sexta-feira, 21 de março de 2014

Lídia : A recepção da fé no coração

  

Este artigo, gentilmente cedido por Dom Lourenço Palata Viola, OSB,
monge beneditino do Mosteiro de São Bento de São Paulo,
faz parte de sua palestra proferida no retiro anual dos oblatos 
(capítulo 2 de 5)


Nesta nossa segunda meditação seremos acompanhados por Lídia, a negociante de púrpura da cidade de Tiatira que habitava em Filipos e, como nos relata São Lucas, estava juntamente com outras mulheres no grupo que se reuniu para escutar Paulo e seus companheiros. “Lídia era adoradora de Deus” (At 16,14).

A figura desta mulher a qual “o Senhor abriu o coração para que atendesse ao que Paulo dizia” (At 16,14) torna-se um grande exemplo daquilo que nos afirma o mesmo apóstolo na sua Carta aos Romanos: “Acredita-se com o coração e com a boca faz-se a profissão de Fé” (Rm 10,10).

Sabemos que na linguagem bíblica o coração representa o centro de todo ser humano; dele nascem as vontades, as afetividades, o bem, o mal, e é também ele a porta de entrada de nossa alma, da vida interior, é no coração que encontra-se a nossa porta da Fé, a qual devemos abrir generosamente para que por ela entre o “Rei da Glória” (Sl 23,7).

Nosso Pai São Bento já nos exorta nas primeiras palavras da Santa Regra a escutarmos os preceitos do Mestre com os ouvidos do coração inclinados, ou seja, deste modo eles estarão bem próximos do coração transmissor da verdade e da obediência, uma comunicação que se dá de coração para coração.

Assim como aconteceu na vida de Lídia, que após ter acolhido generosamente em seu coração a ação transformadora da fé e foi imediatamente batizada com toda sua família tornando-se membros do corpo de Cristo, nós também ao acreditarmos no Senhor e ao abraçarmos a fé não devemos resumi-la unicamente ao plano da nossa inteligência ou a um mundo do saber intelectual, mas pelo contrário, damos início a um processo de mudança que compromete a vida, a TOTALIDADE do nosso ser, uma verdadeira conversação de todos os  nossos costumes.

Com a fé, eficazmente muda tudo em nós, somos novas criaturas em Cristo pela ação transformadora do Espírito Santo.

Temos assim a urgente necessidade de expulsar de nossos corações antigos e novos ídolos, vícios e maus desejos, os quais criamos e alimentamos para suprirem nossas carências; devemos nos deixar purificar pelo amor do Senhor. Expulsar do nosso templo tudo aquilo que não é puro aos olhos de Deus e consequentemente aos olhos dos homens; vendilhões de pombas, ovelhas e bois;  isso faz-se uma essencial característica de quem almeja a dilatatio cordis. Que isso seja sempre constante em nós; tenhamos a certeza: Jesus está ao nosso lado com o chicote na mão para nos auxiliar nesta difícil tarefa pois, “em tudo aquilo que nossa natureza tiver menores possibilidades roguemos ao Senhor que ordene à sua graça que nos preste auxílio”(RB, Pról.).

Somente dessa maneira a fé poderá resplandecer de maneira fulgurante e difundir em minha consciência, em meu coração, em todo meu ser, a sua luz, dando-me respostas e sentido as minhas inquietações e questionamentos. Somente em Deus repousa um coração inquieto: “És grande Senhor, e digno de todo louvor (...). fizeste-nos para ti e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em ti” (S. Agostinho, Confissões).

Deus atuou através de Paulo e seus companheiros para que o coração de Lídia fosse generosamente aberto a fé, e assim a primeira européia temente a Deus, provavelmente não judia, pela sua vontade “acolhe a graça da fé e mostra imediatamente sua fidelidade insistindo de maneira mais fervorosa que Abraão para que os apóstolos ficassem em sua casa se a julgassem verdadeiramente fiel ao Senhor” (S. João Crisóstomo, Homilia aos Atos dos Apóstolos).

Essa mulher nos mostra a necessidade de termos um coração solícito, de constantemente orarmos suplicando a Deus que abra nosso “sacrário interior”, que o torne bem disposto a sua graça, a tudo aquilo que nos é revelado por Jesus Cristo nosso Senhor.

NÃO SEJAMOS ORGULHOSOS!

PEÇAMOS A DEUS QUE ABRA NOSSOS CORAÇÕES!

“Deus abre os corações bem dispostos e não os endurecidos, pois esses se fecham voluntariamente a sua voz. Abrir o coração de Lídia foi obra de Deus, enquanto que o aceitar essa abertura, sem dúvida alguma partiu somente dela. Assim trata-se de uma obra divina e humana ao mesmo tempo” (S. João Crisóstomo) pois Deus não viola em nada a liberdade do ser humano, nem mesmo para abrir a porta de nosso coração.


- At 16, 11-15

* Tenho acolhido e aberto a porta de meu coração ao dom da fé?

* Neste momento de minha vida, quais seriam os ídolos que devo expulsar de meu coração? Como Lídia somos adoradores do Deus vivo, porém meu coração é livre suficientemente para que eu seja julgado verdadeiramente fiel ao Senhor?

* Quem são os hóspedes de minha morada interior? 


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