a sabedoria, qualidades indispensáveis em qualquer momento da história. Afinal, a desastrosa percepção dos mais diferentes processos é um tipo de cegueira que causa confusões, leva a decisões equivocadas, à falta de senso crítico sobre as próprias atitudes.

Percorrer a via da misericórdia é necessário treinamento para se conquistar a competente compreensão a respeito de si e do outro. Permite reconhecer a vida de cada pessoa como dom. É, pois, atitude fundamental para se administrar, com equilíbrio, a própria vida. Caminho que consolida a justiça, pois conduz ao compromisso com a verdade, o bem comum, a honestidade. Quem se aproxima do amor misericordioso de Deus, revelado em Jesus Cristo, desenvolve o gosto pela honestidade, não alimenta qualquer tipo de orgulho ou ilusória concepção sobre si.

Sem a via da misericórdia, tudo se enfraquece. A religiosidade deixa de contribuir para que a sociedade alcance nova etapa de seu desenvolvimento. As famílias, que deveriam ser ambiente para muitos aprendizados, ficam desfiguradas. Buscar a misericórdia não é, pois, um passeio sem propósito. É experiência renovadora, a partir do encontro com Jesus Cristo, o rosto misericordioso de Deus-Pai. Um acontecimento capaz de corrigir muitos descompassos, a exemplo do costume de se alegrar, perversamente, com o fracasso dos outros. As lições de Jesus Cristo salvam a humanidade também de males que afligem a alma, tornando-a suscetível a sofridas depressões.  Quem segue o Mestre, rosto da misericórdia divina, não desiste de viver, pois passa a reconhecer a própria existência como dom. Cultiva especial apreço à vida de todos, acima de qualquer interesse egoísta que possa levar a disputas insanas.

Nesse horizonte, compreende-se a oportunidade singular oferecida na Semana Santa: buscar a misericórdia seguindo os passos do Mestre, na sua paixão, morte e ressurreição, a partir das celebrações e da escuta da Palavra de Deus. A Semana Santa condensa lições essenciais que, se aprendidas por todos, permitem o surgimento de uma humanidade nova, solidária. Jesus é único e seus ensinamentos são a verdadeira sabedoria. Todos aproveitem a chance de fixar o olhar em Cristo, para percorrer com Ele a via da misericórdia. Assim, cada pessoa tem a oportunidade de unir-se a Deus, abrir o próprio coração para o amor, que transforma, produz sabedoria, permite discernimentos e escolhas acertadas.

Os atos de Jesus são permeados de compaixão, que não pode ser confundida com fraqueza. Trata-se de corajosa fidelidade à verdade e ao bem de todos.  Acolher suas palavras, silenciar ante seus sofrimentos e sua morte expiatória, refletindo sobre os preciosos ensinamentos reunidos na Bíblia, a exemplo dos que estão concentrados no Sermão da Montanha, é passo importante para percorrer a via da misericórdia junto com Cristo. A humanidade precisa, com urgência, trilhar esse caminho. Seja, pois, compromisso de todos, percorrer a via da misericórdia para aproximar-se de Deus e aprender com o seu amor.’


Fonte :

sexta-feira, 12 de abril de 2019

‘João e Paulo: dois olhares diferentes para o mistério’ - Quinta pregação da Quaresma de 2019

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFMCAP,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)
Tradução : Thácio Siqueira


No Novo Testamento e na história da teologia há coisas que não podem ser compreendidas sem levar em conta um fato fundamental : a existência de duas abordagens diferentes, ainda que complementares, ao mistério de Cristo : a de Paulo e a de João.
João vê o mistério de Cristo a partir da Encarnação. Jesus, o Verbo feito carne, é para ele o supremo revelador do Deus vivo, aquele fora do qual ninguém ‘vai ao Pai’. A salvação consiste em reconhecer que Jesus ‘veio na carne’ (2 Jo 7) e em crer que ele ‘é o Filho de Deus’ (1 Jo 5,5); ‘Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida’ (1 Jo 5,12). No centro de tudo, como podemos ver, está a ‘pessoa’ de Jesus homem-Deus.
A peculiaridade desta visão joanina é evidente se a compararmos com a de Paulo. Para Paulo, o centro das atenções não é tanto a pessoa de Cristo, entendida como realidade ontológica, mas a obra de Cristo, isto é, seu mistério pascal de morte e ressurreição. A salvação não consiste tanto em crer que Jesus é o Filho de Deus que veio na carne, mas em crer em Jesus ‘que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação’ (cf. Rm 4, 25). O acontecimento central não é a encarnação, mas o mistério Pascal.
Seria um erro fatal ver nisto uma dicotomia na própria origem do cristianismo. Quem lê o Novo Testamento sem preconceitos compreende que em João a Encarnação está em vista do mistério pascal, quando Jesus finalmente derramará o seu Espírito sobre a humanidade (Jo 7, 39), e compreende que para Paulo o mistério pascal pressupõe e se baseia na Encarnação. Aquele que se fez obediente até a morte e morte de cruz é aquele que ‘estava na forma de Deus’, igual a Deus (cf. Fl 2, 5 ss.). As fórmulas trinitárias nas quais Jesus Cristo é mencionado juntamente com o Pai e o Espírito Santo são uma confirmação de que, para Paulo, a obra de Cristo toma sentido da sua pessoa.
A diferente acentuação dos dois pólos do mistério reflete o caminho histórico que a fé em Cristo fez depois da Páscoa. João reflete o estágio mais avançado da fé em Cristo, aquele que ocorre no final, não no início da redação dos escritos do Novo Testamento. Ele está no final de um processo de ascensão às fontes do mistério de Cristo. Isto pode ser visto observando onde os quatro evangelhos começam. Marcos começa seu evangelho a partir do batismo de Jesus no Jordão; Mateus e Lucas, que vieram depois, dão um passo atrás e começam a história de Jesus desde seu nascimento por Maria; João, que escreve por último, dá um salto decisivo para trás e coloca o início da história de Cristo não mais no tempo, mas na eternidade : ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus’ (Jo 1,1).  
A razão para esta mudança de interesse é bem conhecida. A fé, por sua vez, entrou em contato com a cultura grega que está mais interessada na dimensão ontológica do que na histórica. O que conta para ela não é tanto o desenvolvimento dos fatos, mas o seu fundamento (o archè). A este fator ambiental foram acrescentados os primeiros sinais da heresia do docetista que questionava a realidade da encarnação. O dogma cristológico das duas naturezas e da unidade da pessoa de Cristo será quase inteiramente baseado na perspectiva joanina do Logos feito carne.
É importante levar isso em conta para entender a diferença e a complementaridade entre teologia oriental e teologia ocidental. As duas perspectivas, a paulina e a joanina, embora fundindo-se juntas (como vemos no Credo Niceno-Constantinopolitano), mantêm a sua acentuação diferente, como dois rios que, fluindo um no outro, retêm por muito tempo a cor diferente das suas águas. A teologia e a espiritualidade ortodoxa está baseada principalmente em João; a ocidental (a protestante mais do que a católica) se fundamenta principalmente em Paulo. Dentro da mesma tradição grega, a escola de Alexandria é mais joanina, a da Antioquia mais paulina. Uma faz consistir a salvação na divinização, a outra na imitação de Cristo.

