quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Missionários Franciscanos desafiam as bombas

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Bernardino Frutuoso,
Jornalista

‘Do Mosteiro Er-Ram pode-se ver quase toda a cidade de Alepo, ou o que resta dela depois de cinco anos de guerra. A cidadela antiga, que foi declarada Patrimônio da Humanidade em 1986, ainda permanece no topo da colina. Alepo antes era conhecida por ser um lugar de paz e coexistência, foi o lar de árabes, turcos, curdos, circassianos e trezentos mil cristãos de dez denominações.

Alepo é uma cidade histórica, com um significado religioso, político e estratégico crucial. Um provérbio sírio diz : «Quem domina Alepo, domina a Síria.» Foi a terceira cidade cristã do Médio Oriente e ao mesmo tempo a capital da cultura islâmica. Foi a antiga capital do reino hitita e é um lugar de grande valor arqueológico, o berço de culturas diferentes, uma encruzilhada na Rota da Seda entre o Oriente e o Ocidente e a antiga sede do Codex Aleppo (que é considerado o melhor manuscrito existente da Bíblia hebraica, embora esteja incompleto). Tudo foi destruído agora.

Alepo, que é a segunda maior cidade da Síria, está no epicentro de uma guerra civil que há mais de cinco anos (desde Março de 2011) opõe o governo do presidente Bashar al-Assad a várias forças rebeldes contrárias ao regime. Ao longo deste ano intensificaram-se os bombardeamentos russos e a ofensiva terrestre dos Guardas da Revolução iranianos e das tropas sírias leais a Bashar al-Assad. Alepo Este tem estado a ser alvo de intensos bombardeamentos desde o fim do cessar-fogo acordado pelos Estados Unidos e a Rússia no mês de Setembro. Em entrevista ao jornal russo Komsomolskaya Pravda, o presidente da Síria promete «continuar a limpar» a cidade, onde 275 mil cidadãos, 100 mil dos quais crianças, estão encurralados pelos bombardeamentos intensivos das forças leais ao regime em parceria com a Força Aérea russa. «Vai ser um trampolim para [nos] movermos para outras áreas, para libertarmos outras áreas dos terroristas, é esta a importância de Alepo», declarou Bashar al-Assad na entrevista.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos informou que num só dia – o passado 13 de Outubro – se registaram na zona oriental da cidade 20 ataques da aviação de combate da Rússia e do regime sírio, causando mais de 70 vítimas. O enviado especial das Nações Unidas à Síria, Staffan de Mistura, alertou que «a este ritmo, a cidade de Alepo Este estará totalmente destruída e milhares de civis sírios, não terroristas, serão mortos» até ao Natal. A guerra já causou, em cinco anos, cerca de 400 mil mortos – segundo as Nações Unidas –, mais de 6,5 milhões de deslocados dentro do país e 4,8 milhões de refugiados.

Em declarações à Rádio Vaticano, o padre Firas Lufti, que trabalha no Colégio da Terra Santa dos Franciscanos em Alepo, explicou que «o exército sírio oficial com os seus aliados está a cercar a cidade de Alepo para enfrentar o avanço dos jiadistas». Segundo o religioso, «sentem-se os bombardeamentos dia e noite e, portanto, não se dorme. Não há paz na cidade. As pessoas têm medo».

O Papa Francisco condenou em muitas ocasiões a violência que tem atingido a população da Síria, particularmente em Alepo, e alertou para o «preço» humano que a guerra civil tem custado à população do país, pedindo soluções de paz. Em Agosto, o Sumo Pontífice afirmou que «é inaceitável que tantas pessoas vulneráveis – incluindo tantas crianças – devam pagar o preço do conflito, o preço do fechamento do coração e da falta de vontade das potências para a paz

«Todos os interesses no Médio Oriente estão a concentrar-se em Alepo», afirma o padre Firas. «Todos os dias ouvimos falar de conversações de tréguas, de acordos entre governos, mas, em seguida, os tiroteios e as mortes continuam. Estamos diante de uma grave catástrofe humana. Mas ninguém parece importar-se. Quem se preocupa com os milhares de crianças que não têm nada para comer? Quem se preocupa com os feridos que não podem ser curados, porque não existem medicamentos?»

