sábado, 5 de novembro de 2016

Um lápis

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Padre Fernando Domingues,
Missionário Comboniano


‘Era sempre a última, na fila da comunhão.

Naquela semana, calhava-me ir celebrar a missa todos os dias, de manhã bem cedo, à casa das irmãs, que ficava ali perto da nossa igreja; quinze minutos a pé, pelas ruelas do bairro-de-lata onde elas moravam. Era ali que um bom grupo de jovens se preparavam para dedicarem a vida, como ela, ao serviço dos mais pobres entre os pobres.

Passaram uns anos bons, mas ficou-me bem gravada na memória aquela figura de mulher pequenina, com a cara onde não cabia nem mais uma ruga. Madre Teresa, vestida com o seu sari branco com bordo azul, sentava-se no chão, ao fundo da capela, do lado direito da porta. Na altura da comunhão, ela era sempre a última na fila.

A celebração era de manhã cedo, mas antes de eu começar a missa, já elas tinham feito uma hora de adoração. Depois, algumas delas dedicavam-se aos órfãos, doentes e velhinhos abandonados que cuidavam ali mesmo em casa; outras saíam a visitar os pobres e os doentes nas barracas daquela zona.

Quando um dia perguntei a um grupo daquelas jovens se não era um pouco exagerado tanto tempo de oração todos os dias, logo de manhã, responderam-me com uma frase que a Madre Teresa gostava de dizer : «Para sabermos reconhecer Jesus nos pobres da rua, precisamos de encontrá-Lo antes, na oração

Gostei que o Papa Francisco decidisse canonizar a Madre Teresa na Praça de São Pedro, em Roma, com grande solenidade. Na manhã do domingo, 5 de Setembro, uma multidão imensa enchia por completo a praça e ainda ficou muita gente a assistir de fora. Havia delegações e grupos vindos de todo o mundo. Teresa, a última da fila, tornou-se agora modelo para todos os cristãos que queiram viver com autenticidade a misericórdia de Deus, e partilhá-la com os outros.

Quando, um dia, alguém lhe disse que ela estava a tornar-se uma pessoa importante, respondeu : «Sou apenas um lápis nas mãos de Deus, Ele que escreva o que quiser.»

Não foi um caminho fácil. Não lhe faltaram problemas e situações terríveis a enfrentar. Mas impressiona saber que Teresa viveu muitos anos na «noite escura» (uma expressão de São João da Cruz). Trata-se, penso eu, da experiência de quem viveu tempos de grande entusiasmo espiritual onde a «comunicação com Jesus» é clara, abundante, cheia de alegria, e depois toda essa relação com Deus mergulha nas trevas, como se a pessoa entrasse numa «noite escura» : a presença de Deus acredita-se, mas não se sente, no diálogo, parece que Deus ficou mudo, e aquele entusiasmo que dava tanta alegria e que motivava tanto parece que secou. Uma experiência muito dura para quem faz do encontro com Deus o centro da própria vida. A Madre Teresa contou que viveu assim a maior parte da sua vida!

De onde lhe vinha a força e aquela alegria que irradiava sempre? É que ela não vivia para receber algo de Deus, mas apenas para ser aquele pequeno lápis nas Suas mãos.

Pelo visto Deus escreveu muito! E continua a escrever.’


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