sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma vida transbordante de sentido

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de P.E. Manuel João P. Correia,
Missionário Comboniano

‘Propusemo-nos para este ano um percurso à descoberta dos sentidos. Desejaria, porém, que esta nossa reflexão vocacional mensal fosse não só uma partilha de ideias, mas também uma contemplação de vidas, um contato com testemunhas de vidas cheias, transbordando de sentido e de beleza! Os ideais podem ser apreciados e admirados, mas entusiasmam e apaixonam só quando os vemos vivos e incarnados numa pessoa de carne e osso! Como o de Paulo, partilhado com os cristãos de Filipos.

Toda a vocação cristã é uma chamada a viver a vida em toda a sua exuberância. A existência do cristão não é uma vida rebaixada, mas elevada à sua máxima potencialidade. Uma existência que respira energia por todos os poros da pele, que saboreia de verdade o gosto de viver. Uma vida profundamente rica de sentido, porque se alimenta de toda a capacidade sensorial de que Deus nos dotou, com os cinco sentidos físicos e espirituais. Orígenes diz que «há dois homens em cada um de nós: como há um homem exterior assim há também um interior». A cada sentido físico corresponde um «sentido espiritual» da alma, do «homem interior».

Queria apresentar-vos hoje o testemunho de uma «vida transbordante de sentido»! Trata-se de Ana Lena (Annalena) Tonelli, uma leiga voluntária, missionária católica italiana, a «Madre Teresa» do povo somali. Recentemente decorreu o décimo aniversário do seu martírio. Ana Lena foi uma mulher extraordinária que viveu em silêncio, durante 33 anos, uma vida de radicalismo evangélico num ambiente completamente muçulmano, totalmente dedicada aos pobres. Foi assassinada no dia 5 de Outubro de 2003, precisamente no dia em que foi canonizado S. Daniel Comboni.

Ana Lena nunca gostou de falar de si mesma, mas em 2001 aceitou o convite insistente para participar em Roma num encontro sobre o voluntariado. Nessa ocasião, deu um extraordinário e emocionante testemunho, de que oferecemos alguns extractos. 


Viver para os outros

Sou Ana Lena Tonelli. Nasci na Itália, a 2 de Abril de 1943. Saí da Itália em Janeiro de 1969. Desde então, tenho vivido ao serviço do povo da Somália. Foram trinta anos de partilha. Optei por viver para os outros: os pobres, os que sofrem, os abandonados, os não amados… logo desde criança. Assim tenho vivido e assim espero continuar a viver até ao fim da minha vida.

Só queria seguir Jesus Cristo. Nada mais me interessava com tanta força: Ele e os pobres n’Ele. Foi por Ele que escolhi a pobreza radical… embora jamais possa ser tão pobre como um verdadeiro pobre… como os pobres de que está cheio cada dia da minha vida.

Eu vivo servindo, sem nome, sem a segurança de uma ordem religiosa, sem pertencer a nenhuma organização, sem salário, sem contribuições voluntárias para a minha velhice. Não sou casada porque assim o escolhi com alegria, desde a juventude. Queria ser toda para Deus. Era uma exigência da minha maneira de ser, a de não ter família própria. E foi o que aconteceu, por graça de Deus.


Proclamar o Evangelho com a vida

Parti da Itália após seis anos de serviço aos pobres numa favela da minha própria cidade. Convenci-me de que não poderia entregar-me por completo se ficasse na minha terra… as fronteiras da minha actividade pareciam-me demasiado apertadas… Compreendi bem depressa que se pode servir e amar em qualquer lugar, mas, entretanto, já me encontrava na África e sentia que fora Deus a levar-me para lá – e foi lá que fiquei, com alegria e com gratidão. Partira na decisão de «proclamar o Evangelho com a vida», a exemplo de Charles de Foucauld, que tinha incendiado a minha vida.

Passados trinta e três anos, continuo a proclamar o Evangelho apenas com a minha forma de vida e anseio por continuar a proclamá-lo assim até ao fim. É esta a minha motivação de base, juntamente com a paixão invencível pela pessoa ferida e menosprezada inocentemente, além da sua raça, da sua cultura e da sua fé. Procuro viver com respeito extremo por aqueles que Deus me deu. Até onde foi possível, assumi o seu estilo de vida. Vivo muito sobriamente em termos de habitação, alimentação, meios de transporte e vestuário. Renunciei espontaneamente aos costumes ocidentais. Tenho procurado dialogar com todos. Tenho oferecido carinho, amor, fidelidade e paixão. Que o Senhor me perdoe se estou a usar palavras demasiado grandes.


Vivo à espera de Deus

Praticamente, vivi sempre entre o povo da Somália; a princípio com os do Nordeste do Quénia; depois com os da Somália propriamente dita. Vivo num mundo que é rigorosamente muçulmano. Não há lá cristão algum com quem eu possa conviver. Duas vezes por ano, pelo Natal e pela Páscoa, o bispo de Jibuti vem celebrar a Eucaristia para mim e comigo.

