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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Via da misericórdia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG



Esse caminho está na contramão da perversidade e da indiferença. Envolvendo corações e mentes, esses males marcam os tempos atuais com os frutos da insanidade e da ignorância, insensíveis às muitas possibilidades para os avanços humanitários, sociais e políticos. A misericórdia é, assim, remédio indispensável, lição inigualável.

Quando um coração é forjado pela misericórdia, torna-se base para uma mente límpida, orientada para a fraternidade solidária, repleta de uma luz que inspira a inteligência e a sabedoria, qualidades indispensáveis em qualquer momento da história. Afinal, a desastrosa percepção dos mais diferentes processos é um tipo de cegueira que causa confusões, leva a decisões equivocadas, à falta de senso crítico sobre as próprias atitudes.

Percorrer a via da misericórdia é necessário treinamento para se conquistar a competente compreensão a respeito de si e do outro. Permite reconhecer a vida de cada pessoa como dom. É, pois, atitude fundamental para se administrar, com equilíbrio, a própria vida. Caminho que consolida a justiça, pois conduz ao compromisso com a verdade, o bem comum, a honestidade. Quem se aproxima do amor misericordioso de Deus, revelado em Jesus Cristo, desenvolve o gosto pela honestidade, não alimenta qualquer tipo de orgulho ou ilusória concepção sobre si.

Sem a via da misericórdia, tudo se enfraquece. A religiosidade deixa de contribuir para que a sociedade alcance nova etapa de seu desenvolvimento. As famílias, que deveriam ser ambiente para muitos aprendizados, ficam desfiguradas. Buscar a misericórdia não é, pois, um passeio sem propósito. É experiência renovadora, a partir do encontro com Jesus Cristo, o rosto misericordioso de Deus-Pai. Um acontecimento capaz de corrigir muitos descompassos, a exemplo do costume de se alegrar, perversamente, com o fracasso dos outros. As lições de Jesus Cristo salvam a humanidade também de males que afligem a alma, tornando-a suscetível a sofridas depressões.  Quem segue o Mestre, rosto da misericórdia divina, não desiste de viver, pois passa a reconhecer a própria existência como dom. Cultiva especial apreço à vida de todos, acima de qualquer interesse egoísta que possa levar a disputas insanas.

Nesse horizonte, compreende-se a oportunidade singular oferecida na Semana Santa: buscar a misericórdia seguindo os passos do Mestre, na sua paixão, morte e ressurreição, a partir das celebrações e da escuta da Palavra de Deus. A Semana Santa condensa lições essenciais que, se aprendidas por todos, permitem o surgimento de uma humanidade nova, solidária. Jesus é único e seus ensinamentos são a verdadeira sabedoria. Todos aproveitem a chance de fixar o olhar em Cristo, para percorrer com Ele a via da misericórdia. Assim, cada pessoa tem a oportunidade de unir-se a Deus, abrir o próprio coração para o amor, que transforma, produz sabedoria, permite discernimentos e escolhas acertadas.

Os atos de Jesus são permeados de compaixão, que não pode ser confundida com fraqueza. Trata-se de corajosa fidelidade à verdade e ao bem de todos.  Acolher suas palavras, silenciar ante seus sofrimentos e sua morte expiatória, refletindo sobre os preciosos ensinamentos reunidos na Bíblia, a exemplo dos que estão concentrados no Sermão da Montanha, é passo importante para percorrer a via da misericórdia junto com Cristo. A humanidade precisa, com urgência, trilhar esse caminho. Seja, pois, compromisso de todos, percorrer a via da misericórdia para aproximar-se de Deus e aprender com o seu amor.’


Fonte :

sábado, 2 de março de 2019

Relações humanizadas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 O amor e o perdão devem ser compromissos de todo cristão.
*Artigo do Padre Geovane Saraiva,
jornalista, colunista e pároco
de Santo Afonso de Fortaleza, CE



Fazer a diferença, na vivência do amor, a ponto de amar os inimigos, ‘sendo misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso’, é o chamado para o seguidor de Jesus de Nazaré. Ele é chamado a uma mentalidade cristã, porque foi, de verdade, iluminado pela luz do Evangelho, distinguindo-se pela caridade e pelo perdão, numa radical mudança de mentalidade, pensamento e sentimento.

A necessidade de amor mútuo e de reconciliação, por parte dos cristãos, para que a paz possa reinar, vemo-la nos sinais de esperança. Ela é real quando do amor pelos inimigos e da oração por aqueles que nos perseguem, na plena confiança em Deus, que, na sua misericórdia infinita, não só exige amor, mas nos assegura o genuíno amor, naquilo que é impossível, fazendo-o possível.

Jesus, que conhece o íntimo do coração das pessoas feridas pelo pecado, e também os estigmas de vingança, quer, apesar de tudo, revelar seu perdão, não como um dom reservado aos bons e santos, mas sim como um compromisso e um dever dos seus seguidores, evidentemente numa busca de profunda conversão, tendo como cerne a proposta desafiadora, no seu programa tão coerente quanto abrangente.

