sexta-feira, 6 de março de 2015

'Oriente e Ocidente perante o Mistério da Trindade' - Segunda pregação da Quaresma de 2015

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Artigo de Pe. Raniero Cantalamessa, OFM,
pregador oficial da Casa Pontifícia (Vaticano)


1. Compartilhar o que nos une

A recente visita do papa Francisco à Turquia, que terminou com o encontro entre ele o patriarca ortodoxo Bartolomeu, e, especialmente, a sua exortação a compartilhar plenamente a fé comum do Oriente cristão e do Ocidente latino, me convenceram da utilidade de usar as meditações quaresmais deste ano para atender esse desejo do papa, que é desejo, também, de toda a cristandade.

Este desejo de compartilhar não é novo. O Concílio Vaticano II, na Unitatis Redintegratio, já exortava a uma especial atenção às Igrejas orientais e às suas riquezas (UR, 14). São João Paulo II, na carta apostólica Orientale Lumen, de 1995, escreveu :

Porque acreditamos que a venerável e antiga tradição das Igrejas orientais é parte integrante do patrimônio da Igreja de Cristo, a primeira necessidade para os católicos é conhecê-la, a fim de poderem nutrir-se dela e favorecer, do modo possível a cada um, o processo da unidade(1).

O mesmo santo pontífice formulou um princípio que eu considero fundamental para o caminho da unidade : ‘compartilhar as muitas coisas que nos unem e que certamente são mais numerosas do que as coisas que nos dividem(2). A ortodoxia e a Igreja católica compartilham a mesma fé na Trindade, na encarnação do Verbo, em Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem numa só pessoa, que morreu e ressuscitou para a nossa salvação, que nos deu o Espírito Santo; acreditamos que a Igreja é o seu corpo animado pelo Espírito Santo, que a Eucaristia é ‘fonte e ápice da vida cristã’, que Maria é a Theotokos, a Mãe de Deus, que temos como destino a vida eterna. O que pode haver de mais importante do que isto? As diferenças se manifestam na maneira de entender e de explicar alguns desses mistérios e, portanto, são secundárias, não primárias.

No passado, as relações entre a teologia oriental e a teologia latina se caracterizavam por um notável matiz apologético e polêmico. Insistia-se especialmente (talvez com um tom mais conciliador nos tempos mais recentes) naquilo que distingue e que cada lado acreditava ter de diferente e de mais correto do que o outro. É hora de inverter essa tendência, deixando de insistir obsessivamente nas diferenças (baseadas muitas vezes em uma leitura forçada, quando não deformada, do pensamento do outro) e juntar o que temos em comum e o que nos une em uma única fé. É uma exigência peremptória do dever comum de anunciar a fé em um mundo profundamente mudado, com perguntas e interesses diferentes dos que havia no tempo em que nasceram as divergências, e que, em sua grande maioria, já não incluem sequer o sentimento de tantas das nossas sutis distinções, estando a anos-luz de distância delas.

Até agora, no esforço de promover a unidade entre os cristãos, prevaleceu uma linha que pode ser formulada assim : ‘resolver primeiro as diferenças para depois compartilhar o que temos em comum’. Já a linha que se reforça cada vez mais nos círculos ecumênicos é : ‘compartilhar o que temos em comum para depois resolver as diferenças, com paciência e respeito mútuo’.

O resultado mais surpreendente desta mudança de perspectiva é que as próprias diferenças doutrinárias reais, em vez de aparecerem como um ‘erro’ ou ‘heresia’ do outro, começam a se mostrar cada vez mais como compatíveis com a própria posição e, muitas vezes, até como um necessário corretivo e um enriquecimento. Um exemplo concreto, em outra frente, veio do acordo de 1999 entre a Igreja Católica e a Federação Mundial das Igrejas Luteranas sobre a justificação pela fé.

Um sábio pensador pagão do século IV, Quinto Aurélio Símaco, recordava uma verdade que assume todo o seu valor quando aplicada às relações entre as diferentes teologias do Oriente e do Ocidente : ‘Uno itinere non potest perveniri ad tam grande secretum(3) : ‘A um mistério assim tão grande não se pode chegar por uma única estrada’. Nestas nossas meditações, tentaremos mostrar não só a necessidade, mas também a beleza e a alegria de nos encontrarmos no topo, contemplando a mesma vista maravilhosa da fé cristã, mesmo se chegados de lados diferentes.