A cruz, sabedoria de Deus e poder de Deus
Agora eu gostaria de mostrar o que tudo isso significa para a nossa busca pelo rosto do Deus vivo. No final das meditações do Advento, falei do Cristo de João que, no momento em que se faz carne, introduz a vida eterna no mundo. No final destas meditações quaresmais, gostaria de falar sobre o Cristo de Paulo que muda o destino da humanidade na cruz. Escutemos imediatamente o texto onde a perspectiva paulina sobre a qual queremos refletir aparece mais clara :
Uma vez que na sabedoria de Deus o mundo não o reconheceu pela sabedoria, Deus quis servir-se da loucura da pregação para salvar os que creem. Enquanto os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos. Porque o que se julga loucura de Deus é mais sábio do que os homens; e o que se julga fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.’ (I Cor 1,21-25).
O Apóstolo fala de uma novidade na ação de Deus, quase uma mudança de ritmo e de método. O mundo não foi capaz de reconhecer Deus no esplendor e na sabedoria da criação; então ele decide revelar-se de maneira oposta, através da impotência e da loucura da cruz. Não é possível ler esta afirmação de Paulo sem recordar a palavra de Jesus : ‘Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos’ (Mt 11, 25).
Como interpretar esta inversão de valores? Lutero falava de uma revelação de Deus ‘sub contraria specie’, isto é, através do oposto do que se esperaria dele[1].  Ele é poder e revela-se na impotência, é sabedoria e revela-se na loucura, é glória e revela-se na ignomínia, é riqueza e revela-se na pobreza.
A teologia dialética da primeira metade do século passado trouxe esta visão às suas consequências extremas. Segundo Karl Barth, não há continuidade entre o primeiro e o segundo modo de manifestação de Deus, mas sim uma ruptura. Não é apenas uma sucessão temporal, como entre Antigo e Novo Testamento, mas de uma oposição ontológica. Em outras palavras, a graça não constrói sobre a natureza, mas contra ela; toca o mundo ‘como a tangente o círculo’, isto é, toca nela, mas sem penetrá-la como o fermento faz com a massa. É a única diferença que, segundo o próprio Barth, o impedia de se chamar católico; todas as outras lhe pareciam, em comparação, de pouca importância. À analogia entis, ele opôs a analogia fidei, isto é, à colaboração entre natureza e graça, a oposição entre a palavra de Deus e tudo o que pertence ao mundo.
Bento XVI, na sua encíclica ‘Deus caritas est’, mostra as consequências que esta diferente visão tem em relação ao amor. Karl Barth tinha escrito : ‘Onde entra em cena o amor cristão, tem início imediatamente o conflito com o outro amor [o amor humano] esse conflito não termina mais[2]. Bento XVI escreve o contrário :  
Éros e ágape - amor ascendente e amor descendente - nunca se deixam separar completamente uns dos outros [...]. A fé bíblica não constrói um mundo paralelo nem um mundo oposto àquele fenômeno humano originário que é o amor, mas acolhe todo o homem, intervindo na sua busca do amor para purificá-la, ao mesmo tempo que lhe abre novas dimensões[3].
A oposição radical entre natureza e graça, entre criação e redenção, foi atenuada nos escritos posteriores do próprio Barth e agora não encontra quase nenhum apoiador. Podemos, portanto, aproximar-nos com mais serenidade da página do Apóstolo para compreender em que consiste realmente a novidade da cruz de Cristo.
Na cruz, Deus se manifestou, sim, ‘sob o seu contrário’, mas sob o contrário do que os homens sempre pensaram de Deus, não do que Deus é realmente. Deus é amor e na cruz registrou-se a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens. Em um certo sentido, só agora, na cruz, Deus se revela ‘na própria espécie’, no que lhe é próprio. O texto de Primeiro Coríntios sobre o significado da cruz de Cristo deve ser lido à luz de um outro texto de Paulo na Carta aos Romanos :
Com efeito, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu no momento oportuno pelos ímpios. Dificilmente alguém aceitaria morrer por um justo; por um homem de bem talvez haja quem se anime a morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, quando éramos ainda pecadores.’ (Rm 5, 6-8).
O teólogo bizantino medieval Nicolau Cabásilas (1322-1392) nos dá a melhor chave para entender qual é a novidade da cruz de Cristo. Escreve :
Duas características revelam o amante e o fazem triunfar : a primeira consiste em fazer o bem ao amado em tudo o que é possível, a segunda em escolher sofrer por ele e sofrer coisas terríveis se necessário. Esta última prova de amor muito superior à primeira não podia, no entanto, concordar com Deus que é impassível a todo o mal [...]. Portanto, para nos dar a experiência do seu grande amor e para mostrar que nos ama com um amor ilimitado, Deus inventa a sua aniquilação, realiza-a e fá-lo de modo a tornar-se capaz de sofrer e de sofrer coisas terríveis. Assim, com tudo o que Ele suporta, Deus convence os homens do seu extraordinário amor por eles e fá-los voltar para Si[4].
Na criação Deus nos encheu de dons, na redenção Ele sofreu por nós. A relação entre os dois é a de um amor de beneficência que se faz amor de sofrimento.
Mas o que aconteceu de tão importante na cruz de Cristo que se tornou a culminação da revelação do Deus vivo da Bíblia? A criatura humana procura instintivamente Deus na linha do poder. O título que segue o nome de Deus é quase sempre ‘onipotente’. E eis que, abrindo o Evangelho, somos convidados a contemplar a absoluta impotência de Deus na cruz. O Evangelho revela que a verdadeira onipotência é a total impotência do Calvário. É preciso pouco poder para se exibir, é preciso muito poder para se afastar, para se apagar. O Deus cristão é este poder ilimitado de esconder a si mesmo!
A explicação última reside, portanto, na ligação inseparável que existe entre amor e humildade. ‘Ele se humilhou tornando-se obediente até a morte’ (Fl 2,8). Ele se humilhou tornando-se dependente do objeto do seu amor. O amor é humilde porque, pela sua natureza, cria dependência. Vemo-lo, no pequeno, do que acontece quando duas pessoas humanas se apaixonam. O jovem que, de acordo com o ritual tradicional, se ajoelha diante de uma menina para pedir sua mão faz o ato mais radical de humildade da sua vida, torna-se um mendigo. É como se dissesse : ‘Eu não me basto, preciso de ti para viver’. A diferença essencial é que a dependência de Deus das suas criaturas nasce unicamente do amor que tem por elas, o amor das criaturas entre si da necessidade que têm umas pelas outras.
A revelação de Deus como amor, escreveu Henri de Lubac, obriga o mundo a rever todas as suas ideias sobre Deus[5]. A teologia e a exegese ainda estão longe de ter tirado todas as consequências disso, creio eu. Uma dessas consequências é esta. Se Jesus sofre atrozmente na cruz, não o faz principalmente para pagar a dívida infinita no lugar dos homens. (Na parábola dos dois servos, em Lucas 7,41, ele explicou antecipadamente que a dívida de dez mil talentos é perdoada gratuitamente pelo rei!). Não, Jesus morre crucificado para que o amor de Deus pudesse alcançar o homem no ponto mais remoto para o qual ele se tinha lançado, rebelando-se contra ele, ou seja, a morte. Também a morte é agora habitada pelo amor de Deus. No seu livro sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI, escreveu :
A injustiça, o mal como realidade não pode ser simplesmente ignorado, deixado para lá. Tem de ser eliminado, vencido. Esta é verdadeira misericórdia. E que agora, dado que os homens não o podem fazer, o próprio Deus o faz - esta é a bondade incondicional de Deus[6].
O motivo tradicional da expiação dos pecados conserva, como podemos ver, toda a sua validade, mas não é a razão última. O motivo último é ‘a bondade incondicional de Deus’, o seu amor.
Podemos identificar três etapas no caminho da fé pascal da Igreja. No início há apenas dois fatos : ‘morreu, ressuscitou’. ‘Tu o crucificaste, Deus o ressuscitou’, clama Pedro às multidões no dia de Pentecostes (cf. At 2, 23-24). Numa segunda fase, faz-se a pergunta : ‘Por que morreu e por que ressuscitou?’ e a resposta é o kerigma : ‘Morreu pelos nossos pecados; ressuscitou pela nossa justificação’ (cf. Rm 4, 25). Mais uma pergunta permanecia : ‘E por que morreu pelos nossos pecados? O que o levou a fazê-lo?’ A resposta (unânime, neste ponto, de Paulo e de João) é : ‘Porque nos amou’. ‘Me amou e se entregou por mim’, escreve Paulo (Gl 2, 20); ‘Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim’, escreve João (Jo 13, 1). 