Nunca devemos prescindir da imagem do apóstolo Paulo : a do homem celestial (1 Cor 15, 49), com plena glória, mas com seu início nesta vida do aqui e agora. Que Deus nos convença, sempre mais, de que, pelo batismo, a criatura humana é vivificada na graça do Espírito Santo, que quer afastar o velho pecado de Adão, ao se manifestar e resplandecer nas ações humanas. Assim seja!’


Fonte :
  

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Misericórdia e comprometimento : duas faces da mesma moeda

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘As misericórdias do Senhor se renovam todas as manhãs. É comum aos cristãos tanto falar esse versículo quanto também ouvi-lo nos diversos sermões que se escutam aos domingos, bem como nos diversos eventos que celebram os rituais da vida, tais como o nascimento de uma criança ou o funeral de um ente querido. O fato de saber isso se torna, então, motivo de conforto e alegria para aqueles/as que creem.
Ainda que muito falada, muitas vezes não se reflete a respeito do significado que essa expressão tem. O termo central é a misericórdia. Essa, etimologicamente, é formada pela junção de duas palavras do latim, a saber, miseratio (compaixão) + cordis (coração), de tal forma que é possível entender misericórdia como significando um ‘coração compadecido’. Com isso em mente, não é difícil entender que o fato das misericórdias do Senhor se renovarem todos os dias tem a ver com sua bondade em olhar com compaixão em nossa direção.
Para o Cristianismo, a partir da vida de Jesus, a misericórdia do Senhor é entendida de uma maneira totalmente encarnada. Por meio da fé, a compaixão do Pai para com seus filhos chega ao seu ponto máximo ao se revelar como ser humano na pessoa do Cristo.
Dessa forma, a misericórdia não é vista somente como algo externo e transcendente, como uma espécie de mágica que vem do céu para a humanidade, mas é vista e experimentada na concretude da vida e na realidade do mundo.
Por sua vez, entender a pessoa de Cristo como a manifestação da misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo se dizer seguidor/a desse Cristo, implica em tratar a misericórdia também como algo que tem a ver com a concretude da vida, ou seja, como algo que precisa ser demonstrado no dia a dia para com todos/as que vivem nas diversas misérias do mundo.
A misericórdia, então, nas atitudes humanas, é uma virtude que deve ser desenvolvida. Contudo, muito comumente, aquilo que se chama misericórdia não tem a ver com o coração que se identifica e compadece, muito mais com o coração que se acha melhor que os miseráveis e que, por isso, sente que deve ajudá-los a sair da sua miséria. A ajuda e a atitude compassiva, nesse sentido, são demonstrações das relações de poder daquele/a que se considera superior na relação com outro. Com isso, essa ‘misericórdia’ não é virtuosa, antes, pseudomisericórdia e, por isso mesmo, vício a ser combatido.
À luz das narrativas evangélicas, a misericórdia passa pela identificação com o outro. Somente é possível ser compassivo com aquele/a com o/a qual nos identificamos e com o/a qual nos colocamos no lugar. Dessa forma, a misericórdia só é possível com empatia e somente pode ser virtuosa quando, ao olhar a miséria alheia seja possível pensar : ‘Poderia ser eu esse que passa fome, que pede moeda na rua, que está preso injustamente, que é vítima de violência etc’.
Com isso, a miséria do outro se coloca como aquela que nos interpela e demanda de nós uma resposta, não somente teórica frente às estruturas sociais, políticas e econômicas que causam as diversas misérias nessa terra, mas também de ordem prática, que atenda efetivamente a necessidade daquele/a que chega a nós com suas necessidades.
Compreender a categoria de misericórdia na perspectiva cristã implica em comprometimento com as questões da sociedade e encarnação na realidade do mundo. Essa misericórdia nunca deve ser vista como somente algo transcendente, que nada tem a ver com a realidade e afastada das condições miseráveis a que os poderosos dessa terra submetem humanos e natureza.
Misericórdia para com o outro nunca deve ser vista como uma atitude passiva ou de comodismo. Ao contrário, como fruto de um coração compadecido, demanda de nós uma atitude de luta em favor dos miseráveis, dos desumanizados e da natureza, assumindo suas questões como nossas questões.
Fazer isso é trazer para os dias atuais a mensagem de que as misericórdias do Senhor se renovam todas as manhãs e, por esse motivo, as lutas por uma sociedade melhor e mais digna também se renovam com ela diariamente.’

Fonte :


sexta-feira, 10 de março de 2017

Esmola : coração aberto para se doar!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Jaldemir Vitório, SJ 


‘A palavra ‘esmola’ assumiu conotações negativas, a serem superadas por uma correta compreensão bíblica, teológica e espiritual desse antiquíssimo ato de piedade, considerado pelas religiões como gesto de misericórdia e expressão de fé.