Os grandes mistérios da fé, em que procuraremos verificar as concordâncias de fundo apesar da diversidade das duas tradições, são o mistério da Santíssima Trindade, a pessoa de Cristo, a do Espírito Santo, a doutrina da salvação. Dois pulmões, um só fôlego : esta será a convicção que nos guiará nesta jornada de reconhecimento. O papa Francisco fala, neste sentido, de ‘diferenças reconciliadas’ : não silenciadas ou banalizadas, mas reconciliadas. Tratando-se de simples prédicas quaresmais, é claro que abordarei estes problemas tão complexos sem nenhuma pretensão de exaustividade, com uma intenção mais prática e de orientação do que especulativa.

Empreendo este propósito com muita humildade e quase na ponta dos pés, sabendo o quanto é difícil abrir mão das próprias categorias para assumir as dos outros. Um fato que me conforta é que os Padres gregos, juntamente com os latinos, foram durante anos o meu pão de cada dia nos estudos e muitos autores ortodoxos posteriores (Simeão, o Novo Teólogo; Cabasilas; a Filocalia; Serafim de Sarov) me inspiraram constantemente no ministério da pregação, para não falar dos ícones, que são as únicas imagens diante das quais eu consigo rezar.


2. Unidade e trindade de Deus

Começamos a nossa escalada olhando para o mistério da Trindade, a montanha mais alta, o Monte Everest da fé (4). Nos três primeiros séculos da vida da Igreja, à medida que se explicitava a doutrina da Trindade, os cristãos se viram expostos à mesma acusação que eles mesmos tinham sempre dirigido aos pagãos : a de acreditar em mais do que uma divindade; a de serem, também eles, politeístas. É por isso que o credo cristão, que, em todas as suas várias redações, começou durante três séculos com as palavras ‘Creio em Deus’ (Credo in Deum), registrou a partir do século IV um pequeno, mas significativo acréscimo, que jamais seria omitido desde então : ‘Creio em um só Deus’ (Credo in unum Deum).

Não é preciso refazermos o percurso que desembocou neste resultado; podemos partir do seu término. No final do século IV, terminou a transformação do monoteísmo do Antigo Testamento no monoteísmo trinitário dos cristãos. Os latinos expressavam os dois aspectos do mistério com a fórmula ‘uma substância e três pessoas’; os gregos, com a fórmula ‘três hipóstases, uma só ousia’. Depois de um debate acalorado, o processo terminou, aparentemente, com o pleno acordo entre as duas teologias. ‘Pode-se acaso conceber’, perguntava São Gregório Nazianzeno, ‘um acordo mais completo e dizer-se mais absolutamente a mesma coisa, ainda que com palavras diferentes?(5).

Uma diferença, no entanto, se mantinha entre os dois modos de exprimir o mistério. Hoje é comum expressá-la assim : os gregos e os latinos, na consideração da Trindade, partem de pontos opostos; os gregos partem das Pessoas divinas, ou seja, da pluralidade, para chegar à unidade de natureza; já os latinos partem da unidade da natureza divina para chegar às três Pessoas. ‘O latino’, escreveu um historiador francês do dogma, ‘considera a pessoalidade como um modo da natureza; o grego considera a natureza como o conteúdo da pessoa(6).

Eu acredito que a diferença pode ser expressa também de outra forma. Ambos, latinos e gregos, partem da unidade de Deus; tanto o símbolo grego quanto o latino começa dizendo : ‘Creio em um só Deus’. Mas esta unidade, para os latinos, ainda é concebida como impessoal ou pré-pessoal; é a essência de Deus que depois se especifica em Pai, Filho e Espírito Santo, sem, é claro, ser pensada como pré-existente às Pessoas. Na teologia latina, o tratado ‘De Deo uno’, sobre o único Deus, sempre precedeu o tratado ‘De Deo trino’, sobre a Trindade.

