segunda-feira, 2 de março de 2015

Como nasce um mártir

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Padre José Rebelo,
Missionário Comboniano

  
‘Óscar Romero, o arcebispo de San Salvador assassinado no dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia matinal no Hospital da Divina Providência, onde vivia, foi declarado mártir e vai ser beatificado. O Papa Francisco assinou o decreto segundo o qual ele foi morto ‘in odium fidei’ (em oposição à fé) – entenda-se, fé não tanto no seu aspecto doutrinal, mas na sua dimensão moral expressa na doutrina social da Igreja.

O postulador do processo, o arcebispo Vincenzo Paglia, ao dar a notícia no início do mês passado, classificou Romero como um ‘mártir da Igreja do Vaticano II’. O arcebispo explicou esta designação ao dizer que o assassínio ocorreu ‘num clima de perseguição contra um pastor que seguia a experiência evangélica, os documentos do Vaticano II, de Medellín (do episcopado Latino-Americano reunido naquela cidade colombiana em 1968) e tinha escolhido viver com os pobres para os defender da opressão.’ Romero foi morto, disse ainda Monsenhor Paglia, porque combatia um governo e um tipo de opressão ‘que privava de vida os mais pobres’.

Romero foi arcebispo de San Salvador durante três anos (1977-1980), num tempo de grande tensão que desembocou na guerra civil salvadorenha (1979-1992), durante a qual milhares de pessoas foram assassinadas. No seu último sermão, no dia anterior à sua morte, disse com particular veemência : ‘Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem contrária à lei de Deus (…) Em nome de Deus, em nome deste povo sofredor cujos lamentos se elevam aos céus cada dia mais impetuosos, suplico-vos, exorto-vos, ordeno-vos em nome de Deus : cessai a repressão.’

Como é que o arcebispo Romero, considerado um conservador nas suas posições teológicas e sociais, chegou ao martírio? Ao escutar o povo simples da diocese de Santiago de Maria – uma diocese rural que serviu durante dois anos e meio e onde tiveram lugar as primeiras chacinas de camponeses – e comprovar a situação de opressão em que vivia. Essa ‘conversão à realidade’ tem um momento decisivo com o assassínio de um seu amigo jesuíta, o padre Rutilio Grande, em 1977, por ajudar agricultores pobres a organizarem-se e cujo processo de canonização foi aberto há cerca de quatro meses.

Romero sabia que seria morto e por isso teve uma longa luta interior’, disse o Professor Roberto Morozzo della Rocca na referida conferência de imprensa. A morte era-lhe anunciada diariamente através de ameaças transmitidas por fiéis e amigos, cartas cheias de insultos, telefonemas, advertências várias (até na televisão), e as emboscadas a que escapou por um triz. Sabia que estava em perigo, sentia o terror do fim, mas, como pastor, não quis abandonar o seu rebanho. Dizia : ‘Um pastor não deserta, deve ficar até ao fim com os seus.’

O grande número de sacerdotes e catequistas mortos levou Romero a meditar muito no martírio. No funeral de um dos seus padres assassinados pelos esquadrões da morte, o arcebispo pregou sobre o espírito do martírio e o valor sacrifical da vida dizendo (uma homilia que o Papa Francisco citou no dia 7 de Janeiro) : ‘Dar a vida não significa apenas ser morto; dar a vida, ter espírito de martírio é dar-se no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; dá-se a vida pouco a pouco, no silêncio da vida quotidiana, como a dá a mãe que, sem medo, com a simplicidade do martírio materno, dá à luz, amamenta, ajuda a crescer e cuida de seu filho com carinho.’’


Fonte :
* Artigo na íntegra de http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukVFEpFlySFkZRecd
   

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