sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Que sentido tem, nos dias de hoje, crer?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Em seu Espírito, Deus se revela como interioridade da história.
*Artigo do Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM,
doutor em Teologia Sistemática
pela Pontificia Università Antonianum, Roma.


‘Mais do que em uma ‘época de crises’, nos encontramos diante de uma ‘crise de época’, caracterizada fundamentalmente por grandes transformações.  Esta descrição, que não se resume a um simples jogo de palavras, remete-nos a uma maior sensibilidade face ao caráter inusitado dos tempos atuais. Trata-se, de fato, de uma crise dos próprios paradigmas que orientam as distintas relações que compõem nossa vida quotidiana. Vivemos, em nossa opinião, uma situação caracterizada pela presença simultânea entre o que se tem definido como ‘eclipse’ do divino e sua ‘epifania’. Surpresos e perplexos, na verdade, testemunhamos fenômenos de uma desenfreada perda de sentido e de um visível excesso de crença. A própria alternância ou simultaneidade leva a crer que, para além da aparente oposição entre ambos, tais fenômenos constituem no fundo dois lados da mesma moeda.

A experiência da perda do sentido ou de auto-suficiência. Não se pode ignorar que muitos de nós vivemos, na prática, como se Deus não existisse. Isto significa, em outras palavras, que Deus não participa mais dos projetos pessoais e sociais do ser humano contemporâneo. Tudo parece girar, agora, em torno de si próprio. Tudo parece depender ora das suas possibilidades ora dos seus limites. O ser humano se sente cada vez mais posto ao centro da vida e do mundo. Projeta e constrói, faz planos e os realiza segundo seus próprios critérios e parâmetros sem a necessidade de recorrer a Deus. Depois de ter tomado consciência das potencialidades mais recônditas da própria razão, é capaz de solucionar os problemas mais diversos e de encontrar respostas para as questões mais difíceis. Deus tornou-se, de fato, dispensável e até supérfluo. Não se necessita mais da sua constante presença experimentada como graça nem da sua generosa e gratuita providência. A providência divina tornou-se desnecessária, uma vez que tudo, praticamente, pode ser previsto e planejado pelo ser humano mediante cálculos cada vez mais precisos.

A grande conquista efetuada pelo ser humano moderno talvez tenha sido aquela de organizar a própria vida e o próprio destino sem ter que contar com a ajuda de Deus. O ser humano descobriu-se como sujeito autônomo passando, assim, a alimentar a ilusão da própria onipotência. Julga-se, enfim, autônomo e finalmente liberto de toda sorte de elo que o mantinha antes preso a tantas correntes. A religião passa a ser vista como a maior das correntes que o mantinha enredado nas suas muitas malhas doutrinais, rituais e míticas. Por esta razão, de alguma forma ainda predomina na cultura contemporânea o pressuposto que, para ser ainda mais humano, ele deve expulsar Deus da própria vida. Pois, na verdade, o Deus dos catecismos e das igrejas o oprime tanto a ponto de ele se sentir sufocado e sem espaço. Convém, pois, que o ser humano se liberte dessa situação em vistas da realização de sua própria identidade. Acredita-se que Deus e ser humano se encontrem em uma situação de contínua competição. Para que um se afirme, é necessário que o outro se anule. Deste modo, o ser humano adulto e emancipado, consciente de si e das suas ilimitadas possibilidades, emerge cada vez mais no cenário da cultura e da história fazendo de tudo para anular a presença incômoda de Deus.

Estão, assim, colocadas as premissas para o ateísmo, fenômeno que emergiu com um vigor particular no mundo ocidental contemporâneo. É esta ainda a razão pela qual o ateísmo esteve sempre de mãos dadas com as várias vertentes do humanismo dos séculos XIX e XX. Em tal contexto, ser humanista implicava naturalmente ser ateu ou, ao menos, anti-religioso.

O fenômeno do excesso de crença constitui, em nossa opinião, a atmosfera vital da condição pós-moderna. Neste contexto, consideramos que os principais desafios com relação à experiência do crer são provocados pela ‘subjetivação da fé’, ou ainda, pela ‘privatização do religioso’.

A ‘subjetivação da fé’ ou ‘privatização do religioso’ se caracteriza fundamentalmente por uma religiosidade difusa, cujo resultado mais significativo parece ser a instrumentalização da religião em função de interesses e de necessidades individuais. Constata-se assim uma religiosidade sem nenhuma exigência de conversão, sem qualquer intervenção externa capaz de provocar no fiel um processo de adesão incondicional a Deus, expresso na busca de conformidade maior à sua vontade. Perde-se o sentido da fé como atitude obediencial a Deus.