Para os gregos, no entanto, trata-se de uma unidade já personalizada, porque, para eles, ‘a unidade é o Pai, de quem e para quem se contam as outras Pessoas(7). O primeiro artigo do credo dos gregos também diz ‘Creio em um só Deus Pai Todo-Poderoso’, mas ‘Pai Todo-Poderoso’ não é separado de ‘um só Deus’, como no credo latino, e sim forma um todo com ele. A vírgula não vem depois da palavra ‘Deus’, mas depois da palavra ‘Todo-Poderoso’. O sentido é : ‘Creio em um só Deus que é o Pai Todo-Poderoso’. A unidade das três Pessoas divinas se dá, para eles, do fato de que o Filho é perfeitamente (substancialmente) ‘unido’ ao Pai, como também o é o Espírito Santo ao Filho (8).

São legítimas as duas maneiras de abordar o mistério, mas hoje se tende cada vez mais a preferir o modelo grego, em que a unidade em Deus não é separável da trindade, mas forma um único mistério e brota de um único ato. Em pobres palavras humanas, podemos dizer o seguinte : o Pai é a fonte, a origem absoluta do movimento de amor; o Filho não pode existir como Filho se, antes de tudo, não recebe do Pai tudo o que é. ‘É por causa do Pai, ou seja, pelo fato de que o Pai existe, que também existem o Filho e o Espírito’, escreve Damasceno (9).

O Pai é o único, mesmo no âmbito da Trindade, absolutamente o único, a não ter necessidade de ser amado para poder amar. Somente no Pai se realiza a equação perfeita : ser é amar; para as outras Pessoas divinas, ser é ser amado.

O Pai é eterna relação de amor e não existe fora desta relação. Não se pode, portanto, conceber o Pai acima de tudo como o ser supremo e, posteriormente, reconhecer nele uma eterna relação de amor. Deve-se falar do Pai como eterno ato de amor. O Deus único dos cristãos é, assim, o Pai; mas não concebido como fechado em si mesmo (como poderia ser chamado de ‘pai’ se não fosse porque tem um ‘filho’?), mas como o Pai sempre em ato de gerar o Filho e doar-se a Ele com um amor infinito que os une e que é o Espírito Santo. Unidade e trindade de Deus surgem eternamente de um único ato e são um só mistério.

Eu disse que, hoje, mesmo no Ocidente, muitos tendem a preferir o modelo grego (e eu mesmo sou um deles). No entanto, é preciso acrescentar logo que isto não significa negar a contribuição da teologia latina. Se, de fato, a teologia grega forneceu, por assim dizer, o esquema e a abordagem adequada para falar da Trindade, o pensamento latino assegurou a ele, com Agostinho, o conteúdo de fundo e a alma, que é o amor.

Ele baseia o seu discurso da Trindade na definição ‘Deus é amor’ (1 Jo 4,16), vendo no Espírito Santo o amor mútuo entre o Pai e o Filho, segundo a tríade amante-amado-amor, que os seus seguidores medievais explicitarão e tornarão quase canônica (10). Foi nela que o teólogo Heribert Mühlen fundamentou recentemente a sua concepção do Espírito Santo como o ‘Nós’ divino, a koinonia personificada entre o Pai e o Filho na Trindade, e, de maneira diferente, entre todos os batizados na Igreja (11).

O primeiro dos orientais a valorizar este contributo da teologia latina foi São Gregório Palamas, que, no século XIV, finalmente conheceu o Tratado sobre a Trindade de Santo Agostinho. Ele escreveu :

‘O Espírito do altíssimo Verbo é como o amor inefável do Pai pelo Seu Verbo, gerado de modo inefável; amor que este mesmo Verbo e Filho amado do Pai, por sua vez, tem pelo Pai, pois possui o Espírito que, junto com ele, provém do Pai e que descansa nele, por ser-lhe conatural’ (12).

A abertura de Palamas é hoje retomada, em outro contexto, por um conhecido teólogo ortodoxo vivo, que escreve : ‘A expressão ‘Deus é amor’ significa que Deus ‘existe’ como Trindade, como ‘pessoa’ e não como substância. O amor não é uma consequência ou uma ‘propriedade’ da substância divina (...), mas aquilo que constitui a sua substância(13). Parece-me uma explicação compatível com a definição que Santo Tomás de Aquino, seguindo Agostinho, faz das pessoas divinas como ‘relações subsistentes’ (14). 

