quinta-feira, 27 de março de 2014

Maria Madalena



Este artigo, gentilmente cedido por Dom Lourenço Palata Viola, OSB,
monge beneditino do Mosteiro de São Bento de São Paulo,
faz parte de sua palestra proferida no retiro anual dos oblatos 
(capítulo 5 de 5)


         Saindo do livro dos Atos dos Apóstolos, seremos acompanhados neste nosso momento de meditação pela figura de Maria Madalena, a grande anunciadora da Ressurreição, primeira testemunha da vida nova em Cristo.  “É precisamente a Maria Madalena que Santo Tomás de Aquino reserva o título singular de Apóstola dos Apóstolos (apostolorum apostola), dedicando-lhe este belíssimo comentário: “como uma mulher havia anunciado ao primeiro homem palavras de morte, assim também uma mulher foi a primeira a anunciar aos Apóstolos palavras de vida” (S. Tomás de Aquino, Super Ioannem, em Bento XVI, Catequese do dia 14/02/07).

Maria Madalena é um exemplo claríssimo de que a fé em Deus limpa nosso coração dando-nos possibilidades de o contemplar e o anunciar a nossos irmãos.

É um pouco obscura a história de Maria, a discípula de Jesus originária de Magdala, um povoado de pescadores junto ao lago de Tiberíades, pois quase nada se sabe dela, apenas especulações. Sua figura tem sido submetida a uma série de equívocos e recentemente várias confusões tem se gerado em torno de sua vida. Mas, o fato que vamos refletir é muito claro e nos é relato no Evangelho de São João: Maria Madalena diante do sepulcro onde há poucas horas haviam depositado o corpo do morto de Jesus. É meio contraditório o erro em que cai Maria ao confundir Jesus ressuscitado com o suposto jardineiro guardião do cemitério. Como ela poderia enganar-se?

Maria engana-se porque para conhecer ao ressuscitado não bastam os  nossos simples olhos, nem tampouco ter caminhado com ele e escutado sua palavra ao “vivo e a cores” ou termos ceado com ele; é necessário um canal de conhecimento superior, a fé.

Madalena reconhece Jesus quando Ele a chama pelo nome e os olhos de sua alma se abrem, a luz da fé incendeia seu coração que estava obscurecido pela tristeza da morte.  Mestre! (Jo 20,16) Eis a profissão de fé imediata do coração que logo ao reconhecer o amor recebe a missão de ser testemunha da ressureição: “Vai e anuncia a meus irmãos ...” (Jo 20, 17). E ela foi imediatamente.

Como nos diz o Papa Francisco: “Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: « Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos » (2 Cor 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: « E nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem » (2 Cor 3, 18); é uma luz que se reflete de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto refletia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: « [Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo » (2 Cor 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contato, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos.

 A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus” (Francisco, LF, 37,38).

O exemplo de Maria Madalena nos mostra que ‘quem faz um encontro Jesus é transformado interiormente; não se pode "ver" o Ressuscitado sem "crer" nele. A fé nasce do encontro pessoal com Cristo ressuscitado, e torna-se impulso de coragem e de liberdade que faz gritar ao mundo:  Jesus ressuscitou e vive para sempre. Eis a missão dos discípulos do Senhor de todas as épocas e também deste nosso tempo:  "Já que fostes ressuscitados com Cristo exorta São Paulo procurai as coisas do alto... Aspirai às coisas do alto e não às coisas da terra" (Cl 3, 1-2). Isto não significa desinteressar-se dos compromissos quotidianos, afastar-se das realidades terrenas; significa ao contrário recomeçar todas as atividades humanas como um respiro sobrenatural, significa tornarmo-nos jubilosos anunciadores e testemunhas da ressurreição de Cristo, vivo eternamente (cf. Jo 20, 25; Lc 24, 33-34)’ (cf. Bento XVI, 19/04/06).

  
- Jo 20, 1-18

* Como tem sido meu encontro com Jesus Ressuscitado?

* Tenho sido transformado interiormente pela força do amor da vida nova que brota da fé em Cristo Ressuscitado?

* Como anuncio a ressureição ao mundo? Sou testemunha como o foi Madalena?



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