Esta específica experiência do sagrado toca antes a superficialidade dos sentimentos e das emoções, deixando, ao contrário, intactas aquelas estruturas existenciais mais íntimas do ser humano. Trata-se, ademais, de uma religiosidade sem nenhuma objetividade; os preceitos objetivos das tradições religiosas são considerados por demais hard. Deseja-se agora, neste novo quadro referencial, uma religiosidade de caráter mais light, na qual as necessidades e carências individuais passam a ocupar lugar de relevo. Se, no passado, a profissão religiosa provocava transformações, verdadeiras conversões, na vida dos crentes, prefere-se, hoje, mudar de religião para não se ter que mudar de vida.

Esta situação agrava-se ainda mais quando considerada na sua estreita relação com o consumismo. A ‘privatização da fé’ serviu como uma luva aos interesses econômicos da sociedade de consumo. A testemunhar esta espécie de ‘instrumentalização consumista do religioso’ estão tantas iniciativas propostas com frequência em tais ambientes. Apesar do aparente otimismo do ponto de vista religioso, o fenômeno do ‘retorno do sagrado’ traz consigo um novo e desconcertante desafio constituído pelo ‘excesso de crença’. Mais que a perda do sentido, talvez seja o ‘excesso de crença’ a recolocar com gravidade e urgência a questão do Deus verdadeiro contra possíveis e eventuais manipulações do religioso em função de interesses individuais e egoístas.

Isso posto, o que significa concretamente crer nos dias de hoje? Diríamos, em primeiro lugar, que o Pai de Jesus Cristo não abandona jamais seus filhos e que, portanto, é preciso desentranhar sua singular presença para além desta sua aparente ausência. Isto significa que a tão propalada ausência de Deus deve ser interpretada mediante outros critérios que não aqueles geralmente utilizados. Na verdade, é Deus quem se deixa expulsar do mundo para que o ser humano se torne adulto e emancipado. É Ele que, de fato, se revela na sua desconcertante fraqueza para que o ser humano se descubra forte. É Deus quem se retira do cenário do mundo e da história para que o ser humano se torne sujeito. É Ele, enfim, quem se deixa vencer para que o ser humano realize todas as suas virtuais possibilidades. Por mais escandaloso que tudo isso possa parecer, encontramo-nos frente à inusitada, porém livre, decisão paterna e amorosa de Deus.

Deste modo, Deus se revela não como um competidor, como alguém que está aí para tolher ao ser humano a liberdade. Pelo contrário, Ele é o primeiro a se interessar pelas criaturas humanas e, para tanto, engaja-se pessoalmente a favor do bem delas. No entanto, ao invés de interferir de maneira brusca e repentina, violentando desta forma a liberdade humana, Deus prefere apelar sutilmente para sua consciência. Neste sentido, Ele não perde uma oportunidade sequer para convencer o ser humano daqueles valores que julga serem importantes. E isto se chama respeito pela liberdade do outro. E o que é mais importante: Deus respeita a liberdade de cada ser humano sem, contudo, mostrar-se indiferente ou insensível. Deus continua presente, mas sua presença é particularmente respeitosa. Aguarda o momento justo para interpelá-lo. Não força, nem desrespeita o ritmo de cada um. Está ali à espreita, aguardando a ocasião mais propícia para oferecer sua proposta de diálogo e para dirigir-lhe sua interpelação. E o faz de maneira tal a não lesar a inviolável liberdade humana. Só um Deus concebido como autêntico Pai alcança uma tal atitude de respeito e de cuidado para com seus próprios filhos e filhas.

Em Jesus Cristo contemplamos a emergência do Deus solidário. Esta singular dimensão do Deus cristão transparece na sua original beleza no itinerário existencial de Jesus de Nazaré. Tem razão, de fato, o autor do quarto evangelho quando escreve: ‘Tendo amado os seus, amou-os até o fim’. O testemunho oferecido por Jesus é o de quem nunca se furta ao diálogo, valorizando sempre as questões postas por seus interlocutores, independentemente de quem sejam. Procura sempre dialogar e o faz até o fim. Não impõe jamais sua vontade nem obriga os outros a aceitar sem mais seus ensinamentos. Como sua maneira de ser e de agir, Ele retira as pessoas do anonimato causado por relações desumanas para que elas tenham sua dignidade respeitada e, consequentemente, se assumam como sujeito da própria história. Em sua relação para com os doentes, pecadores e demais pessoas marginalizadas tem o cuidado de, primeiro, estimulá-los à recuperação da própria dignidade negada lançando mão de gestos singelos e significativos para com o corpo delas para, depois, somente depois, começar a falar-lhes de Deus e de seu Reino.

Apesar de tudo, vale dizer, diante do fechamento de seus interlocutores e da mais abjeta rejeição à sua pessoa e missão, assume coerentemente as consequências desta sua decisão. Deixa-se assim crucificar, pagando o altíssimo preço do respeito à liberdade humana e da sujeição aos ditames das decisões históricas. Assume sobre os próprios ombros o enorme peso do fechamento humano e das iníquas estruturas sociais. Prefere pagar com a própria vida a desrespeitar a liberdade humana e violentar as coordenadas históricas que lhe eram adversas.

