sábado, 22 de fevereiro de 2014

Mulheres Doutoras da Igreja

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Santa Teresa de Lisieux
* Artigo de Dom Guy Gaucher

** Santa Hildegarda de Bingen,
posteriormente a este artigo, tornou-se a quarta Doutora


E mulheres doutoras não são do meu gosto. Admito que uma mulher seja perspicaz, mas não lhe desejo absolutamente a paixão chocante de se tornar sábia a fim de ser sábia’. (MOLIÉRE, As Mulheres sábias, I, III)


Santa Catarina de Sena
Quando o Papa Paulo VI, em 1970, declarou duas mulheres Doutoras da Igreja, a espanhola Santa Teresa de Ávila (1515-1582) e a italiana Santa Catarina de Sena, foi um verdadeiro estrondo. Esperamos quase 2000 anos para que mulheres fossem reconhecidas como Doutoras da Igreja universal. Até àquela data, só trinta homens tinham sido declarados Doutores da Igreja.

Subitamente os critérios de uma declaração de doutorado foram abalados, pois Teresa de Ávila sublinhou várias vezes sua ignorância em teologia – ela se dizia, ‘uma fraca mulher’(!). Quanto a Catarina de Sena, era quase analfabeta. Ao mesmo tempo, esse verdadeiro estrondo não foi mais ouvido (1).

No entanto, em Notre-Dame de Paris, no centenário do nascimento de Santa Teresa de Lisieux, em 1973, um eminente teólogo havia dito :

É significativo que, desde a Idade Média até a época moderna, todo um cortejo de santas mulheres tenha silenciosamente protestado contra essa teologia masculina, e fortes, com a audácia de seu coração e por um acesso direto ao mistério da salvação, elas tenham experimentado uma esperança sem limites. Para nos restringirmos aos maiores nomes, mencionemos apenas, Hildegardes, Gertudes, Mectildes de Hackborn, Mectildes de Magdeburg, Juliana de Norwich, Catarina de Gênova, Maria da Encarnação e mesmo Madame Guyon. Mas a teologia das mulheres jamais foi levada a sério nem integrada pela sociedade. Entretanto, depois da mensagem de Lisieux, seria preciso considerá-la na reconstrução atual da dogmática (2).

Relativamente à jovem carmelita de Lisieux, que deixou a escola aos treze anos e meio, seu Doutorado tinha sido pedido, desde 1932, pelo Padre Desbuquois, jesuíta da ação popular, durante o Congresso, quando da inauguração da cripta da basílica de Lisieux. Mas o Papa Pio XI, teresiano sem qualquer dúvida (tinha beatificado Teresa em 1923, canonizado em 1925 e declarado Padroeira Universal das Missões em 1927), recusou firmemente : ‘Sexus obstat’.

Não lhe parecia possível, em 1932, dar um passo tão ousado. Entretanto, acrescentou : ‘Meus sucessores verão’. Foi preciso esperar trinta e oito anos para que Paulo VI desse esse passo.

Quando, em 1987, Dom Pierre Pican, bispo de Bayeux e Lisieux, me confiou a missão de retomar a questão do Doutorado de Santa Teresa de Lisieux, tive de demonstrar que uma mulher podia ser Doutora da Igreja, como já o havia feito, – em vão – o Padre Desbuquois. O obstáculo fora levantado por Paulo VI.

Era preciso mostrar que esta jovem santa propunha uma ‘doutrina eminente’ (‘eminens doctrina’), útil à Igreja universal. Eu podia me apoiar nos trabalhos teológicos dos Padres Petitot OP, Philipon OP, Combes, Bro OP, Congar OP, Daniélou SJ, Bouyer, Durwell, Molinié OP, Le Guillou, Urs von Balthasar, Rideau SJ, Léthel OCD, etc.

Em seguida, em 1996, cinquenta Conferências Episcopais fizeram a João Paulo II o pedido do Doutorado para a santa de Lisieux.