 A visão distorcida pensa quem dá e quem recebe a esmola em relação assimétrica. Quem a dá, é superior a quem a recebe. Quem a pede ou dela necessita, é um pobre coitado, dependente da boa-vontade e do humor alheios. A esmola é uma migalha do que se possui, dada, às vezes, com má vontade.

Assim pensada, a esmola mantém a desigualdade socioeconômica e despoja o necessitado de sua dignidade, pela incapacidade de estabelecer vínculos de verdadeira humanidade entre quem a dá e quem a recebe. Isso é tanto mais verdade, quando a esmola é dada para se livrar do outro ‘importuno’ que, contente com os tostões recebidos, vai-se, deixando em paz quem lhe deu alguns trocados.

 A fé judaico-cristã considera a esmola sob outro viés. A palavra grega eleemosyne, donde vem o vocábulo latino eleemosyna e o português esmola, significa compaixão. A mesma compaixão que os fiéis, na liturgia, imploram a Deus, ao dizerem : Kyrie, eleison – Senhor, tende compaixão! Portanto, a esmola é verdadeiro ato de piedade quando expressa misericórdia por parte de quem se deixou tocar pelo sofrimento alheio e se dispôs a abrir o coração para repartir os bens recebidos de Deus. Em outras palavras, quando o doador age como Deus, em sua imensa ternura pela humanidade. Por conseguinte, o simples fato de dar dinheiro a um pedinte não se configura como esmola, no sentido cristão.

O termo usado por Mateus na bem-aventurança da misericórdia é eleemones, ou seja, ser misericordioso (eleemon) é abrir o coração para repartir (Mt 5,7). Citando duas vezes o profeta Oseias – ‘Quero misericórdia e não sacrifício’ – (Os 6,6; Mt 9,13; 12,7), o evangelista usa o vocábulo eleos, para sublinhar que Deus se compraz com a solidariedade com o próximo necessitado e não com as liturgias sofisticadas de seus adoradores.

A tradição sapiencial bíblica contém excelentes intuições a respeito da esmola, perfeitamente atuais, apesar da distância no tempo e no espaço. Pr 19,17 vincula o necessitado a Deus, de modo que : ‘Quem é compassivo com o pobre empresta a Deus e ele dará a sua recompensa’. Pr 22,9 afirma : ‘O homem generoso será abençoado, porque dá de seu pão ao fraco’; Pr 28,27 : ‘Para quem dá ao pobre não há necessidade, mas quem dele esconde seus olhos terá muitas maldições’. O colecionador da sabedoria de Israel no livro do Eclesiástico também insistiu no tema da esmola. Eclo 4,1-6 é uma síntese da misericórdia para com os necessitados, onde um pai, entre outros conselhos, adverte o filho : ‘Não rejeites o pedinte oprimido, não desvies teu rosto do pobre’ (v. 4; cf. 3,30; 7,10; 17,22). Uma apresentação extraordinária do tema bíblico da esmola está em Tb 4,7-11, onde Tobit, estando às portas da morte, adverte o filho Tobias  : ‘Regula tua esmola segundo a abundância de teus bens : se tens muito, dá mais; se tem pouco, dá menos, mas não tenhas receio de dar esmola’ (v. 8). Dois elementos importantes servem de pano de fundo da vida virtuosa, na sabedoria bíblica : a liberdade e o desapego diante dos bens que se possui, superando a tentação de absolutizá-los e torná-los verdadeiros ídolos; o cuidado e a atenção com os empobrecidos, na contramão da atitude dos ricos egoístas, descritos nas parábolas de Lc 12,16-21 e 16,19-31.

No evangelho, Jesus ensinou a dar esmola de maneira discreta, sem alardes, para que ‘a mão esquerda não saiba o que faz a direita’ (Mt 6,3). E, mais, ‘dai o que tendes em esmola e tudo ficará puro para vós’ (Lc 11,41). Para combater o materialismo crasso, o Mestre exortava os discípulos apegados ao dinheiro a tomarem uma decisão radical : ‘Vendei vossos bens e dai esmolas. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos céus, aonde o ladrão não chega nem a traça rói’ (Lc 12,33). Zaqueu é o grande exemplo evangélico de obediência à ordem do Mestre (Lc 19,1-10), contrapondo-se ao homem ‘muitíssimo rico’, incapaz de partilhar seus bens com os pobres (Lc 18,18-23).

A cena de At 3,1-9 é sugestiva. Ao aleijado de nascença, que pedia esmola diante do Templo de Jerusalém, Pedro oferece mais que dinheiro. Em nome de Jesus, devolve-lhe a capacidade de caminhar e, assim, poder ganhar a vida de outra maneira, com as próprias forças. Tabita, cristã das primeiras comunidades, destacava-se por suas boas obras e a largueza de suas esmolas (At 9,36). Dar esmolas não era exclusividade dos cristãos. Cornélio, centurião romano, ‘dava muitas esmolas ao povo judeu’ (At 10,2.4.31). Preocupado com a situação econômica dos cristãos de Jerusalém, Paulo promoveu uma coleta entre as demais comunidades. Este deveria ser um exercício de cuidado com os irmãos na fé e de generosidade. A orientação do apóstolo era : ‘Cada um dê como dispôs em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria’ (2Cor 9,7).

A parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37), sem dúvida, é a melhor ilustração evangélica a respeito da esmola. Em face ao homem semimorto, jogado à beira da estrada, o viajante, esquecendo seus afazeres, coloca-o no centro de seus cuidados. E partilha com o desconhecido seu óleo, seu vinho, sua montaria, seu tempo e seu dinheiro, numa partilha radical, sem medidas. O dinheiro empregado para salvar aquela vida tornou-se um dos muitos elementos do cuidado pelo outro. E, certamente, não foi o mais importante. Fundamental, mesmo, foi a oferta que o samaritano fez de si a quem carecia de misericórdia, cuja sobrevivência dependia da decisão que tomaria, pois o sacerdote e o levita já o haviam desprezado, por não se deixarem afetar pelo homem vitimado pelos cruéis assaltantes.

A compreensão cristã de esmola vai muito além do simples ato material de dar algo a um necessitado. Tudo depende da atitude que a reveste. O outro é um irmão, em quem reconheço o rosto interpelante de Jesus (Mt 25,40.45), e a quem me doo, com gratuidade e generosidade, no gesto de partilhar, não apenas o dinheiro, mas o que possuo e o irmão necessita para reconstruir sua dignidade. Então, a ‘esmola’ poderá ser um sorriso, um ombro amigo, uma palavra de consolo, um ouvido para escutar, uma companhia solidária ou uma ação para defender o outro aviltado em sua dignidade. Em última análise, para o cristão, dar esmola é doar-se, nos passos do Mestre Jesus de Nazaré, cuja vida foi inteiramente doada, como eleemosyne, pela salvação da humanidade.’


Fonte :

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sou eu o responsável por meu irmão?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘Sou eu responsável pelo meu irmão? Essa pergunta se encontra no início do livro do Gênesis (Gn 4:9) e faz parte da narrativa a respeito de Caim e Abel. Ela surge em resposta a uma outra feita por Deus a Caim a respeito do paradeiro de Abel que havia sido morto. Embora seja um simples diálogo, ainda hoje ele nos faz refletir a respeito da nossa relação com nossos irmãos e irmãs. Gostaria de propor dois aspectos que a resposta de Caim à pergunta feita por Deus nos faz pensar a respeito da nossa relação com nossa irmandade.

O primeiro, diretamente ligado à narrativa, tem a ver com a indiferença. A resposta de Caim denota uma postura indiferente em relação ao seu irmão Abel. Se trouxermos para nossos dias, isso quer dizer que simplesmente não nos é importante saber aquilo que acontece com quem está próximo de mim e com minha irmandade que está na Terra. Dessa forma, tanto faz se quem mora na mesma região que eu passa fome, tem necessidades, é violentado ou violentada em seus direitos ou em seus corpos, não tem os filhos e filhas na escola, etc. Se não faz parte do meu convívio e se não tem minha amizade, então, simplesmente, não preciso fazer nada para ajuda-los ou me importar, verdadeiramente, com eles. Basta passar a ideia de alguém engajado com justiça social e equidade de todos nas redes sociais para me ver como alguém que realmente se importa com todos. Em um mundo virtual, em que ações efetivas tem se tornado cada vez mais raro, passar a impressão de que se é alguma coisa se torna mais importante do que realmente ser aquilo que se fala. Porém, ao fazermos isso, não estamos simplesmente dando a mesma resposta que Caim deu com uma pitada de hipocrisia? No final, nossa atitude continua a mesma a de Caim com relação à Abel, seu irmão.

O segundo, trazendo de uma maneira interpretativa da atualidade, tem a ver com o julgamento que fazemos em relação àqueles e àquelas que pensam diferente de mim. Não dificilmente, ouvimos pessoas dizerem frases do tipo sempre que algum escândalo acontece : ‘não tenho nada a ver com isso’; ‘eu, ser igual a esses? Jamais’; ‘Que eu tenho a ver com essa pessoa que faz isso?’; ‘Eu jamais faria algo assim’, dentre diversas outras que poderíamos listar e, com certeza, seria do mesmo teor. Ao fazermos isso, nos colocamos em posição de julgamento em relação ao nosso irmão sem reconhecermos que também seríamos capazes de cometermos os mesmos atos que esse cometeu. Dessa forma, a pergunta de Caim, se tomada em seu sentido justificador, nos coloca não como indiferentes, antes, como superiores em relação ao nosso irmão ou irmã.

