segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Duas missões

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Padre António Rego,
Jornalista


‘Sair. Uma palavra de ordem do Papa Francisco que não entendemos à primeira, apesar de ter sido dita logo no início do seu pontificado : sair. Sim, para os que estão indiferentes, surdos, desiludidos com a Igreja, alheios à fé. Para que neles desperte a nostalgia de Deus, estejam perto ou longe da nossa porta. Mesmo os que passam pela igreja, pelas casas mortuárias, pelo cartório a pedir o batismo ou o casamento para si ou para um filho, ou a unção para um moribundo. Não querem encontrar mais uma repartição de serviço que lhes forneça um horário, uma agenda e uma tabela. Precisam de uma boa notícia de Deus, como Pai, amigo e irmão, um afeto do olhar de Jesus que vê, escuta, perdoa, abraça. Que não veio para condenar, mas para transbordar misericórdia para todos os que se sentem órfãos de Deus, ou estão caídos na estrada e são socorridos com o gesto do samaritano, ou os que, como a mulher adúltera, vêm abandonar os que a queriam apedrejar porque chegou Jesus e não a condenou. Ou como Zaqueu, que foi visto no sicômoro e nessa noite recebeu Jesus em sua casa. E não esquecer os muitos milhares que vão a peregrinações, procissões e romarias, os três milhões que por ano visitam os Jerónimos, mas não captam a força espiritual e os símbolos que esses elementos comportam. É um mundo muitas vezes arredado da Igreja e dos seus rituais porque não sabe rezar com eles nem percebe o que é a Igreja. Poderíamos enumerar uma longa lista de periferias que supera os que estão no «centro». Muitos têm «a sua fé», andaram na catequese e receberam sacramentos, mas partiram para outro planeta que nem eles próprios sabem definir. Todos procuram algo e a Igreja a todos tem de procurar e não apenas aguardar. É a sua missão.

Missão. E os que a milhares de quilômetros vivem a miséria humana e espiritual, sem pão para o corpo ou para a alma, sem ter quem lhes fale da vida, da família, da escola, da saúde, da sua dignidade, da fé cristã, da comunidade celebrante, da responsabilidade de construir a cidade – quem os procura, escuta e responde? Quem lhes fala de Jesus Cristo?

A Igreja está neste momento complexo da História a sair ou a encolher-se no seu conforto de ar condicionado, sem asas nem coragem para atravessar mares e fazer aquilo que tão bem soube fazer em tantos anos e lugares de missão?

É de perguntar : onde estão os jovens? Que fazem do seu sonho, da sua coragem, da aventura, da vontade de encontro e até daquele desejo profundo de celebrar e partilhar a fé com outras culturas e religiões para contar a originalidade de Jesus Cristo? Como se encontra esse vulcão de generosidade que há em cada jovem : extinto, sufocado, coberto pelas cinzas? Fecharam-se em casa a acariciar, noite e dia, os seus smartphones, de portas trancadas, sem tentarem uma única vez sair ao encontro dos outros, sem rede, na periferia?

Sair. Palavra com significados sempre novos. Mas o partir, gesto decisivo do missionário, merece cada vez mais um amor transferido para o outro lado da fronteira. Em missão. Lá longe ou rente à nossa porta.’


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