A diferença e complementaridade das duas teologias não se limita apenas ao modo de conceber o ser e as relações internas à Trindade. Mesmo que com algumas exceções (entre os latinos, a de Agostinho), é evidente que os gregos estão mais interessados na Trindade imanente, fora do tempo, enquanto os latinos estão mais interessados na Trindade econômica, ou seja, em como ela se revelou na história da salvação. Uns, de acordo com seu próprio gênio, estão mais interessados no ser e na ontologia; os outros, no manifestar-se, isto é, na história. A esta luz, entendemos o hábito dos latinos de iniciar a conversa sobre Deus com o tratado ‘Sobre o Deus uno’ em vez de ‘Sobre o Deus trino’, e também compreendemos os motivos que existem para se manter essa tradição, como riqueza para todos. Na história da salvação, de fato, e como veremos logo, a revelação do Deus uno precedeu a do Deus trino.

O sinal mais evidente dessa diferença de abordagem são os dois modos diferentes de representar a Trindade na iconologia grega e na arte ocidental. O ícone canônico da ortodoxia, que tem o seu vértice em Rublev, representa a Trindade com as figuras de três anjos iguais e distintos, dispostos ao redor de uma mesa. Tudo faz transparecer uma paz e unidade sobre-humana. A história da salvação não é ignorada, como evidenciado pela referência ao episódio de Abraão que recebe os três hóspedes e pela mesa eucarística em torno da qual os três estão sentados; ainda assim, ela fica em segundo plano.

Na arte ocidental, da Idade Média em diante, a Trindade é representada de modo completamente diferente. Vemos o Pai, que, com os braços estendidos, segura as duas extremidades da cruz e, entre a face do Pai e a do Crucifixo, paira uma pomba que representa o Espírito Santo. Os exemplos mais conhecidos são a Trindade de Masaccio, em Santa Maria Novella, Florença, e a de Dürer no museu de Viena, mas existem outros inúmeros exemplos, tanto populares quanto artísticos. É a Trindade tal como se revelou a nós na história da salvação, que culmina com a cruz de Cristo.


3. Duas estradas a manter abertas

Vamos agora dar um passo adiante e tentar ver como a fé cristã precisa manter abertas e desimpedidas ambas as estradas para o mistério trinitário, delineadas até aqui. Dito esquematicamente : a Igreja precisa acolher plenamente a abordagem da ortodoxia à Trindade na sua vida interna, isto é, na oração, na contemplação, na liturgia, na mística; e precisa manter presente a abordagem latina em sua missão evangelizadora ad extra.

Não há necessidade de demonstrar o primeiro ponto. Basta acolher com alegria e reconhecimento o riquíssimo patrimônio de espiritualidade que vem da tradição grega e bizantina e que diversos teólogos ortodoxos, em tempos recentes, defenderam e tornaram acessível ao público ocidental (15). Um texto de São Basílio expressa bem a orientação de fundo da visão ortodoxa :

O caminho do conhecimento de Deus procede do único Espírito, através do único Filho, até o único Pai; inversamente, a bondade natural, a santificação segundo a natureza, a dignidade real, se difundem do Pai, por meio do Unigênito, até o Espírito(16).

Em outras palavras, em termos de ser ou da saída das criaturas de Deus, tudo começa a partir do Pai, passa pelo Filho e chega a nós no Espírito; na ordem do conhecimento, ou do retorno das criaturas a Deus, tudo começa com o Espírito Santo, passa pelo Filho Jesus Cristo e retorna ao Pai. A perspectiva é sempre trinitária.

Explico agora por que é necessário hoje, mais do que nunca, tanto ao Oriente quanto ao Ocidente, conhecer e praticar também a abordagem latina ao mistério de Deus uno e trino. São Gregório Nazianzeno, em um texto famoso, resume assim o processo que levou à fé na Trindade :

O Antigo Testamento anunciou de modo explícito a existência do Pai, enquanto a existência do Filho foi anunciada de modo mais obscuro. O Novo Testamento manifestou a existência do Filho e deu um vislumbre da natureza divina do Espírito Santo. Agora, o Espírito está presente no meio de nós e nos concede mais distintamente a própria manifestação. Não teria sido conveniente, quando ainda não fora confessada a divindade do Pai, proclamar abertamente a do Filho, nem teria sido seguro tomarmos o peso da divindade do Espírito quando ainda não era aceita a do Filho(17).