Qual o perigo disso? O perigo está, justamente, ao nos considerarmos fortes o suficiente para não sucumbir às tentações e nos transformamos nos monstros que combatemos. Se observarmos bem, transformarmos nos monstros que combatemos é o que mais acontece em cenários atuais. Basta vermos que os que mais condenavam a corrupção têm se revelado pertencerem aos mais corruptos, os que mais condenavam os homossexuais se revelaram, com o passar do tempo, também homossexuais, os que condenavam veemente a teologia da prosperidade se transformaram em um de seus pregadores e a lista segue indefinidamente.

Nisso tudo, o que é importante de percebermos é que, quanto mais nos colocarmos como aqueles que dizem : ‘que tenho eu a ver com meu irmão?’ maior será a probabilidade de, dadas as circunstâncias propícias, nos tornarmos naquilo que condenamos. Assim, reconhecermo-nos como capazes do mal em sua pior forma é, talvez, a maneira mais sábia de nos tornarmos pessoas mais humanas. Como disse Paulo : ‘quando sou fraco, aí que sou forte.’ (2 Co 12:10).

Estejamos sempre atentos para que nosso olhar em relação ao nosso próximo não se encaixe em nenhum desses, antes, que seja um olhar que reconheça a importância e também se reconheça nas dificuldades e fracassos que todos e todas passamos ao longo da vida. Assim, no lugar da indiferença surgirá um importar verdadeiro e no lugar do julgamento, a misericórdia entre nós que somos todos iguais.’


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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Azerbaijão : Igreja missionária e misericordiosa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Fernando Félix, 
Jornalista 


‘O Azerbaijão é pouco mais pequeno do que Portugal e a sua população também é ligeiramente menor : 9,5 milhões de habitantes. Situa-se na região do Cáucaso, no cruzamento entre o Leste Europeu e o Sudoeste Asiático, sendo, por isso, um país transcontinental. Este ano, celebra os 25 anos da proclamação da independência da ex-União Soviética.

A Constituição do Azerbaijão não declara qualquer religião oficial, mas 95 % da população é muçulmana xiita. As principais forças políticas no país são seculares, mas há movimentos e partidos da oposição ligados ao xiismo.

A comunidade católica azerbaijana é formada por cerca de 500 fiéis, tem apenas uma paróquia, confiada aos Salesianos, uma igreja e uma capela. Nela existem apenas sete sacerdotes, três religiosos, sete religiosas, dois missionários leigos e quatro catequistas. Os seminaristas são 14. Com os demais cristãos – da Igreja Ortodoxa Russa, Igreja Ortodoxa Georgiana e Igreja Apostólica Arménia – formam uma comunidade com perto de 150 mil discípulos de Cristo.


Cristãos em tempos de perseguição religiosa

O Catolicismo recente no Azerbaijão data de 1912. Oito anos depois, com a chegada dos bolcheviques, o território foi incorporado na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (ex-URSS) e a Igreja Católica foi suprimida. Na década de 1930, a perseguição teve o seu pico com a destruição da única igreja, na capital, Bacu, e o assassínio do seu pároco.

Em 1991, o Azerbaijão proclamou-se independente da ex-URSS. No ano seguinte, quando representantes da Igreja Católica romana chegaram ao país, restava apenas uma dúzia de fiéis idosos dos que, em tempos, tinham sido 10 000 católicos.

O país, em 1997, proibiu por decreto toda a atividade de missionários estrangeiros. Todavia, acolheu dois papas em viagem apostólica : São João Paulo II, em 2002, e Francisco, em outubro passado.

Depois da visita de São João Paulo II, foi enviado o primeiro padre católico para o país. Ao mesmo tempo, o Governo decidiu compensar os cristãos, oferecendo-lhes um terreno para a edificação de um novo templo. E é nesta nova igreja, dedicada à Imaculada Conceição, que, todos os domingos, são celebradas três missas e são cada vez mais as crianças que frequentam a catequese.

Em 29 de Maio passado, foi ordenado diácono, em São Petersburgo (Rússia), o futuro primeiro sacerdote do Azerbaijão. Esta é uma notícia muito boa para a comunidade católica azerbaijana. Este pode ser considerado um dos primeiros frutos da presença discreta, mas verdadeiramente missionária, dos católicos.


Presença caridosa num país laico

No Azerbaijão, são mais fortes os costumes sociais e culturais do que os credos. Entre a maioria muçulmana, os costumes religiosos não são levados muito a sério, e a identidade muçulmana tende a basear-se mais na etnia e na cultura do que na religião.