A nossa resposta
Qual será a nossa resposta diante do mistério que contemplamos e que a liturgia nos fará reviver na semana santa? A primeira e fundamental resposta é a da fé. Não uma fé qualquer, mas a fé pela qual tomamos posse do que Cristo conquistou para nós. A fé que ‘arrebata’ o Reino dos Céus (Mt 11, 12). O Apóstolo conclui o texto do qual partimos com estas palavras :
Cristo Jesus [...] para nós tornou-se sabedoria pela obra de Deus, justiça, santificação e redenção, para que, como está escrito, os que se gloriam se gloriem no Senhor’ (1 Cor 1,30-31).
Aquilo que Cristo se tornou ‘para nós’ - justiça, santidade e redenção – nos pertence; é mais nosso do que se o tivéssemos feito nós mesmos! Não me canso de repetir, a este respeito, o que São Bernardo escreveu :
Em verdade, tomo com confiança para mim (usurpo!) o que me falta das entranhas do Senhor, porque transbordam de misericórdia [...] O meu mérito, portanto, é a misericórdia do Senhor. Certamente não estarei desprovido de mérito até que o Senhor não estiver desprovido de misericórdia. Se as misericórdias do Senhor são muitas, também eu sou muito grande quanto aos méritos [...] Será que vou cantar também a minha justiça? ‘Senhor, só me lembrarei da tua justiça’ (cf. Sl 71, 16). Em verdade, é também minha, porque fizeste para mim a justiça que vem de Deus (cf. 1 Cor 1, 30)[7].
Não deixemos passar a Páscoa sem ter feito, ou renovado, o golpe audacioso da vida cristã que São Bernardo nos sugeriu. São Paulo exorta frequentemente os cristãos a ‘se despojar do homem velho’ e ‘revestirem-se de Cristo[8]. A imagem de despir e vestir não indica uma operação puramente ascética, que consiste em abandonar certas ‘roupas’ e substituí-las por outras, isto é, abandonar vícios e adquirir virtudes. É acima de tudo uma operação a ser feita através da fé. A pessoa se coloca diante do crucifixo e, com um ato de fé, entrega-lhe todos os seus pecados, a própria miséria passada e presente, como aquele que se despoja e joga seus trapos sujos no fogo. Depois, reveste-se da justiça que Cristo adquiriu para nós; diz, como o publicano no templo : ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!’, e volta para casa como ele ‘justificado’ (cf. Lc 18, 13-14). Isto seria realmente um ‘fazer a Páscoa’, realizar a santa ‘passagem’!
Claro que isto não é tudo. Da apropriação, temos de passar à imitação. Cristo - dizia o filósofo Kierkegaard aos seus amigos luteranos - não é apenas ‘o dom de Deus a ser aceito pela fé’; é também ‘o modelo a ser imitado na vida[9]. Gostaria de sublinhar um ponto concreto sobre o qual tentar imitar a ação de Deus : o que Cabasilas destacou com a distinção entre o amor de beneficência e o amor de sofrimento.
Na criação, Deus demonstrou o seu amor por nós, enchendo-nos de dons : a natureza com a sua magnificência fora de nós, a inteligência, a memória, a liberdade e todos os outros dons dentro de nós. Mas não lhe bastou. Em Cristo quis sofrer conosco e por nós. Isto também acontece nas relações das criaturas entre si. Quando um amor floresce, a pessoa sente imediatamente a necessidade de manifestá-lo dando presentes à pessoa amada. É o que os namorados fazem entre si. E sabemos como será o processo : uma vez casados, emergem os limites, as dificuldades, as diferenças de caráter. Já não basta dar presentes; para continuar e manter vivo o próprio matrimônio, é preciso aprender a ‘carregar os fardos uns dos outros’ (cf. Gl 6, 2), a sofrer uns pelos outros e uns pelos outros. É assim que o eros, sem falhar em si mesmo, torna-se também ágape, amor de doação e não só de busca. Bento XVI, na encíclica citada, exprime-se assim :
Mesmo que inicialmente o eros seja sobretudo anseio, ascensão - fascínio pela grande promessa de felicidade - à medida que nos aproximamos do outro, faremos cada vez menos perguntas sobre nós mesmos, buscaremos cada vez mais a felicidade do outro, nos preocuparemos cada vez mais com ele, nos daremos e desejaremos ‘estar lá para o outro’. Assim, o momento do ágape é inserido nele; caso contrário, o eros se decompõe e também perde a sua própria natureza. Por outro lado, o homem não pode sequer viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. Não pode sempre apenas dar, também deve receber. Quem quiser dar amor, deve recebê-lo como um dom.
A imitação da ação de Deus não diz respeito apenas ao matrimônio e aos casados; num sentido diferente, diz respeito a todos nós, os consagrados, antes de todos os outros.  O progresso, no nosso caso, consiste em passar de fazer tantas coisas por Cristo e pela Igreja para sofrer por Cristo e pela Igreja. O que acontece no casamento acontece na vida religiosa, e não surpreende que aconteça, pois é também um casamento, um casamento com Cristo.
Uma vez a Madre Teresa de Calcutá falava a um grupo de mulheres e as exortava a sorrir para seus maridos. Uma delas opôs-se a ela : ‘Madre, você fala assim porque não é casada e não conhece o meu marido’. Ela respondeu : ‘Você está errada. Também sou casada e garanto-vos que, às vezes, também não é fácil para mim sorrir para o meu Esposo’. Depois da sua morte se descobriu ao que a santa aludia com aquelas palavras. Seguindo o seu apelo para servir os mais pobres dos pobres, ela se comprometeu a trabalhar com entusiasmo pelo seu Esposo divino, realizando obras que surpreenderam o mundo inteiro.
Rapidamente, porém, a alegria e o entusiasmo se perderam, ela mergulhou em uma noite escura que a acompanhou pelo resto da vida. Chegou a duvidar se ainda tinha a fé, tanto assim que, quando, depois da sua morte, foram publicados os seus diários íntimos, alguém, completamente ignorante das coisas do espírito, chegou a falar de um ‘ateísmo de Madre Teresa’. A extraordinária santidade de Madre Teresa reside no fato de que ela viveu tudo isso em absoluto silêncio com todos, escondendo a sua desolação interior sob um sorriso constante no rosto. Nela vemos o que significa passar do fazer as coisas por Deus, ao sofrer por Deus e pela Igreja.
É um horizonte muito difícil, mas felizmente Jesus na cruz não só nos deu o exemplo deste novo tipo de amor, como também nos mereceu a graça de o fazer nosso, de o apropriar através da fé e dos sacramentos. Por isso, durante a Semana Santa, salte do nosso coração também o grito da Igreja : ‘Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam crucem tuam redemisti mundum’. Nós Vos adoramos e Vos bendizemos, Senhor Jesus, porque pela Vossa santa cruz remistes o mundo.