Os Frades Franciscanos na Síria são os responsáveis por três centros : Paróquia de São Francisco de Assis, uma capela que pertence à Paróquia de Er-Ram, e a Escola Terra Santa. Nos últimos meses, a paróquia de São Francisco foi bombardeada numa ocasião e o Mosteiro de Er-Ram cinco vezes. Na Síria ainda permanecem 14 frades franciscanos, dos quais cinco estão em Alepo.

Os Frades Franciscanos foram convidados a deixar a cidade várias vezes. «As mesmas razões que nos podem levar a sair são aquelas que nos fazem ficar. Os cristãos que ainda estão aqui confiaram em nós, eles precisam de nós e nós precisamos deles. Queremos permanecer perto de todas aquelas pessoas que incessantemente batem à porta do nosso mosteiro, para receber alguma ajuda e conforto», frisa o padre Lufti. «Diria que o Senhor não nos deixa sozinhos se houver um pouco de consolação e de força para seguir em frente, porque o Senhor está presente e Ele é o Senhor da esperança, que nos ajuda a resistir e a esperar esta ressurreição depois do período da paixão e da morte», afirma o franciscano.


Convento da misericórdia

Em Agosto, devido aos combates, cerca de 100 pessoas refugiaram-se no mosteiro dos franciscanos. Na casa, explica o sacerdote, puderam encontrar «a força para viver e esperar por um futuro melhor». Os jovens encontraram um lugar onde se distraem com o desporto. «Há disparos, mas é muito comovedor ver um pouco da alegria destes jovens, a força de poder viver e de esperar um futuro verdadeiramente melhor», explicou o religioso. Entretanto, expressou a sua preocupação pelas crianças.

O padre Lufti indicou que só os mais pobres ficaram em Alepo, porque quando começou a guerra aqueles que tinham mais condições econômicas deixaram a cidade. «Atualmente em Alepo vivem os mais pobres. Procuramos sair ao seu encontro, não só oferecendo comida, água», mas também «abrindo este espaço de acolhimento, de assistência espiritual e psicológica. As pessoas em Alepo têm muita necessidade de serem escutadas», assinalou.

A casa dos Franciscanos também acolhe a comunidade cristã maronita que realiza as suas celebrações semanais na igreja do mosteiro, uma vez que as igrejas maronitas dos bairros circundantes foram completamente destruídas ou estão inabitáveis. «O nosso mosteiro é a sede de uma escola para surdos-mudos, um dos poucos centros deste tipo que ainda está operacional em Alepo. O acolhimento que nós tentamos oferecer incondicionalmente é uma expressão concreta das obras de misericórdia que a Igreja nos pede para fazer, especialmente neste Ano Santo da Misericórdia. Nós também partilhamos, com quem bate à nossa porta, o bem mais precioso que existe agora em Alepo, a água do poço que temos no nosso mosteiro.»

O sacerdote franciscano Ibrahim Alsabagh, da paróquia de São Francisco de Assis, em declarações realizadas à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, denunciava, em Julho passado, a intensidade dos ataques. O religioso afirmava que Alepo está a viver «os piores momentos da sua história», e que as pessoas «estão desesperadas e rezam de dia e de noite».

A «cidade dos mártires», como disse o Papa Francisco, tinha cerca de 150 000 católicos e era uma das maiores comunidades cristãs de toda a Síria. Calcula-se que, pelo menos, dois terços dos cristãos terão abandonado a cidade. Os que ficaram vivem principalmente na zona oeste da cidade, controlada pelo exército sírio, «onde, ao menos, têm direito a viver e a praticar a sua fé», como refere o padre Ibrahim. Os cristãos de Alepo estão a viver tempos de provação, incerteza e insegurança. «A lista de mártires é longa», assinala o religioso.

O Papa Francisco manifestou a sua «proximidade a todas as vítimas do desumano conflito na Síria» e apelou a um «cessar-fogo imediato» no país, durante a audiência pública com os peregrinos na Praça de São Pedro, no Vaticano, no passado dia 12 de Outubro. «É com urgência que renovo este apelo, implorando com todas as minhas forças aos responsáveis por este conflito, a fim de que haja um cessar-fogo imediato, implementado e respeitado pelo menos durante o tempo necessário para a evacuação das populações civis, sobretudo das crianças ainda apanhadas no meio destes bombardeamentos cruéis», disse Francisco.’
  

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