É claro que a aprovação de João Paulo II foi decisiva. Geralmente, com raríssimas exceções (Santo Afonso Maria de Ligório), era preciso esperar quatro séculos após a morte para que um santo fosse proclamado Doutor. Para Teresa de Lisieux, cem anos bastaram (1897-1997). Como sublinhou o Papa em sua Carta Apostólica de 19 de outubro de 1997, Divini Amoris Scientia, Teresa é ‘uma mulher, uma jovem, uma contemplativa’, a mais jovem Doutora da Igreja.

Ele insistiu na ‘mulher’, em conformidade com seus escritos nos quais sempre sublinhou ‘o gênero feminino’ (3).

Em primeiro lugar Teresa é uma mulher que, ao abordar o Evangelho, soube discernir as riquezas escondidas com um sentido do que é real, uma profundidade de assimilação na vida e uma sabedoria que são próprias do gênio feminino. Sua universalidade lhe confere um grande lugar entre as santas mulheres que brilham por sua sabedoria evangélica.

 Notemos que, durante seu pontificado de vinte e sete anos, João Paulo II – que beatificou e canonizou mil oitocentas e vinte pessoas – proclamou somente um Doutor, sublinhando que a mulher pode ter um lugar eminente na Igreja universal como doutrinante.

Até 1970, considerava-se que o Doutorado implicava um ensinamento fundado certamente sobre a santidade (condição primeira), mas principalmente na elaboração de conceitos formais, daí os Tratados, as Sumas.

Isso evidentemente afastava toda contribuição feminina, pois durante séculos, com raras exceções e até ao século XX, as mulheres foram excluídas do ensino e com mais forte razão, das Universidades. Quando se trata porém de falar sobre Deus, de dizer uma palavra sobre Deus (theo-logos), dever-se-ia excluir aquelas que tiveram uma experiência de Deus e que o exprimiram, conforme seus meios não conceituais, mas com uma linguagem imaginativa, simbólica, narrativa, tão ‘teológica’ quanto a linguagem dos homens formados nas universidades?

Santa Teresa de Ávila
Sobre o conhecimento de Deus, não era Santa Teresa de Ávila mais douta que as dezenas de teólogos que consultou e que deveriam decidir se ela era inspirada por Deus ou pelo diabo? Ela esteve `a beira de ser atingida pelos raios da Inquisição.

Além disso, as mulheres deviam enfrentar a desconfiança dos teólogos que suspeitavam das ‘místicas’ que se metiam a falar sobre Deus.

Catarina de Sena foi felizmente protegida por Raimundo de Cápua, OP. Mas Joana d’Arc não teve defensor algum diante do tribunal.

Ainda hoje esses Doutorados femininos não foram reconhecidos como palavras decisivas em teologia. Mas se nós fomos criados ‘à imagem e semelhança de Deus’, homens e mulheres, uma palavra exclusivamente masculina sobre Deus não pode exprimir todo o seu Mistério. Uma palavra feminina é necessária. Já se demonstrou que essas mulheres santas foram mais longe do que os homens na reflexão sobre o mistério da misericórdia divina, por exemplo (4).

Uma mulher sintetizou bem o papel de suas co-irmãs na teologia :

O reconhecimento dessas mulheres, por diferentes que sejam, prova que em momentos diferentes da História e em lugares diferentes, a Igreja institucional sabia aceitar o risco de uma reviravolta hermenêutica. Tanto no século XIX bem como no século XVI isso não é possível, senão pela conjunção da espiritualidade e da lúcida sabedoria : por um lado, mulheres desprovidas de ciência filosófica e teológica, mas humildes e obedientes, e por outro, homens lúcidos e dotados de discernimento que, ao controlar os dogmas e o saber na Igreja, conhecem a necessidade do risco e da abertura múltipla do sentido.

A teologia tradicional, sistema por demais irrefutável, pode se degradar em ideologia : as mulheres, por não terem acesso ao saber teológico, são capazes de acrescentar a razão teológica à sua idade hermenêutica : não apenas conhecimento, mas interpretação viva (5).

Certamente, hoje em dia as mulheres são professoras de teologia, decanas de faculdades teológicas.