Fonte :
*Artigo na íntegra
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[1] Cf. Martinho Lutero, De servo arbitrio, in WA, 18, 633; cf. também WA, 56, pp. 392. 446-447.

[2] Karl Barth, Dommatica ecclesiale, IV, 2, 832-852. A incompatibilidade entre o amor humano e o amor divino é a tese de Anders Nygren, Eros e agapeLa nozione cristiana dell’amore e le sue trasformazioni, Bolonha, Il Mulino, 1971(Edição original em sueco, Estocolmo 1930).
[3] Bento XVI, Deus caritas est, n. 7-8.
[4] Nicolau Cabásilas, Vita in Cristo, VI, 2 (PG 150, 645).
[5] H. de Lubac, Histoire et esprit, Paris 1950, c.5.
[6] Cf. J. Ratzinger - Bento XVI, Gesù di Nazaret, II Parte, Libreria Editrice Vaticana 2011, pp. 151.
[7] S. Bernardo de Claraval, Sermões sobre o Cântico, 61, 4-5 (PL 183, 1072).
[8] Cf. Col 3,9; Rm 13,14; Gl 3,27; Ef 4,24).
[9] Cf. Søren Kierkegaard, Diario, X1, A, 154 (Ano 1849).

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Paradigmas da idade provecta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor



A lista é enorme, mas o tempo e o espaço são escassos para apontá-los todos. O mesmo acontece com as várias denominações comumente utilizadas para definir àqueles, e àquelas, que ultrapassaram a barreira dos 60 anos : velho, velhote, ancião, senil, coroa, pé-na-cova, vetusto, longevo, matusalém, macróbio, idoso, nas formas masculina ou feminina. De todos eles, o termo mais apropriado é 'idoso', 'idosa', pois define melhor o que somos, sem nos qualificar pejorativamente, a nós que ultrapassamos essa barreira etária. E gosto dele, porque é também o mais correto. Idoso é a forma haplológica de ‘idadoso’, expressão que une idade – o tempo de vida que tem uma pessoa – ao sufixo oso, que representa abundância.

 Por exemplo: caridoso, é quem tem muita caridade; bondoso, é aquele com muita bondade. E assim vai. O idadoso – idoso, em sua forma sintética – é, portanto, aquele que tem maior quantidade de anos de vida, não se devendo confundir com ‘velho’, que é o desgastado, carcomido, quase acabado. Afinal, existem muitos jovens que já são autênticos velhos... Já o termo provecto, que em sua etimologia representa 'o que impele, que leva para diante, adiantado, que faz andar', é aceitável e até elogioso pelo que significa, porém um tanto quanto rebuscado para se usar rotineiramente. Ele evidencia uma qualidade real, porém nem sempre aplicável a todos os idosos.

Uma característica a nós atribuída é a ranzinzice, condição que abarca a impaciência, intolerância, irritabilidade. Mas, a sua predominância ocorre nos que chamo de 'novos idosos' aqueles e aquelas que a partir das duas últimas décadas do século passado, passaram dos 60, mas continuam com aparência e energia admiráveis, muitos em plena atividade laborativa. Nesses 'novos idosos' a ranzinzice é consequência do orgulho, da vaidade, da prepotência, da soberba e da intransigência, provocadas por não terem ainda alcançado o que chamo de terceira maturidade, na qual já se sabe bastante, e por isso mesmo sabe-se que não se sabe tudo; que ainda podemos bastante, mas que há muito mais coisas que já não podemos, e muito menos devemos tentar. Sob pena de nos tornarmos ridículos, além dos sérios riscos de acidentes de menor ou maior gravidade, a que estamos sujeitos. São os 'novos idosos' que por quase nada, e com frequência, criam enormes casos, reclamam de tudo e de todos, e com esse comportamento passam a imagem de ranzinza para os idosos em geral, estigmatizando os verdadeiros com uma pecha que quase nunca cabe neles.

Em defesa dos verdadeiros idosos e idosas do século XXI, defendo a mudança dessa condição e do seu título respectivo, exclusivamente para os que chegaram e ultrapassaram os 70 anos de idade. Vou além, incluindo os direitos de aposentadoria, e os benefícios que hoje são concedidos a qualquer um que atingiu a juventude estendida dos 60 anos, graças aos avanços da ciência e novos recursos terapêuticos, preventivos e curativos. E também da cirurgia plástica...

Reconheço que, para alguns, as manifestações de ranzinzice são consequências dos anos vividos, da incapacidade de tolerar certas coisas que, na vida longeva que tiveram, mas também nos dias atuais, vão acumulando. Reprimidos na expressão dos seus sentimentos, quando comportamentos demasiadamente liberais batem forte contra suas convicções sociais, familiares e religiosas, recalcam seus aborrecimentos, ao invés de se aliviarem expressando-os, ou simplesmente virando as costas, deixando-os para traz. Com isso acumulam ira sobre ira, mágoa sobre mágoa, tudo agravado por ocasiões em que são obrigados a dar um sorriso simpático, ou acolher as besteiras que acabam de ver ou ouvir. Ultrapassando a barreira do 60, sentem-se liberados para tudo – ou quase tudo... Chegando aos 70, melhor ainda aos 80, descobrem que, mesmo a contragosto dos circunstantes, dizer que não gostam de uma coisa da qual realmente não gostam, é um direito seu. Quando muito, poderão escutar alguém murmurar : ‘Deixa! Ele já está ficando gagá!’, ou então chamá-lo de ranzinza... O idoso livre, alegra-se interiormente por expressar seus sentimentos, ganhando para si, qualidade de vida e felicidade.

