domingo, 8 de março de 2015

Da indiferença à misericórdia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

  *Artigo de Padre António Carlos,
Missionário Comboniano

‘A Quaresma é uma ocasião providencial para a renovação pessoal e comunitária, ou em linguagem bíblica, um tempo favorável para correspondermos ao apelo da conversão. Os exercícios ascéticos que a Igreja propõe para este período litúrgico – o jejum, a caridade e a oração – preparam os corações e as vontades para a partilha e a solidariedade. D. Manuel Clemente, a quem saudamos e desejamos as maiores felicidades como novo cardeal da Igreja portuguesa, afirma na sua mensagem quaresmal que ‘a misericórdia é a alma da Quaresma’. Trata-se, portanto, de um percurso focado na metanóia, na mudança radical de critérios e atitudes de vida para uma maior abertura do coração a Deus e aos outros.

Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco chama a atenção para o mal da ‘indiferença’, que afecta indivíduos, comunidades e o mundo inteiro. O antídoto para o que ele chama ‘globalização da indiferença’ é mais uma vez a misericórdia, ‘um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo’.

Nesta época, a nossa atenção e solidariedade vão imediatamente para as vítimas da guerra no Leste da Ucrânia, que se arrasta há um ano, as centenas de imigrantes africanos e do Médio Oriente mortos no mar Mediterrâneo e as vítimas do terrorismo barbárico e hediondo do Estado Islâmico e do Boko Haram. Há ainda as guerras esquecidas do Sudão (onde recentemente foram violadas mais de duas centenas de mulheres ao longo de 36 horas pelas forças armadas sudanesas) e da República Centro-Africana (onde a situação se agrava de dia para dia e a violência não dá sinais de abrandar).

A vitória do Syriza nas eleições parlamentares da Grécia e a sua postura contra a troika veio reacender o debate sobre as políticas de austeridade impostas aos países com excessivo déficit orçamental. Numa declaração inesperada, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, admitiu que a ‘troika pecou contra a dignidade dos povos’, e que tem de se aprender com o passado, de modo que ‘não se repitam os mesmos erros’. Um reconhecimento que enviou ondas de choque por toda a União Europeia e que no nosso país foram contraditas pelo Governo e saudadas pelos partidos da oposição. Não obstante alguns resultados positivos registados em Portugal, contudo, esses sucessos tiveram um preço bastante elevado para as camadas sociais mais desfavorecidas. O último relatório da Cáritas Europa sobre a pobreza e o aumento das desigualdades denuncia esta situação em relação a todo o continente europeu. O documento confirma que a pobreza se agravou com a crise financeira e as políticas de austeridade. Numa entrevista recente, Dom António Francisco, bispo do Porto, reconhece que o nível de austeridade terá levado ‘muitos de nós a desanimar e a perder a confiança’. E aponta o horizonte futuro : ‘criar novos patamares de desenvolvimento da economia e de justiça social, de equidade entre todos para que as provações e as dificuldades não pesem sobre aqueles que menos têm.’’


Fonte :
* Artigo na íntegra de  http://www.alem-mar.org/cgi-bin/quickregister/scripts/redirect.cgi?redirect=EukVFpVZlyIoiotfIw

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