terça-feira, 11 de outubro de 2016

Corpo e alma : dualidade ameaçada pelo dualismo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.


‘Corpo e alma testemunham, em última instância, uma dualidade que tem caracterizado o ser humano desde suas experiências mais arcaicas. Esta dualidade aparece em todos os mitos fundadores das mais diversas culturas e tradições religiosas. O relato judeu-cristão da criação narra nossa origem como sendo do barro da terra e do sopro divino : modelados do barro por mãos de oleiro, fomos despertados pelo hálito vivificador do Criador (cf. Gn 2,7). Somos, portanto, mais do que órgãos, vísceras, fluidos e funções. Somos mais do que mentes em busca de si mesmas. Somos, na realidade, fruto de uma singular complexidade : uma dualidade vivificada por um Sopro.

Os egípcios narravam a origem do ser humano a partir do barro e da delicadeza do Inominável. Contam eles que, depois de ter feito o homem do barro, o deus oleiro Chnum incumbira Maat, a deusa da ternura, de apresentá-lo a Osíris, o deus altíssimo. A caminho do trono da Trindade Suprema, Maat comovida diante da beleza do boneco de barro que carregava em seus braços, não se conteve e lágrimas caíram de seus olhos sobre o peito do homem que, improvisamente, começou a respirar e a se mover, ali, nos seus braços.

Os mitos são expressão de uma experiência indizível que irrompe em meio às mais arcaicas raízes do ser humano. É uma tentativa de verbalizar aquelas experiências que jamais serão completamente esgotadas na mediação da linguagem. Por isso, os mitos exprimem um dizer que narra com discrição e reverência a parábola do ser humano como alguém distendido entre seu ser aí no mundo e seu desejo infinito de transcendência que o projeta para além de todo circunscrito, dado e estabelecido. Trata-se da experiência humana em sua intrínseca dimensão paradoxal. Ao mesmo tempo em que nos sentimos encerrados no mundo, também nos descobrimos como projetados para além de nós mesmos e do próprio mundo em que vivemos. Somos imanentes e, ao mesmo tempo, transcendentes.

Experimentamo-nos, por um verso, como seres lançados no mundo, em meio a outros seres, e nossa vida circunscrita entre as coordenadas de espaço e tempo. Os limites de nosso mundo coincidem com os intervalos de nossas circunstâncias. Não se pode fugir desse mundo, ele é o espaço de nossa frustração ou de nossa realização. O mundo é a casa da nossa imanência. Não necessariamente é experimentado como nossa prisão. O mundo em que vivemos é, na verdade, a condição da possibilidade de nossa concreção e encarnação. E pode sempre ser descoberto como espaço de uma aventura fascinante. Não há como não se admirar face ao inusitado e ao corriqueiro da vida e dos seres que nos rodeiam. Redescobri-la a cada dia como espaço do amor e da gratuidade pode descortinar fecundos projetos de criatividade e de realização humanas.

Por outro verso, sentimo-nos constantemente destinados a ultrapassar o mundo em que vivemos. Somos impregnados por um sentimento de ausência e de insatisfação que não significa descontentamento com o que aí está, mas que sinaliza para a dimensão que nos constitui enquanto seres destinados a ser-para. Sentimos o palpitar no mais íntimo de nós de uma misteriosa ausência ou de uma nostalgia do futuro ainda por ser indagado e construído. Embora vivamos bem e sintamos este mundo como nossa casa, ronda-nos perenemente a sensação de nos sentirmos deslocados, sem lugar, errantes e inquietos buscando algo a mais : expectativas? Saudades? Sonhos?

Esta dualidade aflora em nossa fala mediante uma série de binômios: imanente e transcendente, alma e corpo, matéria e espírito, visibilidade e invisibilidade, físico e metafísico. Enquanto os mitos dizem dessa dualidade de forma a integrá-la no bojo de uma circularidade recíproca e complementar, nossas explicações contaminadas pela abstração do logos cindem esta dualidade em dois compartimentos estanques. Esta cisão é responsável, em última instância, pela série de dualismos que têm caracterizado nossa experiência cultural no Ocidente.

Gabriel Marcel se refere à corporeidade como sendo uma espécie de ‘zona de fronteira entre o ser e o ter’. Ele caracteriza a corporeidade como zona de fronteira porque acredita que ela não seja identificável sem mais nem com o ‘Eu sou meu corpo’ nem com o ‘Eu tenho o meu corpo’. No primeiro caso, estaríamos diante de uma leitura materialista do real e, no segundo, de fronte a uma leitura espiritualista do mesmo. É preciso evitar a todo custo toda sorte de separação e contraposição, fruto do dualismo gnóstico que ronda continuamente a experiência cristã. Este dualismo têm se revelado como danoso a julgar pelas dramáticas conseqüências para a compreensão de nós mesmos, do mundo, da história e da complexidade do cosmos.’


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