Edith Stein era doutora em filosofia antes de ser carmelita e mártir. Mas estamos ainda muito longe da igualdade em teologia. Ninguém duvida que o longo combate pela igualdade entre homens e mulheres em nossa sociedade e em nossa Igreja vai continuar ainda por muito tempo. Santa Teresa de Lisieux sofreu essa injustiça.

Depois de sua grande peregrinação a Roma, sendo Papa Leão XIII, ela escreveu :

Não posso ainda compreender porque as mulheres são tão facilmente excomungadas na Itália; a cada instante nos diziam : ‘Não entrem aqui... Não entrem lá, vocês seriam excomungadas!...’ Ah! As pobres mulheres, como são desprezadas!... No entanto elas amam o Bom Deus em número bem maior do que o dos homens, e durante a Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem do que os apóstolos, uma vez que desafiaram os insultos dos soldados e ousaram enxugar a Face adorável de Jesus... É sem dúvida por isso que Ele permite que o desprezo seja a sua parte na terra, uma vez que Ele o escolheu para si mesmo... No céu, Ele mostrará que seus pensamentos não são iguais aos dos homens, pois então, as últimas serão as primeiras... (Manuscrito A, 66).

Ela não podia imaginar que nesta mesma Praça de São Pedro, no domingo das Missões, 19 de outubro de 1997, um outro papa a proclamaria Doutora da Igreja, diante de sessenta mil pessoas, dizendo :

Com razão, portanto, pode-se reconhecer na Santa de Lisieux o carisma de Doutora da Igreja, quer pelo dom do Espírito Santo que ela recebeu para viver e exprimir a sua experiência de fé, quer pela particular inteligência do mistério de Cristo. Nela convergem os dons da lei nova, isto é, a graça do Espírito Santo que Se manifesta na fé viva e operante por meio da caridade (cf. Santo Tomás de Aquino, I-II, q. 106, art 1; q. 108, art. 1). Podemos aplicar a Teresa de Lisieux quanto teve a ocasião de dizer o meu Predecessor Paulo VI a respeito de outra jovem santa, Doutora da Igreja, Catarina de Sena : ‘O que mais impressiona na Santa é a sabedoria infusa, isto é, a lúcida, profunda e inebriante assimilação das verdades divinas e dos mistérios da fé (...) : uma assimilação favorecida, sim, por dotes naturais singularíssimos, mas evidentemente prodigiosa, devida a um carisma de sabedoria do Espírito Santo’ (AAS 62 (1979), p. 675).

Certamente, esta declaração foi um avanço considerável. Fazemos votos que não seja necessário ‘esperar o Céu’ para que outras mulheres santas digam o que sabem sobre o mistério que é Deus, com uma ‘doutrina eminente’.


Fonte : 
* Dom Guy Gaucher, é Bispo auxiliar emérito de Bayeux e Lisieux.
  Artigo publicado em ‘La vie spirituelle’, 790 – setembro 2010.
  Traduzido do francês pelo Mosteiro da Santa Cruz, Juiz de Fora/Minas Gerais.

Revista Beneditina nrº 40, Outubro/Novembro de 2010, editado pelas monjas beneditinas do Mosteiro da Santa Cruz – Juiz de Fora/Minas Gerais.

** Em outubro de 2012, numa Carta Apostólica, Bento XVI proclama Santa Hildegarda de Bingen, Monja Professa da Ordem de São Bento, como Doutora da Igreja universal

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Notas : 

(1)   Uma obra coletiva de 875 páginas sobre Paulo VI e a modernidade na Igreja (1984) ignora esta proclamação!
(2) Hans Urs von BALTHASAR, Atualidade de Teresa, conferências do Centenário (1873-1973), Instituto Católico de Paris, p. 120-121.
(3) Divini Amoris, Scientia, nr. 30. Ver Mulieres dignitatem, nr. 30, 1988, Carta às Mulheres, 1995.
(4) Ver François LÉTHEL, Théologie de l’Amour de Jésus. Écrits sur la théologie des saints. Éd. Du Carmel, 1996.
(5) Dominique DE COURCELLES, La Vie spirituelle, nr. 718, março 1996, p. 43.


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