O país vive tempos de prosperidade que parece pôr em segundo plano a fé. O petróleo e o gás natural fazem do Azerbaijão um país muito rico. «Tão rico que, quando as Irmãs da Madre Teresa de Calcutá decidiram abrir uma casa na capital, Bacu, em 2005, lhes disseram que podiam ir embora, que o seu trabalho não seria necessário pois não havia pobres no Azerbaijão», anota a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. As Missionárias da Caridade não deram ouvidos àquelas palavras desmotivadoras e cumpriram um dos desejos de Santa Teresa de Calcutá : abrir pelo menos uma casa, uma comunidade, em cada uma das antigas repúblicas socialistas soviéticas. Hoje, cinco irmãs desta congregação cuidam dos sem-abrigo, dos que perderam a família, dos que não têm como se sustentar, dos que permanecem à margem, estendidos nas ruas, quase invisíveis aos olhos de quem passa.


Os gestos inter-religiosos do Papa Francisco

A breve visita do Papa Francisco ao Azerbaijão – concentrada num domingo – teve um forte caráter inter-religioso. O ponto alto foi o encontro na Mesquita H. Aliyev, de Bacu, reunindo o xeque dos muçulmanos do Cáucaso, Allahshukur Pashazadeh, e representantes de comunidades cristãs e judias no país.

Ao iniciar o seu discurso, Francisco salientou o grande sinal que era o encontro, realizado em fraterna amizade naquele local de oração : «Um sinal que manifesta aquela harmonia que as religiões, em conjunto, podem construir, a partir das relações pessoais e da boa vontade dos responsáveis», frisou, e da qual o Azerbaijão se beneficia, pois «é a colaboração e não a contraposição que ajudam a construir sociedades melhores».

Este encontro, como recordou o papa, saúda, encoraja e está em continuidade com os numerosos encontros que se realizam em Bacu para promover o diálogo e a multiculturalidade.

«A fraternidade e a partilha que desejamos incrementar não serão apreciadas por aqueles que querem salientar divisões, reacender tensões e enriquecer à custa de conflitos e contrastes; mas são imploradas e esperadas por quem deseja o bem comum, e sobretudo são agradáveis a Deus, Compassivo e Misericordioso, que quer os filhos e filhas da única família humana unidos e sempre em diálogo entre si», sublinhou o pontífice.

Disse ainda o Papa Francisco, demonstrando como a harmonia entre as religiões é o melhor para o mundo : «Abrir-se aos outros não empobrece, mas enriquece, porque nos ajuda a ser mais humanos, a reconhecer-se parte ativa de um todo maior e a interpretar a vida como um dom para os outros; a ter como alvo não os próprios interesses, mas o bem da humanidade; a agir sem idealismos nem intervencionismos, sem realizar interferências prejudiciais nem ações forçadas, mas sempre no respeito das dinâmicas históricas, das culturas e das tradições religiosas.»’
  

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domingo, 25 de setembro de 2016

Misericórdia : Em lugar de palavras, obras

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Madre Teresa podia ter sido muito religiosa e indiferente, mas, não quis ser incoerente.

*Artigo de Dom Reginaldo Andrietta,
Bispo de Jales


‘Poucos dias após a canonização da Madre Teresa de Calcutá, o Papa Francisco, em uma audiência concedida a 153 novos bispos de todo o mundo, reunidos em Roma para um Curso de Formação, no qual estive presente, expressou a importância de seguirmos o exemplo dessa querida ‘mãe dos pobres’, recomendando que nossa vida expresse também a misericórdia de Deus.

O Papa nos convidou a tornar a misericórdia pastoralmente concreta, solidarizando-nos com os que sofrem, seguindo o exemplo do Bom Samaritano, do Evangelho de Lucas :  ele toca as feridas e cuida do homem roubado e violentado no caminho de Jericó. Nessa parábola, Jesus também denuncia a lógica da indiferença, manifestada, paradoxalmente, por duas pessoas religiosas.

Madre Teresa podia ter sido muito religiosa e indiferente, mas, não quis ser incoerente. Ela assumiu crianças abandonadas, moradores de rua, doentes e moribundos, os que a sociedade marginaliza, como seus amigos preferidos, porque são amados, em primeiro lugar por Deus. Diante desses e de outros que a sociedade explora e descarta, diferentemente dela, muitos mantêm seus olhos fechados e seus corações endurecidos.

A violência e a indiferença, presentes no mundo, nos fazem pensar sobre algumas palavras que o Papa dirigiu aos novos Bispos : ‘O caminho de Jericó não está distante de nós’; ele pode estar até mesmo em nossos lares; e reafirmou o que já havia expressado na Exortação Apostólica Alegria do Amor : ‘deem uma atenção especial a todas as famílias’; ‘acompanhem sobretudo as mais feridas’.

A misericórdia foi tão enfatizada no Curso para Novos Bispos, que o Cardeal Marc Ouellet, do Canadá, prefeito da Congregação Pontifícia para os Bispos, ao concluir o Curso, ressaltou que, embora a misericórdia tenha sido evidenciada neste Ano Santo, os Bispos devem expressar o perfil de pastores misericordiosos, sempre, porque este é o perfil de Cristo e da Igreja.

