terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O humano diante do sagrado : uma experiência de busca

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O homem está em constante busca.
*Artigo de Aldo Reis
palestrante, empresário e escritor.


‘Sempre que buscamos algo sobre o humano em direção (relação) ao sagrado, nos deparamos com conceitos já estabelecidos e sabemos qual será a conclusão da reflexão, antes mesmo de terminá-la. Contudo, esse não é o nosso intuito.

O homem, como ser inquieto e inacabado, está em constante procura por aquilo que não possui. Tanto na dimensão material, humana, afetiva e profissional, quanto na espiritual.

Essa busca incessante está para alguns pensadores como uma experiência transcendental. Trata-se de uma busca orientada pelas experiências obtidas por meio do fenômeno religioso e suas práticas tradicionais. Entretanto, a sociedade contemporânea tem provocado uma nova configuração no comportamento humano; um novo modo de se relacionar e buscar aquilo que ‘lhe falta’; uma nova forma de abrir-se à experiência transcendental, diferentemente daquelas ‘velhas’ certezas protegidas pelas instituições e asseguradas pelo modo doutrinário de administrar a experiência subjetiva de cada um.

Para falarmos do que é sagrado, faz-se necessário, também, sabermos sobre seu oposto : o profano. Os estudiosos das religiões costumeiramente dividem o fenômeno religioso em sagrado e profano, prevalecendo, assim, uma visão dualista de oposição e exclusão automática.

Como as ‘velhas certezas’ religiosas afirmam, o sagrado só pode estar para o humano enquanto sua concepção se dá mediante uma manifestação diferente da realidade natural em algo quase que sobrenatural, esplendoroso e cheio de anormalidades. E, segundo esse raciocínio, o profano é, então, um mero fato natural, biológico, ‘normal’ e quase que autoexplicativo.

O sagrado é, desse modo, um arcabouço de elaborações metafísicas e conceitos irrefutáveis com o intuito de afirmar a plena manifestação de uma entidade divina em uma bela hierofania.

Mas, e o homem? Onde se encaixa o humano diante de tanta conceituação e normatização daquilo que está ‘além’ de suas experiências ‘horizontais’?

Há transcendência, ou melhor, a transcendência é algo que induz a experiência humana a buscar sempre aquilo que ainda lhe falta. Entretanto, entre o sagrado e o humano costumam existir barreiras e pontes de ligação. Tais barreiras e pontes podemos chamar de religião.

O humano, como ser incompleto e inacabado, sempre estará em busca de algo, mesmo que já esteja nos mais elevados graus religiosos e até mesmo se houver vivenciado inúmeras experiências promovidas por manifestações sagradas dentro das tradicionais formas e expressões. Essa busca insaciável, quando não encontra o mínimo de uma experiência autêntica, leva o homem a sacralizar inúmeras ‘coisas’, pessoas, experiências e situações. Mas isso não o torna completamente equivocado.

Como a experiência de busca, encontro e relação com o sagrado é algo essencialmente subjetivo, intransferível e inesgotável, não podemos permitir que a conceituação e sistematização produza uma padronização dessa experiência pessoal.

Podemos afirmar que há diferenças imensas entre sagrado e religião. Nos é necessário, pois, admitir que o sentimento religioso está completamente imbuído de um sentido de reverência, solenidade, adoração, veneração, desprezo de si e máximo respeito diante do Outro Absoluto. Já na vivência autêntica do sagrado, o humano desmonta essas certezas de outrora e vivencia genuinamente tal experiência transcendental. Como todo empreendimento humano visa certa satisfação e busca, no que tange ao seu estado diante do sagrado, a satisfação dessa necessidade de ser não se contenta com o que satisfaz os sentidos meramente imanentes. O desejo se desenvolve, a busca pela plenitude aumenta e a imaginação orienta todos os sentimentos para aquilo que está ‘além’.

Tudo isso é fundamentalmente necessário para o melhor desenvolvimento humano diante da sociedade, dos outros e de si mesmo, pois, a necessidade de relacionar-se com algo ‘além-de-si’ o torna, cada vez mais, um ser de busca constante, destruidor de barreiras e construtor de pontes de ligação para este sagrado que considera como início, meio e fim.

Assim, o contrário seria a perda do sentido de diversos aspectos fundamentais para o desenvolvimento de seu ser e, inclusive, levando à coisificação de suas estruturas humanas e perda da capacidade de relação e criação.

O humano diante do sagrado promove um certo intercambio entre sujeito e sociedade cultural por meio da possibilidade de elaboração de diversos símbolos que o remetem àquela busca de sempre, levando-o à experiência transcendental e, assim, alcançando, para si, a possibilidade de viver ‘além’ das possibilidades horizontais.

Desta forma, podemos concluir que, em se tratando de uma relação direta com o sagrado, o humano é um ser de construção e vivência, que se faz e refaz em cada gesto, cada símbolo e palavra; que debruça tudo em ritos e mitos; que promove o elo de encontro entre si e aquilo que busca e subjetivamente considera sagrado. É um ser de constante metamorfose e por isso mesmo desenvolve variações de sua própria expressão religiosa de vida. Assim, na mais profunda e autêntica experiência, vivencia a mais plena expressão do sagrado que busca : o próprio homem.’


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