A mesma pedagogia divina é posta em prática por Jesus. Ele diz que não pode revelar aos apóstolos tudo o que sabe sobre si mesmo e sobre o seu Pai, pois eles ainda não seriam ‘capazes de assumir seu peso’ (Jo 16,12).

É verdade que vivemos no tempo em que a Trindade se revelou plenamente e, por isso, temos de viver constantemente sob esta ‘luz trissolar’, como a chamam certos Padres antigos, sem nos perdermos na contemplação de um Deus ‘ser supremo’, mais próximo do Deus dos filósofos do que do Deus revelado por Jesus. Mas, o que dizer do mundo que nos rodeia, não crente, secularizado e que deve ser reevangelizado? Ele não está nas mesmas condições do mundo antes da vinda de Cristo? Não devemos, no tocante a ele, usar da mesma pedagogia que Deus usou para com toda a humanidade ao revelar-se?

Precisamos, portanto, nós também ajudar os nossos contemporâneos a descobrir, em primeiro lugar, que Deus existe, que Ele nos criou por amor, que é um Pai bom e se revelou a nós na pessoa de Jesus. Será que podemos, honestamente, começar a nossa evangelização falando das três pessoas divinas? Não seria isso, para usar a imagem de São Gregório, colocar nos ombros das pessoas um peso que elas não são capazes de carregar?

Deve notar-se uma coisa importante. O Pai, que, de acordo com Gregório Nazianzeno, se revelou primeiro no Antigo Testamento, não é ainda ‘o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo’, isto é, um pai verdadeiro de um filho verdadeiro; não é o Deus Pai da Trindade; esta revelação ocorre apenas com Jesus. Ele ainda é pai em sentido metafórico, ‘pai do seu povo Israel’ e, para os pagãos, ‘pai do cosmos’, ‘pai celeste’. Também para São Gregório, portanto, a revelação sobre Deus começou com o ‘Deus uno’.

Há um sentido em que a palavra ‘Deus’ pode e deve ser usada para descrever o que as três Pessoas divinas têm em comum, ou seja, toda a Trindade (18), tanto se com a Escritura e com os Padres antigos entendermos este elemento comum como ‘natureza’, substância ou essência (2 Pd 1,4 : ‘participantes da natureza divina’, theia physis), quanto se, como propõe Johannes Zizioulas, o entendermos como ‘estar em comunhão(19).

A Igreja deve encontrar o modo de anunciar o mistério de Deus Uno e Trino com categorias apropriadas e compreensíveis para os homens de cada tempo. Assim fizeram os Padres da Igreja e os concílios antigos, e é nisto, acima de tudo, que consiste a fidelidade a eles. É difícil pensar em apresentar às pessoas de hoje o mistério trinitário em seus mesmos termos de substância, hipóstase, propriedade e relações subsistentes, ainda que a Igreja nunca possa renunciar a usá-los no âmbito da sua teologia e nos locais de aprofundamento da fé.

Se há algo da antiga linguagem dos Padres que a experiência do anúncio demonstra ser capaz ainda hoje de ajudar as pessoas, se não a explicar, pelo menos a ter uma ideia da Trindade, esse algo é justamente o escrito de Agostinho que se concentra no amor. O amor é, por si mesmo, comunhão e relação; não existe amor a não ser entre duas ou mais pessoas. Todo amor é o movimento de um ser rumo a outro ser, acompanhado pelo desejo de união. Entre as criaturas humanas, essa união é sempre incompleta e transitória, mesmo nos amores mais ardentes; só entre as Pessoas divinas é que a união se realiza tão completamente a ponto de fazer das três, eternamente, um só Deus. Esta é uma linguagem que também o homem de hoje é capaz de entender.


