quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A qual Jesus temos buscado?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Diversas imagens do Cristo são buscadas..
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG


‘A pergunta pode parecer um pouco estranha. Afinal, a reposta mais rápida que encontramos se a fazemos a qualquer pessoa cristã é : ora, busco Jesus, o Filho de Deus. No entanto, se olharmos a questão um pouco mais de perto, podemos nos surpreender e a pergunta se tornará menos óbvia e, talvez, mais instigante. Nesse sentido, gostaria de propor somente três imagens (dentre várias possíveis) de Jesus que vemos ser buscadas hoje em dia.

A primeira imagem é o do Jesus histórico. Entre nós, há os que buscam freneticamente pelo Jesus histórico e tem a sua fé ou falta dela baseada nas conclusões a que cientistas e historiadores chegam a cada nova semana a respeito desse tema. Não é de surpreender que o afã que acomete a milhares de pessoas ao sair um novo livro sobre a história de Jesus, ou alguma revista postar um novo artigo sobre essa questão. Se são cristãs e o artigo fala a respeito de algo que comprova a narrativa cristã, a chance de falar que a Bíblia tinha razão em tudo que relata e que a ciência comprova o que a Bíblia diz são enormes. Se não são cristãs e essas mesmas pesquisas mostram divergências com relação àquilo que a narrativa bíblica mostra, a chance de considerar os cristãos como bando de supersticiosos também é enorme.

O que é interessante perceber é que, nos dois grupos, o caráter da comprovação histórica se torna papel fundamental para a crença ou descrença a respeito da pessoa de Jesus. A busca por um Jesus comprovado historicamente, mesmo que já tenha sido descartada por Albert Schweitzer em 1901, em seu livro A busca do Jesus histórico, ainda continua sendo o parâmetro para crença e não crença de muitos. Isso não quer dizer que não se deva pesquisar a história de Jesus. As pesquisas a respeito do Jesus histórico segue desde 1748 e tem trazido bons frutos na explicação da vida e da narrativa dos evangelhos. Contudo, basear a fé em comprovações desse gênero é que se mostra complicado se nos dizemos cristãos.

A segunda imagem é a do Jesus dogmático. Esse Jesus dogmático é aquele do qual os documentos oficiais falam. Não nos surpreende que se tem crescido uma ala ultraconservadora tanto em meios evangélicos como em meios católicos. A esses, o Jesus da qual os documentos da Igreja e as confissões falam é mais importante do que qualquer outro discurso a respeito dele. Assim, aqueles e aquelas que não falam e não agem de acordo com os documentos e declarações, esses não encontraram ainda a fé verdadeira e devem, portanto, ser excluídos da comunhão, das atividades e dos ministérios, uma vez que estão em pecado contra a Igreja. Para os que buscam o Jesus dogmático, somente há certo e errado de acordo com a letra e é essa que determina os que conhecem ou não conhecem o mestre e isso é muito perigoso. Assim como a pesquisa histórica da qual falamos, os dogmas e as declarações católicas e protestantes precisam ser conhecidas e é bom que se conheça para que se tenha um embasamento maior e saiba defender a fé que se tem de uma maneira racional, caso seja necessário.

A terceira imagem é a do Jesus crucificado. Ao que tudo indica, e se observarmos a situação de nossa igreja atual, essa é a menos buscada em nossos dias. O motivo disso, a meu ver, se encontra no fato de que buscar o Jesus Crucificado como padrão de vida é estar disposto à autonegação, ao sofrimento em prol do outro e a um compromisso de engajamento com o mundo que poucos de nós temos coragem e disposição de assumirmos. Diante de uma lógica de mercado que tem se instalado em diversos seguimentos cristãos, em que Deus somente é Deus se retribui de alguma forma aquilo que fazemos, autodoação e autosacrifício em amor não parece ser a palavra da vez.

Se atentarmos para nós mesmos, bem como para cristãos e cristãs que estão ao nosso lado em nosso dia a dia, muitas vezes perceberemos que se tem buscado uma segurança histórica ou dogmática na tentativa de servir a Deus, esquecendo que a fé que professamos se baseia, justamente, em um lançar-se no escuro, como diria Kierkegaard, ou em apoiar-se em uma tábua fina no meio do oceano, como diria Ratzinger.

Das três imagens, somente a terceira nos conclama a uma fé realmente cristã que crê em esperança de que assim como o Crucificado foi ressuscitado, nós também o somos por meio Dele.’


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