É claro que não estou aqui defendendo a grosseria, a falta de educação, de cavalheirismo, de gentileza, de delicadeza especialmente feminina, coisas que definitivamente não coadunam com idosos de estirpe. Para estes, a manifestação de insatisfação se faz com elegância, com respeito, coisas que, tendo recebido em sua formação cuidadosa na infância e juventude, continuam sendo utilizadas, porém de forma firme e livre, ainda que cortês e sem qualquer agressão, destempero ou desrespeito. Evitando a fofoca, que não lhes apraz, e os comentários mordazes e ofensivos, a ironia tosca e contundente. Atitudes que os jovens de hoje quase não conhecem, pois não lhes ensinaram, e nem eles aprenderam. Com honrosas exceções, como há exceções nas diferentes categorias de idosos e idosas que acabo de descrever.’


Fonte :

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O Islã que pouco se ouve falar

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Muçulmanos na Ásia rezam pela paz no final do mês sagrado do Ramadã (2017)
*Artigo de Patrícia Prado,
doutora em Relações Internacionais



Mas, falar sobre o Islã a partir da paz parece-nos estranho, especialmente quando pensamos nos meios de comunicação e seus distintos programas como novelas, filmes, noticiários, etc. Nesses, que seriam canais de propagação e, por que não pensar, de transmissão de conhecimento temos muitas vezes a imagem da religião e de seus seguidores categorizadas e estereotipadas em imagens que caminham desde a ideia de que todos os árabes são muçulmanos até a de que a religião apoia o terror. Assim, através da mídia e do conhecimento forjado no senso comum, ao se pensar e falar sobre o Islã a ideia que geralmente se vincula é de uma religião fundamentalista, violenta, opressora, logo, fechada ao diálogo com o outro.

Apesar da imagem que se propaga gerar tal pensamento, a história tem nos mostrado algo bem diferente : um Islã aberto, envolvido e interessado pelas questões do mundo, disposto a dialogar. Um exemplo recente confirma essa ideia : o encontro entre o chefe de Estado e líder da maior Igreja cristã do mundo, papa Francisco, e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed al-Nahyan, para a celebração dos 800 anos do encontro entre o sultão Al Malik e Francisco de Assis. Um encontro que nos revela a abertura para o diálogo entre o Islã e outras religiões e da disposição de seus seguidores.

Entretanto, o diálogo não se dá apenas entre os grandes líderes : ele se dá no momento em que judeus da cidade de Nova York em solidariedade aos muçulmanos que perderam o espaço sagrado devido a um incêndio,  abrem as portas de sua sinagoga (em 23 de março) para que 500 deles pudessem rezar; quando cristãos da cidade de Foz do Iguaçu juntamente com muçulmanos se reúnem para juntos lembrarem Maria, a mãe de Jesus, a bem aventurada entre as mulheres citadas no Alcorão. O diálogo se dá, também, nos eventos silenciosos do cotidiano não noticiados pelos grandes meios de comunicação, mas que ocorrem diariamente em uma busca sincera e verdadeira da vivência dos pressupostos da fé que direcionam para uma vida de entrega e submissão a Deus.

Sim, o Islã é uma religião de encontro, de diálogo, de partilha, que pode ser compreendido a partir da ideia que os organiza : a de comunidade (ummah). Uma comunidade que entende que são unidos na diversidade, pois ‘no Islã as pessoas são iguais, todos são de Adão e Eva (...)’ (Dito do Profeta Mohammad). Uma comunidade que busca, na observância da fé através de seus pilares, estar mais próximo da vontade de seu criador. Nesse esforço (jihad) que deve ser diário, o muçulmano vai se tornando aquilo para o qual foi criado : um entregue a Deus; e nessa entrega o respeito e cuidado pela criatura e pela criação se torna parte de sua missão, como bem ensinou o seu Profeta : ‘Um muçulmano que planta uma árvore ou semeia um campo, a partir do qual homens, aves e animais podem comer, está praticando um ato de caridade.’

É esse Islã do qual pouco se ouve falar que devemos compartilhar : o Islã da busca sincera pelo cumprimento da vontade de Deus, da partilha com o necessitado, seja ele um muçulmano ou não muçulmano, afinal para os seguidores do Islã ‘somos irmãos ou na fé ou na criação’; o Islã aberto ao diálogo, que luta contra a opressão pois entende que a paz só será possível quando houver justiça; o Islã da paz e que é paz. Sim, é sobre esse Islã que devemos e queremos ouvir falar.’


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domingo, 7 de abril de 2019

Autênticos e coerentes

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 As pessoas parecem se habituar, cada vez mais, com a mentira e, consequentemente, se distanciam da verdade
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



As derrocadas, cada vez mais frequentes, sofridas por toda a sociedade exigem novas atitudes, sob pena de se aumentar o enorme precipício que se interpõe nos caminhos da humanidade. Não se trata aqui de fazer terrorismo, mas alertar para os prejuízos em decorrência da falta de comprometimento com a autenticidade e a coerência. Não se pode permitir que esses princípios cedam lugar à inversão de valores, a exemplo da idolatria do dinheiro, que faz crescer a indiferença entre as pessoas e à Casa Comum. É urgente que todos reconheçam : buscar somente o próprio bem-estar, de modo egoísta, submetendo tudo à lógica do dinheiro, impede o êxito dos esforços para se alcançar a verdadeira paz. Uma atitude, comum e patológica, que torna a vida um pesadelo, contribuindo, paradoxalmente, para alimentar as mazelas que vão atingir, cedo ou tarde, os que se percebem seguros no seu bem-estar, ancorados somente no que possuem.
 
A necessária correção de rumos exige, assim, a superação do egoísmo e da indiferença. Nesse sentido, um caminho seguro e aberto a todos é acolher a convocação redentora deste tempo da Quaresma, que vem do coração do Mestre e Salvador Jesus : convertei-vos e crede no Evangelho. Quem acolhe esse convite com humildade consegue engajar-se verdadeiramente nas suas comunidades familiar, religiosa, governamental e em tantas outras, de modo autêntico e coerente, indo além do simples investimento no acúmulo de ganhos pessoais, das ações fundamentadas nas futilidades e vaidades.

Mas acolher o convite de Jesus é também um desafio, neste tempo de tantas polarizações, comprovadamente perigosas. Quem age de modo coerente com o Evangelho não pode enrijecer-se nos estreitamentos de mentalidades e de juízos tendenciosos, distantes da verdade, da justiça e, consequentemente, do amor. Por isso mesmo, o tempo da Quaresma pede a cada pessoa compromisso com a humildade na vivência do jejum, da oração e da caridade – dedicação, principalmente, aos que mais precisam de amparo. Caminho bem diferente do que é trilhado por quem se contenta com o fracasso dos outros ou se dedica a propagar mentiras para conquistar benesses e comodidades.

