segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Fome no Paraíso

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Xaquín López, 
Jornalista

‘Os guias turísticos de Moçambique vendem o arquipélago das Quirimbas como uma das últimas jóias do Índico : recifes de coral; praias com coqueiros; estâncias de luxo para turistas com Visa Gold e aviões particulares. Mas se o visitante dedicasse algumas horas a percorrer a ilha de Ibo, a mais povoada do arquipélago, graças aos seus aquíferos de água doce, veria que o paraíso tem outra face : crianças subnutridas; pessoas a viver em cabanas infra-humanas; famílias inteiras cuja dieta diária é arroz e peixe; fundamentalismo islâmico no auge... Isso, sim, tudo temperado com os pores-do-Sol mais vermelhos da África Austral.

Foi esta dura realidade que cativou o empresário espanhol Luis Alvarez e a sua esposa, Elena Raposo, restauradora de arte, quando aterraram em Ibo, pela primeira vez, há dez anos. «Foi como um sonho ameaçado por um desafio. Tanta beleza natural corrompida pela desnutrição infantil endêmica. No dia em que deixamos a ilha, decidimos fazer algo por ela. Mal regressamos a Barcelona, criamos a Fundação Ibo», lembra Luis.


Lutar contra a subnutrição, educando

A Fundação Ibo começou o seu serviço principal em 2010. Chama-se Centro de Assistência à Nutrição Infantil, mas todos na ilha o conhecem pela sua sigla, CANI. Ocupa um edifício senhorial na rua principal e, todas as manhãs, fervilha com o movimento de mães que alimentam os seus bebês, ao mesmo tempo que aprendem receitas para enriquecer as papas. Pela tarde, o CANI torna-se jardim-de-infância. Três dias por semana, os monitores da fundação percorrem a ilha (dez quiôlmetros de comprimento por cinco de largura). «Ao início, era tudo muito complicado, porque as mães desconfiavam de nós e recusavam-se a trazer os seus filhos para o centro. Agora é tudo mais fácil : as próprias vizinhas nos avisam quando sabem que uma criança está desnutrida», diz-nos, apoiado na sua bicicleta, Mussa Momade.

Após cinco anos a ajudar as mães a criar os seus bebês, o CANI percebeu que o problema do Ibo não se encaixa nos parâmetros da fome africana. «O assunto é mais complexo : não se trata de falta de recursos, mas de uma questão de cultura. Fome não é o mesmo que desnutrição. Na ilha há comida suficiente para os 5000 habitantes. O que estamos a tentar ensinar-lhes é o que fazer para terem uma dieta equilibrada», refere Estrella León, uma mulher das Canárias que dedica a sua vida à cooperação internacional. Está há quatro anos em Moçambique, onde se estabeleceu depois de passar por vários países africanos. Chegou à ilha para coordenar os projetos da Fundação Ibo. «A coisa mais importante é ensinar às famílias receitas que favoreçam uma alimentação nutritiva das crianças, tendo sempre em consideração que esta é uma ilha no oceano Índico. Trabalhamos com os recursos locais, sem esperar que lhes cheguem coisas de fora


Refeitório

Abdul é o médico-chefe do centro de nutrição. Supervisiona todas as manhãs a pesagem e medição das crianças, para fazer um seguimento individualizado. «O segredo do nosso êxito está nas papas. Usamos os produtos locais que as mães têm mais à mão  coco, peixe, banana, por exemplo. A chave é ensinar as mulheres a combinar estes alimentos

Na cozinha do Centro de Assistência à Nutrição, a primeira coisa que se destaca é o quão limpo e arrumado está tudo e, a segunda, é o painel de papel onde são registados os menus da semana. «Fazemos papas várias : de ovo, peixe e coco, batata-doce, arroz, banana e mel», recita, orgulhosa, Totina Nuro, a cozinheira.

O êxito do serviço da fundação é confirmado pelas estatísticas. «Cada vez vêm menos crianças e bebês ao CANI, e esse é o diapasão da eficácia do projeto. Por isso, estamos a estendê-lo a outras ilhas de Quirimbas, como Matame, mas temos de ir passo a passo», diz Estrella.


Aposta no desenvolvimento sustentável

A Fundação Ibo está a fazer uma aposta integral visando o desenvolvimento harmonioso e sustentável da ilha. A poucos metros do CANI está a escola de carpintaria. Aproveitou-se um edifício antigo que tinha sido uma carpintaria durante a era colonial e agora ensina-se ali aos jovens da ilha a arte de trabalhar madeira. Maujudo Lja, capataz do centro, sabe como tratar os seus alunos. «A primeira coisa que lhes digo quando chegam é que têm de cumprir o horário estipulado. Em seguida, ensinamos-lhes que devem respeitar os professores. O último conselho é que tenham cuidado com as mãos.»

Um dos estudantes veteranos, Nacir Anlaue, move-se com soltura entre as ripas de umbila, uma madeira levada do continente. «Se eu tivesse de escolher uma ferramenta fundamental para o nosso trabalho, escolheria a plaina. Quando a deslizo sobre uma tábua, e a aliso, dou conta do quão bonito é este trabalho. O mais complicado de fazer são as janelas que levam persiana acoplada

Os desafios a precisar da cooperação internacional na província de Cabo Delgado são vários. Em algumas áreas da Fortaleza de São João, sempre em Ibo, há um plano para melhorar as condições de trabalho dos ourives de prata que trabalham dentro dos seus muros, por exemplo. E o objetivo geral é o mesmo : acabar com a desnutrição no último paraíso de Moçambique.


Geografia e história de Ibo

O arquipélago das Quirimbas está apenas a uma hora de barco da costa norte de Moçambique (mais um pouco se a viagem for feita num dhow (barco de vela triangular de origem árabe). Pertence à província de Cabo Delgado, de que Ibo foi capital até que, em 1929, Portugal decidiu transferi-la para Pemba – uma cidade em franca expansão e crescimento, em virtude dos enormes poços de petróleo e gás descobertos na região.

Os primeiros a ocupar Ibo foram os árabes. Tinham a seu favor a vela dhow, que lhes permitiu navegar por todo o oceano Índico.

Depois, foram os Portugueses que colonizaram a ilha e a converteram num dos principais portos do comércio de escravos da África Austral. Do enorme legado colonial destacam-se três fortalezas, duas belas igrejas, imponentes armazéns à beira-mar e uma série de mansões e palácios de estilo manuelino.’


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