terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

São Bento Missionário

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 * Artigo de Irmã Úrsula Worringen, OSB

Estamos mais bem acostumadas(os) a ver nosso querido pai São Bento, mergulhado na meditação da Palavra de Deus e de pé no Louvor divino. Podemos chamá-lo também de Missionário? Vamos refletir.

“Proclamai a salvação entre todas as nações” (Sl 95) e “Aclamemos o rochedo que nos salva” (Sl 94). Assim canta a comunidade diariamente no primeiro Ofício do dia nascente, na presença de Deus, que ouve o convite para anunciá-lo até aos confins da terra. Como cheguei a descobrir estes traços da personalidade Missionária de São Bento? Cheguei a esta conclusão através da meditação da Regra de São Bento complementada pela leitura dos Diálogos de São Gregório Magno e pelas visitas que pude fazer aos lugares onde São Bento viveu.

Na gruta de Subiaco, o jovem Bento vive na solidão, sob o olhar de Deus, deixando-se penetrar pela Palavra. Descoberto por pastores reparte com eles o pão da Palavra e recebe deles o alimento do corpo. É da gruta dos pastores que partiu a evangelização da Europa. Os nomes dos evangelizadores beneditinos encontram-se escritos naquelas paredes, a começar por Agostinho de Cantuária – enviado para a Inglaerra por São Gregório Magno, – até os monges beneditinos que no século XIX foram enviados para a América do Norte e a Austrália. Como a fama das virtudes de São Bento chegasse até Roma, famílias nobres vieram entregar aos seus cuidados a educação de seus filhos. Desde então a educação das crianças e jovens “Para Deus” é missão beneditina a partir de Subiaco. São Bento envia seus monges para a fundação do mosteiro em Terracina, na época o maior centro de Júpiter num cruzamento de vias marítimas e terrestres. Nessa cidade portuária, a grandeza das ruínas dos templos pagãos é impressionante.

Em certa ocasião, visitando Monte Cassino tive uma grande surpresa. Antes de sair da Basílica, levantei os olhos para cima da porta e deparei-me com um quadro moderno, do pintor R. Stefanelli com a data de 1984. Ele expressa vivamente o que São Gregório Magno descreve no fim do capítulo 8 dos seus Diálogos : São Bento caminhando no meio dos habitantes de Monte Cassino, anunciando-lhes a Palavra de Deus. Após ter destruído o templo dos ídolos, ele ergueu um oratório a São Martinho e uma capela a São João Batista.

No capítulo 19 dos Diálogos, encontramos, na moldura do milagre dos lencinhos, o Bento Missionário que prega e manda seus filhos em missão. Estes cuidam também do progresso espiritual da comunidade das monjas que certamente foi fruto da Evangelização. Mergulhado na Palavra de Deus, “à porta” do mosteiro, recebe a força para libertar o camponês acorrentado e a inspiração de acolher o cruel Zala, empenhando-se na sua conversão. Introduzindo-o na casa, manda oferecer-lhe um pedaço de pão bento. Na moldura do milagre da farinha encontramos o Bento que se compadece da fome do povo, a ponto de distribuir com os famintos toda a farinha da comunidade.

Em sua missão atinge o homem todo. Dedica seu tempo e atenção à pessoa que procura seus conselhos como Teóprobo, que se converteu por suas exortações a ponto de abraçar a vida monástica. Estes aspectos missionários encontram-se também em sua Regra, pois São Bento só podia escrever aquilo que ele mesmo viveu.

Todos os hóspedes são acolhidos no amor de Cristo. Principalmente os pobres. A todos é anunciada a Palavra de Deus e se unem na oração. O Ofício divino, a cuja organização São Bento dedica 10 capítulos, é um anúncia da grandeza e do amor de Deus. Padre Andreas Amrhein escreve a este respeito nos Sete Princípios Fundamentais, documento aprovado por Leão XIII para a fundação da nova Congregação Beneditina com fim Missionário (cf. Pág. 11 e 12). “...O Ofício divino rezado em comum é uma fonte de graças que brota mais abundantemente e corre para a vida eterna, com muito mais entusiasmo e devoção chameja mais claro, alto e quente, quando muitas chamas ardem juntas do que quando uma pequena chama sozinha... À comunidade orante de dois ou tres é prometido um poder maior sobre o Coração divino do que à oração individual, porque onde dois ou tres estiverem reunidos em seu nome, Jesus estará no meio deles (cf. Mt 18,20)”.

Como o Apósto Paulo e todos os pobres, os filhos e filhas de São Bento vivem do trabalho de suas mãos, não buscando lucro ou autorrealização, mas, “para que em tudo Deus seja glorificado”, modelo que transformou a Europa antiga e as terras de missão. Contemplando o mundo que nos cerca e ouvindo os gritos de tantos irmãos nas trevas e na indigência, em nome deles rezamos com fervor os salmos de petição, como por exemplo, “Salvai-me, ó Deus, por teu nome, faze justiça para mim!” Este grito tão real em nossos dias nos impulsiona a darmos uma resposta concreta. Como Cristo de braços abertos na cruz, sinal de nossa libertação, estejamos nós, filhos e filhas de São Bento Missionário, abertos para Deus, para a realidade, para os nossos irmãos e para o mundo.


Fonte :  
* Irmã Úrsula Worringen, OSB, é Beneditina Missionária de Tutzing, nasceu em 12.02.1919, em Colônia, na Alemanha. Ingressou na Congregação das Beneditinas Missionárias de Tutzing, Alemanha; era noviça quando foi enviada ao Priorado de Olinda (PE), onde fez sua primeira Profissão em 01.11.1940. Reside atualmente em Olinda sendo grande incentivadora da vida monástica no Brasil.

Revista Beneditina nrº 37, Janeiro/Março de 2010, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais. 
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