Lamentavelmente, a mentira é também um mal que se expande velozmente no mundo contemporâneo, contaminando os mais diversos tipos de relações. As pessoas parecem se habituar, cada vez mais, com a mentira e, consequentemente, se distanciam da verdade. Oportuno é lembrar o que diz Santo Agostinho, quando relata ter visto muitas pessoas que enganam outras, mas jamais ter encontrado alguém que gostasse de ser enganado. Se todos assumissem o propósito de nunca mentir por não apreciar o prejuízo de ser enganado, a realidade mudaria para melhor e a verdade seria reconhecida, de fato, como bem imprescindível. Há, pois, de se tomar consciência sobre a negatividade ética das mais diversas formas da mentira – a que é dita sobre os outros, a que se propaga para arquitetar a corrupção, a que busca assegurar cargos nas instituições e também a que alimenta ilusões sobre si mesmo.

Enfrentar a mentira e as muitas crises que ameaçam a humanidade é uma urgência. A sincera oração a Deus, inspirada pelas palavras de Santo Agostinho, contribui para a superação desse desafio, qualificando a própria interioridade : ‘Fazei que eu Vos conheça, ó Conhecedor de mim mesmo, sim, que Vos conheça como de Vós sou conhecido. Ó virtude da minha alma, entrai nela, adaptai-a a Vós, para a terdes sem mancha e sem ruga’. Todos tenham, assim, iluminados pela fé, oportunidade de investir mais na autenticidade e na coerência, alicerces  imprescindíveis para a edificação da própria interioridade.’


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sexta-feira, 5 de abril de 2019

‘Adorarás o Senhor teu Deus’ - Quarta pregação da Quaresma de 2019

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Frei Raniero Cantalamessa
*Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFMCAP,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)
Tradução : Thácio Siqueira

Este ano celebramos o oitavo centenário do encontro de Francisco de Assis com o Sultão do Egito al-Kamil, em 1219. Recordo-o aqui por um detalhe que diz respeito ao tema das nossas meditações sobre o Deus vivo.
Depois de retornar de sua viagem ao Oriente em 1219, Francisco de Assis escreveu uma carta dirigida ‘Aos Regentes dos povos’. Nela dizia, entre outras coisas :
Sois obrigados a dar ao Senhor tanta honra entre o povo que vos foi confiado, que todas as tardes se anuncie, através de um pregoeiro ou qualquer outro sinal, a obrigação de se dar o louvor e a gratidão ao onipotente Senhor Deus de todo o povo. E, se não fizerdes isto, sabei que tereis de prestar contas a Deus perante vosso Senhor Jesus Cristo no dia do juízo[1].
Acredita-se amplamente que o santo tenha inspirado esta exortação no que tinha observado na sua viagem ao Oriente, onde ouviu o apelo vespertino à oração feita pelos muezins de cima dos minaretes. Um belo exemplo não só de diálogo entre as diferentes religiões, mas também de enriquecimento mútuo. Uma missionária que trabalha há muitos anos num país africano escreveu estas palavras : ‘Nós somos chamados a responder a uma necessidade fundamental dos homens, à necessidade profunda de Deus, à sede de Absoluto, a ensinar o caminho de Deus, a ensinar a rezar. É por isso que os muçulmanos fazem, nestas regiões, muitos prosélitos : ensinam imediatamente e de modo simples, a adorar a Deus’.  
Nós, cristãos, temos uma imagem diferente de Deus - um Deus que é amor infinito antes mesmo que poder infinito -, mas isto não deve fazer-nos esquecer o dever primário da adoração. À provocação da mulher samaritana : ‘Os nossos pais adoraram neste monte; mas vós dizeis que é em Jerusalém que devemos adorar’, Jesus responde com palavras que são a magna carta da adoração cristã : ‘Mulher, acredi­ta-me, vem a hora em que não adorareis o Pai, nem neste monte nem em Jerusalém. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade’. (Jo 4,21-24).
Foi o Novo Testamento que elevou a palavra adoração a esta dignidade que não tinha antes. No Antigo Testamento, além de Deus, o culto é também dirigido em alguns casos a um anjo (cf. Nm 22,31) ou ao rei (1 Sam 24,9); pelo contrário, no Novo Testamento toda vez que se tenta adorar alguém que não seja Deus e a pessoa de Cristo, mesmo que seja um anjo, a reação imediata é : ‘Não faça isso!  É Deus que deve ser adorado[2].  É quase como se alguém estivesse correndo, caso contrário, um perigo mortal. É o que Jesus, no deserto, recorda peremptoriamente ao tentador que lhe pediu que o adorasse : ‘Está escrito : O Senhor, teu Deus adorarás, só a ele darás culto’ (Mt 4, 10).
A Igreja retomou este ensinamento, fazendo da adoração o ato por excelência do culto de Latria, distinto da chamada dulia reservada aos Santos e da chamada hiperdulia reservada à Virgem. A adoração é, pois, o único ato religioso que não pode ser oferecido a mais ninguém, em todo o universo, nem sequer a Nossa Senhora, mas apenas a Deus. Aqui está a sua dignidade e força única.
A adoração (proskunesis) no início indicava o gesto material de prostrar-se ao chão diante de alguém, como sinal de reverência e submissão. Neste sentido plástico a palavra ainda é usada nos Evangelhos e no Apocalipse. Neles a pessoa diante da qual se prostrar, na terra é Jesus Cristo e na liturgia celestial o Cordeiro imolado ou o Onipotente. Só no diálogo com a samaritana e em 1 Cor 14,25 é que aparece agora dissolvida do seu significado exterior e indica uma disposição interior da alma para com Deus. Este se tornará cada vez mais o sentido ordinário do termo e, neste sentido, no credo, dizemos do Espírito Santo que ‘adorado e glorificado’ com o Pai e o Filho.
Para indicar a atitude externa correspondente à adoração, prefere-se o gesto de dobrar os joelhos, a genuflexão. Este último gesto também é reservado exclusivamente para a divindade. Podemos estar de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora, mas não fazemos genuflexão diante dela, como fazemos diante do Santíssimo Sacramento ou do Crucifixo. 