Vivo sozinha porque as minhas colegas desta caminhada, que tal como os pobres fizeram da minha vida um paraíso na terra durante os meus dezassete anos de deserto, se dispersaram na altura em que fui obrigada a sair do Quénia. Aconteceu em 1984. O Governo do Quénia tentou perpetrar um genocídio contra uma tribo de nómadas do deserto. Era para eliminar cinquenta mil pessoas. Conseguiram matar mil. Mas eu consegui impedir que a chacina avançasse e se concretizasse. Por esta razão, fui deportada um ano mais tarde. Na altura daquela chacina, fui presa e apresentada a tribunal marcial… As autoridades disseram-me que me tinham feito duas emboscadas, a que miraculosamente escapara, mas que não teria essa sorte à terceira vez…

Posso afirmar que, durante a minha já longa existência, eu verifiquei várias vezes que não há mal que não venha ao de cima, nem há verdade que não venha a ser descoberta. O que importa é continuar a lutar como se a verdade já tenha vencido, os abusos não nos tenham tocado e o mal não tenha triunfado. Um belo dia, o bem haverá de brilhar. Peçamos a Deus a força de saber esperar, porque poderá tratar-se de uma longa espera… que poderá durar até depois da nossa morte. Eu vivo à espera de Deus e compreendo que me pesa menos que a outros à espera pelas coisas humanas. Vivo intimamente integrada no seio dos pobres, dos doentes, daqueles que ninguém ama.


O meu primeiro amor

Mas o meu primeiro amor foram os tuberculosos, as pessoas mais abandonadas, mais rejeitadas, mais recusadas naquele canto do mundo. O que mais rasgava o meu coração era o seu abandono, o seu sofrimento, que desconhecia qualquer tipo de conforto. Eu nada sabia de medicina. Comecei a levar-lhes a água das chuvas que ia recolhendo do telhado da bela casinha que o Governo me atribuíra na qualidade de docente da escola secundária. Levava os contentores cheios, esvaziava os deles da água salgadíssima dos poços de Wajir, e voltava a enchê-los com água doce. Eles faziam-me sinais de ordens, parecendo perturbados com a falta de jeito daquela jovenzinha branca de cuja presença pareciam querer ver-se livres o mais rapidamente possível.

Tudo me andava ao contrário naquela altura. Eu era jovem e, portanto, não era digna nem de ser ouvida nem de ser respeitada. Era branca e, portanto, desprezada por aquela raça que se considerava superior a todas as outras. Era cristã e, portanto, rejeitada e temida. Todos estavam então convencidos de que eu viera fazer proselitismo. E para cúmulo dos meus males, não era casada, coisa absurda naquele mundo em que o celibato não existe e não é um valor para ninguém.

Comecei logo a estudá-los, a observá-los, pois que estava todos os dias com eles, prestava-lhes serviço de joelhos, estava ao lado deles quando pioravam e não havia quem se importasse com eles, os olhasse nos olhos, ou lhes desse coragem… Passados alguns anos, todo o doente consciente do fim da sua vida só me queria a seu lado para morrer com o sentimento de que era amado.

Durante cinco anos, eles tinham-nos atirado à cara que jamais iríamos para o céu por não dizermos a fórmula de fé muçulmana «Não há Deus senão Deus e Maomé é o Seu profeta». Mas depois deu-se um episódio grave que pôs em risco a nossa vida e então o povo começou a dizer que certamente também nós entraríamos no paraíso. E depois começámos a ser apontadas como exemplo a seguir. O primeiro foi um velho chefe que gostava muito de nós… «Nós, muçulmanos, possuímos a fé, e vós possuís o amor», disse ele um dia. E foi como que a altura do grande descongelamento. As pessoas começaram a dizer cada vez mais que deveriam fazer como nós, que deveriam aprender a cuidar dos outros, em especial os mais doentes, os mais abandonados…


Só o amor tem sentido

A minha vida tem passado por tantos e tantos perigos; arrisquei-me a morrer tantas e tantas vezes. Vivi anos no meio da guerra. Vivi na carne dos meus, daqueles que eu amava, e portanto na minha própria carne, a malvadez do ser humano, a sua perversidade, a sua crueldade, a sua iniquidade. E cheguei a uma convicção inquebrantável, a de que só o amor conta. Só o amor tem sentido; só o amor liberta o homem de tudo aquilo que o escraviza. Só o amor nos faz respirar, crescer, florir; só o amor faz com que não tenhamos medo de nada, que nós apresentemos a face ainda não ferida ao escárnio e às bofetadas dos que nos batem porque não sabem o que fazem; que nós arriscamos a vida pelos nossos amigos, que em tudo temos fé, tudo suportamos e tudo esperamos…

É então que a nossa vida se torna digna de ser vivida. É ainda então que a nossa vida se transforma em beleza, graça, bênção. É também então que a nossa vida se torna uma felicidade até mesmo no sofrimento, porque nós vivemos na nossa carne a beleza do viver e do morrer.

Sinto vivamente que todos nós somos chamados ao amor… E eu gosto de pensar assim: só há uma tristeza neste mundo, a de não amar.’



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