Logo encerraremos o Ano Santo da Misericórdia, certamente mais comprometidos em obras de misericórdia, que tornam a fé viva, conforme salienta o apóstolo Tiago : ‘De que aproveitará a alguém dizer que tem fé se não tiver obras. Acaso a fé poderá salvá-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e alguém lhe disser ide em paz, sem dar-lhe o necessário para o corpo, de que lhe aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras é morta’.

Os novos Bispos, ouvimos com insistência em Roma, que devemos ser apóstolos da misericórdia, expressão real de Cristo, Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas. Os membros de nossas comunidades não podem, portanto, estranhar que nosso testemunho e nossos ensinamentos, sejam focados na espiritualidade e na ética da solidariedade, da misericórdia e da justiça, tão necessárias e urgentes na sociedade atual, extremamente dividida entre ricos e pobres, poderosos e explorados.

Se isso parecer estranho, entendamos, conforme diz o Papa, que Santa Teresa de Calcutá também fez ‘sua voz chegar aos poderosos da terra para que reconheçam sua culpa perante os crimes de pobreza criados por eles mesmos’. Que esta ‘incansável trabalhadora da misericórdia’ nos inspire a compreender o que o apóstolo João expressou sobre o que aprendeu de Jesus a respeito da misericórdia : em lugar de palavras, obras (1 João 3,18).’


Fonte :



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Papa Francisco propõe nova obra de misericórdia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

'O cuidado da casa comum requer 'a grata contemplação do mundo', dia Francisco.


‘A mensagem do Papa para o Dia Mundial de Oração e Cuidado da Criação, celebrado em 1º de setembro, é apresentada sob um único capítulo : ‘Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum’, dividida em 6 subtítulos.

Quando instituiu o Dia Mundial de Oração e Cuidado da Criação em 2015, ano do lançamento da Encíclica Laudato Si, Francisco explicou o porquê deste dia :

Para oferecer a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade de renovar a adesão pessoal à sua vocação de guardiões da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado, invocando a sua ajuda para a proteção da criação e a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos’.

No primeiro subtítulo que fala sobre a Terra que clama, o Papa recorda que 2015 foi o ano mais quente da história e que, provavelmente, 2016 será ainda mais.

Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada’, destaca o Pontífice.


Conversão ecológica

A seguir, o Papa cita o Patriarca Bartolomeu que tem evidenciado os pecados contra a criação.

Neste ponto, Francisco pede em sua mensagem que ‘aprendamos a procurar a misericórdia de Deus para os pecados contra a criação que até agora não soubemos reconhecer nem confessar; e comprometamo-nos a dar passos concretos no caminho da conversão ecológica’.

A consciência ecológica, todavia, toma forma somente após algumas reflexões, explica o Papa :

Depois de um sério exame de consciência e habitados por tal arrependimento, podemos confessar os nossos pecados contra o Criador, contra a criação, contra os nossos irmãos e irmãs’.


Mudar de rumo

O exame de consciência, o arrependimento e a confissão ao Pai, rico em misericórdia, levam-nos a um propósito firme de mudar de vida’, destaca Francisco.

O Pontífice recordar algumas coisas práticas apresentadas por ele na Laudato Si e que cada um de nós pode fazer para respeitar a criação.

Utilizar com critérios o plástico e o papel, não desperdiçar água, comida e eletricidade, diferenciar o lixo, tratar com zelo os outros seres vivos, usar os transportes públicos e partilhar o mesmo veículo com várias pessoas’.

A estas pequenas ações de grande importância somam-se os compromissos em nível global, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris.

Os governos têm o dever de respeitar os compromissos que assumiram, enquanto as empresas devem responsavelmente cumprir a sua parte, e cabe aos cidadãos exigir que isto aconteça e também se aponte para objetivos cada vez mais ambiciosos’, exorta o Papa.


Nova obra de misericórdia

Ao concluir a mensagem, sob uma ótica holística da vida humana que na sua totalidade inclui o cuidado da casa comum, Francisco diz :

Tomo a liberdade de propor um complemento aos dois elencos de sete obras de misericórdia, acrescentando a cada um o cuidado da casa comum’.

E explica :

Como obra de misericórdia espiritual, o cuidado da casa comum requer 'a grata contemplação do mundo', que 'nos permite descobrir qualquer ensinamento que Deus quer nos transmitir por meio de cada coisa'. Como obra de misericórdia corporal, o cuidado da casa comum requer aqueles 'simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo' e se manifesta o amor 'em todas as ações que procuram construir um mundo melhor.’


Fonte :

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Semana Nacional da Família

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Cardeal Dom Orani João Tempesta, O. Cist.,
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


‘Neste domingo, Dia dos Pais, iniciamos a Semana Nacional da Família. Com o tema Misericórdia na Família : Dom e Missão, ela será realizada entre os dias 14 e 21 de agosto. Para as celebrações, a Comissão Episcopal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou o subsídio Hora da Família 2016, onde aprofunda o tema desta semana. O subsídio contém roteiros para sete encontros, além de celebrações como a Via-sacra em família, para o Dia dos Pais, dos Avós e das Mães. O material, produzido pela Comissão Nacional da Pastoral Familiar (CNPF) e pela Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, é organizado de forma interativa, sugerindo encontros participativos e celebrativos, buscando envolver a comunidade, famílias, lideranças, crianças, jovens e adultos.