O que significa adorar
 Mas, mais do que o significado e o desenvolvimento do termo, estamos interessados em saber em que consiste e como podemos praticar a adoração. A adoração pode ser preparada por uma longa reflexão, mas termina com uma intuição e, como qualquer intuição, ela não dura muito tempo. É como um clarão de luz na noite. Mas de uma luz especial : não tanto a luz da verdade, mas a luz da realidade. É a percepção da grandeza, da majestade, da beleza e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus e da sua presença que tira o fôlego. É uma espécie de naufrágio no oceano sem costas e sem fundo da majestade de Deus. Adorar, segundo a expressão de Santa Ângela de Foligno mencionada no início, significa ‘recolher-se em unidade e mergulhar no abismo infinito de Deus’.
Uma expressão de adoração, mais eficaz que qualquer palavra, é o silêncio. Na verdade, ele diz por si mesmo que a realidade está muito além de qualquer palavra.  Na Bíblia, a insinuação ressoa alto : ‘Toda a terra está em silêncio diante dele!’ (Hab 2,20) e : ‘Silêncio na presença do Senhor Deus!’ (Sof 1, 7). Quando ‘os sentidos estão envoltos em silêncio sem limites e as memórias envelhecem com a ajuda do silêncio’, disse um Padre do deserto, então tudo o que resta é adorar.
Foi um gesto de adoração o de Jó, quando, tendo vindo ver face a face o Onipotente no final da sua história, exclama : ‘Leviano como sou, que posso responder-te? Ponho a minha mão sobre a boca.’ (Jó 40,4). Neste sentido, o versículo de um salmo, mais tarde retomado pela liturgia, no texto hebraico, dizia : ‘Por ti o silêncio é louvor’, Tibi silentium laus! (cf. Sl 65,2, texto Massorético). Adorar - segundo a estupenda expressão de São Gregório de Nazianzeno - significa elevar a Deus um ‘hino de silêncio[3]. À medida que o ar se torna mais rarefeito ao se subir uma alta montanha, da mesma forma ao se aproximar de Deus a palavra deve tornar-se mais curta, até que se torne, no final, completamente silenciosa e se una em silêncio com aquele que é o inefável[4].
Se precisamente se busca ‘parar’ a mente e impedi-la de vaguear sobre outros objetos, convém fazê-lo com a palavra mais curta que existe : Amém, Sim. Adorar, de fato, é consentir.  É deixar Deus ser Deus.  É dizer sim a Deus como Deus e a si mesmo como criaturas de Deus. Neste sentido, Jesus é definido no Apocalipse como o Amém, o Sim que se fez pessoa (cf. Ap 3,14), ou seja, repetir incessantemente com os Serafins : ‘Qadosh, qadosh, qadosh : Santo! Santo! Santo!
A adoração requer, portanto, que nos curvemos e fiquemos em silêncio.  Mas será que tal ato é digno do homem?  Não o humilha, derrogando a sua dignidade? Na verdade, isso é realmente digno de Deus? Que Deus é esse que precisa que as suas criaturas se inclinem à terra diante dele e se calem? É, Deus, como um daqueles soberanos orientais que inventaram a adoração para si próprios? É inútil negá-lo, a adoração implica para as criaturas também um aspecto de humilhação radical, de se tornarem pequenas, de se entregarem e de se submeterem. A adoração envolve sempre um aspecto de sacrifício, uma imolação de algo. Precisamente assim ela atesta que Deus é Deus e que nada nem ninguém tem direito de existir diante dele, senão na sua graça. Com a adoração se imola e se sacrifica o próprio eu, a própria glória, a própria autossuficiência. Mas esta é uma glória falsa e inconsistente, e é uma libertação para o homem se livrar dela.
Adorando, a pessoa ‘liberta a verdade que era prisioneira da injustiça’. A pessoa torna-se ‘autêntica’ no sentido mais profundo da palavra. Na adoração já se antecipa o retorno de todas as coisas a Deus. Há um abandono ao significado e ao fluxo do ser.  Assim como a água encontra a sua paz ao fluir em direção ao mar e o pássaro sua alegria ao seguir o curso do vento, assim também o adorador ao adorar. Adorar a Deus não é, portanto, tanto um dever, uma obrigação, mas um privilégio, uma necessidade. O homem precisa de algo majestoso para amar e adorar! Foi feito para isto. 
Portanto, não é Deus que precisa ser adorado, mas o homem que precisa adorar. Um prefácio da Missa diz : ‘Tu não precisas do nosso louvor, mas por um dom do teu amor nos chamas a dar-te graças; os nossos hinos de bênção não aumentam a tua grandeza, mas obtêm para nós a graça que nos salva, por Cristo nosso Senhor[5]. F. Nietzsche estava completamente fora do caminho quando definiu o Deus da Bíblia como ‘aquele oriental ganancioso por honras em seu assento celestial[6].
A adoração deve, no entanto, ser livre. O que torna a adoração digna de Deus e ao mesmo tempo digna do homem é a liberdade, entendida não só negativamente como ausência de coação, mas também positivamente como um alegre impulso, dom espontâneo da criatura que assim exprime a sua alegria de não ser ele próprio Deus, para poder ter um Deus acima de si para adorar, admirar, celebrar.

