quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A bênção das bicicletas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

* Artigo de Fernando Domingues, 
Missionário Comboniano 

‘Nestes dias, estou a receber muita documentação das centenas de seminários que a Santa Sé apoia pelo mundo fora. Muitos deles enviam também reportagens fotográficas sobre a vida dos seminaristas, o ambiente onde vivem, a gente com quem trabalham durante os períodos de serviço pastoral. Entre essas, há uma foto que me passou pelas mãos esta semana; ficou-me na memória e fez-me pensar. Apresenta um momento especial, num seminário do Norte da Índia : a bênção das bicicletas.

Os seminaristas, a pé, cada um deles com a sua bicicleta nova, estão alinhados numa longa fila, diante do reitor do seminário, que benze as bicicletas que eles usarão para se deslocarem cada domingo às muitas comunidades cristãs da zona, que não têm padre para celebrar a santa missa. Eles lá vão, dois a dois, todos os domingos de manhã, para fazer a celebração dominical da Palavra e ajudar aquelas comunidades a viver a própria vida cristã.

Aquele grupo de rapazes com as suas bicicletas benzidas levou-me a pensar que são infinitas as maneiras de anunciar o Evangelho e de se pôr ao serviço da Igreja. Penso em algumas situações concretas aqui na Europa. Muitas comunidades cristãs estão a definhar por falta de padres. Uns rezam para que Deus faça o milagre de nos mandar uma chuva de padres, e isso, segundo eles, resolveria o problema. Mas o que aconteceria se pensássemos que a situação presente de «falta de padres» fosse, não um sinal de declínio, mas um elemento de progresso para a Igreja? Se concluíssemos que a vontade de Deus para o momento presente fosse mesmo que haja menos padres para que as comunidades se sintam estimuladas a desenvolver muitos outros ministérios não ordenados, de leigos e leigas?

Poderia ser receita para uma nova fase de crescimento, com comunidades muito mais responsáveis pela própria vida. Afinal, o princípio da subsidiariedade faz parte do ensinamento oficial da Igreja Católica: cada um, no seu nível, deve fazer tudo aquilo que pode fazer, sem o deixar a encargo de quem tem o serviço central ou superior. Em vez de «situação de crise» poderemos então dizer «situação de desenvolvimento novo». Em vez de uma «pirâmide de autoridade» em que tudo vem de cima, poderemos ter uma «rosa de serviços», em que a comunhão é animada e coordenada por quem tem o serviço central de presidir.

Se uma tal situação de «novo desenvolvimento» é a vontade de Deus para o nosso momento presente, não se poderia também pensar em novas formas de serviço presbiteral? Ver padres que passam o dia a correr de um lado para o outro para celebrar os sacramentos, frequentemente pedindo-lhe que façam mais do que as forças e a idade lhes permitem, parece-me uma coisa desumana. Temos de lhes agradecer muito pela generosidade por vezes heróica com que obedecem, mas havemos também de perguntar-nos que futuro há para padres a viver e servir desta maneira.

Bem, voltemos aos seminaristas com as suas bicicletas benzidas. A Igreja sempre foi, e certamente voltará a ser, muito criativa em encontrar formas de serviço, tanto laical como ordenado, nas suas comunidades. Talvez precisemos de ter coragem para analisar como era a vida da Igreja noutros séculos, e como é hoje noutros lugares do mundo. Houve outras maneiras de organizar as comunidades cristãs, outros ministérios e serviços na Igreja; houve e há muitas formas diferentes de viver o sacerdócio.

Aqueles seminaristas no Norte da Índia podem fazer muito pela Igreja com as suas bicicletas. A verdade é que, com o baptismo e o crisma, Deus dá a cada cristão a sua «bicicleta benzida». Toca a cada um de nós descobrir como usar bem essa «bicicleta» ao serviço de Cristo e da sua Igreja. Boas pedaladas!’ 


Fonte :
*Artigo na íntegra http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EFlpZEpyFkvyPKWtOW



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