A programação dos sete encontros está dividida assim :  1º Encontro – Criados por um Pai Misericordioso; 2º Encontro – Criados na Misericórdia e para Misericórdia; 3º Encontro –  Procurados pela Misericórdia; 4º Encontro –  Família e Igreja, lugares da Misericórdia; 5º Encontro –  O perdão na Família – Fonte de reconciliação e libertação; 6º Encontro – As obras de misericórdia na família e da família, e 7º Encontro –  A família promotora da misericórdia na sociedade.

Tocados pela Misericórdia do Pai, como filhos e filhas fiéis vamos aprender a usar de misericórdia nas relações com nossa família. Segundo o Papa Francisco, o nome de Deus é Misericórdia. Nossas famílias precisam se envolver nesse clima da misericórdia divina e atender o convite de Jesus Cristo, quando disse : Sede misericordiosos, como vosso Pai é Misericordioso. (Lc.6,36). Em cada família, Deus deseja ver concretizada a Sua misericórdia para buscar e acolher aqueles que, em algum momento, fragilizaram-se, magoaram-se e se afastaram das condições de ter uma vida digna e plena. A misericórdia está presente quando sabemos reconhecer as nossas próprias quedas e incoerências, tornando-nos mais sensíveis às fraquezas daqueles que convivem conosco. É um dom que Deus nos concede, mas vivê-lo é também uma missão.

A Igreja sempre cuidou da família. Por um lado, por acreditar ser ela não apenas a célula mater da sociedade e o santuário da vida, mas também a Igreja doméstica. (Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 11). E, por outro, porque está convencida de que o bem-estar da pessoa e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar. (Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 47).

Logo no início de seu pontificado, o Papa São João Paulo II publicou uma Exortação Apostólica sobre a família, como conclusão, precisamente, dos temas tratados em um Sínodo de Bispos sobre a Família. Nela, o Sumo Pontífice afirma com convicção que a evangelização depende essencialmente da saúde espiritual dessa instituição, porque onde uma legislação antirreligiosa pretende impedir até a educação na fé, onde uma incredulidade difundida ou um secularismo invasor tornam praticamente impossível um verdadeiro crescimento religioso, aquela que poderia ser chamada Igreja doméstica fica como único ambiente, no qual crianças e jovens podem receber uma autêntica catequese. (Papa São João Paulo II, Exortação Apostólica Familiares consortio, n. 52).

No Capítulo 8 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia (AL), apresenta um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes : acompanhar, discernir e integrar, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade matrimonial, complexas ou irregulares. Em seguida, o Papa Francisco apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a lógica da misericórdia pastoral. No que respeita ao discernimento acerca das situações irregulares, o Santo Padre, o Papa, observa : temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição (AL 296). E continua : Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia imerecida, incondicional e gratuita (AL 297). E ainda : Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral (AL 298). Nesta linha pastoral, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais, o Papa afirma que os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo. A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…). Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos (AL 299). A orientação e o sentido da Exortação Apostólica : Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer : uma vez que o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos (AL 300). O Papa Francisco desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores.

A lógica da misericórdia pastoral : A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônios se assim evitar as rupturas (AL 307). Mas o sentido abrangente do capítulo oitavo da Exortação Apostólica e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras finais : Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer, e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja (AL 312). Acerca da lógica da misericórdia pastoral, o Papa Francisco afirma com força : Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho (AL 311).

Amar a família significa saber estimar os seus valores e possibilidades, promovendo-os sempre. Amar a família significa descobrir os perigos e os males que a ameaçam, para poder superá-los. Amar a família significa empenhar-se em criar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. E, por fim, forma eminente de amor à família cristã de hoje, muitas vezes tentada por incomodidades e angustiada por crescentes dificuldades, é dar-lhe novamente razões de confiança em si mesma, nas riquezas próprias que lhe advêm da natureza e da graça, e na missão que Deus lhe confiou. É necessário que as famílias do nosso tempo tomem novamente altura! É necessário que sigam a Cristo. (Papa São João Paulo II, Exortação Apostólica Familiares consortio, Conclusão).

Peçamos as bênçãos da Sagrada Família de Nazaré, para que ela possa cada vez mais iluminar todas as famílias do Brasil e do mundo inteiro. E reforço meu convite para que possamos meditar em família, Igreja Doméstica, a Exortação Apostólica Amoris Laetitia. A família vive na misericórdia e da misericórdia. Que possamos viver com intensidade esta Semana Nacional da Família.’


Fonte :
* Artigo na íntegra