sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Palavra de Deus e Liturgia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Pela Liturgia Deus se comunica conosco e, por essa comunicação, habita entre nós.
*Artigo de Padre Márcio Pimentel, 
presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, 
especialista em música ritual pela FACCAMP, em Liturgia pela PUC-SP, 
licenciando em Educação Musical pela UEMG


‘Certa feita, conversando com uma monja beneditina sobre a relação entre música e liturgia, ela confessava : ‘para mim é a mesma coisa, não há como separar!’. De fato, na tradição monástica, o canto e a liturgia se confundem. Da mesma forma, o binômio Verbo-Liturgia. Temos, na verdade, em certo sentido, uma redundância. Não apenas porque a Palavra de Deus seja o fundamento primeiro e último das celebrações, como que configurando seu arrazoado, mas sobretudo porque a Liturgia – na compreensão mais exata legitimada pela tradição antiga da Igreja – é próprio o Verbo feito carne. Tanto Ambrósio quanto Leão Magno dão testemunho disso quando afirmam que o nosso Salvador, Jesus Cristo (Verbo de Deus) pode ser encontrado quando a Igreja celebra.

A Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina do Concílio Vaticano II, Dei Verbum, tem seu proêmio fixado na constatação do anúncio de que a Igreja faz da Palavra de Deus como algo que se pode ver e tocar : ‘anunciamos-vos a vida eterna, que estava junto do Pai e nos apareceu : anunciamos-vos o que vimos e ouvimos, para que também vós vivais em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo’ (1 Jo 1, 2-3).  É a ritualidade, como componente antropológico constitutivo e por isso essencial das ações litúrgicas, que proporciona a continuidade entre o tempo do Verbo e o tempo da Igreja, sem rupturas. A encarnação, neste sentido, faz-se leitmotiv dos gestos e palavras da Igreja em oração. Por ela, a Liturgia, nós continuamos a oferecer nossa humanidade para que Deus conosco se comunique e por esta comunicação Deus, em seu Verbo, venha habitar entre nós : Verbum caro factum est (o Verbo se fez carne). Nos ritos com os quais a comunidade dos fiéis celebra o Mistério Pascal de Jesus, resplandece a Palavra de Deus e essa, por sua vez, faz-se inteligível como fato estético não só para a assembleia reunida, mas nela mesma, mediante sua corporeidade, pessoal e comunitária.

Seguindo esse raciocínio, concluímos que a Liturgia, por definição, aborda a Palavra de Deus como um acontecimento sacramental. O sacrammentum é exatamente a Palavra visível, se tomarmos como referência as noções teológicas de Orígenes e Agostinho : tira a Palavra e o que sobra? Água, Óleo, Pão. Cláudio Pastro oferece um conceito sintético de Liturgia que vai nesta mesma direção : ‘a encarnação do Mistério Pascal em nosso corpo[1] Por trás desta perspectiva ressoa um antigo ensino patrístico: caro salutis cardo, ou seja, a carne é instrumento da salvação. Escreve Tertuliano, em seu De Ressurrectione Mortuorum :

Quando entre a alma e Deus se estabelece um elo de salvação, é a carne que faz com que ele exista. Assim, a carne é lavada para que a alma seja purificada; a carne é ungida, para que a alma seja consagrada; a carne é marcada com o sinal da cruz, para que a alma seja fortalecida; a carne é coberta com a sombra da imposição das mãos, para que a alma seja iluminada pelo Espírito; a carne é alimentada com o Corpo e Sangue de Cristo, para que a própria alma seja saciada. [2]

A Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, ensina que ‘a Liturgia (...) edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito[3]. Essa afirmação, que tem seu fundamento na Sagrada Escritura [4], ecoa em toda ação litúrgica cristã. O culto dos cristãos como empreendimento religioso somente se explica e sustenta se assumido nessa direção. E é exatamente nesse item que se diferencia das outras tradições e caminhos espirituais. No cerne de toda Liturgia está a nossa humanidade como lugar e condição para que se efetue a salvação. Humanidade assumida por Deus na encarnação de seu Filho e que, segundo a mesma Sacrosanctum Concilium, tornou-se ‘instrumento da nossa salvação.’ [5]

Tudo isso nos leva a considerar a assembleia litúrgica como sendo o contexto por excelência para a leitura e interpretação da Sagrada Escritura. ‘É na Liturgia que Deus fala ao Seu povo, e Cristo continua a anunciar o Evangelho’. [6] A Bíblia, testemunho mais eloquente da Revelação, unida à Tradição da Igreja, tem na Liturgia seu lugar de cumprimento. Ao celebrar, o Povo de Deus professa a fé, narrando-a, experimentando-a e a exprimindo mediante os ritos e preces. Assimilam o Verbo da Vida que hospedam em seu corpo, de maneira a transformar-se nEle próprio, conforme rezamos no 27º Domingo do Tempo Comum após a comunhão : ‘sejamos transformados naquele que agora recebemos’. Por esse motivo, os padres conciliares solicitaram maior abundância de textos escriturísticos nas celebrações da Igreja, bem como se tornasse clara a conexão entre Palavra de Deus e Rito. [7]

Enfim, porque a Liturgia é a própria vida do Filho em nós [8], Palavra feio carne nele e – como prolongamento – também em nós, deve-se concluir que somente através do rito nos é possível a experiência do Mistério de Deus. [9] Esse ‘somente’ não é exclusivo, porque a Liturgia ‘não esgota toda a ação da Igreja’ [10]. Entretanto, porquanto ela (a Liturgia) seja ‘simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força[11] a ritualidade é condição inclusiva de todas as demais atividades da Igreja como ocasião para que a Revelação continue a reverberar no seio da humanidade. Em suma, não há fé cristã sem ritos, porque não há mundo sem Palavra e não há – na ordem da criação e da encarnação, sacramentalmente falando – Palavra sem Liturgia. A Liturgia é a própria carne do Verbo, pois Cristo se fez lugar no qual Deus mesmo se faz Servo, arma a tenda, põe a mesa e, dando-se, convive conosco, de modo que é na carne humana do Filho que se dá que o culto divino se faz pleno. [12]

[1] PASTRO, Cláudio. O Deus da beleza. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 32.[2] Tertuliano. De ressurrectione mortuorum, 8,3. In. Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, p. 220, n. 741.
[3] Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 2. In.http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html
[4] Cf. 1Pd 2,4-10.
[5]  Sacrosanctum Concilium, 5.
[6] Sacrosanctum Concilium, 33.
[7] Cf. Sacrosanctum Concilium, 35.
[8] Cf. MARINI, Piero. Primum Celebrare. In. GRILLO, Andrea, RONCONI, M. La reforma della Liturgia. Milano: Periodici San Paolo, 2009, p. 4.
[9] Cf. MARINI, Piero. Prospettive per una pedagogia della fede celebrata. In. Il Misale expressione della Traditio Ecclesiae. Rivista Liturgica, n.97. Padova: Edizioni Messagero, 2010, p.438.
[10] Sacrosanctum Concilium, 9.
[11] Sacrosanctum Concilium, 10.
[12] Cf. Sacrosanctum Concilium, 5.
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