4. Unidos em adoração da Trindade

Santo Agostinho nos sugere a melhor maneira de concluir esta reconstrução das duas vias de abordagem ao mistério da Santíssima Trindade. Quando se quer atravessar um braço do mar, diz ele, o mais importante não é ficar na praia aguçando a vista para ver o que há do outro lado, mas entrar no barco que leva até lá. Para nós, portanto, o mais importante não é especular sobre a Trindade, mas permanecer na fé da Igreja, que é a barca que nos leva a ela (20). Não podemos abraçar o oceano, mas podemos entrar nele; por maiores que sejam os nossos esforços, não podemos abraçar o mistério da Trindade com a nossa mente, mas podemos fazer algo ainda mais belo : entrar nela!

Há um ponto em que estamos unidos e concordes, sem qualquer diferenciação entre Oriente e Ocidente, e é o dever e a necessidade de adorar a Trindade. Somente na adoração é que realmente praticamos, não apenas em palavras, mas em atos, o apofatismo, ou seja, aquela regra de humilde restrição ao falar de Deus, de dizer não dizendo. Adorar a Trindade, segundo um estupendo oxímoro de São Gregório Nazianzeno, é elevar a ela ‘um hino de silêncio(21). Adorar é reconhecer Deus como Deus e nós mesmos como criaturas de Deus. É ‘reconhecer a infinita diferença qualitativa entre o Criador e a criatura(22); reconhecê-la, entretanto, livremente, alegremente, como filhos, não como escravos. Adorar, diz o Apóstolo, é ‘libertar a verdade prisioneira da injustiça do mundo’ (cf. Rm 1, 18).

Encerremos recitando juntos a doxologia que, desde a mais remota antiguidade, sobe idêntica à Trindade do Oriente e do Ocidente : ‘Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém’’.
  
(1) Orientale lumen, nº 1.
(2) Tertio millennio adveniente, nº 16.
(3) Q. A. Symmacus, Relatio de arae Victoriae, III,10, in Monumenta Germaniae Historica’, Auctores antiquissimi Bd.6/1,  rest. 1984.
(4) Para uma resenha crítica das várias teologias atuais da Trindade nas Igrejas cristãs, cf. Veli-Matti Kärkkäinen, The Trinity: Global Perspectives, Louisville, Kentucky, 2007.
(5) Gregório Nazianzeno, Oratio 42, 15 (PG 36, 476).
(6) Th. De Régnon, Études de théologie positive sur la Sainte Trinité, I, Paris 1892, 433.
(7) Gregório Naz., Oratio 42, 16 (PG 36, 477).
(8) Cf. Gregório Nisseno, Contra Eunomium 1,42 (PG 45, 464).
(9) João Damasceno, De fide orthodoxa, I, 8 (PG  94, 824).
(10) Agostinho, De Trinitate, VIII, 9,14;  IX, 2,2; XV,17,31; cf. Riccardo di S. Vittore, De Trin. III,2.18; S: Boaventura, I Sent. d. 13, q.1.
(11) Cf. H. Mühlen, Der Heilige Geist als Person. Ich - Du - Wir, Münster in W., 1963.
(12) Gregório Palamas, Capita physica, 36 (PG 150, 1145).
(13) J. D. Zizioulas, Du personnage à la personne, in L’être ecclésial, Genebra 1981, p. 38.
(14) Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q.29, a. 4.
(15) Cf. V Lossky, Théologie mystique de l’Eglise d’Orient, Paris 1944; P. Evdokimov,L’Orthodoxie,  Paris 1959; J. Meyendorff, Byzantine Theology, Nova Iorque 1974.
(16) Basílio de Cesareia, De Spiritu Sancto XVIII, 47 (PG 32 , 153).
(17) Cf. Gregório Nazianzeno, Oratio 31 (Teologica II), 26; cf. também Oratio 32 (Teologica III).
(18) Agostinho, A Trindade, I,6,10: ‘O nome ‘Deus’ indica toda a Trindade, não só o Pai’.
(19) J. Zizioulas, Being as Communion. Studies on Personhood and the Church, Londres, 1985.
(20) Agostinho, A Trindade IV,15, 20; Confissões, VII, 21.
(21) Gregório Nazianzeno, Carmina, 29 (PG 37, 507) (sigomenon hymnon).
(22) Søren Kierkegaard, A doença mortal.


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