A adoração Eucarística
 A Igreja Católica conhece uma forma particular de adoração que é a adoração eucarística. Cada grande corrente espiritual dentro do cristianismo teve o seu próprio carisma particular, que constitui a sua particular contribuição para a riqueza de toda a Igreja. Para os protestantes, este é o culto da palavra de Deus; para os ortodoxos, o culto dos ícones; para a Igreja Católica, é o culto eucarístico. Através de cada um destes três caminhos, realiza-se o mesmo objetivo fundamental, que é a contemplação de Cristo e do seu mistério.
O culto e a adoração da Eucaristia fora da Missa é um fruto relativamente recente da piedade cristã. Começou a desenvolver-se no Ocidente no século XI como reação à heresia de Berengário de Tours, que negava a presença ‘real’ e admitia apenas uma presença simbólica de Jesus na Eucaristia. Desde essa data, porém, não houve, pode-se dizer, um santo sequer, em cuja vida não se percebe uma influência decisiva da piedade eucarística. Ela tem sido uma fonte de imensa energia espiritual, uma espécie de lareira sempre acesa no meio da casa de Deus, à qual todos os grandes filhos da Igreja se aqueceram. Gerações e gerações de fiéis católicos sentiram o tremor da presença de Deus cantando o hino Adoro te devote, diante do Santíssimo exposto.
O que direi sobre a adoração e a contemplação eucarística aplica-se quase inteiramente também à contemplação do ícone de Cristo. A diferença é que no primeiro caso tem-se uma presença real de Cristo, no segundo apenas uma presença intencional. Ambos se baseiam na certeza de que o Cristo ressuscitado está vivo e se faz presente nos sinais sacramentais e na fé.
Estando calmos e silenciosos, e possivelmente por muito tempo, diante de Jesus no Santíssimo Sacramento, ou diante de um dos seus ícones, percebem-se os seus desejos a nosso respeito, os próprios projetos caem para dar lugar aos de Cristo, a luz de Deus penetra, aos poucos, no coração e o cura. Acontece algo que recorda o que acontece nas árvores na primavera, e que é o processo de fotossíntese. Emergem dos ramos as folhas verdes; estas absorvem da atmosfera certos elementos que, sob a ação da luz solar, são ‘fixados’ e transformados em alimento para a planta. Sem estas folhas verdes, a planta não poderia crescer e dar frutos e não ajudaria a regenerar o oxigênio que nós próprios respiramos.
Nós devemos ser como aquelas folhas verdes! São um símbolo das almas eucarísticas e das almas contemplativas. Contemplando o ‘sol de justiça’ que é Cristo, elas ‘fixam’ o alimento que é o Espírito Santo, em benefício de toda a grande árvore que é a Igreja. Em outras palavras, isto é o que diz também o apóstolo Paulo quando escreve : ‘Todos nós, com o rosto descoberto, refletindo a glória do Senhor como em um espelho, somos transformados naquela mesma imagem, de glória em glória, segundo a ação do Espírito do Senhor’ (2 Cor 3, 18).
Um dos nossos poetas, Giuseppe Ungaretti, contemplando o nascer do sol uma manhã junto ao mar, escreveu um poema de apenas dois versículos muito curtos, três palavras ao todo : ‘Mi illumino d’imenso’ (Me ilumino imensamente)[7]. São palavras que poderiam dizer aqueles que estão em adoração diante do Santíssimo Sacramento.  Só Deus conhece quantas graças escondidas caíram sobre a Igreja graças a estas almas adoradoras.
A adoração eucarística é também uma das formas mais eficazes de evangelização.  Muitas paróquias e comunidades que a colocaram no seu horário diário ou semanal fazem uma experiência direta dela. A visão de pessoas que à tarde ou à noite estão em adoração silenciosa diante do Santíssimo Sacramento, numa Igreja iluminada, levou muitos transeuntes a entrar e depois de parar por um momento a exclamar : ‘Aqui está Deus! Assim como está escrito que acontecia nas primeiras assembleias dos cristãos’ (cf. 1 Cor 14, 25).
A contemplação cristã nunca é de sentido único. Não consiste em olhar, como dizem, para o umbigo, em busca do próprio eu mais profundo. Consiste sempre em dois olhares cruzados. Aquele camponês da paróquia de Ars, que passava horas e horas imóvel na igreja, com os olhos voltados para o tabernáculo e que, quando perguntado pelo Santo Cura o que fazia o dia todo, respondeu : ‘Nada, eu olho para ele e ele olha para mim!
Se às vezes baixamos o olhar e o perdemos, no entanto, o de Deus nunca falha. Às vezes a contemplação eucarística reduz-se à simples companhia de Jesus, a estar sob o seu olhar, a dar-lhe a alegria de contemplar também a nós, que, por mais criaturas e pecadores que sejamos, somos, no entanto, fruto da sua paixão, aqueles por quem ele deu a sua vida. É uma resposta ao convite de Jesus aos discípulos do Getsêmani : ‘Fiquem aqui e vigiem comigo’ (Mt 26, 38).
Portanto, a contemplação eucarística não é impedida, em si mesma, pela aridez que por vezes se pode experimentar, seja por causa da nossa dissipação, seja também por permissão de Deus para a nossa purificação. Basta dar-lhe um sentido, renunciando também à nossa satisfação que deriva do fervor, para fazê-lo feliz e dizer, como dizia Charles de Foucauld : ‘A tua felicidade, Jesus, me basta!’; isto é : basta-me que sejas feliz. Jesus tem a eternidade à sua disposição para nos fazer felizes; nós só temos apenas este breve espaço de tempo para o fazer feliz : como podemos resignar-nos a perder esta oportunidade que nunca mais voltará?
Contemplando Jesus no sacramento do altar, damo-nos conta da profecia feita no momento da morte de Jesus na cruz : ‘Olharão para Aquele que trespassaram’ (Jo 19, 37). De fato, tal contemplação é em si mesma uma profecia, porque antecipa o que faremos para sempre na Jerusalém celestial. É a atividade mais escatológica e profética que se pode realizar na Igreja. No fim, o Cordeiro não será mais imolado, nem a sua carne será comida. Isto é, a consagração e a comunhão cessarão; mas a contemplação do Cordeiro imolado por nós não cessará. Isto é o que os santos fazem no céu (cf. Ap 5,1 ss.). Quando estamos diante do tabernáculo, já formamos um único coro com a Igreja lá em cima : eles diante de nós, por assim dizer, atrás do altar; eles na visão, nós na fé.
Em 1967 começou a Renovação Carismática Católica que em cinquenta anos tocou e renovou milhões de crentes e despertou inúmeras novas realidades, tanto pessoais como comunitárias.
Nunca é demais insistir que não se trata de um movimento eclesial, no sentido comum do termo; é uma corrente de graça destinada a toda a Igreja, uma ‘injeção do Espírito Santo’ que ela precisa desesperadamente. É como um choque elétrico destinado a se descarregar sobre a massa que é a Igreja e, uma vez que isso tenha acontecido, desaparecer. Menciono esta realidade aqui porque começou com uma extraordinária experiência de adoração do Deus vivo que foi o tema desta nossa meditação.
O grupo de estudantes da Universidade Duquesne de Pittsburgh, que participou do primeiro retiro, encontrou-se uma noite na capela em frente ao Santíssimo Sacramento, quando, de repente, aconteceu algo inusitado, que um deles descreveu mais tarde assim :
O temor do Senhor começou a fluir entre nós; uma espécie de terror sagrado impedia-nos de levantar os olhos. Ele estava lá pessoalmente presente e nós tínhamos medo de não conseguirmos ficar de pé diante do seu excessivo amor. O adoramos, descobrindo pela primeira vez o que significa adorar. Tivemos uma experiência ardente da terrível realidade e presença do Senhor. Desde então, compreendemos com uma nova e direta clareza as imagens de Jahweh que, no Monte Sinai, troveja e explode com o fogo do seu próprio ser; compreendemos a experiência de Isaías e a afirmação de que o nosso Deus é um fogo devorador. Este sagrado temor era, de alguma forma, a mesma coisa que amor, ou assim era sentido por nós. Era algo extremamente amável e belo, embora nenhum de nós visse qualquer imagem sensível. Era como se a realidade pessoal de Deus, gloriosa e deslumbrante, tivesse entrado na sala enchendo-a e a nós juntos.[8]’  
Simultânea presença de majestade e de bondade em Deus, de temor e amor na criatura; o ‘mistério tremendo e fascinante’, como o definem os estudiosos das religiões. A pessoa que descreveu nesses termos a experiência daquele momento não sabia que estava fazendo uma síntese perfeita dos traços que caracterizam o Deus vivo da Bíblia, e isso torna seu testemunho ainda mais convincente. Quando, no encontro no Estádio Olímpico de 2015, o Papa Francisco instou a Renovação Carismática a adorar, pensei imediatamente na sua origem.
Terminamos  com um verso do Salmo 95 com o qual a Liturgia das Horas, no Invitatório, nos convida a começar um novo dia :
Vinde, inclinemo-nos em adoração,
De joelhos diante do Senhor que nos criou.
Ele é nosso Deus; nós somos o povo de que ele é o pastor,
As ovelhas que as suas mãos conduzem’.

Fonte   :
*Artigo na íntegra
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[1] Fontes Franciscanas, nr.  213.
[2]
Cf Ap 19,10; 22,9; At 10, 25-26; 14,13 s..
[3] S. Gregorio Nazianzeno, Carmi, 29 (PG 37, 507).
[4] Dionigi Areopagita, Teologia mistica, 3 (PG 3, 1033).
[5]
Missal Romano, IV Prefácio comum.
[6] Friederich Nietzsche, La Gaia scienza, nr. 135.
[7] Giuseppe Ungaretti, Vita d’un uomo : 106 poesie, Milano, Mondadori 1988, p. 72.
[8] In The Spirit and the Church, ed.
Organizado por R. Martin, New York 1976, p.16).