Não pretende que seu Pai intervenha para debelar de vez a perversidade humana e a iniquidade de suas decisões, reduzindo assim o ser humano a uma espécie de marionete, alguém destituído de vontade livre e de capacidade de decisão. Consciente de ter recebido a missão de realizar em tudo a vontade do Pai, custe o que custar, Ele obedece. E o faz sem pretender nada em troca. Comunga desta forma do desígnio amoroso do Pai e, movido pelo Espírito Santo, leva a cumprimento a missão que lhe fora por Deus confiada.

Em seu Espírito, Deus se revela como interioridade da história. Fiel a seu desígnio de estabelecer uma proximidade sempre maior com relação ao ser humano, à sua história e à inteira realidade criada, Deus age no mundo interiormente, a partir de dentro. Sua ação se realiza, portanto, de dentro para fora e não, ao contrário, de fora para dentro. Por essa razão é que Deus não intervém magicamente, desrespeitando assim a história e suas coordenadas próprias. Agir de dentro para fora significa, em outros termos, não violentar o ser humano naquilo que ele tem de mais nobre e próprio, sua liberdade. Deus não fere a dignidade humana, mas a respeita até o fim. Por isso mesmo, nunca imporá ao ser humano sua vontade e nem o constrangerá a realizá-la.

A maneira peculiar do Deus cristão se fazer presente na história é aquela própria do Espírito. Por esta razão, ele se nos revelou também como Espírito Santo. Trata-se de uma presença sutil, porém eficaz. Ele jamais abandona a pessoa humana : Ele a in-habita, vale dizer, vem habitar no íntimo dela e, a partir de sua interioridade mais íntima, Ele sugere, inspira atitudes e mentalidades condizentes com seus desígnios. E o modo peculiar através do qual ele assim age é o da sedução: Ele perscruta os corações e cria as condições para que suas sugestões sejam acolhidas e encontrem seu espaço de realização.

Não perde uma ocasião sequer para interpelar a pessoa humana, potencializando ao máximo suas virtualidades em termos de decisões e de engajamentos históricos. No entanto, o faz de maneira discreta, sutil, íntima. E a inspiração que ele deseja comunicar a cada pessoa privilegia vias indiretas. Sua interpelação atinge cada um através de outras pessoas, situações alheias e acontecimentos em geral. Porque Espírito, Deus se serve sempre de sinais para interpelar o ser humano a um processo de discernimento dos mesmos. Ele fala através das criaturas, mediante os acontecimentos históricos e, sobretudo, através de sua imagem viva por excelência que é o pobre, o marginalizado, o excluído.

Por se revelar como a interioridade da história, o Deus de Jesus Cristo potencializa as mediações humanas, históricas e cósmicas como possíveis vias de sua presença e interpelação. Entre tantas mediações escolhidas pelo Deus bíblico, uma merece ser destacada. Trata-se da mediação do pobre, concebido como sacramento primordial do Deus comunhão, revelado por Jesus Cristo. Ao se revelar preferencialmente no pobre, no excluído e no marginalizado, Deus revela um de seus segredos mais recônditos. E o segredo é este: que Deus ama tudo o que é desprezível, insignificante, simples. Deus ama a todos e se serve de toda e qualquer situação para se fazer presente e comunicar-lhes os desígnios de sua vontade. No entanto, manifesta um carinho especial para com os pequenos, desprezados e últimos deste mundo, e ama particularmente aquelas situações mais desprezíveis e insignificantes. Numa palavra, Deus ama o abandonado e faz dele seu sacramento por excelência.

Francisco de Assis, o Poverello, e Teresa de Calcutá, entre outros, intuíram este segredo de Deus. Foi assim que, descobrindo o valor recôndito das situações insignificantes, realizaram a experiência singular do encontro com o Deus de Jesus Cristo e, em comunhão com os pobres, aprenderam a cultivar e a apreçar a beleza desta intimidade. Assim vivendo, portanto, ensinam que o caminho que conduz o ser humano a Deus passa inevitavelmente pelo irmão ou pela irmã e, de modo especial, por aquele que se encontra caído à margem, vale dizer, excluído de toda e qualquer convivência social.

Deste modo, no rosto desfigurado do pobre transparece o Deus-comunhão que nos foi revelado por Jesus Cristo. E esta se configura numa transfiguração escandalosa. Presente no rosto sofrido do pobre, Deus clama urgentemente por relações sociais novas, mais humanas e fraternas. Esta presença inusitada e paradoxal do Deus de Jesus Cristo constitui por si só uma desafiante convocação dirigida a todos e a cada pessoa em particular.’


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